 QUANDO A VIDA ESCOLHE
ZBIA GASPARETTO
DITADO PELO ESPRITO LCIUS

NDICE

PRLOGO

CAPTULO 1
CAPTULO 2
CAPTULO 3
CAPTULO 4
CAPTULO 5
CAPTULO 6
CAPTULO 7
CAPTULO 8
CAPTULO 9
CAPTULO 10
CAPTULO 11
CAPTULO 12
CAPTULO 13
CAPTULO 14
CAPTULO 15
CAPTULO 16
CAPTULO 17
CAPTULO 18
CAPTULO 19
CAPTULO 20
CAPTULO 21
CAPTULO 22
CAPTULO 23

PRLOGO

       Entardecia. A brisa forte do outono varria as alamedas, espalhando as folhas secas que caiam das rvores amarelecidas, e os raios de sol que se filtravam 
por entre as nuvens cinzentas, no conseguiam aquecer os raros transeuntes que caminhavam por entre as campas naquele domingo.
       Com um mao de flores entre as mos, um cavalheiro bem vestido, revelando sua linhagem nobre, procurava um nome, lendo atentamente as inscries das lpides.
       Finalmente, parou."Aqui jaz Suzane Ferguson que deixou a Terra em 30 de setembro de 1906." Seus olhos encheram-se de lgrimas. Pelo seu rosto amadurecido 
passou uma onda de emoo.
       Finalmente a encontrara. Finalmente, tinha notcias. Ela estava morta!
       Como sonhara com o momento do reencontro! Como buscara por toda parte sua figura amada! Tudo intil.
       Quase vinte e cinco anos gastara nessa busca, e, agora, apenas encontrara uma lpide fria, onde a morte matava suas esperanas, e o corao oprimido apenas 
dizia:
       - Nunca mais! Nunca mais verei seu rosto amado, ouvirei seu riso cristalino, tomarei suas mos, beijarei seus cabelos castanhos, abraarei seu corpo querido 
sentindo seu corao bater junto ao meu.
       Era muito cruel, e ele curvou-se ao peso da sua dor. Colocou as flores sobre o tmulo e ajoelhou-se deixando que as lgrimas lavassem sua face livremente.
       Se ao menos ela soubesse o quanto ele a amava! Se ao menos pudesse ter-lhe dito o quanto havia sofrido e o quanto se arrependia de sua atitude rude, de sua 
leviandade, de sua ambio! Mas, agora tudo estava acabado. Suzane estava morta e nunca mais o ouviria, e ele no poderia abrir-lhe seu corao, falarlhe dos seus 
enganos e dos seus remorsos.
       Permaneceu ali, de joelhos, pensando, pensando desesperado. De que lhe valia agora todo o dinheiro que acumulara? De que lhe valia a posio, o poder, todas 
as coisas que ambicionara e pelas quais havia trocado o amor puro de Suzane, no casamento sem amor, a servio do interesse e do qual s lhe restavam desiluso e 
desconforto?
      Ah! As lgrimas que ela havia chorado! Seus belos olhos imploraram que ele no a abandonasse, e ele, frio, quase indiferente, lhe propusera uma ligao extraconjugal, 
um lar onde ele iria quando seus compromissos sociais e com a esposa lhe permitissem.
      Vendo inteis suas lgrimas, Suzane desapareceu s vsperas do seu casamento. A princpio, pensou que ela houvesse se afastado temporariamente. Afinal, ela 
o amava, tinham uma ligao ntima, ele a sustentava. Naturalmente, ela voltaria quando o dinheiro acabasse ou a saudade apertasse. Era at bom que ela desaparecesse 
por algum tempo. No queria que sua nova posio, desposando uma moa de famlia tradicional e de grande projeo social, pudesse ser empanada pela sua ligao com 
Suzane.
      Afinal, Maria Helena acreditava que ele a amasse. Representara o papel com tal veemncia que ningum aventara a hiptese dele casar-se por interesse. Ele procedia 
de uma famlia de estirpe. Seus pais haviam pertencido  corte no Rio de Janeiro ao tempo do Imprio e haviam lhe legado seus bens que lhe possibilitavam manter 
uma boa aparncia.
      Jos Luiz gostava do luxo. Vivia rodeado de tudo quanto era de melhor, adorava obras de arte, e sua bela casa no Rio de Janeiro era mobiliada com mveis franceses. 
Todos os utenslios, at suas roupas eram importados.
      Era recebido nas altas rodas e muito considerado pela sua sobriedade e sensatez. Contudo, Jos Luiz sabia que seus recursos eram poucos. Ele queria mais, muito 
mais.
      Maria Helena pareceu-lhe a mulher ideal para seus planos de poder. Seus pais usufruiam de projeo social, poltica e eram muito ricos. O pai dela, batalhador 
pela Repblica, Deputado Federal, ocupava alto cargo de confiana do presidente Floriano Peixoto.
      Jos Luiz aspirava subir. Era advogado, estudara, porm, no acreditava que conseguisse projetar-se sem cartucho.
      Conhecera Suzane em seus tempos de estudante em So Paulo. Ela era brasileira, porm havia sido adotada por um casal de ingleses que a educaram muito bem. 
Falava ingls com naturalidade e sem sotaque. Seu pai adotivo era funcionrio da Estrada de Ferro. No tinham filhos e ao adotar Suzane recm-nascida, o fizeram 
por amor. Deram-lhe tudo quanto puderam. Ela era linda, inteligente, culta, educada.
      Jos Luiz sentiu-se logo atraido pelo seu ar brejeiro, pelo seu riso franco e cristalino, pelo seu rostinho doce e delicado. Amou-a profundamente. Apesar disso, 
esquivou-se sempre de um compromisso srio, alegando os estudos e a necessidade de graduar-se primeiro.
      Suzane entregou-se quele amor de corpo e alma. Tinha certeza de que quando ele se formasse, se casariam. Ele no desmentia, entretanto, os pais de Suzane, 
apesar do conforto em que viviam e do nvel de educao que possuam, no eram ricos. Ele vivia do seu salrio no emprego que, embora fosse muito bom, no lhe proporcionava 
projeo social ou poltica.
      Jos Luiz queria muito mais. Se casasse com Suzane, se transformaria em um advogado medocre e pobre, para o resto da vida. Precisava cuidar do seu futuro. 
Por isso, quando ia ao Rio visitar os pais, procurava ambiciosamente algum que preenchesse suas condies.
      Maria Helena foi ideal. Era bonita e fina. Olhos vivos, rosto expressivo. Morena, cabelos negros e lisos, corpo elegante, olhos escuros e brilhantes. Apaixonou-se 
por ele rapidamente, e Jos Luiz exultou. Do namoro ao noivado foi um pulo, e seus pais lisonjeados aprovavam com entusiasmo aquela unio.
      Na sua formatura, todos viriam para S. Paulo assistir s solenidades, e Jos Luiz resolveu acabar sua ligao com Suzane. Era-lhe penoso esse momento, no 
queria que ela sofresse. Amava-a muito. No desejava perder seu amor. Contava com o tempo para que a situao se arranjasse da melhor forma. Suzane o amava muito. 
Sofreria a princpio, mas , depois, haveria de aceitar. Viria v-la sempre que pudesse. No futuro, quem sabe, talvez ela pudesse ir morar no Rio de Janeiro. Montaria 
uma bela casa, onde eles seriam felizes.
      Os pais de Suzane iriam voltar a Inglaterra dentro de pouco tempo. Ela lhe prometera ficar com ele. Nas vsperas da formatura, contou-lhe tudo. Sua ambio, 
seu noivado, seus projetos, tudo. Suzane chorou muito, no aceitou a situao como ele desejara. Disse-lhe que se ele se casasse, nunca mais a veria.
      Ele no acreditou. Ela o amava e haveria de reconsiderar. Porm, ela no voltou, desapareceu, e ele nunca mais a encontrou. Tinha-a procurado inutilmente. 
Soubera que haviam voltado a Inglaterra. Conseguiu uma viagem pretextando negcios e foi at
l.        No os encontrou. Colocou um agente a quem pagou regiamente para localiz-la, inutilmente. Parecia que a terra a havia tragado.
      As saudades doam em seu corao. Ele tentou esquecer. Afinal, possuia tudo que queria. Posio, dinheiro, vida social. Maria Helena deu-lhe dois filhos sadios 
e inteligentes. Era atenciosa e dedicada. O que mais podia desejar?
      Porm, o riso de Suzane vinha-lhe  memria, seu rosto alegre e carinhoso aparecia-lhe em sonhos, onde as cenas de amor eram uma constante. Jos Luiz no conseguia 
esquecer.
      Os anos passaram e com eles, o tdio da vida mundana, a rotina de um casamento sem amor. Jos Luiz no conseguia continuar a representar com Maria Helena o 
papel de apaixonado. Cedo ela percebeu que ele no a amava. Discreta e educada, ferida em seus sentimentos, ela fechou-se ainda mais, tornando-se distante e fria 
com ele. E assim, seu relacionamento foi ficando apenas formal, e Jos Luiz procurava em outras ligaes o amor, sem conseguir encontrar.
      Arrependeu-se de no haver desposado Suzane. Intensificou as buscas at que, por fim, localizou, naquele cemitrio no Rio de Janeiro mesmo, a singela sepultura.
      Olhou o retrato oval encrustado na lpide onde Suzane aparecia sorrindo. Como pudera ser to cego? Como pudera trocar o amor daquela criatura pelas iluses 
mundanas?
      Mas era tarde. Agora, s lhe restava chorar. Ficou ali, amargurado, durante algum tempo. Quando se preparava para levantar-se, sentiu que uma mo suave lhe 
tocou levemente no ombro.
      Levantou-se. Uma jovem estava diante dele. Olhou-a admirado. Os mesmos olhos de Suzane, os mesmos cabelos castanhos e anelados, sentiu um choque.
- Desculpe se o assustei.  que no o conheo e nunca o vi
aqui.
          - Est emocionado. Chorou por ela. Diga-me, conheceu minha me?
      Ele sentiu-se aturdido. Ela era filha de Suzane. Ento, ela havia se casado! Claro! Por que nunca pensara nisso?
      Uma onda de cime o acometeu. O amor de Suzane teria se acabado? Ele precisava saber. Era importante conhecer a verdade.
      Olhou o rostinho delicado to parecido com o de Suzane e respondeu:
      - Sim. Conheci muito sua me. Faz muitos anos.
      Ela suspirou fundo.
      - Talvez ento possa me explicar algumas coisas - disse pensativa.
      - Eu pensava exatamente a mesma coisa.
      - Precisamos conversar - tornou ela, sria.
      - Certamente. A tarde est fria. Aceitaria tomar um ch comigo?
      - Com prazer. Vejo que trouxe flores. Vamos arrum-las no vaso. Depois, iremos.
      Com delicadeza e carinho ela disps as flores, enquanto ele esperava e apesar de toda emoo, Jos Luiz, de repente, sentiu uma sensao de paz.
      Eles no viram que o esprito de Suzane estava ali, luminoso e belo, olhando a cena com emoo.
      - Finalmente, meu Deus, - pensou ela com alegria - finalmente eles se encontraram.
Seu corao em prece envolveu-os com muito amor, acompanhando-os quando saram do cemitrio e procuravam um local apropriado para conversar.

CAPTULO 1

      Sentados frente a frente em uma confeitaria elegante, olhavam-se com disfarada curiosidade. Jos Luiz estava muito emocionado. O rosto corado e expressivo 
da moa lembrava muito o de Suzane, e ele sentia aumentar as saudades.
      -        Disse que conheceu minha me...
      -        Sim. Conheci muito e vendo-a to parecida com ela, sinto-me emocionado.
      -        Por qu?
      -        Como se chama? - indagou interessado.
      -        Luciana.
      -        Meu nome  Jos Luiz. Sua me nunca o mencionou?
      -        No - respondeu ela, pensativa.
      -        Compreendo. Por certo seu marido no compreenderia. Ns fomos namorados.
-        Mame nunca se casou. Jos Luiz sentiu um baque no corao. Uma sbita suspeita
comeou a despertar dentro dele. Precisava saber mais, queria saber tudo.
      Emocionado, colocou a mo sobre a dela apertando-a com fora quando disse:
      -        Luciana, por favor, preciso saber tudo.  importante que me conte sua vida, onde andaram todos esses anos.
      -        Por qu? - inquiriu ela sentindo-se tambm envolvida por grande emoo. Pressentia que finalmente ia conhecer o drama de sua me. Seu passado, sua 
origem.
      -         preciso. H quase vinte e cinco anos eu procuro Suzane desesperadamente. S hoje, descobri que est morta h dez anos. Se ela no se casou... isto 
... voc...
      - No sei o que dizer... talvez o senhor possa esclarecer-me. Ela nunca me falou sobre o passado. Meus avs diziam-me que no fizesse perguntas, que ela havia 
sofrido muito e precisava esquecer.
      - Quantos anos tem? - inquiriu ele, trmulo.
      - Vinte e quatro - disse ela de sopro. - Por favor, se sabe de alguma coisa, conte-me.
      Sem poder conter-se mais, Jos Luiz disse-lhe com certa euforia:
      -  cedo para dizer, porm, tudo leva a crer... que voc
seja...
          - Que eu seja? - encorajou ela, vendo-o hesitar.
          - Minha filha! - concluiu ele apertando suas mos com
      Ficaram calados alguns minutos, olhando-se sem coragem de falar. Depois, quando serenou, ela disse:
      -        Deve ter boas razes para pensar assim. Por favor, conte-me tudo. Depois, direi o que sei.
      -        Muito bem - concordou ele, fazendo uma pausa, esperando que o garom dispusesse as iguarias sobre a mesa e lhes servisse o ch.
      Olhando o rosto emocionado de Jos Luiz, ela considerou:
      -        Vamos tomar o ch. Ambos precisamos de um. Quero saber tudo, com detalhes.
      Jos Luiz sorveu alguns goles de ch e procurou acalmar-se. Depois, sentindo-se mais encorajado, contou tudo sobre seu amor com Suzane. No omitiu nenhum detalhe. 
Ao contrrio, foi duro consigo mesmo, como que penitenciando-se junto da filha, j que no podia faz-lo diante de Suzane.
      Ela ouviu, sentindo as lgrimas rolarem pelas faces, pensando no sofrimento de sua me.
      -        Estou arrependido - terminou ele - queria pedir-lhe perdo. Dizer que me enganei. Que se fosse hoje, eu no a teria perdido. Mas, agora  tarde! Ela 
partiu para sempre!
      -        Engana-se - respondeu Luciana. - Seu corpo morreu, mas seu esprito continua vivo e ao meu lado. Sinto-a junto a mim. Vejo-a de vez em quando.
      Jos Luiz olhou-a admirado. Luciana tinha alucinaes.
      -         verdade. A morte no  o fim de tudo. Ns somos eternos! No acredita nisso?
      -        No. Sinto desiludi-la. Se isso a conforta, posso compreender. Mas, quem morre, jamais volta. Nunca mais voltaremos a nos ver.
      Luciana olhou-o com tristeza.
      -        Sinto que ainda no tenha descoberto esta verdade. triste pensar no "nunca mais".
      -        Isso tem me crucificado. Mas, no tem remdio. Agora, conte-me tudo que sabe. Sua idade desperta em mim uma suspeita, ela no se casou... pode ser 
que... Conte-me tudo.
      Luciana concordou com a cabea e comeou:
      -        Nasci no Brasil no dia 4 de julho de 1892, mas fui criada em Londres, onde vivemos durante oito anos. Em casa, meus avs nunca mencionavam meu pai 
e, quando perguntava por ele, minha me dizia que ele havia morrido antes de eu nascer e que eles nunca tinham se casado. Porm, ela sofria tanto quando eu perguntava, 
que minha av repreendia-me dizendo que evitasse o assunto. Que minha me guardava grande mgoa no corao. Que eu precisava dar-lhe muito amor para ajud-la a superar 
essa dor. Fiz o que pude. Alis, era fcil gostar de mame. Ela era encantadora, amorosa, amiga e bondosa. Desvelava-se por mim abnegadamente, e eu a amava muito. 
Meu av morreu em 1899, e vov ficou muito abalada com essa perda.
      Nossa situao financeira no era boa, e minha me trabalhava muito para ajudar nas despesas. Foi quando ela decidiu voltar ao Brasil. Vov havia deixado pequena 
casa em So Paulo, da qual no recebia dinheiro algum por estar emprestada a uma amiga. Escrevemos a ela e fomos para S. Paulo. A casa era pequena e quando a amiga 
de vov se mudou, pudemos nos instalar. Nela, mame procurou trabalhar, o que era difcil, apesar do progresso e das novas oportunidades que a mudana do sculo 
trouxera. Ela dava aulas de ingls aos filhos de famlias ricas e, naqueles tempos, o francs estava mais em evidncia. Apesar de conhecer esse idioma, no sabia 
o suficiente para ensinar. Conseguiu alguns alunos e assim pudemos ir vivendo com dificuldade.
      Jos Luiz disse como para si mesmo:
      -        Suzane nunca me disse que estava grvida! Eu jamais soube!
      -        Acredito.  prprio do seu carter. Um dia, apareceu em casa muito nervosa. Disse que precisvamos partir. Que havia uma pessoa interessada em descobrir 
nosso paradeiro. Vov tentou dissuadi-la. Afinal a casa era nossa segurana. Mas ela no cedeu. Assim, vendemos a casa e viajamos para c.
      - Que ano foi?
      - Fins de 1900 ou comeo de 1901, no me lembro bem. O dinheiro da casa foi gasto quase todo, enquanto ela procurava emprego e pagvamos um aluguel no subrbio. 
Ela adoeceu gravemente, e ns passamos por muitas dificuldades. Minha av possua jias que foram vendidas para tentar salv-la. Foi intil. Depois que ela morreu, 
eu e vov ficamos muito tristes. Mame, apesar de todas as suas lutas, sempre nos animava a prosseguir. Era alegre e jamais esmorecia.
      Sem ela, sentimo-nos abaladas e sem rumo. Vov queria voltar para Inglaterra, porm, no tnhamos recursos para a viagem. Depois, eu preferia ficar no Brasil. 
Era minha terra e eu sentia que aqui era nosso lugar.
      Luciana parou, olhos perdidos em um ponto indefinido, imersa nas recordaes. Depois de alguns instantes, continuou:
      - Mas, ns tnhamos que viver. O dinheiro acabou. Vov era velha demais para trabalhar, e eu procurei sem sucesso uma colocao qualquer que nos permitisse 
sobreviver. Uma noite em que estava desesperada, sonhei com minha me. Ela estava na cozinha com vov e dizia com voz firme:
      - Suas conservas so deliciosas. Todos gostam. Eu tenho saudade delas. So maravilhosas. Vov sorria contente. E quando, no dia seguinte, contei-lhe o sonho, 
ela animou-se dizendo:
      - As conservas! Vou fazer para vender. No acha uma boa idia? E assim, comeamos a trabalhar. Eu ajudava, e fazamos doces, legumes, tudo que ela sabia e 
vendamos para os vizinhos, amigos, conhecidos. Aos poucos fomos ficando conhecidas, e nossos produtos eram muito procurados. Graas a isso, pude terminar meus estudos.
      Luciana fez uma pausa, olhos perdidos, mergulhada em suas recordaes.
Jos Luiz olhou-a comovido.
      - Vocs no precisavam ter passado tudo isso. Apesar do que fiz, eu jamais deicharia de ajudar se houvesse conhecido a verdade.
      Luciana levantou o olhar encarando-o.
      -        No lamente. O que mame fez est certo. J que o senhor escolheu um outro caminho, ela afastou-se e procurou resolver sozinha seus problemas.
      -        Vocs sofreram sem necessidade.
      -        No diga isso. Nossas lutas foram boas e nos deram experincia. Apesar das dificuldades, conseguimos viver muito bem.
      Jos Luiz olhou-a comovido.
      -        No tenho dvida de que voc  minha filha. A coincidncia de datas no permite que ela tenha tido outro romance depois do nosso. D para perceber 
que, quando nos separamos, ela j estava esperando voc.
      Luciana sorriu:
      -        Se lhe agrada saber, ela jamais teve outro namorado. Vov no se conformava, vendo-a jovem, bonita, alegre, muito cortejada apesar de no encorajar 
ningum, sem querer aceitar nenhum admirador.
      Jos Luiz sentiu uma onda de emoo:
      -        Apesar de tudo, eu tambm nunca, a esqueci. Jamais deixei de prezur-la e, se ela no tivesse se mudado de S. Paulo, eu a teria achado.
      Luciana suspirou pensativa.
      -        Isso no teria mudado nada - ela jamais aceitaria um relacionamento dessa natureza.
      -        No sei. Nosso amor era muito grande e puro, s entendi isso muitos anos depois.
      -        Seja como for, agora tudo mudou.
      Jos Luiz concordou com a cabea.
      -         verdade. Nada mais posso fazer seno conformar-me.
      Seu rosto refletia tristeza e desnimo. Continuou pensativo:
      -        Agora, a vida vai perder todo seu encanto. Antes, eu alimentava a esperana de rever Suzane, sonhava com o reencontro, com as coisas que lhe diria 
para provar o meu arrependimento. Contava refazer nossas vidas, Infelizmente, tudo acabou.
      Luciana olhou-o sria:
      -        No deve alimentar tristeza nem pessimismo. A escolha foi sua. A vida sempre coloca em nossa frente vrias opes. A escolha  livre, mas uma vez 
feita a opo, cessa nossa liberdade e somos forados a recolher as conseqncias.
Jos Luiz olhou-a admirado.
      -        Gostaria que fosse diferente - disse.
      -        Se houvesse se casado com minha me, talvez guardasse para sempre a iluso de que o outro caminho seria melhor. Talvez se arrependesse.
      -        Voc se engana. Se eu a houvesse desposado, teria encontrado a felicidade.
      -        Ser? Acredito que ela saberia faz-lo feliz, mas seu corao teria se privado de coisas que valorizava, isso no o teria tornado infeliz? Apesar 
de ter o amor dela, isso, naquele tempo no lhe bastava.
      Jos Luiz sentiu que era verdade. Se houvesse casado com Suzane, por mais felizes que tivessem sido, ele sempre guardaria certa insatisfao, sua ambio no 
o teria deixado ser completamente feliz.
      Olhou o rostinho corado da filha, aparentando ser mais jovem do que era e admirou-se de novo.
      -        Hoje sei que estava errado. Minhas ambies satisfeitas no me deram a alegria que esperava.
      Luciana colocou a mo sobre o brao dele dizendo com voz serena:
      -        Todos os acontecimentos da vida guardam lies preciosas. O senhor precisava compreender isso.
      -        Agora  tarde.
      Luciana sorriu de leve.
      -        O senhor tem uma misso a cumprir neste mundo. Uma famlia para manter, orientar, amar. O dever cumprido sempre nos d muita dignidade.
      -        Tenho uma esposa indiferente e fria. Um casal de filhos, sempre ocupados com as disciplinas que Maria Helena exige. No parecem precisar de nada. 
Eu tenho os negcios, nada mais. Apesar de tudo, foi muito bom haver encontrado voc.
Luciana suspirou:
          - Sempre duvidei da morte de meu pai. Nunca me apresentaram seu tmulo. Nunca se podia falar sobre ele. Agora, compreendo tudo.
       - Espero que me perdoe e aceite minha amizade. Sinto-me feliz por hav-la encontrado.
       - Eu tambm. Agora, preciso ir. Vov deve estar esperando.
       - Vou lev-la a casa. Gostaria de falar a sua av.
       - Seria melhor prepar-la primeiro. No desejo emocion-la muito.
       - Vou at l, ficarei esperando do lado de fora enquanto conversa com ela e a prepara para receber-me.  muito importante para mim falar-lhe.
       - Est bem. Podemos ir.
       Luciana morava em pequenina casa no subrbio. Apesar do combinado, a moa convidou-o a entrar. Vendo-os, Egle levantou-se da poltrona admirada.
       Jos Luiz, emocionado, chapu entre as mos, esperava, fitando aquele rosto envelhecido com respeito e ansiedade.
       - Vov - foi dizendo Luciana - este  um velho conhecido seu que veio visitar-nos. Estava chorando no tmulo de mame.
       Egle empalideceu e em seguida passou ao rubor. Quis falar mas a voz no saiu. Durante anos, considerara aquele homem o grande responsvel por todos os sofrimentos 
que Suzane passara. Chegara a odi-lo. Principalmente por presenciar a dignidade da filha que nunca o depreciara. Suzane sofria mas, ao mesmo tempo, compreendia 
que ele tinha o direito de escolher outro caminho. Porm, no conseguia esquecer e amar outro homem. Sua vida havia ficado destruda por essa traio.
       Egle gostava de Jos Luiz, embora identificasse nele muita vaidade e ambio. Mas Suzane o amava, e vendo-a feliz com as atenes e o carinho dele, apreciava-o.
       Contudo, depois do que ele fizera, seu corao encheu-se de mgoa, ressentimentos, tristeza. Ele no tinha o direito de destruir os sonhos de Suzane.
       Era um homem egosta, frio, capaz de trocar o amor pelo dinheiro e isso o tornara desprezvel a seus olhos.
       Ajudara a filha a suportar as suas lutas, mas o espinho ainda estava cravado em seu corao.
       Jos Luiz avanou procurando fixar-lhe os olhos angustiados.
       - D. Egle. Precisamos conversar.
       Foi com voz baixa e dificultada pela emoo que ela respondeu:
       - Agora nada mais h para dizer. No deveria ter vindo.
       - Eu precisava. Tenho sofrido muito. Estou arrependido!
       Uma onda de indignao coloriu o rosto da velha senhora. A custo dominou-se. Voltou-se para Luciana:
       - Deixe-nos a ss.
       A moa protestou.
       - Sei de tudo, vov. Estou a par do passado. Agora, conheo minha origem.
       A velha olhou-a angustiada.
       - O que lhe disse ele? Voc acreditou?
       - A verdade. Quando terminei com Suzane, no sabia que ela ia ser me. Por que no me contou?
       Egle deixou-se cair na poltrona sem saber o que dizer. Durante tantos anos, ela e Suzane haviam procurado fugir a esse encontro que mesmo agora, tantos anos 
depois da morte da filha, ainda a atemorizava.
       Guardou silncio por alguns momentos, depois disse com voz magoada:
       - Com que direito o senhor volta depois de tantos anos para remexer a ferida que ainda di?
       - Foi o acaso que nos reuniu - disse ele, emocionado. -Eu nunca soube que tinha essa filha. No acha que isso tambm foi injusto? Durante anos procurei por 
Suzane por toda parte. Jamais deixei de am-la!
       - Seu amor no foi o bastante para defend-lo da ambio.
       Jos Luiz baixou a cabea pensativo. Ela prosseguiu:
       - Nunca pensou quantas pessoas prejudicou?
       Ele levantou a cabea olhando-a corajosamente.
        - H muitos anos compreendi o meu erro. Procurei Suzane para pedir-lhe perdo. Se eu pudesse voltar o tempo, tudo seria diferente, mas infelizmente agora 
 tarde. Ela est morta. Nunca mais poderei dizer-lhe o quanto me arrependi do que fiz. O quanto gostaria de ver seu rosto amado, seu sorriso lindo, que nunca esqueci. 
Eu tambm no consegui esquecer. Esse  o meu castigo.
        Am-la e no poder t-la comigo. Desejar sua presena e saber que nunca mais a verei. Todas as coisas que tenho na vida no so suficientes para suprir sua 
ausncia. No meu sofrimento, conforta-me saber que aqui esto Luciana e a senhora, a quem posso pedir perdo. A quem posso implorar que me compreendam e me ajudem 
a suportar a angstia de viver.
      Lgrimas rolavam pelas faces de Jos Luiz, enquanto que ele apertava as mos nervosas, pronunciando as palavras com dificuldade, sem que pudesse cont-las.
      Foi Luciana quem respondeu abraando-o:
      - No posso perdoar, porque no posso acusar, nem julgar. Sei que est sendo sincero. Sei que toda iluso que valorizamos, a vida sempre destri. Nossos enganos 
tm um preo doloroso: a desiluso. Mas, tem uma colheita preciosa: o amadurecimento. Apesar de tudo, sinto-me feliz porque eu estava rf e agora tenho pai. Gostaria 
que fosse meu amigo. Se mame o amava tanto,  porque encontrou em seu corao a nobreza de alma, a elevao de sentimentos, a grandeza interior. Eu tambm quero 
am-lo. Agora que a vida nos uniu, tenho a certeza de que mame nos abenoar.
      Jos Luiz embargado pela emoo, abraou a filha sem poder falar.
      Ficaram assim, enlaados, sentindo o corao bater forte, naquele reencontro de almas, e Jos Luiz sentiu um sentimento novo de paz que h muito tempo no 
experimentava, invadir-lhe o corao.
      Envolvidos pela emoo, apenas Luciana percebeu a forma alva de Suzane que os abraava e em seu corao elevou silenciosa prece de gratido a Deus.
      Quando a emoo serenou, Jos Luiz, tendo entre as suas as mos de Luciana, considerou:
      - Voc no se parece com sua me s fisicamente, possui tambm uma nobreza de alma que me enternece. No me condenou pelo passado. Isso aumenta a conscincia 
da minha culpa. Porm, hei de provar-lhe meu arrependimento, ver. Daqui para frente, cuidarei de voc.
      Egle olhou-o sria.
      - Voc tem uma famlia. No prometa o que no poder cumprir. Temos vivido bem at aqui. Deixe-nos seguir nosso caminho em paz.
      Jos Luiz fixou-a com firmeza:
      -        Vejo que ainda no me perdoou - disse.
      -        O arrependimento no apaga o sofrimento que nos vai na alma.
      -        Reconheo isso. Mas desejo esforar-me, tentar pelo menos refazer aquilo que me for possvel. O que me resta seno isso? Sua mgoa  tanto quanto 
a minha, insolvel. O que podemos fazer agora?
      Luciana abraou a av com ternura:
      -        Vov, no agasalhe o ressentimento no corao. Isso no vai modificar o que passou e no tem remdio. Pelo contrrio, alm de debilitar sua sade, 
fazer-lhe muito mal, ainda entristece mame que h muito compreendeu e perdoou. Se ela, que foi a mais prejudicada, no guarda ressentimentos nem mgoas, por que 
ns vamos fazer isso? Esquece o passado, vov. No somos suficientes para julgar e criticar ningum. Abraa meu pai e vamos esquecer. Procuremos daqui para a frente 
viver melhor e cultivar amizade e amor. Isso nos far mais felizes.
      -        Esquecer os sofrimentos de sua me? - tornou ela com voz dorida.
      -        Sim - respondeu Luciana num sopro - se ela sofreu foi porque Deus permitiu. Deve ter sido por uma razo justa. Ela j perdoou e espera que saibamos 
compreender. Espera tambm, antes de tudo, que nos abracemos com otimismo e vontade de sermos melhores.
      Egle baixou a cabea sem saber o que dizer. Luciana tomou a mo da av e colocou-a sobre a do pai, dizendo:
      -        O passado est morto e nada poderemos fazer por ele. Mas, hoje, estamos juntos e podemos nos esforar para vivermos melhor.
      Egle no teve mais argumentos, apertou a mo de Jos Luiz e aceitou o beijo que ele delicadamente depositou nela.
      -        E agora - continuou Luciana - vamos nos sentar para conversar. Quero saber tudo sobre o senhor, seus hbitos, seus gostos, suas idias. Vamos nos 
conhecer melhor, recuperar o tempo perdido.
      Jos Luiz sentiu um brando calor aquecer-lhe o corao. Luciana era encantadora. Ele deixou-se conduzir docilmente at gostosa poltrona onde se sentou, enquanto 
ela acomodava-se em uma banqueta a seus ps.
      Foi com prazer que Jos Luiz entregou-se quele momento, descobrindo entre surpreendido e encantado, as belezas daquela alma de mulher, to jovem ainda, mas 
possuidora de gosto requintado, instruo e uma espontaneidade que o enlevavam.
      Jos Luiz esqueceu-se do tempo, dos problemas, do passado, de tudo. S horas depois foi que deixou a modesta casa, sentindo o corao vibrar de alegria e prometendo 
a si mesmo voltar muito breve.
      Passava das 22 horas quando Jos Luiz entrou em casa, encontrando-a parcialmente s escuras. Todos j haviam se recolhido. A no ser que tivessem algo especial, 
uma visita ou uma data significativa, s 21 horas, invariavelmente, Maria Helena dava boa noite aos filhos que iam cada um para seu quarto, e ela perguntava ao marido 
se precisava de alguma coisa. Era como uma formalidade, porque a casa era muito bem administrada e Amlia, a governanta, cuidava muito bem de tudo.
      Jos Luiz tinha tudo  mo e um criado sempre atento aos seus mnimos desejos. Invariavelmente ele respondia um "no, obrigado" e ela, em seguida, depois de 
simples boa noite, ia para seus aposentos.
      Dormiam em quartos separados. A princpio, no fora assim. Eles habitavam suntuoso quarto de casal onde Jos Luiz dormia ao lado da mulher na belssima cama 
importada da Frana, em alvos lenis de linho, finamente bordados.
      Porm, no final da gravidez do primeiro filho a pretexto de no incomod-la, Jos Luiz escolhera dois quartos conjugados da bela e luxuosa vivenda e transformara-os 
em ricos aposentos, confortveis e belos, onde passou a dormir.
      Nunca mais expressou desejo de voltar a dormir na cama com a esposa, que nunca o convidara ao retorno, ou lhe perguntara o porqu desse afastamento.
Apesar disso, Jos Luiz cumpria duas vezes por semana suas funes de marido, passando pelo quarto da esposa antes de recolher-se ao seu. Com o correr do tempo, 
esse contato foi espaando, e agora, nem se lembrava quanto tempo no ia ter com Maria Helena.
      s vezes, sua conscincia o acusava de indiferena, mas ela nunca emitira qualquer queixa. Talvez at no o amasse e aceitasse sua intimidade por obrigao. 
Cansara-se de fingir um amor que no sentia. Ela era bonita, fina, bem cuidada, aristocrata. No comeo do casamento, ela algumas vezes havia aparentado um ardor 
que o estimulara, fazendo-o ter esperanas de um bom relacionamento conjugal. Mas, depois do nascimento do filho, ela tornara-se fria e fechada, no demonstrando 
qualquer emoo e Jos Luiz, temperamento ardente e romntico, justificava com essa atitude seu afastamento cada vez maior da intimidade dela.
      Era, porm, um marido socialmente impecvel. Fazia questo de ser atencioso com ela, de cumprir seus deveres de chefe de famlia. Acompanhava-a s visitas 
de praxe. E, s teras-feiras, sempre estava em casa para o sarau costumeiro, onde aps a parte literria e musical, era servido vinho e licor, doces e caf, indo 
os homens para a sala fumar, enquanto as mulheres conversavam e os jovens entretinham-se em brincadeiras de salo. Invariavelmente, entre 22 ou
22:30 horas, despediam-se os amigos e o casal,  porta, agradecia-lhes a presena, convidando-os
 semana seguinte.
      Maria Helena sabia receber com fidalguia, e Jos Luiz orgulhava-se de sua classe e finura, do seu bom gosto, dispondo tudo com luxo e distino. Alm disso, 
era exmia pianista, havendo estudado at na Frana e, por isso, sempre muito solicitada a que tocasse nesses saraus. Apesar de s tocar os clssicos, ela os escolhia 
com muito bom gosto e era sempre muito aplaudida.
      De vez em quando eles retribuam comparecendo aos saraus de alguns amigos, para haver reciprocidade. Eram sempre muito bem recebidos, no s pela posio social 
que ocupavam como tambm pela classe, simpatia e finura com que se comportavam. Eram tidos por todos como um casal modelo de felicidade e bomtom.
      Jos Luiz ainda sentia-se emocionado. Despediu o criado que calado o esperava, tendo aprontado o leito e disposto seu traje de dormir. Enquanto se preparava 
para deitar, seu corao batia descompassado, recordando os ltimos acontecimentos.
          Deitou-se, porm a excitao no lhe permitia conciliar o sono.
      Quando a noticia da morte de Suzane chegara ao seu conhecimento, uma enorme sensao de perda o abateu. Jamais pensara na possibilidade dela haver morrido. 
Suzane era a alegria, a prpria vida. Como podia haver se transformado em um corpo frio, morto, para nunca mais voltar?
      Sentia-se revoltado pensando nisso, porm a presena de Luciana despertara nele emoes novas. Ela era muito diferente dos seus dois filhos. Joo Henrique 
era frio e distante como a me, e seu relacionamento com ele era seco e disciplinar. Ele s se mostrava tocado em seu amor pela me. Era ciumento no seu afeto e 
muito apegado a ela com quem demonstrava muita afinidade. Maria Lcia era muito timida e pouco comunicativa. Obedecia sempre sem reclamar e ruborizava-se por qualquer 
coisa, e se algum mencionasse esse particular, no continha o pranto. Sua me era enrgica com ela, escolhendo seus trajes, seu penteado, tudo, e ficava muito irritada 
quando a inquiria sobre qualquer assunto e a via indecisa e ruborizada sem saber o que responder. Costumava comentar com o marido as qualidades do filho, to inteligente, 
seguro e tendo sempre uma boa resposta para tudo e seu desgosto com relao  filha que, apesar de no ser uma moa feia (era at bonita), no tinha bom gosto, classe 
e possuia pouca inteligncia.
      Jos Luiz ouvia-a e assumindo seu papel de pai, lembrava a pouca idade da menina e sua esperana de que com o tempo, ela viesse a melhorar. Ele tambm no 
gostava de v-la confundida e envergonhada, apagada e sempre em ltimo plano.
      Luciana no era igual a eles. Tinha idias prprias, era culta sem ser pedante ou indiferente, carinhosa sem ser piegas, inteligente, dizendo coisas que o 
haviam feito refletir. Verdades que ele nunca havia percebido antes.
      Sentia enorme atrao por ela. Gostaria de contar ao mundo que aquela linda criatura era sua filha, mas reconhecia no poder fazer isso. Todavia, desejava 
dar-lhe tudo o que pudesse, como a compensar o que negara no passado tanto a Suzane quanto a ela prpria.
Jos Luiz agitou-se no leito procurando posio mais confortvel. Compraria uma bela casa em lugar aprazvel e a decoraria; daria a Luciana uma boa mesada para manter-se 
com luxo e a riqueza que merecia. Talvez, lhe desse bens que pudessem garantir-lhe boa renda para o resto da vida.
      Era o mnimo que podia fazer por ela, depois de tudo quanto ela havia sofrido.
      Era j madrugada quando Jos Luiz finalmente conseguiu adormecer.

CAPTULO 2

      Sentada ao piano, Maria Helena percorria as teclas com os dedos geis, arrancando sons harmoniosos do instrumento que enchiam o ar da bela sala de estar. Sentia 
o corao apertado por um sentimento opressivo e sem remdio, que a enchia de desalento e de tristeza.
      Nesses momentos, recorria  msica, procurando extravasar com ela suas emoes, recalcadas e escondidas sob o verniz das convenincias.
      Sentia-se muito s. Casara-se por amor. Jos Luiz representara para ela sua prpria razo de viver. Seu riso franco e gentil, seus olhos verdes e emotivos, 
seus beijos quentes e delicados, sua elegncia natural, seu porte altivo e seu jeito encantador, haviam-na conquistado desde o primeiro dia.
      Educada de forma rgida e muito disciplinar, procurava ocultar seus sentimentos como se fosse vergonhoso amar, ou desejar ser amada. Porm, ele a cortejara, 
e ela sentira-se imensamente feliz. Casar-se com ele era tudo quanto podia aspirar. Foi com o corao cantando de alegria que deu o "sim" no dia do casamento e seus 
olhos encheram-se de lgrimas emocionadas de felicidade.
      A gentileza, as atenes, a delicadeza do marido a tornaram mais feliz ainda, e Maria Helena deixara-se embalar nas asas do sonho, julgando haver conquistado 
o paraso na Terra.
      Aos poucos, entretanto, foi percebendo que o marido no demonstrava o mesmo interesse dos primeiros dias. Era natural, pensara ela. Ouvira contar, atravs 
de pessoas mais velhas e experientes, que no casamento, com o correr do tempo, a paixo inicial cede lugar  amizade bem comportada onde o amor acomoda-se ao cotidiano, 
amadurecendo. Mas, sua percepo de mulher apaixonada foi fazendo-a notar que, sob as atenes de homem educado, no havia o calor que ela gostaria.
      Quando Jos Luiz se aproximava, Maria Helena sentia-se estremecer. Seu corao batia mais forte, desejosa de que ele a abraasse e beijasse. Tremia ao pensar 
nisso, sentia uma onda de calor envolver seu corpo, porm, dominava-se, lutando contra a emoo, bscando no demonstrar o que lhe ia na alma, percebendo que Jos 
Luiz estava indiferente, parecendo no sentir nenhuma emoo com sua proximidade.
      A mulher deve ser passiva, pensava ela. Deus nos livre que Jos Luiz viesse a perceber sua paixo escondida, seu amor descontrolado. Seria humilhante, indigno.
      E ela continuava aparentando indiferena, esperando que ele demonstrasse seu amor, para poder aceitar seus carinhos e ainda assim, lutando para no aparecer 
diante dele, como uma mulher venal e loucamente apaixonada.
      Aos poucos, Maria Helena foi vendo Jos Luiz distanciar-se dela, que engolia sua decepo, seu sofrimento, sufocava seus anseios e procurava mostrar-se indiferente. 
Todavia, se ela conseguia esse controle, seu corao aguardava com verdadeira ansiedade os dias em que Jos Luiz buscava seu quarto. Nessas ocasies, tentava iludir-se 
sentindo seus beijos e seus carinhos, pensando que ele a amava mas que essa era a forma de amar no casamento, e que ela deveria contentar-se com isso, deixando suas 
iluses de lado.
      Jos Luiz era formal e no a deixava participar de sua vida interior. Muitas vezes, surpreendera-o com olhos perdidos na distncia, ar tristonho e rosto contrado. 
Ela sentia que o marido sofria, desconfiava que ele tivesse um problema, mas, como ele nunca se abria, ela no dizia nada. Alm disso, sempre que ela desejava chegar-se 
mais a ele, tentar maior intimidade, Jos Luiz esquivava-se educadamente.
      Maria Helena sentira, pouco a pouco, aumentar a barreira que havia entre eles, e no sabia como modificar essa situao. Compreendeu, por fim, que o marido 
no a amava. Quando teria deixado de am-la? No sabia. Temia perguntar-se se ele a teria amado algum dia. Preferia acreditar que ele, satisfeitos seus desejos, 
acomodara-se ao casamento, como muitos casais que conhecia, restando apenas a convivncia educada e natural, da tolerncia mtua.
       Apesar de entender tudo isso, de repetir-se esses conceitos, Maria Helena amava o marido. Sofria com seu abandono, sentia sua indiferena. Havia momentos 
em que desejava abra-lo, estar com ele, sentindo seus braos envolver seu corpo, descansando a cabea em seu peito largo. Ento, quando a solido e o desejo a 
consumiam, sentava-se ao piano e tocava, tocava.
      Deixava a emoo fluir com a msica e depois, sentia-se melhor, mais serena, em condies de continuar mantendo sua aparente indiferena.
      s vezes, a curiosidade incomodava-a. O marido no a procurava h meses. Teria outras mulheres fora do lar? Essa dvida atormentava-a e o cime a feria fundo. 
Sentia-se desprezada, recusada como mulher, depreciada e fechava-se ainda mais no orgulho, mostrando-se indiferente para que Jos Luiz jamais viesse a perceber sua 
dor.
      Mas, o marido era muito discreto. Seu comportamento exemplar nunca a deixara notar nada, nenhum deslize. Ser que ele estaria mantendo-se afastado todo esse 
tempo das mulheres? Ela duvidava, gostaria de perguntar a uma outra mulher mais experiente, porm, sentia vergonha. Jamais teria coragem de falar com algum sobre 
sexo.
      Joo Henrique era seu consolo, seu enlevo. Desde a mais tenra idade, ele havia demonstrado seu afeto por ela, preferindo-a a qualquer coisa. Os dois tinham 
grande afinidade. Gostavam das mesmas coisas e a ss com o filho, Maria Helena abria o corao, demonstrando seu afeto, dando largas aos sentimentos. Ele a compreendia. 
H muito notara a frieza do pai e censurava-o por isso. Temperamento apaixonado, Joo Henrique cobria a me de beijos e agrados, como querendo suprir a indiferena 
paterna.
      Joo Henrique no se preocupava muito com o pai. Desde pequeno sentia cimes da me, e ficava aliviado quando o pai afastava-se para poder livremente manifestar 
seu amor por ela. Jos Luiz era pai severo, embora procurasse ser justo. Exigia do filho obedincia e respeito, tal qual ele mesmo fora educado. Percebia haver uma 
barreira entre ele e o filho, mas no conseguia entender o porqu. Algumas vezes, chegara a surpreender certa animosidade em seus olhos, certa averso. Nessas horas, 
sentia remorsos. Pensava: "esse filho foi concebido sem amor. Como no amo sua me, ele no me ama". Tentara aproximar-se mais dele, procurando interessar-se pelas 
coisas que ele gostava, porm, logo percebia que Joo Henrique fechava-se, rechaando seu interesse.
      Jos Luiz sentia-se culpado por haver enganado Maria Helena, desposando-a, amando Suzane. Afastava-se do filho, aceitando sua recusa, ao mesmo tempo tentando 
dizer a si mesmo que Joo Henrique era seu filho e precisava am-lo, compreendlo, ser um bom pai.
      Mas se Jos Luiz cumpria todos os seus deveres de pai, cuidando de sua educao, de sua sade e at do seu futuro, a barreira existente entre os dois nunca 
pudera ser vencida.
      Maria Helena suspirou procurando fixar sua ateno na msica que executava. Se ao menos pudesse banir a tristeza!
      Pensou na filha. Que aberrao! Sempre fechada no quarto, de onde precisava ser tirada quase  fora, conservando-se calada, cabisbaixa, aptica e insignificante.
      A principio, pensara em alguma doena, em debilidade mental, mas os mdicos no haviam encontrado nada. Diagnosticaram timidez, sensibilidade excessiva, temperamento. 
Logo ela, to forte e controlada, fora ter uma filha fraca e desequilibrada! Por que essas coisas lhe aconteciam? Sentia vontade de chorar, de morrer!
      Ficou ali, tocando, tocando, sem parar. Joo Henrique entrou na sala, colocando as mos em seus ombros e beijando-lhe os cabelos com carinho.
      - Muito linda essa msica, mas muito triste. Quase me fez chorar. No prefere tocar algo mais alegre?
      Maria Helena deixou cair as mos ao longo do corpo. Depois, voltou-se abraando-o calorosamente.
      - Desculpe se o entristeci. No tive inteno.
      - No gosto de v-la triste. Fico triste tambm.
      Maria Helena sorriu.
      - No estou triste - mentiu estendendo os lbios em um sorriso.
      - Melhor assim. H momentos, mame, que quando toca, sua msica expressa enorme tristeza. Como se voc estivesse de mal com o mundo.
      - De certa forma, eu estou. Este mundo no  um lugar muito feliz.
      -        De fato. As injustias, as doenas, a dor, a morte, nos entristecem. Mas de que adianta pensar nisso? No tem remdio mesmo.
      -        Falemos de voc.
      -        No h nada a dizer.
      -        Como foi o seu dia?
      -        Muito bem. Aquele projeto que eu fiz foi destacado pelo professor que me permitiu descrev-lo minuciosamente aos outros alunos. Ao final, recebi muitos 
aplausos e foi um sucesso.
      Os olhos de Maria Helena brilharam orgulhosos. Seu filho seria um grande engenheiro.
      -        Gostaria de v-lo. No entendo dessas coisas, mas saberei apreciar se me explicar.
      -        Claro, mame. No o tenho agora. Ficou com o professor que desejava estud-lo melhor. Mas terei prazer em mostr-lo a voc. Tenho muitas idias novas 
e sei que voc com o seu bom gosto, poder no s apreciar como at ajudar-me. Ainda hei de mudar a face da nossa cidade. Tantas belezas naturais e to pouca preocupao 
com nossa arquitetura e at com a falta de higiene das ruas, o que  uma vergonha.
      -        Concordo plenamente - disse Maria Helena satisfeita.
      -         preciso cuidar das nossas ruas, providenciar sua limpeza. No se pode andar a p sem o risco de mergulhar suas botinas na lama ou no excremento 
dos animais. Estamos no sculo vinte. Outros pases da Europa tm suas ruas limpas, seus prdios bem construdos, bem cuidados. Por que no podemos fazer o mesmo?
      -        Na Europa as pessoas no atiram lixo nas ruas. Aqui, no s os serviais ou os negros, mas at as pessoas da elite o fazem.  uma lstima.
      -        Pois eu vou lutar contra isso. Vou transformar esta cidade em civilizada. Voc ver.
      -        No vai ser fcil, mas creio que o far. Voc foi feito para comandar, sabe como fazer as coisas.
      -        Tenho voc que me estimula.
      -        D. Maria Helena!
      Maria Helena voltou-se.
      -        O que , Amlia?
      -         a menina, senhora.
      - O que tem? - perguntou Maria Helena desgostosa.
      - Hoje ainda no saiu do quarto. No quis almoar e ainda agora fui cham-la ao lanche e recusou-se a abrir a porta. Fechou-se l dentro.
      Maria Helena levantou-se tentando conter a irritao.
      - Ela me disse que no queria almoar porque no estava bem do estmago. Teria piorado?
      - No sei, senhora. No quis abrir a porta para mim. Ela pode estar mesmo doente.  melhor a senhora mesma ir ver.
      Com um suspiro contrariado, Maria Helena dirigiu-se ao quarto da filha. Precisava ser paciente com ela, segundo dissera o mdico, mas suas infantilidades tinham 
o condo de irrit-la. Bateu na porta dizendo com voz enrgica:
      - Abra a porta, Maria Lcia. Deixe-me entrar.
      A porta abriu-se em seguida, e o rosto de Maria Lcia surgiu. Maria Helena empurrou a porta e foi entrando.
      - O que aconteceu? Voc ainda de camisola em plena tarde? Est doente?
      A menina baixou a cabea e nada disse. Maria Helena continuou:
      - Nem parece mulher. To desleixada. Olhe a desordem deste quarto, mais parece um pardieiro. Isso no pode continuar. Afinal, menina, est doente ou no, responda!
      - No - balbuciou ela, trmula.
      - Voc no tinha dor de estmago pela manh?
      - Tinha, mas j passou.
      - Ento vista-se imediatamente e desa para tomar o lanche. E no se demore como sempre -. Dirigindo-se ao guarda-roupa, apanhou algumas peas: - Vista isso. 
Trate de arrumar-se. Odeio o relaxamento. Vamos, menina , no se demore, estarei esperando.
      Com um suspiro inconformado Maria Helena deixou o quarto. Essa era uma cruz em sua vida. Que mal havia feito para merecer uma filha to insignificante.
Maria Lcia olhou com tristeza as peas de roupa que a me atirara sobre a cama. Sentiu impulso de rasg-las. Conteve-se porm. Sentia vontade de gritar, de dizer 
que no ia vestir nada daquilo, que, queria ficar em seu quarto, onde podia dar vazo  sua fantasia, imaginar ser o que quisesse, onde no se ruborizava  toa e 
sempre sabia o que fazer.
      Ela sonhava ser forte, bonita, ter personalidade. Na intimidade de seu quarto, era que ela imaginava-se reagindo, aparecendo diante de todos altiva, bela, 
dominadora; quando sua me, olhando-a com admirao apresentava-a aos amigos, falando nela com a mesma freqncia e com o mesmo ardor com que se referia a Joo Henrique.
      Maria Lcia, maquinalmente, apanhou as roupas sobre a cama e as vestiu. No gostava daquelas peas. Achava-as horrveis.
      Olhou-se no espelho e no gostou. Sentiu vergonha. Ela jamais seria bonita, elegante e segura como a me. Ela era feia, desajeitada, burra, insignificante. 
Penteou os cabelos e prendeu-os com uma fita. Olhou-se novamente e arrancou a fita. Esses enfeites ficavam bem em moas bonitas. Nela, estava ridculo. Fez a trana 
costumeira e prendeu-a na nuca com grampos.
      Finalmente desceu. A me esperava-a na porta da copa. Olhou-a dos ps  cabea, mas nada disse.
      - Estou horrvel - pensou Maria Lcia sentindo-se mais desajeitada.
      - Sente-se para tomar o seu lanche. Voc j est adulta o suficiente para saber que precisa alimentar-se. No vejo necessidade de D. Amlia precisar incomodar-se 
por causa dos seus caprichos. Cuidado com essa xcara, no v que vai derrubla?
      Maria Lcia que sentara-se  mesa e esbarrara na xcara, tentou segur-la e no conseguiu. Espatifou-se no cho. A moa levantou-se assustada. Seu rosto coloriu-se 
de intenso rubor.
      - Viu o que voc fez? - disse Maria Helena nervosa. - E no me olhe com essa cara de boba. Pelo amor de Deus! At quando terei pacincia com voc?
      Maria Lcia tremia ruborizada e lutava para segurar as lgrimas que j afloravam comeando a rolar em suas faces.
      Maria Helena estava no limite de seus nervos:
- Chorar agora, no! Isso no. Vamos. Sente-se a. Voc vai tomar esse lanche de qualquer jeito. Amlia, providencie outra xcara. Ainda bem que essa no era do 
jogo. Para ela, nunca ponha nada do jogo, por favor! Isso. Essa est boa. Agora ponha o caf com leite e coloque o po com manteiga no prato. Agora, coma.
      Maria Lcia, sentada, tensa, lutando para dominar as lgrimas, mos trmulas, pegou a xcara e levou-a aos lbios. Estava muito envergonhada. Ela no servia 
para nada, era um empecilho para a me, um peso desagradvel que se carrega a contragosto. Ela queria morrer. A me estava ali, esperando, e ela sorveu um gole de 
caf com leite. Estava amargo como fel, mas ainda assim ela o engoliu.
      - Coma o po. Precisa alimentar-se.
      Ela pegou o po colocando um pedao na boca. No sentia nenhuma vontade, mas, mesmo assim, mastigou um pedao.
      Maria Helena deu-se por satisfeita.
      - Amlia, fique aqui e se ela no comer tudo, avise-me. Estou exausta. Vou descansar um pouco.
      Maria Lcia no disse nada, lentamente continuou tomando o leite, comendo o po, misturado ao gosto salgado das lgrimas que por mais que lutasse no conseguia 
evitar.

CAPTULO 3

      Nos dias que se sucederam, Jos Luiz voltou vrias vezes  pequena casa do subrbio para ver a filha.
      Quanto mais conversavam, mais ele sentia crescer a admirao e o respeito por Luciana. A moa tinha carter bem formado e idias prprias. Foi com carinho 
que procurou uma casa para comprar. Desejava rode-la de luxo e conforto. Pretendia apagar qualquer ressentimento que a moa pudesse guardar do passado. Mostrar 
seu lado melhor, conquistar-lhe a admirao, a estima.
      Tinha inteno de adquirir um palacete na Glria, mas Luciana recusou. Preferia casa mais simples. Recusou-se tambm a deixar de trabalhar. Era professora 
no colgio Santo Antnio. Gostava do seu trabalho e desejava continuar.
      - Voc no precisa - argumentou Jos Luiz, aborrecido. -Sou seu pai, vou cuidar de voc como  de direito. Ter dinheiro suficiente para viver muito bem.
      Luciana fixou no pai seus belos olhos luminosos dizendo com voz firme:
      - O trabalho pode no ser s o dinheiro que se recebe por execut-lo. Pode ser alguma coisa a mais. Ensinar as crianas a enxergar a vida, mostrar-lhes as 
belezas do conhecimento, despertar seus espritos para o bem, para a participao til e ativa na sociedade,  uma satisfao que no tem preo, que escolhi voluntariamente 
e que no pretendo deixar.
      Jos Luiz admirou-se. Para ele o trabalho sempre fora um fardo desagradvel que se carrega unicamente em funo dos proventos que ele d.
      - Mas agora voc no precisa. Poder ocupar-se em coisas mais interessantes. Ter seu tempo livre para fazer o que quiser.
      Luciana sorriu alegre:
- Eu quero lecionar. Est claro que eu, como moa pobre, valorizo o dinheiro que recebo pelo meu trabalho. Porm, quando estou dentro da sala de aula, esqueo tudo. 
Diante daquelas crianas, vendo-as despertar para o conhecimento, mostrando-lhes a perfeio da natureza, a beleza da vida, ensinando-as a desenvolver todo o bem 
que guardam no corao, sinto-me muito feliz. Eu gosto de fazer isso. No conseguiria viver na ociosidade, entre um sarau e outro, o salo de modas ou a vida social. 
A chance de viver  muito importante para que eu gaste meu tempo na inutilidade. Tudo se movimenta no Universo, gerando equilbrio e progresso. Quero viver em harmonia 
com ele. O trabalho  para mim como o ar que eu respiro.
      Jos Luiz olhava-a sem compreender.
      -        Nunca ouvi tais conceitos. No est sendo muito severa consigo mesma, privando-se das alegrias a que tem direito?
      -        Voc no entendeu o que eu disse. Minha alegria est tambm em meu trabalho. Ele no  um fardo, mas um prazer. Um prazer que toma parte do meu tempo, 
que no impedir que eu tenha outras atividades. Entretanto eu no gosto de freqentar certos meios onde a futilidade e os mexericos ditam regras e os preconceitos 
deturpam os valores verdadeiros e eternos do esprito. Gosto de fazer amigos, de conviver com as pessoas, de relacionar-me com elas, porm, seleciono os amigos, 
fao apenas o que eu gosto e o que me alegra o corao. Respeito quem pensa diferente, mas no aceito presso do convencional, da obrigao social, da hipocrisia.
      -        Se todos fossem como voc, nossa sociedade se desagregaria. Seria o caos.
      -        Engana-se. As pessoas seriam mais leais, mais verdadeiras. No arrastariam suas vidas com um sorriso nos lbios e a mgoa no corao, tentando fugir 
de si mesmas, afundando-se nos vcios, na mentira; sentindo-se a cada dia mais ss em seu meio social, mais infelizes e abandonadas, empobrecendo o corao, sentindo 
o vazio de uma vida sem objetivos nem amor.
      Jos Luiz saiu da casa de Luciana pensativo. As palavras da filha faziam-no pensar em sua prpria vida, to cheia de sonhos, mas que se transformara exatamente 
em solido, vazio, desencanto, amargura.
      Ele era o homem de sociedade. Requisitado, convencional, fechando o corao para seus sentimentos verdadeiros, mascarando uma felicidade inexistente, carregando 
o peso do preconceito, lutando para que os outros no descobrissem seu desencanto, sua vida intil e vazia, fazendo o papel do homem feliz, aparecendo diante dos 
outros como um vencedor, um forte, algum que conseguiu conquistar a felicidade, despertando a inveja dos incapazes, a admirao dos fracos.
      Sua vaidade satisfazia-se com isso, mas seu corao estava infeliz e a angstia que o cometia estava ficando mais difcil de suportar a cada dia. Apesar disso, 
ele no pensava em mudar. No tinha coragem de enfrentar os preconceitos, nem de admitir que no era feliz. Sentia-se preso  situao que o sufocava, mas no queria 
fazer nada para modific-la. Carregava o peso da culpa no corao, aceitando as conseqncias de seus atos passados como uma punio merecida da qual no tinha o 
direito de queixar-se.
      No compreendeu o ponto de vista de Luciana. Ela era inexperiente, sonhadora, pensou. Naturalmente mudaria de idia quando j estivesse usufruindo de uma posio 
melhor, e o dinheiro lhe chegasse s mos.
      Ela lhe pedira para escolher a casa antes de compr-la, e Jos Luiz concordou. Apesar de desejar comprar um luxuoso palacete, ele gostou da casa que Luciana 
escolheu. Era graciosa, bela, rodeada por lindo jardim em um bairro um pouco afastado. Entusiasmou-se vendo sua alegria, percorrendo os aposentos e idealizando a 
decorao.
      Jos Luiz sentia-se feliz.
      - Contrataremos um especialista para escolher o mobilirio.
      Luciana colocou a mo no brao do pai dizendo com delicadeza:
      - Gostaria de fazer isso eu mesma. Como um estranho poderia saber o que apreciamos? Vov tem muito bom gosto, me ajudar. S preciso saber de quanto dinheiro 
dispomos para isso.
      Jos Luiz abanou a cabea indeciso.
      - Quero que a decorao seja a mais linda possvel. Desejo que vocs vivam bem e com alegria. Acha que saber fazer isso?
      - Penso que sim.
- Vamos fazer o seguinte: quero que tudo seja da melhor qualidade: mobilirio, louas, cristais, roupas, etc. Voc escolher tudo. Porm, vou mandar madame Marie 
para auxili-la. Ela entende da qualidade dos fornecedores de tudo e providenciar para voc. Quanto ao dinheiro, gaste o que quiser. O que eu quero  que tudo seja 
do melhor e o mais bonito.
      Luciana abraou-o emocionada.
      - No  preciso tanto. Eu seria feliz com menos.
      - Voc merece o melhor e o ter.
      Jos Luiz comprou a casa e levou Mme. Marie a Luciana e ento comeou para elas dias de intensa atividade. A casa foi pintada, mobiliada e Jos Luiz satisfeito 
reconheceu o bom gosto da filha.
      Um ms depois, mudaram-se para l. Jos Luiz contratara criados e pretendia comprar um carro, mas Luciana recusou.
      -  demais. Teria que ter chofer e no h necessidade. Quando precisar, tomo um carro de aluguel. Chega j o que fez por ns. Tudo est maravilhoso.
      Egle sentia-se feliz, vendo o carinho de Jos Luiz para com Luciana. Entusiasmara-se com o belssimo piano que havia na sala, frente ao qual sentava-se todas 
as tardes e tocava velhas canes inglesas, recordando a ptria distante.
      Vendera seu piano depois da morte da filha para poderem sobreviver. Luciana tambm gostava de tocar. Havia estudado desde criana. Sabia os clssicos, mas 
preferia as valsas, os lundus, os xotes e os tangos. Nenhuma delas tocava diante de Jos Luiz. Sentiam-se inibidas. Foi ele quem, uma tarde, sentado no sof aps 
o ch, costume que Egle conservava religiosamente, lembrou:
      - H aqui um piano. Lembro-me que a senhora tocava muito bem. Nunca esqueci aqueles tempos! Seu piano era lindo. Procurei um igual para comprar, mas no achei.
      - Trouxe-o de minha terra. Era um tanto antigo, mas muito bom. Infelizmente tive que vend-lo.
      Pelos olhos da velha senhora passou um brilho de emoo.
      - A senhora tocava lindas canes. Eu as adorava. Quer toc-las para ns?
      Egle dirigiu-se ao piano e com graa tocou vrias canes. Jos Luiz, olhos marejados, sentia-se transportado ao passado, com Suzane a seu lado na pequena 
casa em So Paulo. Por que a perdera? Por qu?
      Egle terminou uma cano, e Luciana, observando a tristeza no rosto do pai, disse alegre:
      - Vov, agora sou eu.
      Imediatamente Egle levantou-se, e Luciana, sentando-se frente ao piano, comeou a tocar um xote muito em voga.
      Arrancado do seu mundo interior, olhou a filha admirado. Ela jamais dissera que tocava piano. Luciana no s tocava bem como cantava com voz agradvel, sem 
ser empossada to ao gosto da poca. Graciosa, do xote passou  valsa, da valsa ao tango, que no cantou.
      Ele estava deliciado. Quando ela parou, ele perguntou:
      - No toca clssicos?
      Ela sorriu.
      - Gosto de brincar ao piano, no sou uma virtuose. Gosto de cantar, traz alegria ao corao. Nunca fao isso diante dos outros. Quis alegr-lo. Voc estava 
triste.
      - Mas estudou piano...
      - Estudei. Quer ver?
      Luciana tocou uma pea de Liszt razoavelmente bem. O pai ficou satisfeito.
      - Voc toca bem - disse ele - deveria dedicar-se mais aos clssicos.
      - Por qu? Gosto deles, h pginas belssimas. Mas aprecio tambm as canes em voga. Esta msica, por exemplo,  uma delcia.
      E a moa tocou um xote malicioso e alegre.
      - Tem razo. Possui um jeito especial para essas msicas alegres. Faria muito sucesso em qualquer sarau.
      - Deve ser o meu sangue plebeu. Sou do povo e gosto das coisas populares.
      Jos Luiz riu divertido. A jovialidade alegre de Luciana fazia-lhe enorme bem. As horas que passava em casa da filha, passaram a ser os momentos mais felizes 
de sua vida. L, podia ser ele mesmo, sem fingimentos nem dissimulaes. Dizer o que pensava, usufruir de uma atmosfera de paz, carinho, alegria, amor. Sentia-se 
querido, recebido com prazer, valorizado.
      Tambm apreciava conversar com Luciana. Gostava de sua inteligncia arguta, seu esprito alegre, sua maneira de enxergar a vida. Por isso, suas visitas eram 
cada vez mais assduas, e ele sempre achava um jeito de passar por l, ainda mesmo quando seus compromissos no lhe permitiam demorar.
      Apesar da mudana que a presena de Luciana trouxera em sua vida, ele continuava cumprindo religiosamente suas obrigaes sociais com a famlia.
      Maria Helena sentia que o marido estava diferente. Havia um brilho novo em seus olhos, e havia momentos em que ele parecia haver remoado. Estava menos irritado, 
mais paciente e mostrava-se algumas vezes distante, pensativo, absorto.
      O        que teria acontecido? Em casa, nada havia se modificado. Os problemas eram os mesmos. Havia guerra na Europa, mas os negcios iam bem, como sempre. 
O que estaria acontecendo?
      Uma noite em que recebiam os amigos, Maria Helena ao piano executou brilhantemente uma msica clssica. Quando terminou, Jos Luiz aproximou-se dela, dizendo 
com olhos brilhantes:
      - Que beleza! Voc  uma artista!
      - Obrigada - respondeu ela, sentindo seu corao bater mais forte, tal a emoo. Seu marido jamais elogiara uma execuo sua. Parecia-lhe que ele sequer prestava 
ateno quando tocava. Admirou-se.
      Jos Luiz olhou a filha que sentada a um canto da sala parecia indiferente e s. Aproximou-se dela que vendo-o, levantou-se.
      - Fica sentada.
      Sentou-se a seu lado. Ela sentara-se novamente, na ponta da cadeira. Estava tensa. Seu pai quase nunca lhe dirigia a palavra, principalmente em pblico.
      - Como vo seus estudos de piano? - perguntou.
      A moa corou e baixou a cabea, sem responder.
      - Estou falando com voc. Continua estudando piano, no ?
      - Sim. - respondeu ela baixinho.
      - O que voc gosta de tocar?
      - Eu toco o que a professora manda.
      - Voc gosta de tocar?
      - No muito.
      - Por qu?
      - Eu no sei tocar como mame. Nunca vou aprender. Ela nunca acha que est bom. Ela tem razo.. Eu no dou para a msica.
       - Voc no gosta?
      - No sei. Tenho vergonha. Sei que vou errar as notas. Sempre erro alguma. Prefiro no tocar.
      Jos Luiz olhou-a desanimado. Que diferena de Luciana, to cheia de vida, sabendo sempre o que quer.
      Levantou-se e olhou o filho. Conversava com alguns amigos. Naquele momento, tinha o rosto descontrado e alegre. Era um bonito moo. Jos Luiz aproximou-se.
      Falavam sobre arquitetura, grande paixo de Joo Henrique. Vendo-o aproximar-se, pararam o assunto ao que Jos Luiz considerou:
      - Por favor, continuem, tambm me interesso pela beleza da nossa cidade.
      Eles retomaram a conversa, mas Joo Henrique mudara completamente sua expresso. Seu rosto tornara-se frio, ouvia calado as palavras dos demais e Jos Luiz, 
entristecido, depois de alguns minutos, afastou-se.
      Joo Henrique no o aceitava. Por qu? Teria sido influenciado por Maria Helena?
      Ele era muito afeioado a ela. Essa atitude do filho comeava a incomod-lo. Afinal, era seu nico filho homem. Era inteligente, culto, por que se afastara 
tanto dele?
      Jos Luiz preocupava-se com os filhos. O amor de Luciana, a felicidade que sentia a seu lado, despertara nele os sentimentos de pai. Durante aqueles anos, 
havia se voltado muito aos seus prprios problemas, jamais usufrura das alegrias da paternidade. Teria sua indiferena os afastado de Si?
      Olhou-os. Talvez j fosse muito tarde para tentar modificar as coisas.

CAPITULO 4

      Foi uma semana depois, tomando ch em casa de Luciana, que Jos Luiz mencionou os filhos. Abriu o corao. Falou do desejo que sentia de aproximar-se deles 
e da culpa que guardava por no haver se dedicado a eles como deveria.
      Sentia-se triste, deprimido. Diante de Luciana, ficava vontade para falar dos seus sentimentos. Desabafou amargurado:
      - No sei porque estou falando nesse assunto. Trazendo meus problemas. Eles no tm remdio. Agora  tarde para fazer qualquer coisa.
      Luciana que o ouvira em silncio, colocou sua mo no brao do pai com carinho.
      - No desanime. No nos  dado conhecer o futuro. De um momento para outro, tudo pode mudar para melhor.
      Jos Luiz abanou a cabea com tristeza:
      - As coisas no vo mudar.
      Luciana sorriu levemente.
      - Tudo muda neste mundo. A cada minuto, todas as coisas esto diferentes.  a pulsao da vida. Ningum consegue parar o tempo, as mudanas. Quer estejamos 
conscientes delas ou no, quer a desejemos ou no. Minha vida, de repente, modificou-se completamente, para melhor. Encontrei voc. No sou mais a rf com receio 
de ficar s no mundo.
      Jos Luiz fixou o belo rosto da filha e um brilho de emoo refletiu em seus olhos.
      -  verdade! Para mim tudo mudou depois que nos encontramos. Ter uma filha como voc, fez-me sentir que no estou s. Que h algum que me quer bem e que se 
preocupa por mim. Que se interessa pelo meu bem-estar.
      Luciana sacudiu a cabea:
      - No est sendo injusto com sua famlia?
      -        No - respondeu ele. - Eles apenas me suportam. No demonstram nenhum afeto. Ao contrrio, sinto que ficam aliviados quando me afasto.
      -        Sua esposa tambm?
      -        Maria Helena  mulher fria, indiferente, Incapaz de amar.
      -        Todos somos feitos para amar. O amor  lei da vida. Ningum pode viver sem amor.
      -        Maria Helena vive. A ela s interessam os preceitos sociais. No sente nem um pouco de afeto por mim. No se importa se me sinto bem ou como gasto 
meu tempo. Desde que eu comparea pontualmente a seu lado em nossos compromissos sociais, tudo est bem.
      -        Com os filhos ela tambm  assim?
      Jos Luiz suspirou com tristeza:
      -        Com Maria Lcia . No a culpo. Nossa filha desanima qualquer pessoa.  apagada, retrada, tmida. Temos desgosto vendo-a to insignificante. Maria 
Helena tenta ajud-la, mas no consegue nada. Com Joo Henrique, ela  diferente. Nosso filho apegado a ela, eu diria at, que de forma doentia.  o seu preferido. 
Esto sempre juntos, conversando, e ela o defende sempre.
      -        Eu sabia que ela no agentaria viver sem dar amor. Ningum pode.  lei de Deus. Toda a afetuosidade dela canaliza-se para ele.
      -        Voc acha certo isso? Maria Lcia tambm  filha.
      -        O que  certo ou errado s Deus sabe. O que eu percebo  que D. Maria Helena, como todos ns, tem muito amor no corao.
      Jos Luiz admirou-se:
      -        Ela  uma mulher indiferente, fria. S com Joo Henrique ela muda. Isso  egosmo. Se fosse amorosa, seria afetiva com a filha e com todos que a cercam.
      Luciana levantou para o pai os seus olhos brilhantes onde se refletiam compreenso e afeto.
      - A indiferena, a frieza, podem ser a forma de impedir o sofrimento, de ferir o corao. Uma maneira de defesa para evitar a dor.
      - Maria Helena? Voc no a conhece. Sempre teve tudo. Nasceu em bero de ouro. Nunca a vi chorar, nem lamentar-se, mesmo diante dos problemas com Maria Lcia. 
 mulher forte, dirige a casa com energia.
      - Ela se casou por amor?
      Apanhado de surpresa, ele pensou um pouco antes de responder.
      - No sei. Acho que no. As mulheres se casam por vrios motivos. Para obedecer os pais, por medo de ficarem solteiras e at por curiosidade.
      - Ela nunca lhe disse que o amava?
      - Nunca. A princpio, cheguei a pensar que sim. Mas depois, quando nosso filho nasceu, ela apegou-se a ele. Antes dele nascer, para dar-lhe mais conforto, 
fui dormir em outro quarto. Ela gostou da situao, nunca me chamou de volta.
      - Eu tambm no chamaria.
      - Por qu?
      - Porque a deciso foi sua. Competia a voc tomar a iniciativa.
      - Se existisse amor, essas coisas seriam secundrias.
      - Pode ser. Mas a forma de educao, os preconceitos e at o orgulho, podem influenciar mesmo quando existe amor. Eu no o chamaria de volta. No lugar dela, 
eu lutaria. No teria perdido o seu amor.
      Jos Luiz riu gostosamente.
      - Voc me aprecia.  diferente.
      - Se ela se casou com voc, foi porque o apreciava. Uma mulher como ela, sempre sabe o que quer. Deve ter percebido que no era correspondida e retraiu-se. 
Seu orgulho foi mau conselheiro. Ele sempre prejudica. Por causa dele, ela atirou fora a felicidade.
      Jos Luiz sentiu que a filha podia ter razo. Ele no amava sua mulher. Iludira-a demonstrando um interesse que no sentia.
      - A culpa foi minha. Casei com ela apaixonado por outra.
      Luciana fixou o pai com seriedade.
      - No se trata de culpar ningum. A culpa tambm pode ser uma desculpa para no fazer o que se deve. Reconhecer a culpa, at certo ponto,  vlido, contudo, 
corrigir o erro, refazer o prejuzo,  mais importante.
      Jos Luiz suspirou:
      - Nada posso fazer agora. Eles no gostam de mim.
      Luciana sorriu.
      -        Pensar assim  uma maneira cmoda de alimentar a culpa e de justificar a inrcia.
      As palavras da filha calavam fundo no corao dele. Querendo dissimular a emoo, ele disse em um tom que esforou-se por tornar natural:
      -        Nosso casamento comeou errado. Jamais daria certo.
      -        Apesar de tudo, se eu fosse ela, teria tentado. Voc  um homem encantador. Tenho certeza de que ela se casou por amor. Eu lutaria para conquist-lo. 
No teria aceitado passivamente os acontecimentos.
      -        Se ela me amasse, teria feito isso. Porm, entre ns no existe amor.
      Luciana sacudiu a cabea pensativa.
      -        Ela teve uma educao austera, como todas as mulheres de hoje.
      Jos Luiz assentiu com a cabea. Ela prosseguiu:
      -        Essa rigidez de princpios unida ao orgulho podem ter bloqueado seus sentimentos. O medo de no ser correspondida, de sofrer. Nesses casos,  preciso 
haver um entendimento, uma conversa franca que esclarea a situao.
      -        Isso no era possvel. Eu jamais teria contado a verdade. No desejava aparecer como interesseiro, nem humilh-la.
      -        O seu desinteresse pode t-la humilhado muito mais do que a verdade o faria. Vocs sequer se conhecem. Ela no sabe o que vai em seu corao e voc, 
por sua vez, desconhece seus sentimentos ntimos. Como pode haver compreenso, afeto, entendimento, sem isso?
      -        Realmente no h. Respeito-a como me dos meus filhos; convivemos educadamente. Mas amor, no h. Vivemos em quartos separados. Hoje, eu teria constrangimento 
de ir ao seu quarto.
      Luciana olhou-o nos olhos dizendo com emoo:
      -        Ela deve sofrer com isso.
      Jos Luiz sacudiu a cabea:
      -        No creio. Jamais demonstrou desejo de aproximao.
      Luciana colocou a mo no brao do pai enquanto dizia:
      - Voc no est percebendo a verdade. Arrependeu-se de haver abandonado minha me, gostaria de pedir-lhe perdo, reconhece que errou casando-se por interesse 
com outra mulher. No conseguiu ser feliz. Culpa-se por isso. Diz que deseja reparar o passado. Cerca-me de amor, luxo, conforto. E D.Maria Helena? No ter sido 
tambm uma vtima? No ter colocado em voc todas as suas esperanas de mulher e colhido apenas desinteresse, indiferena, desamor?
      Jos Luiz empalideceu. Era duro para ele admitir que ela tinha razo. No fundo de sua conscincia, ele sabia que a havia iludido, representando o papel de 
homem apaixonado. E que, depois de alcanado o objetivo com o casamento, no mais se dera ao trabalho de continuar a representar seu papel. Vendo que ela no exigia 
nada, acomodara-se.
      Era-lhe agradvel pensar que ela no o amava e assim diminuir a conscincia de sua culpa.
      Cumprindo socialmente o papel de marido, pensava oferecer-lhe certa compensao.
      - Voc est sendo dura comigo.
      - Desculpe, papai. No desejo entristec-lo. Mudemos de assunto. Os franceses conseguiram segurar os alemes em Verdum, li nos jornais. Tenho esperanas de 
que a guerra acabe.
      - Pois eu no. H muitos interesses em jogo. Os alemes esto muito fortes. Esto jogando bombas at no povo nas cidades. Seus Zepelins espalham terror e morte. 
 monstruoso!
Luciana concordou:
      -  cruel a morte de pessoas inocentes que no criaram a disputa e encontram-se desamparadas, dentro de suas casas.
      - Nunca houve guerra to cruel como esta! Se os alemes vencerem, o mundo sofrer ainda mais. Eles pretendem domin-lo!
      - No acredito que possam vencer. Todos os que tentaram conquistar esse domnio, nunca conseguiram. Csar, Napoleo, foram derrotados. O Kaiser tambm o ser. 
Deus no permitir.
Luciana falava convicta. Jos Luiz objetou:
      - Se Deus estivesse interessado, teria impedido esse morticnio. S em Verdum morreram centenas de pessoas dos ois lados. Por que ele permite tal coisa?
- A guerra foi inveno do homem, sua ambio, sua nsia de poder, seu egosmo. O homem tem livre-arbtrio, pode optar, escolher seu caminho. Voc mesmo, se decidir 
amanh pegar sua arma e matar uma pessoa, nada o impedir. Contudo, ao escolher um caminho, voc provoca uma resposta, uma reao da vida, das pessoas, das coisas 
ao seu ato e perceber suas conseqncias, sentindo-lhe os resultados.
      -        Numa guerra, morrem inocentes. At os soldados esto obedecendo ordens. S os governos so responsveis, mas todos pagam, sofrem.
      -         verdade. Porm, amadurecem, ganham experincia. Muitos que so inocentes agora, nesta guerra, em vidas passadas cometeram crimes, acreditaram na 
violncia, abusaram do poder. Numa guerra, o homem  provado em sua f, em seu amor pelo prximo e em sua dignidade. Aparecem os assassinos e os heris; os abnegados, 
os lderes verdadeiros, os sanguinrios. H como uma aferio de valores.  como uma prova difcil, que o prprio homem escolheu, mas que Deus permite para acelerar 
seu progresso ainda que pela dor.
      Jos Luiz permaneceu pensativo. A filha dizia coisas muito originais obrigando-o a pensar, vendo as coisas sobre outros ngulos.
      -        Isso de vidas passadas  tolice. No acredito ter vivido outras vidas. No me recordo delas. Que utilidade teria?
      Luciana olhou o pai e sorriu:
      -        Se voc vivesse s esta vida, que utilidade teria? Como amadurecer, aprender, crescer, vivendo apenas 60 ou 70 anos neste mundo?
      -        Este  um problema em que o homem se debate h sculos. Nunca conseguiu saber.
      -        No lhe parece mais lgico que voltemos ao mundo outras vezes para continuar aprendendo?
      -        Para qu?
      Fomos criados para sermos eternos. Para desenvolvermos nossos potenciais, como esprito, e aprendermos a cooperar com a natureza e as foras da criao.
      - Como chegou a essa concluso?
      -        Observando. Se fomos criados simples e ignorantes, de onde vm as diferenas de aptides, dos graus de inteligncia, de bondade, de beleza, de personalidade 
e at de objetivos? Voc tem dois filhos, da mesma me, e criados no mesmo lar, por que so to diferentes um do outro?
      -        No saberia dizer.
      -        Porque j viveram outras vidas, outras experincias, outras situaes; escolheram seus caminhos de forma diferente...
      -        Mesmo assim,  difcil crer.
      -        Como conciliar a justia perfeita de Deus com a desigualdade entre as pessoas no mundo?
      -        Muitos descrem de Deus por causa disto.
      -        Porque sua justia no se circunscreve a uma s existncia. Ela se estende atravs das muitas vidas que cada um vive na Terra, respondendo as suas 
escolhas adequadamente.
      -        Tem lgica, contudo...
      Luciana sorriu novamente.
      -        No pretendo cans-lo com minhas idias. Peo-lhe que observe certos fatos e tente compreend-los.
      Ao sair da casa da filha, Jos Luiz estava pensativo. As plavras de Luciana tinham remexido a ferida que ele lutava por ignorar. Apesar de tudo, reconhecia 
haver induzido Maria Helena ao casamento, iludindo-a vergonhosamente. Se no a houvesse envolvido em suas ambies, ela teria tido a chance de encontrar outro homem 
que a pudesse amar, dando-lhe o afeto que ele nunca dera.
      Agora, era tarde. Infelizmente no podia fazer nada. Suzane estava morta, e Maria Helena irremediavelmente presa a ele e aos filhos, sem amor nem esperana.
      Naquela noite, no conseguiu dormir de pronto. Sua conscincia incomodava-o.
      Remexia-se no leito pensando:
      - O que havia feito de sua vida? Se a vida de fato respondia s escolhas de cada um, j lhe dera uma amarga resposta. Seu egosmo, sua ambio, haviam sido 
satisfeitos. Ele quisera dinheiro, poder, projeo social, aparncia. Possua tudo isso, alcanara seus objetivos. Mas, a que preo? Passara por cima de sentimentos, 
ferira pessoas, enganara, iludira. Vencera. Mas, a vitria mostrava-se insignificante frente ao que perdera. Ele se enganara. Tinha de reconhecer que depreciara 
os sentimentos e que colocara, em primeiro plano, coisas secundrias. Nunca, como naquela hora, Jos Luiz sentiu o gosto amargo da derrota, do fracasso.
      A nica coisa boa de sua vida era Luciana. Fracassara como marido, como pai. Tinha diante de si uma vida vazia, sem felicidade. Sua famlia no o apreciava. 
No os culpava. Ele nunca fizera nada para aproximar-se dos filhos. Respeitavam-no, porm, no o amavam. Joo Henrique demonstrava at certa averso.
      Naquele instante, Jos Luiz admitiu sua culpa. Ele criara a situao. Ningum, seno ele, era o responsvel por ela.
      S muito tarde da noite foi que ele conseguiu conciliar o sono.
      Nos dias que se seguiram, Jos Luiz procurou conformar-se. Nada havia para fazer. Sua oportunidade de ser feliz passara. Precisava continuar a levar a vida 
como sempre, mesmo guardando o arrependimento e a desiluso no corao.
      Entretanto, apesar disso, pensamentos novos comearam a incomod-lo. As palavras de Luciana, por vezes, povoavam-lhe a mente, despertando indagaes, chamando 
sua ateno para outros aspectos de sua vida.
      Fixando o rosto bonito de Maria Helena, seu porte elegante, suas maneiras educadas, pensava:
      -"Ningum pode viver sem amor. Maria Helena teria amado? Embaixo daquela indiferena, ela ocultaria sentimentos, desejos de amar?"
      Vendo-a controlada, segura, isso parecia-lhe quase impossvel. Luciana era inexperiente, no conhecia Maria Helena; enganara-se por certo. Sua esposa s se 
importava com a sociedade, as aparncias, com os filhos. Ou melhor, com o filho.
-        "Eu sabia que ela no poderia viver sem dar amor.
Ningum pode". Seria essa maneira de amar de Maria Helena?
Teria ela colocado toda sua capacidade de amor em Joo
Henrique?
      Essa idia, agora, parecia-lhe muito provvel. No amando o marido, nem sendo amada, seus sentimentos canalizaram-se para ele. Apesar de inexperiente, Luciana 
poderia ter razo.
      Seria mesmo verdade que ningum agenta viver sem dar amor? Seria esta a razo dele no esquecer Suzane, de sentir esse vazio dentro do peito, essa amargura, 
esse desconforto?
      Ao dar amor para Luciana, experimentava satisfao e alegria. Tornara-se mais sensvel, humanizara-se.
      Ah! Se pudesse abraar Suzane, dar-lhe todo amor que sufocara no corao, como seria feliz! Pela primeira vez, sentiu que o amor era o sentimento mais profundo 
dentro dele, essencial  sua satisfao interior. Como pudera subestim-lo a ponto de coloc-lo em segundo plano? Como pudera considerar mais importante os valores 
sociais e materiais?
      Olhou para a esposa que sentada  cabeceira da mesa, depois do jantar, tomava tranqilamente seu caf. O filho no jantara em casa, e Maria Lcia permanecera 
no quarto, o que era comum.
      Preso ao fio de seus pensamentos ntimos, Jos Luiz perguntou fixando-a:
      - Voc acha que algum pode viver uma vida inteira sem dar amor?
      A pergunta era inusitada e Maria Helena estremeceu sem encontrar de pronto uma resposta. Procurou ganhar tempo para ocultar a emoo.
      - A que vem sua pergunta?
      - Eu estava s pensando na importncia que cada pessoa d ao amor. No s o amor entre um homem e uma mulher, mas de um modo geral, entre pais e filhos. O 
que pensa a respeito?
      Jos Luiz jamais havia procurado conhecer os sentimentos ntimos da esposa. Ela olhou-o admirada. Ele pareceu-lhe diferente. A que atribuir essa mudana? Procurando 
controlar-se, respondeu:
      - O amor de me  muito gratificante. Principalmente quando o filho corresponde e merece ser amado.
      O        marido continuou a olh-la, buscando compreender o que ela dizia:
      - Sua forma de amar se resume s em seu filho. Voc no acha que  egosmo? Voc tem dois filhos e ama s a um?
      Ele sabia que, de certa forma, estava sendo maldoso e encontrava at prazer nisso. Queria testar at onde a indiferena dela chegava. Sentia curiosidade em 
descobrir se ela era mesmo to fria quanto aparentava.
      Maria Helena sentiu brotar dentro de si uma onda de indignao. Ele que a envolvera sem amor, que no amava a famlia, que era o homem mais egosta e frio 
que conhecera, atrevia-se a julg-la, a classific-la de egosta? Ele que sempre s se preocupara com o prprio sucesso, s se interessava em aparecer a seu lado 
na sociedade, que nunca se importara com sua desiluso, sua mgoa, sua renncia de afeto, tinha o desplante de cham-la de egosta?
      Eles nunca haviam discutido antes. Resolviam as questes educadamente. Jos Luiz no dava  esposa muitas explicaes sobre os negcios e deixava sempre a 
critrio dela o governo da casa e dos filhos.
      Maria Helena tentou controlar a raiva. Procurou tornar a voz fria quando disse:
      -        Se h aqui algum egosta, no sou eu. Nesses anos todos de casamento, tenho procurado desempenhar minhas responsabilidades com dedicao. Jamais 
faltou nada a voc ou aos nossos filhos. Se tenho mais afinidade com Joo Henrique, no significa que tenha cuidado menos de Maria Lcia. Voc sabe que ela  diferente. 
No se aproxima de ns. No gosta de mim como ele gosta. No posso impingir a ela um amor que ela no deseja.
      Ele ficou pensativo durante alguns segundos. Teria Maria Helena agido com ele da mesma forma que com a filha? Objetou:
      -         assim que voc pensa? S d afeto a quem demonstra ostensivamente que a ama?
      Apanhada de surpresa, ela no encontrou resposta de pronto. Depois, conseguiu dizer:
      -        Sim. O amor s merece correspondncia quando provado.
      -        Voc seria incapaz de amar algum que no a amasse, ou no demonstrasse seu amor?
      -        Seria. Ainda que sofresse muito, arrancaria esse amor do corao. Por que essa discusso agora? Nunca falamos sobre esses assuntos. Qual a razo desse 
seu sbito interesse em conhecer minha forma de pensar?
      -        Estou lendo um livro de um pensador, - mentiu ele - que afirma que ningum no mundo pode viver sem dar amor. Que o amor  essencial  prpria vida. 
Curiosidade apenas.
      Embora aparentando tranqilidade, Maria Helena ainda lutava com a emoo.
      -        Para mim, o nico amor verdadeiro e capaz de todos os sacrifcios  o amor de me. S ele  sincero e merece ser alimentado.
      Jos Luiz admirou-se:
      -        Voc no cr no amor entre um homem e uma mulher?
      Maria Helena conseguiu imprimir um tom frio ao responder:
      -         s um jogo de interesses onde cada um se acomoda s convenincias. Assim,  o casamento. Um arranjo prtico, nada mais.
      Ele irritou-se com a resposta. Seria ela to segura de si como parecia? Resolveu provoc-la:
      -        E os grandes amores da histria? E aqueles que abandonam tudo, posio, famlia, dinheiro para seguir o amor?
      Maria Helena abanou a cabea:
      -        Iluso. S iluso. A paixo  como doena, destri os valores e esmaga a quem a sente.
      -        O amor para voc s  vlido no casamento.
      -        Seria , se existisse.
      -        Voc est generalizando. Ns conhecemos casais que se amam, dentro do casamento.
      Ela sacudiu a cabea em negativa enquanto dizia:
      -        Aparncias, convenincias. A famlia  uma instituio social sagrada. Toda pessoa de bem luta para preserv-la. Acredito na amizade, na convivncia 
educada.  vantajoso para o casal preservar esses valores. H os filhos.
      -        E o sentimento? E o amor?
      -        No existe. Todos esto to interessados em demonstrar felicidade, em aparentar, que acabam por iludir-se acreditando que o sentem. Na verdade, s 
Deus sabe o que guardam no Intimo, escondido no corao.
      -        Voc tambm esconde o que lhe vai no corao?
      Havia uma ponta de ironia em sua voz quando ela respondeu:
      -        No posso guardar dentro de mim sentimentos nos quais no creio. H muito que as iluses no fazem parte de minha vida. Estou estranhando essas perguntas 
partindo de voc, sempre preocupado com outros interesses.
      Jos Luiz irritou-se. As palavras dela, embora veladas, faziam aluso ao motivo que o levara a casar-se. Colocou-se na defensiva. Ele podia acusar-se, porm, 
ainda no se sentia com foras para aceitar que ela o fizesse. Olhou-a srio, dizendo com firmeza:
      -        Engana-se. Se algum dia pensei de forma diferente, hoje sei que estava enganado. O amor existe e  a maior fora da vida. Est acima de tudo.
      - Do dinheiro, do nome, da posio, do poder? - inquiriu ela, dura.
      - Sim. Acima de tudo. Eu concordo com o livro. Ningum pode viver sem dar amor.
      Maria Helena sentiu um aperto no corao. Estaria ele amando alguma outra mulher? Isso explicaria sua mudana, sua humanizao. Sentiu medo. Empalideceu.
      - Desculpe - disse - estou cansada, vou recolher-me.
      - Voc no me parece bem. Minha conversa a desagradou?
      - Absolutamente. Estou cansada. Vou repousar um pouco e logo estarei bem.
      - Minha curiosidade  s literria. Em tese, tudo  possvel neste mundo, at o amor.
      Ela levantou-se e procurou aparentar a mesma serenidade de sempre, porm, sua respirao um pouco acelerada, sua palidez, o brilho nos olhos, demonstravam 
o contrrio.
      - Boa noite - disse ela.
      - Tem certeza de que est bem? - insistiu Jos Luiz que tambm se levantara oferecendo-lhe o brao. - Acompanho-a at o quarto.
      - Obrigada. No  preciso. Boa noite.
      - Boa noite - repetiu ele.
      Sentado em uma poltrona em seu quarto, Jos Luiz tinha entre as mos um livro entreaberto, sem ler. Seu pensamento tentava compreender a atitude de Maria Helena. 
De uma coisa tinha certeza: ela no era to fria e controlada quanto deixara transparecer. Reconheceu que Luciana estava certa em um ponto. Ele no conhecia a esposa 
tanto quanto pensava.
      Acreditava tambm que ela no guardava ressentimentos pelo passado. Chegara a pensar que ela houvesse aceito sua falta de interesse e de amor, como uma coisa 
natural na rotina do casamento.
      Suas palavras, entretanto, haviam demonstrado o contrrio. Apesar dele esforar-se por ser educado e socialmente irrepreensvel como marido, Maria Helena percebera 
que no era amada, e que ele se casara por convenincia.
      Sentiu-se desconfortvel. Sabia ter agido mal, arrependera-se, porm, seu orgulho no aceitava que a esposa soubesse disso. Para encobrir essa verdade  que 
se esforava para atender suas obrigaes diante dos outros, representando o papel do bom marido e do bom pai.
      Pensou em Joo Henrique. Ele tambm teria percebido a verdade? Apaixonado pela me, seria essa a razo pela qual ele no o apreciava? Guardaria por causa disso 
algum ressentimento no corao? Julg-lo-ia tambm um oportunista, um interesseiro?
      Levantou-se sentindo certo mal-estar. Seu filho sempre fora um jovem idealista. Apesar da. falta de afinidade com o pai, pudera observar seus projetos, suas 
idias profissionais, sempre objetivando a arte, a beleza, os benefcios para o povo, a vontade sempre manifesta de melhorar o padro de vida na sua cidade.
      Joo Henrique era muito bem-visto at pelos mais velhos que o elogiavam com entusiasmo. Como pai, orgulhava-se disso. A idia que ele pudesse conhecer a verdade 
e desprez-lo, era-lhe insuportvel.
      Apesar disso, comeou a perceber que as pedras daquele quebra-cabea comeavam a encaixar-se. Pela primeira vez, encontrava um motivo que pudesse justificar 
a averso do filho por ele.
      Arrasado, sentou-se novamente. Como no percebera isso
      Reagiu. Afinal, apesar de no se ter casado por amor, sempre cercara Maria Helena de atenes, apoio. Nunca haviam tido atritos srios e Maria Helena em tempo 
algum mostrara-se infeliz.
      Passou a mo pela testa como a afastar dali pensamentos desagradveis.
      No estaria exagerando? Sentindo remorsos pelo passado, no estaria fantasiando?
      Suspirou fundo e tentou ler o livro que detinha nas mos, mas foi-lhe difcil concentrar a ateno na leitura.
      Na manh seguinte,  mesa do caf a famlia reuniu-se. NO era sempre que isto acontecia. Jos Luiz fixou o rosto de Maria Helena procurando analis-lo. Ela 
estava como sempre. Parecia calma e interessada apenas na disposio da mesa para que nada faltasse.
      Depois do "bom dia", sentados todos ao redor da mesa, enquanto servia-se de caf com leite, Jos Luiz procurou conversar com o filho.
      - Vai  universidade?
      - Vou.
      - Outro dia, o dr. Mezara falou-me com entusiasmo sobre um projeto seu. Teceu muitos elogios. Gostaria de conhec-lo.
      Joo Henrique surpreendeu-se:
      - Voc nunca se interessou por arquitetura. Iria ma-lo.
      - Engana-se. Embora no conhea detalhes tcnicos, sei apreciar um projeto, seja de uma bela casa, de uma ponte, de uma praa ou de uma rua. Dizem at, os 
meus amigos, que tenho senso para isso. Quando voc tiver tempo disponvel, apreciaria v-lo.
      - Est bem. Qualquer dia destes, eu o mostrarei.
      - Vale a pena, meu filho - lembrou Maria Helena com entusiasmo. -  uma beleza!
      Olhou para o marido ligeiramente desconfiada. Ele estava diferente. Nunca procurara aproximar-se do filho.
      - Voc exagera, me!
      - Penso que no - retrucou Jos Luiz. - Vrias pessoas elogiaram esse projeto. Pessoas que entendem do assunto.
      Maria Helena sentia-se feliz. Vibrava com a capacidade do filho.
      Jos Luiz fitou Maria Lcia que, de cabea baixa, pausadamente, tomava seu caf. Tentou conversar com ela.
      - E voc, minha filha, o que est fazendo de bom?
      Ela olhou-o assustada. Gostava de passar despercebida. Ele repetiu:
      - Ento, filha, o que tem feito de bom? Ela balbuciou:
      - Nada. Eu no sei fazer nada.
      Maria Helena franziu o cenho, mas nada disse. Olhando o rosto da filha, Jos Luiz penalizou-se. Ela estava um pouco trmula. Sabia que, se insistisse, ela 
chegaria s lgrimas. No queria isso. Assim sendo, respondeu calmo:
      - O que voc no sabe, pode aprender. Para isso h professores. Se todos soubssemos fazer tudo, no precisaramos deles. O que  preciso  ter vontade de 
aprender.
      - Sim, senhor.
      O        silncio se fez. Joo Henrique pediu licena e saiu; Maria Helena acompanhou-o at a porta como de costume. Jos Luiz perguntou  filha:
      - Voc gosta de msica?
      - Um pouco.
      - Que tipo de msica?
      - Mame diz que  preciso apreciar o clssico.
      - Voc gosta?
      Ela baixou a cabea. Ele repetiu:
      - Voc gosta?
      Ela queria dizer que odiava, porm balbuciou:
      - Mais ou menos.
      - Parece que no  uma entusiasta.
      - Eu tento, papai. D. Eudxia quer que eu estude trs horas por dia. No consigo.
      - S msica clssica?
      - S. Essa  a boa msica. A nica que mame me permite aprender.
      Jos Luiz sentiu uma sensao desagradvel. Maria Helena era muito exigente com a filha. Era preciso tentar ajud-la, perceber o que ela realmente gostava.
      Levantou-se, aproximou-se de Maria Lcia, colocando a mo em seu ombro.
      - Hoje, antes do jantar, gostaria de ver seus cadernos de msica.
      Ela sobressaltou-se:
      - Para qu?
      - Para saber o que D. Eudxia est fazendo com voc. No se preocupe, no vou avaliar voc, nem criticar. Preciso ir agora. At logo, filha.
      Beijou-a na testa e fingiu no perceber o rubor que coloriu seu rosto.
      - At logo, - murmurou ela.
      Aquela tarde, ao chegar em casa, Jos Luiz cumpriu o prometido. Mandou chamar a filha e pediu para ver as partituras e os cadernos de msica nos quais ela 
estudava.
      A moa obedeceu em silncio. Ele folheou-os e perguntou:
      - Onde voc est? O que tem para estudar?
      Ela separou as msicas. Ele pediu:
      -        Toque para mim.
      Maria Lcia estremeceu.
      -        Desculpe, papai, eu no posso. Iria errar tudo. Acredite, eu no sirvo para pianista. No consigo aprender!
      Maria Helena entrou e tendo ouvido as palavras da filha, Irritou-se. Sua incapacidade era um horror.
      -        Vamos, menina. Toque.  preciso lutar. - Olhando as partituras, continuou: - Voc sabe essa lio, estudou-a muitas vezes. Vamos ver como est.
      Maria Lcia enrubesceu e seus lbios comearam a tremer. Jos Luiz no queria provocar uma cena. Por isso, interveio:
      -        Se ela no sente vontade de tocar, no  preciso. A execuo de uma msica  um prazer, no um sacrifcio.
      Maria Helena olhou-o com reprovao
      -        Dessa maneira ela jamais vencer a timidez.  preciso enfrentar o medo.
      -        Ela poder fazer isso depois. Eu no pretendo julgar seus conhecimentos musicais. O que eu quero  conhecer essas musicas. Pode toc-las para ns?
      Maria Helena surpreendeu-se. Decididamente, ele estava diferente. Apanhou as partituras, foi ao piano e executou-as.
      Jos Luiz a custo conseguiu dissimular o enfado. Eram peas pesadas e sem graa. Teve pena da filha, tendo que toc-las durante trs horas seguidas, todos 
os dias. Lembrou-se de D. Egle, de Luciana, que transformavam o piano em um instrumento agradvel e belo.
      Quando Maria Helena acabou, ele agradeceu e pediu para Maria Lcia guardar suas partituras. Quando se viu a ss com Maria Helena, desabafou:
      -        Que coisa horrvel. No me admira que Maria Lcia odeie estudar piano.
      Maria Helena ressentiu-se.
      -        No diga isso. So peas bsicas, exerccios que daro segurana  execuo.
      -        Poderiam encontrar msicas mais alegres, mais bonitas com a mesma finalidade. Essa professora pareceu-me antiquada.
      -        D. Eudxia  excelente professora! O problema  Maria Lcia. Temos que reconhecer que ela tem dificuldade de aprender.
      - Por isso  preciso ajud-la. Perceber o que ela gosta, o que lhe d prazer. Agentar essas msicas trs horas ao dia,  sacrifcio para qualquer um.
      - Espero que voc no me desautorize com nossa filha. D. Eudxia  excelente. t mulher de boa moral e seriedade.
      - No duvido. Mas gostaria que voc procurasse uma outra professora. Mais jovem, talvez, que possa ajudar a desenvolver o gosto de Maria Lcia pela msica. 
Algum mais alegre, que no tocasse s clssico.
      - No concordo. Durante a formao musical  preciso s utilizar a msica clssica para no deturpar o estilo e comprometer a execuo.
      - Talvez para algum que pretenda dedicar-se exclusivamente  msica; tornar-se uma virtuose. Maria Lcia no tem essa pretenso. Depois, no so todas as 
pessoas que tm habilidade, para os clssicos. H aquelas que so excelentes musicistas na execuo da boa msica popular. Dos choros, das valsas, dos lundus.
      - Voc nunca interferiu em minha orientao com nossos filhos.
      - No quero interferir. Porm, Maria Lcia no  como as Outras moas. A cada dia se torna mais dependente e insegura. Precisamos estudar uma maneira de ajud-la. 
Gostaria que procurasse outra professora.
      - Est bem. Vou tentar. Mas desde j asseguro que no vai adiantar. O problema est nela, em sua falta de capacidade e no na professora que  excelente.
      - Veremos - respondeu ele.
      Maria Helena olhou-o sria. Era-lhe muito desagradvel despedir D. Eudxia. Ela era mulher muito conceituada entre as famlias. Cobrava caro pelas aulas. Estudar 
com ela era "chic" e de bom-tom. Alm disso, Maria Helena reconhecia-lhe os mritos profissionais. Suas execues eram impecveis.
      Ela no confiava em outra professora. Porm, Jos Luiz nunca se interessara pelos problemas dos filhos e era a primeira vez que lhe pedia algo. No desejava 
parecer intransigente. Mesmo contrariada, resolveu concordar.
Nos dias que se seguiram, ela no conseguiu atender o pedido do marido. D.Eudxia continuava. Nenhuma das professoras que haviam sido indicadas pelas amigas, conseguira 
satisfazer suas exigncias.
      - Eu estou procurando - alegava ela ao marido. - No fcil encontrar uma pessoa do nvel de D. Eudxia.
      - No estar sendo muito exigente?
      - No  qualquer pessoa que pode conviver com nossa filha.  preciso ser algum de confiana.
      Jos Luiz aborreceu-se. Percebia o constrangimento de Maria Lcia, sendo obrigada a fazer coisas das quais no gostava. Era partidrio da boa educao, do 
respeito, da preservao de valores da famlia, mas D. Eudxia era severa demais principalmente para uma menina delicada como Maria Lcia. Por certo a intimidava 
com sua maneira rgida, seus trajes escuros, sua mania de perfeio.
      Preocupado, desabafou com Luciana:
      - Receio que Maria Helena esteja sendo muito exigente com Maria Lcia.
      - Por qu?
      Jos Luiz olhou a filha pensativo. Gostava de conversar com ela, contar-lhe suas preocupaes. Nesses momentos, esquecia-se de que ela era jovem e sua filha. 
Aprendera a respeitar suas opinies, sempre muito diferentes da maioria das pessoas, s vezes, at da sua prpria, porm, muito verdadeiras. Ela percebia coisas 
que ele no via e mostrava-as com simplicidade e afeto.
      - Maria Lcia no  uma moa como voc, ou como as outras.  acanhada, enrubesce, chora por qualquer coisa. No gosta de estudar, tranca-se no quarto o tempo 
todo. Maria Helena luta para educ-la, faz-la aprender, estudar, inutilmente. A cada dia ela me parece pior. Sua me preocupa-se em faz-la mudar e nesse esforo, 
exige dela coisas que talvez sua inteligncia no tenha meios de aprender.
      - Acredita que ela no possa aprender?
      - Acredito.
      - Ela tem alguma deficincia fsica?
      - Aparentemente no. Foi sempre retrada, tmida, mas os mdicos no encontram nela nenhuma doena.
      - Seu desenvolvimento quando beb foi igual as outras crianas? Sentou, andou no tempo certo, etc.?
      -        Nunca teve problemas quanto a isso. Seu desenvolvimento fsico  normal. Poderia dizer que goza de excelente sade.
      - O que pensa D. Maria Helena?
      -        Que ela  incapacitada. Admira-se porque enquanto Joo Henrique  dono de brilhante inteligncia, Maria Lcia  o oposto. Sempre apagada. No gosta 
de enfeitar-se como as moas de sua idade. Veste-se mal, eu diria que no tem bom gosto. Insiste em parecer mais feia e desajeitada do que .
      -        No  bonita?
      Jos Luiz hesitou, depois disse:
      -        No . Pareceria melhor se tivesse bom gosto. Infelizmente no tem. Maria Helena sofre muito com isso.  mulher bonita, fina, sabe apreciar a beleza.
      -        Imagino. Ter uma filha com esses problemas, no deve ser agradvel para ela. Provavelmente deve ter se ligado muito com o filho.
      -        Tem razo. Apegou-se a ele.  o seu preferido. O seu orgulho.
      -        Talvez isso contribua para que Maria Lcia se sinta mais incapaz.
      -        Ela  incapaz. Joo Henrique sempre sobressaiu-se em tudo. Ela sempre foi um fracasso. O que me causa admirao que ambos so filhos dos mesmos pais. 
Por que nasceram to diferentes?
      Luciana olhou o pai com carinho. Seus olhos brilhavam mais quando respondeu:
      -         que os pais s do o corpo de carne para os filhos. O esprito que o habita  criado por Deus, que  o dono da vida.
      Jos Luiz surpreendeu-se:
      -        No sou contra a religio. Sei que temos uma alma criada por Deus. Mas ainda penso por que Deus os fez to diferentes? Por que deu tudo a Joo Henrique 
e nada a Maria Lcia?
      Luciana sorriu:
      -        Est afirmando que Deus foi injusto?
      Ele deu de ombros.
      -        No tenho condio para afirmar isso. O que eu digo  que no posso compreender.
      - Se voc pensar que Deus cria o esprito das pessoas na hora em que nascem no mundo, no poder mesmo entender. Mas se perceber que Deus cria os espritos 
todos iguais, simples, ignorantes, colocando-os no mundo para desenvolver e aprender, nascendo e morrendo, renascendo de novo e morrendo, muitas vezes, perceber 
que cada um vive em uma fase de aprendizagem. Uns tm mais conhecimentos; viveram mais, aprenderam mais, enquanto outros so mais jovens na criao e tm menos experincia.
       Ele admirou-se:
       -  uma teoria audaciosa. Parece-me fantstica. Nascer de novo! Que idia! Voc j falou sobre isso.
       - A reencarnao tem sido estudada por muitas pessoas esclarecidas, sbios, pensadores. S ela pode explicar diferenas como essas de seus filhos. Se Deus 
pode colocar um esprito em cada ser que nasce no mundo, por que obrigatoriamente teria que cri-lo nessa hora e fechar a porta a um que viveu apenas uma vez e no 
teve oportunidade para aprender tudo quanto necessitava? J pensou como  curta uma vida na Terra, mesmo quando se vive sessenta ou setenta anos? E as crianas que 
morrem? Teria sido negada a elas oportunidade para aprender?
       Jos Luiz estava boquiaberto. As idias da filha eram muito avanadas. Os padres passavam a vida inteira estudando e afirmavam coisa diferente. Como uma menina 
como Luciana poderia saber mais do que eles?
       - Essa sua filosofia vai longe demais - disse ele. - A igreja ensina diferente.
       - A igreja foi feita por homens. Para conhecer a verdade, precisam olhar as coisas de Deus. A vida  o livro divino onde cada um deve aprender. E a vida nos 
mostra que a reencarnao  a nica crena que explica as desigualdades e as diferenas no mundo e se harmoniza com a justia de Deus que nunca erra.
       Jos Luiz calou-se. O argumento da filha impressionou-o. Era um bacharel. Militando na justia dos homens, muitas vezes questionara a justia de Deus. Estaria 
errado?
       Luciana continuou:
- Tudo  perfeito na obra de Deus. Nosso esprito  eterno. Viveu outras vidas, amou, aprendeu, errou, sofreu, e a cada morte do corpo, liberta-se e regrssa  morada 
espiritual de onde tinha vindo, guardando o progresso feito. Quando se torna oportuno, volta novamente a nascer na Terra, trazendo no inconsciente as experincias 
vividas e as condies para desenvolver suas aptides.
      Jos Luiz abanou a cabea admirado:
      -        Para que tudo isso?
      -        Para aprendermos a responsabilidade de escolher nossos prprios caminhos. Para amadurecermos e nos tornarmos cooperadores do Criador no universo.
      -        Voc vai longe demais em suas fantasias. De onde tirou essa idia?
      -        Tem outra melhor, que possa explicar o que vai pelo nosso mundo? Que possa conciliar a justia e a bondade de Deus com a desigualdade reinante ao 
nosso redor? Voc mesmo tem dois filhos to diferentes; Deus teria sido injusto dando tudo a Joo Henrique e nada a Maria Lcia?
      Ele no encontrou palavras para responder. Luciana prosseguiu:
      -        Tudo est certo da maneira que . Deus jamais erra ou comete injustias.  preciso aprender a enxergar a vida com realismo. Fantasia  fechar os olhos 
 verdade que todos os dias nos bate  porta, para dar lugar a preconceitos que as religies colocaram em nossa cabea e nos impedem de perceber o que a vida mostra 
a cada passo. O conceito de um Deus vingativo que pune, castiga, que  parcial na distribuio de bens e exige severas contas  irreal e ilusrio.
      Jos Luiz ouvia estupefato. A voz de Luciana tornara-se mais grave e f-lo lembrar-se muito de Suzane. Emocionou-se.
      -        Voc diz coisas estranhas - disse - de certa forma incoerentes. H momentos em que parece ter f, crer em Deus e h outros em que combate as religies.
      Luciana sorriu levemente:
      -        Eu posso confiar em Deus, ter f e no aceitar o que os homens fazem. Gostaria muito de conhecer Maria Lcia.
      Jos Luiz concordou:
      -        Seria timo para ela conhecer uma moa como voc. Poderia ajud-la muito.
      Luciana olhou o pai pensativa, depois disse:
      -        No ser possvel.  pena.
- Por qu?
      - No posso apresentar-me em sua casa como sua filha mais velha. D. Maria Helena no sabe de nada.
      Era verdade e ele no respondeu. Como apresentar Luciana  sua famlia? Maria Helena no conhecia seu passado, seu amor por Suzane e, mesmo que lhe contasse, 
ela era uma mulher rgida de princpios, no aceitaria a presena de uma filha ilegtima em sua casa, em convivncia com seus prprios filhos.
Como no respondesse, Luciana continuou:
      - No importa. Mesmo assim, eu gostaria de ajudar Maria Lcia. Ela deve sofrer muito.
      - Ela  muito calada, prefere passar despercebida em casa. No tem amigas e se a deixarmos, no sai do quarto.
      - Gostaria de conhec-la. Ningum em sua casa precisaria saber quem sou.
      - No acho justo. Orgulho-me de voc e gostaria de gritar aos quatro cantos do mundo que  minha filha!
      - Basta-me seu amor. No  preciso perturbar a vida de sua famlia.
      Jos Luiz passou a mo pelos sedosos cabelos da filha.
      - Voc  muito nobre. Mas, no vejo como conseguir isso.
      Luciana sorriu e seus olhos brilharam maliciosos e alegres quando disse:
      - Voc acha que eu seria uma professora de piano muito ruim?
Ele assustou-se:
- Voc no est pensando...
      - Estou. Eu poderia dar aulas de piano a Maria Lcia. Seria um pretexto excelente para estar com ela. Poderia conhec-la melhor, ajud-la a encontrar a alegria 
de viver.
      Ele estava indeciso:
      - No sei se daria certo. Depois, voc no precisa fazer esse sacrifcio. Seria cansativo, trabalhoso. Maria Helena exigente e muito formal. Trat-la-ia como 
uma subalterna. No acho justo.
      Luciana colocou a mo no brao do pai e respondeu:
- Nada disso importa. Maria Lcia  minha irm. Sente-se infeliz. Eu sinto que poderia ajud-la. Terei grande prazer em realizar esse trabalho. Quanto a D. Maria 
Helena, saberei comportar-me a altura. Voc se esquece que sempre trabalhei para viver? Sei como trat-la, no se preocupe.
      - No duvido. O que me preocupa  v-la entrar em minha casa como uma assalariada, quando deveria ser recebida como da famlia.
      - Se queremos ajudar Maria Lcia, temos que deixar o orgulho de lado. Esquea esse aspecto. O que me preocupa  a parte profissional. Acha que, como professora, 
D. Maria Helena me aceitar?
      - Precisaria ter mtodo, programar as aulas, qualquer coisa assim.
      - Quanto a isso no h problema. Vov deu aulas e tem tudo isso. Inclusive, poder orientar-me.
      Ele abanou a cabea indeciso, preocupado.
      - Mesmo assim, no sei...
      - Papai, deixe-me fazer alguma coisa por Maria Lcia. Sou professora. Entendo um pouco desses assuntos. Por favor!
      Ele decidiu-se:
      - Est bem. Verei o que posso fazer. Voc  muito moa, preciso arranjar um forte argumento para convencer Maria Helena.
      Luciana levantou-se e passou os braos pelos ombros do pai, beijando-o levemente na face.
      - Obrigada, papai. No se arrepender. Vou me preparar muito bem. Ver.
      Jos Luiz sorriu:
      -  uma loucura, mas sempre ser uma tentativa.
      Ao sair da casa de Luciana, Jos Luiz ia emocionado. A cada dia mais admirava a filha. Seu esprito nobre e generoso impressionava-o.
      Ele que infelicitara sua vida pela ambio, percebia que Luciana era o oposto, colocando os sentimentos, o amor, a amizade, sempre em primeiro lugar. Ela j 
sabia o que ele estava comeando a aprender a duras penas. Admirava-a.
      Ela, em sua casa, ao lado de Maria Lcia, seria o raio de sol que levaria a beleza, a bondade, o amor, a alegria.
      De volta  casa, foi pensando como convencer a esposa. Na noite seguinte, depois do jantar, foi que Jos Luiz julgou oportuno tratar do assunto. Sozinho com 
Maria Helena, perguntou por Joo Henrique, seus projetos, seus ideais.
      O        rosto de Maria Helena iluminou-se. Falar do filho era sua alegria. O marido ouviu-a atencioso, comentando esta ou aquela idia. Quando ela se calou, 
ele perguntou:
      -        E Maria Lcia, voc j despediu D. Eudxia?
      Maria Helena suspirou:
      -         uma tarefa desagradvel. Depois, ela  to eficiente! Tem certeza de que devemos substitui-la?
      Jos Luiz olhou-a srio.
      -         to difcil para voc atender um desejo meu?
      Maria Helena remexeu-se na cadeira e no respondeu imediatamente. Ele olhava-a esperando por uma resposta. Por fim, ela disse:
      -        Se voc faz questo, farei isso amanh. Ainda no encontrei ningum  altura de substitui-la. Por isso, guardava a esperana de v-lo reconsiderar 
esse assunto.
      -        No mudei de idia. Ainda penso que D. Eudxia  muito velha e antiquada para agradar a Maria Lcia.
      -        No se trata de agradar Maria Lcia. Alis, no h nada que consiga torn-la feliz. No vejo porque uma preceptora precisa outra coisa que no seja 
sua competncia, sua moral, sua educao. Hoje os costumes esto mudando e precisamos cuidado com esse modernismo que destri as famlias.
      -        Voc diz bem, os tempos esto mudando e ns no podemos parar. Gostaria que encontrasse uma professora jovem. Quem sabe assim, nossa filha pudesse 
aprender a alegria de viver!
      Maria Helena olhou-o admirada. Positivamente ele parecia-lhe diferente, modificado.
      -        Verei o que posso fazer - disse por fim.
      Jos Luiz no tocou mais no assunto. Foi dali a dois dias
que disse a Maria Helena:
          - Encontrou a professora para Maria Lcia?
          - No. - Foi a lacnica resposta.
      -        Hoje, eu soube casualmente de uma moa que d aulas de piano.
      -        Voc a conhece?
      - No - mentiu ele. - Foi o Dr. Alfredo quem me indicou. Trata-se de uma moa de excelente famlia, que reside com a av. Ficou rf. Parece que quer ocupar-se 
e gosta de dar aulas de piano. Segundo ele, trata-se de moa fina e muito educada. Tomei a liberdade de anotar o endereo para voc.
Ela concordou:
      -        Est bem. Vou conversar com ela, marcar uma entrevista e avaliar seus conhecimentos.
      -        Se quiser, posso mandar o rapaz de recados solicitar que venha at aqui.
      -        Fico-lhe grata. Pode mand-la amanh s quatro.
      -        Est bem.
      Jos Luiz baixou os olhos para que Maria Helena no visse a alegria que sentiu. Conversou sobre outros assuntos. No queria que ela desconfiasse de nada.
      No dia seguinte pela manh, foi pessoalmente  casa de Luciana.
      -        Voc ainda pode desistir - disse com seriedade.
      Luciana sacudiu a cabea.
      -        Desistir eu? Voc no me conhece. Passei estes dias me preparando. Vov estudou num grande conservatrio de Londres.  l que eu me "formei" professora. 
Ela contou-me tudo, os mtodos, as aulas.
      -        Veja l o que vai fazer.
      -        No se preocupe. Quando eu programo uma coisa, vou at o fim. Haveremos de vencer! Ver!
      -        Est bem. Esteja l s quatro. Maria Helna  muito exigente com pontualidade..
      -        Eu tambm. No se esquea que tenho educao britnica.
      Jos Luiz sorriu. Quando ele saiu, Luciana procurou pela av.
      -        Vamos preparar aquela pea. Precisa estar impecvel.
      -        Est bem - concordou Egle. - Se deseja obter xito, precisa estudar muito. Lembre-se que vai ser examinada por uma boa pianista.
      -        D. Maria Helena toca muito bem, mas eu, quando quero, no sou to ruim assim.
      Aproximando-se do piano, sentou-se e pela dcima vez, repassou a msica que pretendia tocar na entrevista da tarde.

CAPTULO 5

      Sobraando sua pasta de msica, Luciana tocou a sineta da bela casa de Jos Luiz. Faltava um minuto para s quatro e enquanto era introduzida na sala onde 
Maria Helena a esperava, ouviu as quatro badaladas do grande relgio que havia no saguo.
      Maria Helena olhou-a enquanto dizia:
      - Vejo que  pontual.
      Luciana olhou o rosto da esposa de seu pai, curvou ligeiramente a cabea, dizendo:
      - A pontualidade  uma qualidade que procuro cultivar.
      - Sou Maria Helena.
      - Sou Luciana. Recebi seu convite para esta entrevista.
      Maria Helena olhou-a atentamente. Luciana estava muito bem vestida e era muito bonita.
      - Sente-se, por favor. Foi um amigo de meu marido quem me recomendou a senhorita como preceptora de piano para minha filha. Por acaso d aulas para muitas 
moas?
      Luciana sentou-se na poltrona que lhe era oferecida, colocando sua pasta no colo.
      - No, senhora. Eu realmente no fao da msica um meio de vida. Gosto de tocar, gosto de ensinar. A msica  um prazer que enriquece o esprito.
      -  idealista. Eu pensei que desse aulas para viver.
      - Se eu precisasse, talvez, mas eu e vov temos uma renda suficiente.
      - Ento no compreendo.
      - Gosto de ensinar.
      - Se eu contrat-la, preciso pagar.
      - Concordo. Entretanto, eu me reservo o direito de dar aulas s para alunas muito bem escolhidas, coisa que quem luta pela subsistncia no pode fazer.
      Apesar de admirada, Maria Helena gostou da firmeza e da segurana de Luciana. Por certo, deveria ser muito eficiente, -pensou ela.
      -        A senhorita estudou em que conservatrio?
      -        Fui educada em Londres e estudei piano no Harmony House.
      Maria Helena fitou-a com respeito. Seu sonho sempre fora estudar naquele local. Por certo estava diante de uma grande virtuose.
      -        Poderia tocar para mim?
      -        Por certo, senhora.
      Maria Helena conduziu-a  sala vizinha, abrindo o piano. Luciana, com segurana, escolheu a partitura e colocou-a no piano. A outra, em p ao lado, observava-a.
      Luciana comeou a tocar. Colocou toda alma na pea que executava. Saiu perfeita. Maria Helena deu-se por satisfeita.
      -        Muito bem. Gostaria de contrat-la. Acertar os detalhes.
      -        Primeiro, antes de aceitar, desejo conhecer sua filha.
      -        Desde j posso descrev-la para a senhorita. Ela tem dificuldade de aprender, precisa muita pacincia com ela.
      -        Poderia apresentar-me? No posso aceitar sem saber se ela me aceitar.
      -        Minha filha faz o que eu quero. Obedece. Mas no vejo inconveniente em cham-la.
      Ela tocou a sineta e ordenou  servial que fosse buscar a filha. Maria Lcia apareceu alguns minutos depois. Cabea baixa, entrou na sala, mal olhou para 
Luciana.
      -        Esta  Maria Lcia. Esta  Luciana, professora de piano.
      Luciana levantou-se e estendeu a mo para a moa:
      -        Como vai?
      -        Bem. - balbuciou ela pegando a mo de Luciana frouxamente.
      -        Sua me quer que eu venha dar aulas de piano para voc. O que acha?
      Maria Lcia baixou os olhos.
      -        No sei. Se minha me quer, est certo.
      Luciana notou que a moa estava tensa. Voltou-se para Maria Helena:
      -        Est bem. Vamos combinar tudo. Virei duas vezes por semana.
      Maria Helena acertou todos os detalhes que Luciana concordou plenamente. Tudo combinado, Luciana levantou-se. Percebeu que Maria Lcia a observava furtivamente.
      -        Espero que seja paciente e que realmente goste de ensinar. Maria Lcia no aprende com facilidade.  preciso muita disciplina e muita insistncia.
      O        rosto da moa cobriu-se de rubor. Luciana respondeu calma:
      -        Terei muito prazer em estar com Maria Lcia e faz-la sentir a beleza da msica e o prazer da execuo. Ela vai aprender rapidamente, tenho a certeza 
disso.
      Maria Helena fitou o rosto corado da filha, olhos postos no cho, sem nada dizer. Suspirou e no insistiu. Luciana cedo descobriria o que ela tentara dizer.
      Luciana despediu-se. Em casa, sua av esperava-a ansiosa. Vendo-a entrar, perguntou:
      - E ento?
      Luciana colocou a pasta sobre a mesa e respondeu alegre:
      - Consegui! Vov, estou contratada. Egle balanou a cabea:
      -        Acha que dar certo? Se Maria Helena descobrir a verdade, ficar furiosa. Ningum gosta de ser enganada.
      -        Ela no saber, vov. Serei discreta e muito eficiente. Ver. Se voc visse Maria Lcia, ficaria penalizada.  tmida, dominada. Pareceu-me indiferente, 
sem vontade de reagir, de lutar e ocupar seu lugar no mundo.
      -        No ser deficiente mental?
      -        Papai garantiu que no . Fez todos os exames mdicos.  questo de personalidade.
      -        Acha que poder ajud-la?
          - Acredito que sim. Quero tentar. Voc me ajudar.
          - Eu?!
      -        Sim. Com sua experincia e orientando as aulas. Comearei na prxima tera-feira  tarde. Como dever ser tecnicamente a primeira aula? O que deverei 
ensinar?
      -        Vou preparar tudo.
      - Entendo o que papai quis dizer quando mencionou que
Maria Helena era formal. Sequer me ofereceu um ch. Falou o
estritamente necessrio. Voc tinha razo. Quando mencionei o
Harmony House, ela se impressionou.
      - Eu sabia.
      - Acho que foi meio caminho andado. Minha execuo saiu perfeita. Queria que voc estivesse l.
      Egle abraou a neta com carinho.
      - No duvido. Voc  uma feiticeira. No me surpreenderei se transformar essa menina. Agora, vamos tomar o nosso ch. Est na hora.
      Abraadas, as duas dirigiram-se  cozinha.
      Jos Luiz chegou em casa para o jantar e embora estivesse ansioso para saber, achou prudente no perguntar. Foi Maria Helena quem, depois do jantar, mencionou 
o assunto.
      - A nova professora de piano esteve aqui.
      Jos Luiz procurou dissimular o interesse. Ela prosseguiu:
      - Achei-a muito moa. Contudo, pareceu-me muito discreta e educada.
      -  boa profissional?
      - Parece ser. Depois, estudou em Londres no Harmony House. Executou uma pea com clareza e segurana. Tem uma particularidade curiosa, no d aulas para viver.
      - No?
      - No. Alis estava muito bem vestida. Disse que gosta de ensinar msica e o faz por prazer.
      - Interessante.
      - Mas eu disse-lhe que s a aceitaria para dar aulas a Maria Lcia, se recebesse pelo seu trabalho.
      - Fez bem. E ela?
      - Concordou. Mas, antes de aceitar ser professora de nossa filha, quis conhec-la. Tive receio que vendo-a, Luciana desistisse, contudo, ela aceitou.
      - Voc a contratou?
      - Sim. Vir duas vezes por semana,  tarde.
      - Como lhe pareceu essa moa?
      - Um pouco idealista. Eu fui honesta e falei das dificuldades de Maria Lcia. Ela no se importou. Cedo perceber seu engano. S espero que no venha a desistir.
      -        Talvez uma moa educada e fina possa influenciar Maria Lcia, e desperte nela o gosto pela vida.
      Maria Helena suspirou:
      -        Se isso acontecesse, seria um milagre.
      -        Vamos ver. Gente jovem precisa de companhia de pessoas de sua idade.
      -        Maria Lcia no tem amigas porque no quer. Nos saraus, isola-se, no conversa, e as outras moas cansaram-se de sua indiferena.
      -        Sei que ela  difcil. Mas, precisamos tentar alguma coisa. Se essa professora for inteligente, poder ganhar-lhe a estima e a faz-la melhorar.
      -        , pode ser. Luciana  moa educada e parece muito fina.
      -        Pelo que sei  de excelente famlia.
      -        Vamos ver. Tera-feira ela vir para a primeira aula.
      Jos Luiz exultava. Luciana conseguira. Soubera posicionar-se. Percebera que Maria Helena referia-se a ela com cortesia. Escondeu a alegria. Tinha impulsos 
de sair, ir  casa da filha saber todos os detalhes, porm, controlou-se. Esperaria pelo dia seguinte.
      Na tera-feira, pontualmente, s 14 horas, Luciana, sobraando sua pasta de msica, foi introduzida em casa de Maria Helena.
      Na sala, Maria Lcia esperava, sentada ao lado da me. Trajava severo vestido cinza, os cabelos puxados para trs e preso na nuca em birote.
      Luciana cumprimentou-as curvando a cabea. Depois disse:
      - D. Maria Helena, antes de iniciar a aula, gostaria de falar-lhe a ss por alguns instantes.
      - Est bem. Venha ao meu gabinete, por favor.
      Passaram para outra sala e Maria Helena fechou a porta.
      - Estou s suas ordens.
      -        D. Maria Helena, sua filha parece-me uma moa muito tmida. Tenho meus mtodos de ensino. Antes de comear a ensinar, preciso de uma avaliao do 
que ela j sabe. Porm, no quero constrang-la. Ao contrrio, pretendo deix-la menos tensa, mais serena. Ningum pode avaliar um msico se ele estiver nervoso.
          Apesar de surpresa, Maria Helena reconheceu que ela tinha
          - O que pretende fazer?
          - Gostaria de conversar com ela, sem que ningum nos interrompesse e que a senhora no se admirasse se hoje eu no conseguir que ela execute nada. Gostaria 
de conhec-la melhor. Desta forma, verei qual o melhor mtodo a ser usado. As pessoas so diferentes umas das outras e o que d bom resultado com algumas, pode no 
dar nenhum com outras.
      -         interessante seu ponto de vista.
      -        Essa tcnica  usada no Harmony House. Desejo informla que, alm do curso de piano, sou educadora formada. Preciso conversar com Maria Lcia.
      Maria Helena satisfeita, concordou. Sua filha bem que precisava de uma educadora.
      -        Faa como achar melhor. No interferirei.
      -        Obrigada. A senhora ver que ela vai aprender.
      De volta  sala onde Maria Lcia esperava sentada ainda na mesma posio, Luciana fechou a porta. Depois, sentou-se em frente a moa, conservando-se calada.
      Durante dez minutos as duas conservaram-se na mesma posio. Dirfaradamente Luciana observava. De repente, Maria Lcia levantou os olhos fixando-os em Luciana. 
Esta sorriu. A moa baixou novamente o olhar um pouco corada. Luciana continuou em silncio.
      Maria Lcia remexeu-se na cadeira, tornando a fix-la. Luciana sorriu de novo. Percebia que a moa comeava a ficar curiosa. Preparara-se para uma aula sofrida, 
odiosa, com uma desconhecida e agora, l estava ela, parada, sem fazer nada. O que estava acontecendo?
      O        silncio pesava e ela no sabia o que fazer. Sempre esperava pela iniciativa dos outros para tomar qualquer atitude. Por que a outra ficava calada? 
Se ela estava esperando que ela, Maria Lcia, comeasse o assunto, perdia seu tempo. Odiava piano e no ia aprender nada. No tinha jeito para a msica. Jamais tocaria 
como a sua me. Por que no desistiam?
      Essa professora calada em sua frente... Por qu? Talvez ela tivesse mentido e no gostasse de dar aulas. Talvez precisasse mesmo do dinheiro. Mentira para 
que sua me lhe pagasse melhor.
Assim, no precisaria fingir. Podia abertamente dizer que no gostava de estudar msica.
      Olhou-a novamente, sua curiosidade era evidente.
      Luciana sorriu levemente. Decorrera meia hora sem que dissessem uma palavra. Por fim, Maria Lcia disse com voz muito baixa:
      -        Voc no gosta de dar aulas de msica!
      -        Gosto - respondeu Luciana. - A msica alimenta o esprito e alegra a alma, faz bem ao corao.
      Maria Lcia sacudiu a cabea negativamente. O silncio novamente colocou-se entre ambas e foi Maria Lcia quem o quebrou:
- Voc no veio para uma aula de piano?
- Vim.
      -        Est esperando o qu?
      Maria Lcia sentia-se inquieta, nervosa, irritada. Por que ela no acabava logo com aquilo?
      Queria ir logo para o seu quarto. Estava at disposta a tocar alguns exerccios e depois ficar livre. D. Eudxia era fria, indiferente, agentava impvida 
seus erros ao piano. Sua me pagava-lhe para isso. Desprezava-a. Ela agentava tudo por causa do dinheiro.
      -        Quer comear agora? - perguntou Luciana com voz firme.
      -        Mostre-me o que estava estudando.
      Maria Lcia obedeceu. Dirigiu-se ao piano, apanhou o livro de exerccios, colocou-o no piano, abrindo-o. Luciana observava-a:
      -        Pode comear.
      Maria Lcia comeou a tocar lento e muito mal. No foi interrompida por Luciana que ouviu-a at o fim.
      -        O que mais estava aprendendo?
      Maria Lcia procurou outro exerccio e o tocou to mal quanto o primeiro. Durante meia hora a moa tocou, e Luciana ouviu sem comentar nada.
      -        Por hoje basta.
      A moa levantou-se, guardou as partituras. Ela no mandara parar nem criticara seus erros. Impossvel que no os tivesse percebido. Seria uma professora to 
ruim assim? Melhor, porque assim, quem sabe, sua me desistisse e a deixasse em paz.
         Luciana aproximou-se, olhando-a nos olhos, disse com voz
      - Maria Lcia, apesar de voc errar de propsito, de no querer estudar msica e de estar louca de vontade de ir fechar-se em seu quarto, de querer que eu 
desista, sua me desista, eu vou dar-lhe aulas de msica. E afirmo que voc vai adorar.
      A moa, corada, cabea baixa, no encontrou resposta. Seus lbios comearam a tremer e Luciana percebeu que ela ia chorar. Fingindo no notar, prosseguiu firme:
      - Eu vou fazer isso, porque acredito que voc  capaz de aprender tudo se quiser. Para que voc queira,  preciso gostar. Procurarei tornar nosso tempo juntas, 
muito agradvel.
      A moa comeava a soluar.
      - Agora, eu vou embora. Se quiser chorar, chore.  um direito seu. Mas quero que saiba que gosto muito de voc e pretendo ensin-la a gostar de mim. Passe 
bem. Voltarei na prxima sexta-feira.
      Levantou o rosto de Maria Lcia e beijou-a delicadamente na face, e saiu.
      Maria Helena no estava ali. A moa dirigiu-se  criada.
      - Vou embora. No incomode D. Maria Helena. D-lhe meus cumprimentos. Estarei de volta no dia marcado. Passe bem.
      Maria Helena ouviu a criada transmitindo-lhe o recado e no disse nada. Sua ausncia fora proposital. Ouvira a pssima execuo da filha e estava irritada. 
D. Eudxia estava habituada com a burrice de Maria Lcia, mas Luciana no. Temia que ela desistisse. Nesse caso, no teria jeito de chamar novamente a velha professora. 
Fora-lhe difcil despedi-la. Ela ficara ofendida, apesar da delicadeza que tivera.
      Depois que Luciana se foi, entrou na sala, mas a filha j se recolhera. Maria Helena sentou-se no sof, pensativa. Por que sua filha nascera to incapaz? Que 
diferena de Joo Henrique!
      Fundo suspiro escapou-se-lhe do peito. No sabia de nenhum caso na famlia. Por que teria acontecido com ela, por qu?
      Sentia-se particularmente triste naquela tarde. Luciana era moa bonita, inteligente, culta, que diferena de sua filha!
      Pensou no marido. Ele estaria certo colocando junto  filha uma moa to bonita e cheia de atributos? No iria deixar Maria Lcia mais tmida, mais insignificante?
      Num ponto concordava com ele: alguma coisa precisava ser feita. Daria resultado? Estava disposta deixar Luciana tentar. No sabia se a moa teria pacincia 
suficiente.
      Quando Luciana saiu, Maria Lcia parou de chorar. Apanhou sua pasta de msica e foi para o quarto. Finalmente estava livre, pensou. Fechou a porta por dentro 
e atirou a pasta sobre a cama. Se sua me visse, iria repreend-la. Queria cada coisa em seu lugar. Sentiu uma onda de rancor, misturada a um pouco de satisfao. 
Aquele era o seu territrio. Podia fazer o que lhe aprouvesse, desde que sua me no visse.
      Sentou-se no cho e soltou os cabelos. Os grampos a incomodavam. Encostou as costas no lado da cama e fechou os olhos. Seria bom se ela pudesse dormir. Viver 
era horrvel. Abominava sua casa, a disciplina que era obrigada a seguir. Tudo era montono e sem graa. Olhou a boneca que estava sobre a cama.
      - Preferia ser ela - pensou -  bonita e no precisa fazer nada. No gosta nem odeia. No sente nada. Acontea o que acontecer, est sempre com a mesma cara. 
Se eu fosse ela, eles me deixariam aqui, sem ser nada, sem ter que aprender nada. Mas eu no sou, infelizmente! Logo mame vai mandar me chamar para o lanche. Terei 
que suportar tudo de novo. E se eu jogar tudo no cho? Quero ver a cara dela. Vai ficar furiosa.
      Maria Lcia sorriu levemente. - Ela fica furiosa, mas no chora como eu. Quando eu choro, ela fica ainda mais nervosa. Ela nunca chora! Essa professora de 
msica nem ligou quando eu chorei...
      Seu rosto cobriu-se de rubor, e ela levou as mos s faces.
      - Ela percebeu que eu errei de propsito! D. Eudxia nunca
percebia isso. Essa  mais esperta. - Ela deu de ombros. -Melhor. Assim ela perceber rpido que eu no dou para a msica
e me deixar em paz. Quem sabe mame desista!
      Ela levantou-se do cho e comeou a andar pelo quarto. -Ela no desistir! Nunca consegui nada dela. Posso morrer que ela no me atender. Se eu morrer, ela 
vai sentir remorso! Vai se arrepender. Vou ficar sem comer at morrer! Ela vai ver!
         Sentou-se na cama.
      - Vai se arrepender nada. Ela no gosta de mim. Ela me persegue, me odeia. Vai dar graas a Deus por ver-se livre de mim. Eu sou a sua vergonha.
      Seu rosto ruborizou-se novamente. Passou as mos pelas faces. Lembrou-se do beijo de Luciana. Sua me nunca a beijara. Ningum a beijava. Quem gostaria de 
beijar uma moa feia como ela? Seu irmo, seu pai, ningum a beijava.
      Maria Lcia passou os dedos pela face onde Luciana pousara os lbios com doura. Essa professora de piano dissera que gostava dela. Por que teria mentido? 
Estaria com pena? Ou pretendia comprar-lhe a obedincia? Ela ia ver uma coisa. No estava disposta a aprender nada, fingir uma amizade que no podia sentir. Ela 
era feia, sem graa, incapaz. Por que algum iria gostar dela?
      Na sexta-feira, quando Luciana chegou, a moa estava na sala de msica, com a mesma postura, o mesmo penteado e vestido to severo como o da primeira vez.
      Luciana fechou a porta, colocou sua pasta sobre a mesa e, aproximando-se de Maria Lcia, estendeu-lhe a mo.
      - Como vai?
      - Bem - disse ela, apertando a mo que lhe era estendida, sem levantar o rosto.
      - Est um lindo dia. Voc j deu uma volta pelo jardim?
         - No - balbuciou ela.
      - No sabe o que est perdendo. Gostaria que a nossa aula hoje fosse ao ar livre?
      Maria Lcia no entendeu:
      - No h piano no jardim - disse.
      - Podemos deixar o piano por hoje. H outras coisas que eu gostaria de conversar com voc.
      Essa professora era diferente. O que pensaria sua me vendo que ela no lhe dava aula de piano? Por certo, ficaria contrariada. Pagava-lhe para isso!
      - Se prefere ficar aqui e ir ao piano, pode dizer - tornou Luciana.
      Maria Lcia sacudiu a cabea.
      - No. Vamos ao jardim.
      Procurou dissimular a satisfao. Aquela professora tinha os dias contados em sua casa. Em breve estaria livre dela.
      Luciana abriu a pasta de couro que trouxera e tirou dela um livro finamente encadernado.
      -        Vamos - disse. Vendo que Maria Lcia estava interdita, esclareceu: - No precisa levar nada. O que tenho basta.
      Foram ao jardim.
      -        Vamos procurar um lugar bem bonito - Luciana respirou gostosamente. - Que delcia de perfume - disse. Parou, olhou para Maria Lcia e perguntou: - 
O que ?
      -        No sei, no estou sentindo nada.
      Luciana segurou o brao de Maria Lcia.
      -        Experimente prestar ateno. Sinta que coisa deliciosa. Aspire esse ar! Feche os olhos e aspire.
      Maria Lcia obedeceu. Sentiu o perfume.
      -        Vamos ver de onde vem? - disse Luciana alegre.
      -        Que importncia tem isso? - pensou Maria Lcia. Queria ver a cara de sua me quando soubesse o que se passava.
      Luciana puxava-a pela mo. Seguiu-a docilmente.
      -        Olhe que beleza!  desse p de jasmim! Est coberto de flores. No  lindo?
      O        olhar de Maria Lcia ia do rosto de Luciana ao p de jasmim sem saber o que dizer.
      -        Feche os olhos e sinta o aroma;  delicioso! Ela obedeceu. Luciana continuou:
      -        So coisas que a me natureza faz para enfeitar nossa vida! Vamos nos sentar nesse banco. Nossa aula hoje ser aqui.
      A outra olhava sem entender. Como iria estudar piano em um banco do jardim? Apesar disso, sentou-se, cabea baixa. Luciana acomodou-se a seu lado. De repente, 
disse num murmrio:
      -        Olhe um beija-flor. Que lindo! No se mexa para no asssust-lo!
      Maria Lcia olhou e viu o pssaro voando sobre o jasmineiro, introduzindo o bico nas flores. As duas ficaram em silncio observando-o. Quando ele se foi, Luciana 
considerou:
      -        As vezes, penso que seria bom ser como ele. Poder voar, sentir o perfume das flores.
       Maria Lcia havia pensado em ser como a boneca, mas passarinho seria melhor. Poderia voar para o cu, sair dali para sempre. No disse nada. Luciana, depois 
de alguns segundos, continuou:
      - S s vezes, porque ele  muito lindo e me comove. claro que ser gente  muito melhor do que ser passarinho.
      Maria Lcia fez pequeno e quase imperceptvel gesto de contrariedade, mas Luciana percebeu e indagou:
      - Voc o que acha?
      - No sei.
      - Se voc pudesse escolher, o que gostaria mais de ser: um pssaro ou gente?
      - Ser uma boneca - disse ela.
      Luciana sorriu:
      - No estamos falando em boneca. Voc acha que seria melhor do que ser gente, ou beija-flor?
      -  bobagem. Nunca vamos ser nada disso.
      - Faz de conta. Nunca brincou de fazer de conta?
      - No.
      - A gente pode ser tudo o que quiser.  s fazer de conta. Por que preferia ser uma boneca? Para ser muito bonita?
      A moa enrubesceu.
      - No  isso - disse.
      - Ento por qu?
      - Porque ela pode ficar no quarto e no tem que fazer nada. No precisa aprender nada.
      Luciana sentiu uma onda de carinho por Maria Lcia, tomou-lhe as mos entre as suas e disse com suavidade:
      - Maria Lcia, voc no precisa ser uma boneca, nem um pssaro, porque voc  um esprito criado por Deus! Tem alma, sentimentos, amor no corao. Tem inteligncia 
para perceber todas as coisas boas do mundo. Pode olhar a natureza, os seres vivos, o cu, as estrelas, o mar, o sol, as flores, sentir a fora de Deus que existe 
em tudo e acordar para a felicidade, para o progresso e para a vida! Voc  muito mais do que uma boneca!
      Maria Lcia tremia como folha batida pelo vento. Olhava para Luciana e em seus olhos havia um misto de surpresa e dor.
      - Voc  um ser humano. Voc  criao perfeita de Deus!
      Maria Lcia apertou as mos de Luciana com uma voz que vibrava disse:
      - No sou nada disso.
      Luciana retirou as mos.
      - Deus fez voc perfeita. Mas, o que voc est fazendo com voc,  muito triste.
      - Eu?
      Ela queria gritar que sua me era culpada. Que sempre a desprezara, envergonhava-se dela, punia-a s porque ela no era inteligente ou bonita como Joo Henrique. 
Ela nascera assim, que culpa lhe cabia? Mas no disse nada. Baixou os olhos e engoliu a mgoa.
      Luciana disse com suavidade:
      - O que voc faz com voc  problema seu. Nada tenho com isso. Agora, eu a vejo como voc ; amorosa, inteligente e sozinha. Muito sozinha. Gostaria que aceitasse 
minha amizade de verdade.
      Havia ternura e sinceridade em Luciana que estava comovida. Vendo que ela no respondia, perguntou:
      - Voc quer?
      Maria Lcia olhou-a e havia tanta dor em seus olhos que Luciana abraou-a com fora. Permaneceram abraadas durante alguns minutos. Luciana sentia que a moa 
tambm a abraava.
      Voc ainda no me respondeu - disse.
      - Quero - disse Maria Lcia por fim.
      - Muito bem. Agora chega de falar de ns. J somos amigas mesmo. Quero que veja esse livro que eu trouxe especialmente para mostrar a voc.  um livro raro 
que pertence a minha av. Veja que linda capa.  trabalho de verdadeiro artista. As letras foram gravadas com ouro mesmo.
      Maria Lcia olhava com admirao. Nunca se detivera para olhar a capa de um livro. No gostava de ler.
      - Passe o dedo sobre as letras e sinta o relevo.
      Apanhou o dedo indicador de Maria Lcia e colocou-o sobre as letras.
      - Ele poderia ter feito letras simples, porm, se deu ao trabalho de fazer estas, sabe por qu?
      Maria Lcia sacudiu a cabea negativamente.
      - Por que estas so mais bonitas, tm mais arte e valorizam mais o livro. No acha que so lindas?
      A moa olhava sem responder. Luciana prosseguiu:
      - Gostaria que voc pudesse ver outras mais simples para perceber a diferena. No as tenho aqui, mas trarei outro dia para mostrar-lhe.
      Segurou a mo da moa e continuou:
      - Olha sua mo, a minha mo, elas so preciosas. Possuem o dom de transformar o mundo.
      Maria Lcia olhava boquiaberta.
      - No concorda comigo?
      - No sei...
      - Muitas coisas que nos rodeiam foram feitas por mos humanas. Quer ver?
      Ela concordou. Luciana abriu o livro logo no comeo onde havia algumas esculturas de mos famosas.
      - Muita gente sabe disso, tanto que estes artistas lhes prestaram homenagem. Aqui mesmo, vamos ver o que foi feito pelas mos das pessoas. Voc percebe aqui 
alguma coisa feita pela mo?
      Ela olhou ao redor, depois disse:
      - O banco onde nos sentamos.
      -  verdade. Vamos ver quem consegue ver mais coisas. Agora  minha vez. O poste do lampio. Foi o ferreiro.
      Maria Lcia concordou.
      - Agora  voc. Vamos ver quem v mais. Temos um ponto cada uma.
      Maria Lcia olhou em volta entretida. Pela primeira vez, Luciana percebeu um brilho mais vivo em seu olhar. Sentiu-se feliz por isso e prosseguiu alegremente 
conseguindo que Maria Lcia sorrisse algumas vezes. A certa altura, olhou-a nos olhos e disse com firmeza:
      - Voc foi feita para sorrir. Tem um lindo sorriso.
      A outra corou e imediatamente voltou  postura costumeira. Fingindo no perceber, Luciana continuou:
      - Mas para que no se envaidea, acho seu vestido muito triste e em desacordo com a beleza do seu sorriso. Essa cor  muito severa; voc, de rosa ou de verde, 
ficaria mais bonita. Acha que a cor do meu vestido fica bem com o tom da minha pele?
      Maria Lcia olhou-a e achou-a linda. Porm balbuciou:
      - No sei...
      - Somos amigas. Entre amigas trocam-se idias sobre moda, beleza.  verdade que os gostos so diferentes. Voc gosta da cor do seu vestido, por certo. J eu, 
ach que ficaria melhor de outra cor. Eu gosto do meu, mas voc pode pensar diferente. bom trocar opinio. Olhe para mim, o que acha do meu vestido?
      -  bonito. Fica-lhe muito bem.
      Luciana beijou-lhe a face com alegria.
      - Obrigada, querida. Voc  gentil.
      Fingiu no ver o embarao e o rubor da outra. Ficaram to entretidas que o tempo passou rpido. Luciana, vendo que o sol j estava para ocultar-se e que a 
tarde findava, levantou-se dizendo:
      - J est escurecendo! Passei da hora. Voc tinha algum compromisso?
      Maria Lcia balanou a cabea negativamente e Luciana continuou:
      - Sinto muito! Estava to agradvel aqui, conversando com voc que esqueci de tudo.
      Maria Lcia queria dizer que apreciara a tarde, mas no teve coragem.
      - Desculpe. Vou embora agora. Vamos entrar.
      Maria Helena estava curiosa. Aquela professora era diferente. Passara a tarde no jardim, fora alm do horrio combinado. Ao entrar na sala, Luciana foi logo 
dizendo:
      - Desculpe, D. Maria Helena. Abusei da hora. Estava to agradvel nossa conversa que nem percebemos passar o tempo. Maria Lcia disse-me que no tinha outro 
compromisso.
      A curiosidade de Maria Helena acentuou-se. Ningum achava agradvel passar a tarde com Maria Lcia. O que teria acontecido?
      -  verdade. Alegro-me que tenham apreciado a aula.
      Luciana sorriu levemente ao dizer:
      - Hoje, preferi cultura artstica. Faz parte da formao musical. Trouxe este livro de arte para ilustrar nossa aula. Gostaria que a senhora o examinasse. 
Trata-se de obra rara da coleo de minha av.
      Maria Helena apanhou-o admirada. Folheou-o com delicadeza. Era uma preciosidade. Estava satisfeita. Comeava a pensar que essa professora fora um achado. Alm 
de no aborrecer-se com a burrice da filha, tinha classe e cultura invejveis. D. Eudxia nunca tivera essa idia. Intrigava-a o ar tranqilo de Maria Lcia e a 
satisfao de Luciana. Achar agradvel dar aula para sua filha era de espantar.
      Devolveu o livro dizendo com satisfao:
         -  uma preciosidade!
         - Sabia que ia apreciar.
      Apanhou sua pasta, guardou o livro e despediu-se. Sentia-se esperanosa e feliz. Haveria de alcanar seu objetivo.

CAPTULO 6

      Na semana seguinte, ao chegar para a aula, Luciana, con pontualidade que fazia questo de manter, encontrou Maria Lcia na postura de sempre. Contudo, percebeu 
que ela vestira um vestido cor-de-rosa. Aproximou-se dela beijando-a na face.
      - Como vai? - indagou atenciosa.
      - Bem - disse ela. - Voc hoje demorou!
      Luciana respondeu com naturalidade:
      - Senti saudades de voc. O tempo custou a passar. Hoje, vamos aproveitar bem nossa aula.
      - Aqui nesta sala, tem muitas coisas que foram feitas pelas mos. Enquanto esperava, fiquei contando.
      - Assim no vale. Voc vai ganhar. Eu ainda no observei nada!
      Maria Lcia sorriu e seus olhos brilharam. Num gesto carinhoso, Luciana passou a mo pela face da moa.
      - Voc tem covinhas encantadoras quando sorri. J percebeu isso?
      Maria Lcia corou. Luciana fingiu no ver. Continuou:
      - Ns, mulheres, precisamos descobrir nossos encantos para real-los..
      - Voc  muito bonita - disse Maria Lcia.
      Luciana passou o brao sobre os ombros dela.
      - Fao o possvel para parecer melhor. No acredito em feira. A beleza est em todas as pessoas.  preciso cultiv-la.
      Maria Lcia abanou a cabea negativamente.
      - No concorda?
      Ela baixou a cabea sem responder. Luciana no insistiu.
      - Vamos nos sentar aqui, neste sof, para nossa aula.
      Maria Lcia obedeceu e como Luciana no dissesse nada, levantou os olhos curiosa. Luciana detinha nas mos uma pasta de couro.
      - Voc trouxe o livro?
         - Trouxe.
      Com calma tirou-o da pasta colocando esta sobre uma mesa lateral.
      - Hoje eu estou em desvantagem. Voc pensou no assunto, eu no, O que mais tem aqui feito pelas mos?
      Com certa ansiedade, Maria Lcia comeou a enumer-las, e Luciana percebeu que a menina havia conseguido mais do que esperava. Sentiu-se feliz.
      - Voc viu tudo. No deixou muita coisa para mim. Ganhou longe. - Tomou a mo de Maria Lcia e continuou: - Sinta como nossas mos so preciosas. Eu, s vezes, 
quando as movimento, agradeo a Deus por possui-las. Se eu quiser, poderei fazer muito mais coisas com elas. No  uma beleza?
      Maria Lcia olhava suas mos admirada.
      - H tambm os ps. - A outra olhou-a curiosa. - Acha que eles s servem para andar?
      -  - fez Maria Lcia. - Nunca olhei para eles.
      - Sente-se aqui, perto de mim, vamos ver no livro.
Abriu uma pgina onde havia uma sapatilha de bal.
         - Voc gosta de bal?
Ela deu de ombros.
         - No sei...
         - Nunca foi ao teatro assistir a um bal?
         - Nunca.
      Luciana virou a pgina onde havia um quadro retratando uma bailarina.
      - Essa foi uma das melhores bailarinas do mundo. Quando danava, encantava pela graa, leveza e arte. Vendo-a em cena, as pessoas choravam de emoo tocadas 
pelo seu talento. Gostaria de conhecer sua histria?
      Os olhos de Maria Lcia brilhavam quando respondeu:
      - Sim.
      Com voz suave e emocionada Luciana fez a narrativa que Maria Lcia ouviu encantada.
      Maria Helena estava curiosa. As duas moas estavam na sala de msica, mas no se ouvia o piano. O que estariam fazendo? No lhe passara despercebido que a 
filha mostrava interesse pelas aulas. Procurava dissimular, mas, ainda assim, notava-se que se impacientava pela chegada de Luciana.
      Esperou e quando o horrio da aula acabou, como as duas ainda permanecessem na sala, ela entrou.
      As moas estavam sentadas lado a lado no sof, o livro aberto no colo de Luciana que falava animada. Olhos brilhantes, Maria Lcia ouvia-a com muito interesse.
      Maria Helena admirou-se vendo a expresso comovida da filha e o brilho de seus olhos. Luciana interrompeu-se, vendo-a entrar.
      -        Pensei que a aula j houvesse terminado - disse.
      -        Estou no fim, - esclareceu Luciana. - Permita-me terminar.
      -        Claro, eu me retiro.
      -        Pode ficar, D. Maria Helena. Ela fez da arte a expresso dos seus sentimentos. Conseguiu tocar a alma das pessoas, fazendo-as perceber a beleza que 
guardavam dentro de si. Quem a viu danar um dia, nunca mais a esqueceu. Veja, Maria Lcia, como os ps podem expressar a beleza, a alegria, a arte. Nesses dias 
vamos pensar como os nossos ps so importantes e merecem ser valorizados. Sem eles no poderamos ir a parte alguma.
      Maria Lcia baixara o rosto na postura costumeira, aparentando indiferena.
      -        Esto estudando arte? - disse Maria Helena.
      -        Estamos estudando a vida, a beleza e a manifestao da arte.
      -        timo, - considerou Maria Helena, satisfeita.
      -        Um grande artista  sempre um instrumento do belo e da elevao dos sentimentos. Toca a nossa alma e nos aproxima de Deus.
      Maria Helena olhou-a com admirao. Luciana falava com segurana, desembarao e naturalidade. Sentiu vontade de conversar mais com ela.
      -        Aceitaria ficar e tomar ch conosco?
      Luciana balanou a cabea num gesto gracioso.
      -        Teria muito gosto. Hoje, porm, no posso demorar-me. Um outro dia, talvez, aceitarei com prazer.
      Maria Lcia, olhos baixos, no escondia a inquietao. No parecia a moa de momentos antes. Para Luciana, foi fcil perceber que a presena da me a constrangia 
e irritava.
      Com naturalidade e calma, guardou o livro e aproximando-se de Maria Helena disse com simplicidade:
      - Boa tarde, D. Maria Helena. Obrigada pelo convite. - E voltando-se para Maria Lcia:
      - At tera-feira. Aproveite bem seu tempo como da outra vez. Sua filha, D. Maria Helena, teve timo aproveitamento da nossa aula anterior. Foi melhor do que 
eu.  muito observadora e inteligente.
      A moa corou, porm nada disse. Sentiu uma sensao nova envolv-la. Acabara de ser elogiada.
      Maria Helena no ocultou seu espanto. Estaria Luciana querendo agrad-la? O ar srio da moa no lhe permitia essa suposio.
      - Acompanho-a at a porta - disse com amabilidade. Uma vez longe de Maria Lcia, ela no se conteve:
      - Voc fez uma afirmativa surpreendente ainda h pouco. Parece-me por demais otimista. Estou ciente dos problemas de Maria Lcia. A inteligncia no  seu 
forte.
      - Desculpe, mas no concordo. Maria Lcia tem problemas, no nego, mas no  pobre de inteligncia. Em alguns momentos tem se mostrado muito perspicaz; tenho 
testado sua capacidade e apesar do pouco convvio que tivemos, pude perceber que quando ela gosta do assunto, capta com facilidade. Estou observando e estabelecendo 
um plano para despertar nela a alegria de viver, Isso  o que lhe falta. A depresso em que vive, a impede de sentir entusiasmo, de perceber as coisas boas que poderia 
desfrutar com sua juventude, sua famlia, seus amigos e principalmente enriquecer o esprito aprendendo com as experincias do dia-a-dia.
      Maria Helena estava boquiaberta.
      - Ela no consegue aprender direito. Todos os seus professores disseram isso!
      - Ela tem bloqueios psicolgicos. Por isso tenho procurado prepar-la para aprender msica. Se eu for direto ao piano, ela no vai aprender. Desejo que ela 
sinta essa necessidade.
      - Ela no gosta de nada. Jamais vai sentir isso.
      - Se ela no sentir, jamais poder tocar. A msica  a voz do sentimento e para ser um bom intrprete h que senti-la.
      Maria Helena suspirou.
      - Quero que ela aprenda alguma coisa. Sou me, tenho o dever de educ-la.
      Luciana sorriu com suavidade:
      - Se a senhora me permitir continuar, acredito que ainda se surpreender.
      - Claro que desejo que continue. Receio que se decepcione e desista.
      Luciana sacudiu a cabea.
      - No vou desistir, D. Maria Helena. Sua filha  como uma pequena planta delicada e cheirosa, sufocada pelos galhos mais fortes dos arbustos que a cercam. 
Precisa apenas enxergar seu espao. Um dia crescer e abrir seu prprio caminho, transformando a paisagem e encantando com sua beleza, distribuindo seu perfume. 
A senhora sentir-se- feliz vendo-a desabrochar. Passar bem, D. Maria Helena.
      Com um gesto gracioso, Luciana afastou-se.
      Maria Helena entrou pensativa. As ltimas palavras de Luciana perturbaram-na. O que teria ela querido dizer? Elogiara Maria Lcia! Era inusitado. Estaria sendo 
sincera?
      Quando Jos Luiz chegou, contou-lhe o que se passara.
      - Essa moa  diferente dos outros professores. No estar se iludindo? Elogiar Maria Lcia! Ser ela to pouco exigente?
      Jos Luiz pensou um pouco antes de responder, depois
      - Ela pareceu-lhe leviana?
      - No. Ao contrrio. Parece segura do que afirma. Garante que Maria Lcia  inteligente! No posso acreditar. Alguma coisa est errada.
      - No a entendo. Voc temia que ela desistisse de ensinar Maria Lcia. Est acontencendo exatamente o contrrio. De que se queixa?
      Ela age de forma diferente.
      - Tem mtodos modernos. Estudou na Europa. No se esquea que  educadora e pelo que me informaram, das melhores.
      - Quando entrei na sala, o rosto de Maria Lcia parecia outro. Seus olhos brilhavam e sua fisionomia era expressiva. Logo voltou a ser como sempre, mas reconheo 
que estava modificada. Sabe o que a professora contava? A vida da maior danarina do mundo.
disse:
      - Est certo. Ela deseja que Maria Lcia aprecie arte. Se despertar-lhe o interesse, facilitar sua aprendizagem. Acho a idia brilhante!
      -        Pode ser. Receio que se desiluda. Garantiu-me que no vai desistir.
      - Melhor assim. Os outros nunca conseguiram nada. Vamos apoi-la.
      -        Quero conhec-la melhor. Formar uma opinio mais de perto.
      -        Como quiser. Entretanto, d-lhe liberdade de ao para ensinar Maria Lcia. Talvez ela esteja agindo certo.
      -        Tenho minhas dvidas. Conheo nossa filha, infelizmente! Mas, no vou interferir por enquanto.
      -        Melhor assim - concluiu Jos Luiz, aliviado.
      Confiava em Luciana. Sentia necessidade de visit-la para falar sobre o assunto. Iria v-la na noite seguinte.
      Sentado confortavelmente em gostosa poltrona em casa de Luciana, Jos Luiz ouvia-a falar sobre Maria Lcia. Quando ela terminou, disse:
      -        No desejo desanim-la, mas no estar demasiado otimista?
      Luciana sacudiu a cabea negativamente.
      -        No. Maria Lcia no  a pessoa indiferente e inexpressiva que aparenta.
      -        Ela estar dissimulando? - perguntou ele com ar de incredulidade.
      -        Isso no. Eu diria que ela se defende.
      -        No compreendo.
      -        Ela se acredita incapaz e por isso receia cometer erros, bloqueia seus sentimentos reais, admite a prpria incapacidade para no ter que fazer nada. 
Agindo assim, julga proteger-se da critica.
      Ele admirou-se:
      -        Por que agiria assim?
      Luciana deu de ombros num gesto gracioso e muito seu.
      -        No sei.  cedo para que eu possa afirmar alguma coisa. Porm, percebo que D. Maria Helena faz distino entre os dois filhos. No esconde sua admirao 
por Joo Henrique e sua decepo pela filha.
      - Posso perceber isso, porm ela age assim justamente porque eles so muito diferentes. Se Maria Lcia fosse uma pessoa como todo mundo, por certo Maria Helena 
reconheceria e seria muito feliz, pode crer. Ela, mais do que ningum, lamenta a postura de nossa filha.
      -        Certo. No estou afirmando que a postura de D. Maria Helena tenha originado o problema. Mas que o tenha agravado, no tenho dvidas.
      -        Voc acha?
      -        Acho. No vai aqui nenhuma crtica. Seu comportamento , at certo ponto, natural dentro da situao. Ela desconhece os problemas do passado espiritual.
Jos Luiz remexeu-se na poltrona.
         - Esses seus assuntos so muito complicados.
      -        Ao contrrio. Podem esclarecer muitos problemas como os de Maria Lcia. Prova, de inicio, que cada pessoa traz ao nascer suas experincias de outras 
vidas. Mesmo que voc no deseje aceitar essa verdade, s a reencarnao pode esclarecer as diferenas de personalidade entre os filhos de um mesmo casal, em igualdade 
de condies. A gritante disparidade entre seus filhos parece-lhe explicvel de outra forma?
      Jos Luiz baixou a cabea pensativo. Esse enigma sempre lhe ocorria sem qualquer explicao possvel.
      -        Essa idia de reencarnao parece-me fantasiosa. Ter vivido em outro corpo, ter sido outra pessoa,  loucura!
      -        Mais loucura  acreditar que se viva na Terra apenas uma vez e que se tenha to pouco tempo para conquistar a sabedoria. Essa idia apequena as coisas 
de Deus e limita muito nossas chances de felicidade. Por outro lado, a possibilidade de voltar a este mundo para desenvolver nossos conhecimentos e amadurecer nosso 
esprito, abre-nos as possibilidades e faz-nos perceber a bondade de Deus.
      -        No deixa de ser um belo sonho, - disse ele. Luciana sorriu.
      -         realidade, papai, no sou eu quem afirma isso. Em todas as partes do mundo, na Europa, na Amrica, muitos cientistas estudaram esse assunto e afirmaram 
essa verdade.
      Jos Luiz olhou-a admirado.
      - No sabia.
      -  verdade. Na Frana, o professor Rivail; na Itlia, o grande Bozano; enfim, homens srios, estudiosos, cientistas interessados em descobrir a verdade o 
afirmaram. Sem falar das pessoas que se recordam de coisas, fatos ou pessoas que conheceram em vida anterior.
      - Vamos supor que fosse verdade - disse ele - em que esclareceria o caso de Maria Lcia?
      - Eu no sei quais os fatos que a tornaram assim, que a fizeram bloquear seus verdadeiros sentimentos, mas, podemos supor que eles tenham sido causados por 
alguma experincia dolorosa, provavelmente de dependncia, onde foi dominada ou se deixou dominar por algum durante muito tempo e perdeu sua prpria identidade. 
Quando deixamos que os outros nos dominem, por temor ou por amor, por comodismo ou por insegurana, perdemos o contato com nossa prpria essncia, com nosso eu interior 
e passamos a agir como autmatos das idias alheias, produto do meio social ou do condicionamento familiar. Como no usamos nossa fora interior, sentimo-nos inseguros 
e a cada dia mais e mais receamos o fracasso e nos julgamos incapazes.
      Jos Luiz fez um gesto vago.
      - Como saber? Se ela teve problemas em outra vida, como descobrir se ningum se lembra de nada? Como ajud-la?
      - Tanto se lembra que continua agindo sob a ao do passado. Ela no est consciente apenas, mas na ao, esse passado se revela em suas atitudes e comportamento.
      - No seria intil e injusto isso? Sofrer sem saber a causa.
      - No. Embora ns tenhamos vivido outras vidas na Terra, somos o mesmo esprito, a mesma personalidade que viveu em corpos diferentes, tempos de experincia. 
A morte no modifica nossa essncia e nem nos torna diferentes do que somos s porque nosso estado fsico foi modificado. Nossa individualidade aprende sempre e 
s gradativamente vai conquistando a sabedoria. S nos libertamos dos nossos problemas ntimos quando conseguimos modificar nosso esprito. Podemos carregar o mesmo 
desequilbrio durante muitas encarnaes seguidas, at podermos venc-lo.
      Jos Luiz ficou srio. Seria verdade isso? Luciana continuou:
Os olhos de Jos Luiz encheram-se de lgrimas:
      -        Ah! Se eu pudesse v-la ainda que fosse por alguns segundos!
Luciana olhou-o sria:
      -        Quem sabe um dia voc tambm possa. Contudo, o fato de voc no conseguir, no a impede de estar a seu lado, de abra-lo e ajud-lo sempre.
      -        Eu no mereo.
      - Ela no pensa assim. Sei que lhe deseja todo o bem do mundo.
      -        O que  prprio de sua alma nobre. Como pude ser to cego?
      Luciana sorriu:
      - O passado acabou. Nada poder modific-lo. Vamos viver o presente com alegria e amor. Renovando as idias e procurando ser melhor.
      Conversaram durante algum tempo e quando Jos Luiz saiu, beijou-a na testa com afeto e reverncia. As palavras que Luciana lhe dissera, podiam ser questionadas 
ainda por sua mente ctica, mas havia algo nelas que falava ao seu corao e infundia-lhe muito respeito e admirao.

CAPTULO 7

      Sentadas na luxuosa sala de estar, Maria Helena, Luciana e Maria Lcia, saboreavam o ch. Naquela tarde, aps a aula, Maria Helena insistira e Luciana julgara 
indelicado recusar. Na mesa auxiliar, guloseimas servidas pela criada impecvel.
      Maria Helena conversava com Luciana, enquanto que Maria Lcia permanecia na postura costumeira. Porm , Luciana percebia que sob aquela atitude de indiferena, 
os olhos da moa, de quando em vez, refletiam um interesse que ela se apressava em esconder.
      Conversaram sobre arte e Maria Helena encantou-se com a erudio e a ponderao de Luciana. Depois, interessou-se pela sua vida pessoal, perguntando sobre 
sua av e seus pais.
      Com naturalidade, Luciana contou-lhe em rpidas palavras a morte de sua me e do av.
      - E quanto a seu pai? - inquiriu ela.
      - Morreu antes do meu nascimento.
      Julgava a curiosidade de Maria Helena inoportuna e delicadamente contou a histria costumeira e que at h pouco julgara verdadeira.
      - Ah! Por certo deixou-lhe bens. Vejo que recebeu excelente instruo.
      Luciana concordou com a cabea.
      - Minha me e tambm minha av sempre fizeram questo que eu cursasse bons colgios e tivesse boa formao. Estudei na Inglaterra, como sabe.
      - Sei...
      Nesse momento, a porta abriu-se e Joo Henrique entrou acompanhado por dois amigos. Vendo Luciana, olhou-a admirado.
      Maria Helena levantou-se. Seu rosto iluminara-se vendo o
filho.
          - Que surpresa agradvel, meu filho.
      O moo beijou a face da me que estendeu a mo aos dois rapazes, dizendo:
      - Ulisses e Jarbas, que prazer!
      Os moos curvaram-se beijando delicadamente a mo que ela lhes estendia.
      - Desejo apresentar-lhes a srta. Luciana, professora de Maria Lcia. Este  Joo Henrique e seus colegas de faculdade, Jarbas e Ulisses.
      Luciana fez gracioso aceno com a cabea olhando para os trs rapazes.
      - Encantado - disse Jarbas.
         - Prazer - disse Joo Henrique.
         - Como vai? - disse Ulisses.
      Maria Lcia continuava de olhos baixos sorvendo seu ch. Joo Henrique ignorou-a. Os outros dois disseram um " Como vai, Maria Lcia?" mais por hbito, sem 
esperar nenhuma resposta.
      - Chegaram em boa hora - disse Maria Helena. -Acomodem-se e tomem um ch conosco.
      Os rapazes aceitaram de bom grado.
      Vendo Joo Henrique, Luciana compreendeu porque a me o admirava tanto. Sua figura alta, elegante, seu rosto fino e bem-feito, seus cabelos fartos e naturalmente 
ondulados de belo tom castanho dourado, eram bela moldura para seus olhos brilhantes e magnticos. Deve ter fora de vontade e sempre conseguir o que quer, pensou 
ela. Era parecido com a me, embora os cabelos se assemelhassem aos do pai.
      Jarbas era moreno, alto, cabelos escuros tambm ondulados, lbios bem-feitos e sorriso agradvel, mostrando dentes alvos e bem distribudos. Ulisses, estatura 
mediana, louro, olhos claros e sonhadores, barba bem cuidada ao redor de seus lbios rosados.
      Os trs eram bonitos, elegantes. Conversando alegremente procuravam disfaradamente observar Luciana.
      De onde viera aquela beldade? Nenhum deles se lembrava de t-la visto nos sales ou nos teatros. Onde se escondera?
      Luciana continuava calma e discretamente a tomar seu ch. Maria Helena conduzia a conversao procurando ser agradvel. Joo Henrique levantou-se e foi sentar-se 
ao lado de Luciana no sof.
      - Permite?
      - Certamente. - disse ela.
      - Mame tem me falado sobre a srta. Seus mtodos so diferentes.
      - As pessoas so diferentes umas das outras. No se pode generalizar.
      - As coisas quando so certas e verdadeiras o so para todas as pessoas.
      - Se se refere s leis da vida, concordo plenamente, mas no posso deixar de perceber que a vida, mesmo tendo suas leis bsicas as quais obedece, no conduz 
as pessoas da mesma maneira. A cada um d as oportunidades que precisa para desenvolver-se e aprender.
      Joo Henrique surpreendeu-se. No esperava essa resposta. Estava habituado sempre a dizer as coisas e os outros ouvirem. Felizmente no percebeu o brilho alegre 
dos olhos dos dois amigos, deliciando-se com a resposta dela.
      - Vejo que  observadora, - disse.
      Serviu-se de ch e permaneceu silencioso. Luciana terminou seu ch, levantou-se e dirigindo-se a Maria Helena:
      - D. Maria Helena, preciso ir. Agradeo seu convite. O ch estava delicioso.
      Aproximou-se de Maria Lcia que parecia mais aptica do que nunca, abraou-a delicadamente, beijando-lhe a face com carinho.
      - At outro dia - disse - no se esquea do que combinamos. - Curvando-se ligeiramente diante dos rapazes, saiu depois de apanhar sua pasta sob a mesa.
      Os rapazes observaram-lhe a figura graciosa que se afastava.
      - Que mulher! - disse Jarbas, baixinho.
      - Onde se esconde? - indagou Ulisses.
      Joo Henrique olhou-os srio. Maria Helena sorriu:
      - Vocs no podem ver uma moa, ficam logo entusiasmados!
      - Uma beldade dessas! - tornou Jarbas.
      - Uma mulher inteligente. Coisa rara! - disse Ulisses. Notando o olhar de Maria Helena sobre ele, prosseguiu amvel: -Um privilgio de D. Maria Helena, to 
bela quanto inteligente.
          Maria Helena sorriu maliciosa.
          - Vocs so galanteadores. Sentem-se e continuem seu
ch.
      Os rapazes acomodaram-se e conversaram animadamente. Quando Maria Helena deixou a sala, eles passaram a falar da companhia de revista, cuja estrela fazia lotar 
o teatro todas as noites.
      Um pouco corada, Maria Lcia levantou-se e saiu da sala. Joo Henrique fez um gesto de aborrecimento.
      -        Desculpe, Joo, esqueci que sua irm estava na sala -justificou-se Ulisses.
      -        Puxa! Que gafe! Talvez ela no tenha prestado ateno. Ela nunca se interessa pelos nossos assuntos.
      Joo Henrique deu de ombros.
      -        No faz mal. Nos distramos. Voltemos ao assunto, agora estamos ss.
      -        Eu gostei do espetculo.  uma bela mulher - opinou Jarbas.
      -        Pois eu prefiro essa professorinha que estava aqui -ajuntou Ulisses.
      - Que idia! - fez Joo Henrique. - So to diferentes. No h termo de comparao.
      Uma  artista, cheia de alegria de viver, empolga multides; a outra  s uma simples professorinha.
      Ulisses suspirou:
      -        Pois eu a prefiro. O brilho de seus olhos mexeu comigo. Quero voltar a v-la.
      -        Se o fizer, que mame no saiba.
      -        Por qu? Tencionava pedir informaes a D. Maria Helena.
      Joo Henrique sacudiu a cabea negativamente.
      -        Ela no vai gostar.  muito rigorosa com essas coisas. Por certo, despedir a moa se desconfiar que um de ns est interessado nela.
      -        Hum! - fez Ulisses, pensativo. - No faz mal.
      -        Desistiu? - brincou Jarbas.
      -        No. Mas darei outro jeito - respondeu ele.
      Maria Lcia fora para o jardim envergonhada. Os rapazes conversaram sobre mulheres de forma desrespeitosa - pensou ela. No se lembraram que ela estava ali.
      Sua me lhe dizia que esse tipo de espetculo no era prprio para mulheres honestas. Jamais falava sobre isso em sua presena.
      De repente, ela sentiu o aroma de jasmim. Era bom sentir esse perfume. Dirigiu-se ao banco onde se sentara com Luciana e sentou-se. Ela era linda! Vira a admirao 
no rosto dos rapazes. At Joo Henrique tinha conversado com ela. Ele nunca dirigira a palavra a D. Eudxia.
      Luciana era forte, pensou, no se intimidava com a presena dos moos nem com a pose de seu irmo. Sorriu pensando na resposta que ela lhe dera. Logo ele, 
to sabicho!
      Luciana tornara-se seu dolo. Em suas fantasias, copiava a moa, via-se como ela. Ah! se pudesse ser como ela! Mas isso era impossvel. Nunca nenhum moo a 
olhara como o fizeram para Luciana. Ela era feia e intil. To intil que ningum sequer reparava em sua presena.
      Sentiu uma raiva surda brotar dentro do peito. Teve vontade de voltar  sala e ver se eles continuariam a conversar assuntos proibidos diante dela. Contudo, 
ficou ali, trmula, sentindo as lgrimas rolarem pelas faces e uma imensa angstia no corao.
      Aos poucos, foi passando e ela sentiu-se mais calma. Continuou sentada, sentindo o cheiro do jasmim. Lembrou-se das palavras de Luciana:
      - Veja como  linda a natureza. Sinta esse perfume. Olhe os pssaros como esto felizes.
      Levantou os olhos e olhou ao redor. O cu estava colorido pelos ltimos raios do sol que j se ocultara no horizonte, e os galhos dos arbustos balanavam docemente. 
Olhou aquela cena como se a estivesse vendo pela primeira vez. Que desenhos caprichosos as cores faziam no cu! Era mesmo uma beleza.
      - Maria Lcia!
      A moa sobressaltou-se. Ulisses estava no banco a seu lado.
      - O qu?
      - Desculpe. No pretendia assust-la. Voc estava to distrada olhando o cu...
      - Ah!
      - Preciso de um favor seu. Sua me no deve saber.
      A moa ruborizou-se. Ele prosseguiu:
           -  sobre a srta. Luciana. Desejo voltar a v-la. Pode dar-me seu endereo?
       -        No o tenho. - disse. - Mame  quem sabe. Mas ela vai estar aqui na quinta-feira.
       -        Obrigado - disse ele contente. Apanhou a mo de Maria Lcia e a beijou com galanteria: - Fez-me um grande favor.
       Saiu rpido e Maria Lcia sentiu seu corao bater forte. Fora a primeira vez que um moo bonito, elegante, lhe beijara a mo. Levantou o brao e passou as 
costas da mo pela face. Sentiu uma onda de calor envolver seu corao. Teve vontade de cantar. Ficou ali, pensando at que a noite desceu e a criada surgiu chamando-a 
para o jantar.
       Quando Luciana chegou na quinta-feira, Maria Lcia esperava-a ansiosa. Luciana percebeu, mas agiu com naturalidade.
       -        Hoje, faz um ms que nos conhecemos. - disse. -Vamos ao piano?
       Maria Lcia fez um gesto Contrariado.
       -        No gostou da idia? Escolhi alguns exerccios que Considero bons para ns.
       -        Est bem - disse a moa com ar desanimado.
       Luciana colocou a mo em seu ombro.
       -        Olhe para mim, Maria Lcia. Pode ser franca comigo. No quer estudar piano?
       No lhe passou despercebido o rpido lampejo dos olhos da moa.
       -         isso? - insistiu Luciana.
- .
       -        Por que no me disse?
       -        No quero que voc v embora.
           - Ah! Voc sabe que eu estou aqui para ensin-la a tocar piano e que se eu no o fizer, terei que ir embora. Certo?
- .
       -        Mas voc no gosta de piano. Eu diria mesmo que o odeia.
       Ela baixou a cabea e no respondeu. Luciana segurou o seu queixo e levantou-lhe o rosto.
- Olhe para mim, nos olhos. Somos amigas. No precisa ter segredos comigo. Eu no quero deixar de vir aqui, porque eu gosto de voc. Quero ensin-la a perceber muitas 
coisas que voc no v e ajud-la a tornar-se uma pessoa amada, alegre e feliz. Voc quer?
      O rosto de Maria Lcia iluminou-se, e ela atirou-se nos braos de Luciana chorando convulsivamente.
      Luciana abraou-a com carinho e esperou que ela se acalmasse. Depois, f-la sentar-se no sof e sentou-se a seu lado.
      -        Precisamos conversar seriamente. Voc confia em mim e quer mudar?
      Maria Lcia, lbios trmulos, mos frias e rosto molhado, respondeu baixinho:
      -        Quero.
      Luciana tornou:
      -        O que disse?
      -        Quero - disse ela um pouco mais alto.
      -        Repita. No ouvi nada.
      -        Quero! tornou ela, elevando mais o tom.
      -O qu?
      -        Quero - repetiu quase gritando desta vez.
      -        Repita vrias vezes: Eu quero mudar! Fale forte e alto.
      Maria Lcia obedeceu e repetiu a frase e  medida que o fazia, sua voz tornava-se mais firme e forte. Seu rosto modificava-se  medida em que falava. Luciana 
levantou-se e pegando-a pelo brao disse:
      -        Venha comigo. Aqui. Olhe no espelho. Veja como voc est linda!
      Maria Lcia obedeceu. Olhou-se. Parecia outra pessoa. No saberia dizer o qu, mas sentia-se diferente. Luciana continuou:
      -        Voc  uma moa muito bonita. Veja que olhos lindos possui. Sua tez  delicada, seu rubor a torna mais bela. Sua boca  bem-feita. Seus cabelos so 
como os de seu irmo. Por que os prende severamente?
      -        Ningum me acha bonita - balbuciou ela.
      -        Os outros acham aquilo que voc acredita.  voc que precisa gostar de si mesma, realar sua beleza.
      - Posso ficar horas em uma sala que ningum repara em mim.
      - Voc se fecha e no permite que ningum se aproxime. Sente-se apavorada quando algum chega perto.
      - Ontem, os moos olharam para voc com admirao. Porque voc  bonita. Quando voc saiu e mame tambm, falaram coisas imprprias, esqueceram que eu estava 
ali.
      - Voc ficou com raiva.
         - Eu sa. Tive vergonha.
         - O que fez depois?
      - Fui ao jardim. Senti o perfume das flores e sentei naquele banco.
      - S?
      - Eu chorei de raiva. Depois, olhei o cu, estava to lindo, todo cor-de-rosa. Foi a que o Ulisses apareceu. Levei um susto.
      - E depois?
      - Ele queria saber de voc. Seu endereo. Eu no sabia e disse-lhe que voc viria hoje...
      Ela parou um pouco ruborizada e passou as costas da mo pela face.
      - Conte o resto.
Ela sacudiu a cabea negativamente.
         - Vamos, o que foi?
         - Ele disse obrigado e beijou minha mo.
         - Voc desejou ser bonita, amada, cortejada!
Maria Lcia baixou a cabea sem coragem para confirmar.
      - Eu acredito em voc - tornou Luciana, - voc  bonita, mas falta-lhe colocar fora a chama interior. Voc no permite que ela se expresse. Impede-a de todas 
as formas de manifestar-se. A beleza fsica s  completa quando vivificada pela fora da alma. esse algo que atrai, que prende, que alimenta. Voc quer mudar. 
Eu quero ajud-la.
      - Eu no sei como!  difcil!
      - No se faa de fraca, coisa que voc no ; nem de burra, o que tambm no . Nem de vtima o que no  verdade.  timo ficar na posio de vtima, pobre 
menina, mal-amada pela me, ignorada pelos demais e incapaz de aprender as coisas. Porque assim, voc envergonha sua me, arrasa todo mundo que precisa agentar 
sua presena infeliz. Sabe o que eu acho? Que voc age assim por vingana.
      Maria Lcia olhava-a, olhos muito abertos, sustendo a respirao.
      - Confesse que voc atormentava D. Eudxia errando as lies, e a sua me, aparecendo mal-arrumada e deselegante. Olhe para voc. Se vinga deles, mas a que 
preo? E a sua felicidade? E o amor? Posso ver atravs de voc como um livro aberto. E sei que se voc no lutar para ser feliz, ningum a poder ajudar! Nem eu, 
nem Deus!
      A surpresa emudeceu Maria Lcia. No encontrava nada para dizer. Luciana calmamente conduziu-a at o sof, fazendo-a sentar-se.
      -        Para que eu possa continuar vindo aqui, precisamos ir ao piano, estudar um pouco. Sua me no vai me aceitar se no fizermos isso. Quer correr o risco?
      -        No, vamos ao piano.
      -        Sem errar de propsito.
      -        Est bem.
      -        Prometo que escolherei peas bonitas e que estudaremos com prazer.
      -        Concordo.
      Maria Helena, ao passar pela porta da sala de msica, ficou agradavelmente surpreendida.
      O som do piano se fazia ouvir limpo e sem erros. Teria acontecido um milagre? Teve vontade de abrir a porta para verificar se realmente quem estava tocando 
era Maria Lcia. Conteve-se. Era melhor no intervir. Aquela professora era mesmo inteligente. Usara mtodos diferentes, mas tinha que reconhecer que dera bons resultados.
      Ao terminarem os exerccios, Luciana tornou satisfeita:
      -        timo. Voc tocou to bem que podemos passar adiante. No pensei que estivesse to adiantada.
      Maria Lcia corou de prazer. Fora fcil executar aqueles exerccios. Ao despedir-se, Luciana sentia-se feliz. Fora muito proveitosa a aula, e ela sentia que 
a cada dia Maria Lcia despertava para a realidade. Havia em Maria Lcia alguma coisa que a tocava profundamente. Sentia que lhe queria bem de verdade. Gostaria 
de poder lev-la para sua casa e estar o tempo todo a seu lado para transform-la, ensinando-a a ser feliz. Isso ainda no era possvel. Precisava ser paciente. 
Contava obter sucesso.
      Saiu sobraando sua pasta de couro e havia andado alguns passos quando algum aproximou-se:
- Srta. Luciana!
       Ela voltou-se.
       - Sr. Ulisses!
-        Como vai? - perguntou ele curvando-se com delicadeza.
-        Bem. Vai  casa de D. Maria Helena?
-        No. ia passando quando a vi. Posso acompanh-la?
       Luciana sorriu:
-        Vou tomar o bonde perto daqui. No se incomode.
       -        Absolutamente. Uma dama sozinha pelas ruas, no prudente. Ainda mais como a srta.
       -        Est bem, - disse. - Vamos andando.
       Ulisses olhou-a com admirao.
       -        Quando a vi ontem, tive vontade de conhec-la melhor. No entanto, no tive oportunidade. A srta. retirou-se cedo!
       -        No costumo abusar da hospitalidade. D. Maria Helena tem sido muito gentil comigo.
       -        Ela  muito exigente com suas relaes. Seu convite  sempre um cumprimento. Mas, no me lembro de t-la visto antes. No gosta da vida social?
       -        Depende do que chama vida social. Sempre me relaciono com pessoas que aprecio e procuro conviver com elas. Quanto a obrigaes, ao relacionamento 
meramente ocasional e de contato no dia-a-dia, procuro ser cordial, sem intimidade.
       -        No freqenta teatros ou reunies sociais?
       -        Moro com minha av e  com ela que tenho sado. Gostamos de concertos, visitamos museus e confeitarias. Ao teatro, temos ido algumas vezes. No somos 
do Rio e aqui temos nos relacionado pouco.
       -        No se sente s?
       Luciana, fixando nele os olhos brilhantes, respondeu:
       -        Nunca. Sinto-me muito bem, sou muito feliz.
       -        No fala srio. Na sua idade, os bailes, os jogos de salo... Estar comprometida com algum?
       Havia nos olhos dela uma ponta de malcia quando disse:
       -        No. No tenho nenhum compromisso.
O        moo sorriu com alegria acentuando as covinhas da face.
       Quando o bonde chegou, ele ajudou-a a subir e depois subiu e sentou-se a seu lado. Tentando desviar a ateno de si mesma, perguntou atenciosa:
       - O senhor  estudante?
       - Sou. Estou na mesma turma de Joo Henrique. Nos graduaremos ao fim deste ano.
       Foram conversando e Luciana, apesar das maneiras corteses e delicadas de Ulisses, no pretendia estreitar a amizade com ele. Alis, desgostava-a mesmo que 
ele a houvesse acompanhado. Receava que ele desejasse freqentar sua casa, o que poderia vir a tolher a liberdade de seu pai estar com ela. No queria, de forma 
alguma, que algum descobrisse seu parentesco com Jos Luiz e com isso pudesse criar uma situao embaraosa que viesse a dificultar suas visitas  Maria Lcia.
       Por mais agradvel que ele fosse e por mais interesse que demonstrasse por ela, no poderia aceitar sua amizade. Por isso, assim que desceram do bonde, ela 
estendeu a mo com um sorriso amvel dizendo com voz firme:
       - Obrigada, senhor Ulisses, por acompanhar-me.
       Ele insistiu:
       - Por favor. Ficaria mais tranqilo se a deixasse em casa.
       - No se incomode. Estou perto. Depois, no precisa preocupar-se comigo. Sou rf desde muito cedo e habituada a andar sozinha por toda parte.
       Ele no se deu por achado:
       - Parece que no apreciou minha companhia.
       Luciana no gostava de pessoas insistentes. Costumava respeitar a liberdade alheia e apreciava a sua privacidade. Apesar disso, respondeu delicadamente.
       - No se deprecie, sr. Ulisses. E no insista. Agradeo-lhe a companhia. Passe muito bem.
       Com um sorriso, Luciana estendeu a mo que ele apertou com galanteria.
       - Est bem, - disse. - No vou contrari-la. Adeus.
       Curvou-se e ficou olhando a moa afastar-se at que a viu desaparecer na curva da esquina. No se deu por vencido. Ela era arisca, mas isso tornava-a mais 
tentadora. Estava habituado a ser requestado pelas mulheres que disputavam-lhe a companhia. Haveria de dobr-la por certo. Era apenas questo de tempo. Colocando 
o chapu na cabea, atravessou a rua para tomar o bonde de volta.
       Luciana chegou em casa um pouco preocupada. Egle percebeu assim que a viu.
       - O que foi, aconteceu alguma coisa em casa de D. Maria Helena?
       Luciana sacudiu a cabea negativamente.
       - No, vov. L as coisas esto cada dia melhor. Descobri que Maria Lcia  uma moa como todas as outras, Que pode vir a ser feliz e amada, Isso me alegra.
       - timo. Mas voc chegou preocupada, o que foi?
       A moa contou-lhe o encontro com Ulisses e Egle Concluiu:
       - Ele est interessado. Fez muito bem em no aceitar. J pensou o que poderia acontecer se ele freqentasse nossa casa e viesse a encontrar com seu pai? O 
que pensaria?
       - Poderia por tudo a perder. Isso, eu no vou admitir.
       Egle suspirou, depois disse:
 um moo bom? Bonito?
       - , vov. Bonito, agradvel bem-educado e de boa famlia.
       Egle ficou alguns momentos pensativa depois disse:
       - Por causa disso voc pode estar jogando fora sua felicidade. Preocupa-me o seu futuro. Gostaria que se casasse e fosse feliz.
       Luciana abraou-a com carinho.
       - O que  meu est guardado e quando aparecer, saberei. No deve temer o futuro. Onde est sua f? Deus cuida de tudo e nos protege fazendo sempre o melhor 
em nosso favor. Precisamos sempre abrir a porta do corao para estar com ele e permitir que ele se expresse para escolhermos adequadamente nosso caminho. Sou muito 
feliz, vov, e sempre o serei, porque Deus nos criou para a harmonia e o amor, para que temer? Por que acredita que minha felicidade esteja s no casamento? O casamento 
no tem sido para muitas pessoas uma infelicidade?
       - Voc  contra o casamento, Luciana?
       - De forma alguma. Mas desejo que se um dia eu me casar, o faa conscientemente e por amor. No entanto, sei que nossa felicidade independe disso, vov.  
estado de alma,  ter alegria, amar a vida, que  to bela e to rica, usufruir dos bons momentos sentindo a beleza, a bondade, a luz. No se sente feliz agora?
       Egle abraou-a comovida:
      -        Sinto. Tenho voc. Todos os dias agradeo a Deus t-la comigo!
      A moa beijou delicadamente a face da av.
      -         isso, vov. Eu tambm estou feliz. Vamos viver o agora, sem medo ou apreenso do futuro. Deus no tem cuidado de ns at agora?
      -        Tem razo, minha filha. Sou uma ingrata. - Fez uma pausa, depois sorriu dizendo: - Mas, eu desejo ter alguns bisnetos. Estarei errada?
      -        Claro que no, vov. Quando isso acontecer, quero ver se agenta o barulho das crianas e um homem aqui, querendo dar ordens e mudar tudo.
      -        Que horror! - fez ela, assustada.
      Luciana riu gostosamente. Sua av era metdica e todas as coisas da casa deviam estar sempre nos devidos lugares. Amava o silncio e a tranqilidade.
      -        Tenho pensado em Maria Lcia, - tornou Luciana. -Apesar de D. Maria Helena no interferir, l, eu no me sinto inteiramente  vontade para trabalhar 
com ela. O ambiente  frio, solene, formal.
      -        Por que no a convida para vir aqui algumas vezes?
      -        Isso seria maravilhoso. Mas, no sei se D. Maria Helena permitiria. Ela  muito exigente com as amizades. Me aceitou como professora, mas no sei 
se concordaria em deixar a filha vir aqui.
      -        Por que no? - fez Egle, entusiasmada. - Afinal, somos pessoas bem-educadas. Agora temos uma bela casa, onde poderemos receber  altura.
Luciana abanou a cabea indecisa:
      -        No sei, no.
      -        Ela convidou-a para um ch. Vindo dela, demonstra que a aprecia. Faremos o seguinte: escreverei um pequeno convite para D. Maria Helena vir com a 
filha tomar um ch conosco no prximo sbado.
      -        Ela tambm? Nesse caso, estar presente.
      -        Sua curiosidade a trar aqui a primeira vez. Se gostar, permitir que a filha venha nos visitar de vez em quando.
Luciana beijou o rosto da av com entusiasmo:
      -        Far isso por mim? - indagou feliz.
       - Farei por mim. Afinal quero mostrar a essa dama to requintada como se recebe em minha terra e dar-lhe um banho de civilizao. Depois, estou morrendo de 
curiosidade para conhecer Maria Lcia. Pobre menina.
       Luciana riu divertida.
       -        Ela no  pobre menina, vov.  uma moa infeliz, porque ainda no descobriu os tesouros que guarda no corao. Acha que ela aceitar o Convite?
       -        Voc ver. F-lo-ei num daqueles meus papis especiais, como manda a mais nobre Lady inglesa, lacre e tudo mais.
       - Pelo que conheo de D. Maria Helena, sei que vir. No resistir  Curiosidade
       -        Uma vez aqui, no a pouparei. Ver nosso lbum de famlia, Conhecer nosso lado da nobreza, e tudo quanto temos direito. Sem falar da nossa erudio, 
dos nossos diplomas e graduaes
       -        Vai lhe falar do nosso trabalho fazendo doces para viver?
       -        Esse lado ficar esquecido. Afinal, quando seu pai morreu, deixou-nos bom dinheiro.
       Luciana ficou sria.
           No estamos exagerando vov?
       -        No, minha filha. Se queremos que ela nos respeite e permita que a filha nos visite, precisamos falar sua linguagem
- Tem razo, vov, Como sempre. Vamos planejar tudo.
       As duas sentaram-se com alegria e entusiasmo para se organizar.
       Maria Helena recebeu o pequeno e elegante envelope admirada.
      -        Vov pediu para entregar-lhe.
      Ela abriu e leu com ateno. Pensou alguns instantes, depois disse:
      -        Obrigada pelo convite. Terei prazer em conhecer a senhora sua av.
      -        Direi a ela. Ser uma honra receb-la em nossa casa com Maria Lcia.
      Maria Helena hesitou alguns instantes depois disse:
      -        As vezes Penso que voc aprecia Maria Lcia.
      -         verdade eu a aprecio - respondeu ela com voz firme.
      - No consigo entender. Vocs so to diferentes! Custo a acreditar.
      - Posso saber por qu?
      - Sou sua me, mas reconheo que ela no  uma companhia agradvel, sempre to... calada... sem expresso.
      Luciana sorriu levemente.
      - Isso  aparncia. Na verdade, ela  uma pessoa inteligente, sensvel, boa e apaixonada.
      Maria Helena olhou-a tendo no rosto uma expresso indefinvel.
      - s vezes eu penso, Luciana, que voc  uma moa muito boa, porm muito sonhadora. No pretendo iludir-me. J aceitei a incapacidade de Maria Lcia. No  
coisa fcil para uma me, mas no h nada para fazer. Tive que resignar-me.
      - No h nada neste mundo que no possa mudar com a ajuda de Deus - disse com voz suave. - Confio nele. Maria Lcia  uma pessoa normal, est apenas bloqueada. 
A senhora ainda perceber isso.
      - Embora no creia, desejo realmente que consiga.
      Luciana assentiu satisfeita. Foi para a sala em busca de Maria Lcia para a aula. Maria Helena olhou o delicado convite revirando-o entre os dedos finos. Havia 
algo em Luciana que a intrigava. Uma moa to fina, to bela e de famlia to boa, por que se sujeitaria a dar aulas?
       verdade que ela lhe dissera que no precisava do dinheiro para viver. Talvez fosse para mostrar erudio. H pessoas que satisfazem sua vaidade dessa forma. 
Mas, com Maria Lcia? Ela no saberia apreciar nada. No. No podia ser por isso.
      Aceitara o convite, porque estava curiosa. Jamais se lembrava de ter recebido um carto to elegante, com braso dourado, finssimo. Estava claro que a av 
de Luciana tinha linhagem. Iria conhec-la.
      Joo Henrique interrompeu o fluxo de seus pensamentos.
        - Mame, - disse - vim mais cedo porque pretendo trabalhar em um projeto muito importante.
- Claro - respondeu ela, satisfeita.
      - Vou para o gabinete. Estou com sede. Pode mandar-me uma limonada?
      - Por certo...
          - Enquanto Joo Henrique instalava-se no gabinete, Maria Helena diligente mandou servi-lo.
          Ela ficava feliz quando ele fechava-se no gabinete para trabalhar. Ele ainda faria grandes coisas, estava certa disso.
          - Fazia meia hora que ele comeara a trabalhar quando Ulisses procurou v-lo. Apesar de um Pouco contrariada Maria Helena Conduziuo ao gabinete do filho.
          Vendo-o, Joo Henrique foi logo dizendo:
          - Vem em boa hora. Quero mostrar-lhe uma idia que tive.
          Maria Helena saiu, deixando-os a ss. Afinal, Ulisses estudava com ele na mesma Classe. Poderiam trabalhar juntos, embora ela pensasse que Joo Henrique 
ajudava os colegas e sempre sabia mais do que eles.
            Quando ela saiu, Ulisses tornou:
        - No pensei encontra-lo s voltas com projetos agora. H tempo de sobra.
Joo Henrique abanou a cabea.
        - No para mim. Quero ficar com a noite livre.
Ulisses sorriu malicioso.
            - J sei. Vai ao teatro. Pelo que sei, tem estado l todas as noites.
      Joo Henrique Suspirou, olhos perdidos em um Ponto indefinido:
      -        Ela  maravilhosa! Nunca Conheci mulher igual.
      -        Cuidado. Sei de alguns almofadinhas que esto apaixonados por ela.
         - Esto  Sua volta Como moscas ao mel. Ela no lhes d ateno.
      - Quanto a voc?
      - Por enquanto s Sorrisos e troca de olhares.
      - Mande-lhe flores.
      - J as tenho mandado. Hoje pretendo convida-la a cear. Talvez aceite.
      - Estou certo que sim. Voc tem Sorte Com as damas. No resistem aos seus encantos. Sei de algumas que desmaiam quando voc chega.
      Joo Henrique Considerou:
      - No brinque. Sabe que no sou de namoricos
      - Sei. Nunca se interessou por alguma mulher em especial. Estou admirado. Afinal, sempre chega o dia!
      -  s entusiasmo. Ela me atra como nenhuma outra.
      - Ento, meu caro, aproveite.
      - Por certo o farei. Mas, voc aqui esta hora? O que acontece?
      - Sabia que estava em casa. - Piscando o olho, malicioso, continuou : - quero rever Luciana.
      Joo Henrique fez um gesto de surpresa:
      - A professora de msica?
      - Sim.
      - Aqui no  o melhor lugar, j lhe disse.
      - Eu sei. Procurei encontr-la fora.
      Ulisses contou-lhe seu encontro com Luciana e finalizou:
      - Ela  delicada, mas firme. Sequer deixou-me conhecer-lhe a casa.
      - Talvez seja pobre e tenha vergonha. Ao Jarbas j lhe aconteceu isso.
      Ulisses abanou a cabea:
      - No creio. O lugar onde mora  de bom padro.
      - Tem certeza de que ela mora mesmo l? No teria tomado o bonde errado para ludibri-lo?
      - Ser? Bobagem dela. Com aquele rostinho, no precisa de mais nada. Ela est aqui hoje?  dia de aula.
      Joo Henrique deu de ombros:
      - No sei.
          - Voc no se interessa por sua irm! - disse ele, queixoso. - Deveria assistir alguma aula. Deve ser muito interessante.
      Joo Henrique riu francamente:
       - No sou lobo como voc. No estou interessado.
       - Como eu fao para v-la, falar-lhe?
       - Arrume-se. Mame no gostaria que me intrometesse. Iria desconfiar.
       - Voc no  meu amigo. Podia facilitar um pouco as coisas.
       - Voc no  o preferido das donzelas do Ouvidor? Onde est sua classe?
       - Sua me no nos vai chamar hoje para o ch com ela?
       - No sei. Alis, mame nunca convida os professores para tomar ch. Fiquei admirado aquele dia.
       -        Isso prova que ela  especial. At D. Maria Helena notou. Voc podia fazer algo, que diabo.
       Joo Henrique sorriu.
       -        Para que voc no diga que no coopero, vamos conversar na sala.  o mximo que posso fazer.
       Os dois foram sentar-se na sala, e Joo Henrique pediu me que mandasse servir-lhes mais refrescos.
       Ficaram conversando animadamente porm, os olhos de Ulisses no pararam de fixar disfaradamente a porta fechada atravs da qual Supunha estarem as duas moas.
       Finalmente, ela abriu-se e as duas apareceram. Vendo-os, Luciana cumprimentou-os levemente com a cabea. Os dois levantaram-se. A criada servia os copos de 
refresco.
       -        Sirva um copo  senhorita - disse Joo Henrique com delicadeza, - est muito calor.
       - Obrigada, aceito.
       A moa tomou o refresco, apanhou a pasta que colocara sobre a mesa.
       - J vai? - indagou Ulisses, interessado.
       - J - respondeu ela, sria.
       Maria Helena aproximava-se Estendeu a mo a Luciana, dizendo:
       - Agradea a senhora sua av pelo convite, iremos com prazer.
       - Ela ficar feliz. - Voltando-se para Maria Lcia continuou:
- Espero-a ansiosamente Desejo mostrar-lhe algumas coisas. Passaremos uma tarde deliciosa.
       O rosto da moa corou de prazer. Retribuiu o beijo que Luciana lhe deu na face.
       Joo Henrique observava admirado. Aquela cena era inusitada Sua me aceitando um convite da professorinha e, o mais estranho, sua irm mostrando-se afetiva 
com algum. Olhou Luciana com curiosidade. Teve que reconhecer que o rosto da moa era expressivo. Talvez por causa dos olhos cujo brilho era vivo, alegre.
      Olhou para Ulisses e a custo dominou o riso. O moo estava fascinado. Luciana despediu-se e ele saiu em seguida.
      Maria Helena comentou:
      - Ulisses est interessado em Luciana. No gosto disso. Custamos para arranjar algum que suportasse a esquisitice de sua irm, no gostaria de perd-la.
      Joo Henrique deu um tom despreocupado  voz:
      - No se preocupe. O Ulisses  assim com todas. A srta. Luciana por certo no lhe dar trelas.
      - Em todo caso, fale com ele. Proba-o de fazer-lhe a corte.
      Apesar de perceber a petulncia da me, ele habilmente concordou e tentou desviar o assunto.
      - Voc vai  casa dela?
      - Sim. Sua av convidou-me e a Maria Lcia para um ch no sbado.
      - Por que aceitou? No a conhece.
      - Tive vontade. So pessoas de fino trato. A Luciana d aulas porque gosta. No o faz para ganhar a vida. Foi educada na Inglaterra e sua av  inglesa. Veja 
o convite, que finura. Gente de linhagem. Depois, ela gosta de Maria Lcia. Coisa rara. Estou curiosa de ir  sua casa.
      - Interessante, no fazia idia que fosse assim. Por isso convidou-a ao ch. Ela no freqenta a sociedade. Nunca a vimos nos sales.
      -  uma moa diferente. Muito culta. Bero, meu filho. Ela tem bero. V-se logo isso. Gosta de arte, de msica.
      - Vejo que a aprecia.
      Maria Helena sacudiu a cabea pensativa.
      - Por enquanto, seu procedimento tem sido irrepreensvel.
Garante que Maria Lcia  pessoa inteligente e normal. Quanto a
isso, no tenho iluses. Mas sua influncia  boa para sua irm, e
ela aceita a professora, chega a esper-la com certo interesse.
      - Mame, isso  timo. Foi a primeira vez que vi Maria Lcia beijar algum.
      - Ela fez isso?
     -        No viu? Ao despedir-se, ela beijou a face da srta. Luciana.
     -        , realmente, isso surpreende. Vamos ver. Sbado vou conhec-la melhor.
     -        Agora, volto ao gabinete. Preciso trabalhar.
      Maria Helena sorriu alegre. Maria Lcia fechou-se no quarto e dirigiu-se ao espelho. Olhou seu rosto, depois passou a mo lentamente pelas faces. Sua pele 
era macia e limpa. Era verdade.
       Alisou os cabelos e num gesto decidido, tirou os grampos que o prendiam. Eles caram sobre os ombros, e ela continuou alisando-os pensativa. Luciana elogiara 
seus cabelos. Aproximou se do espelho. Seriam mesmo iguais aos de Joo Henrique? Todos elogiavam os cabelos dele.
       Gostaria de mudar o penteado, mas temia o olhar critico da me. Sbado iria  casa de Luciana. Seu corao bateu mais forte. Que vestido usaria?
       Abriu o armrio e olhou seus vestidos. Pareceram-lhe feios e sem graa. Que fazer! Luciana lhe falara de cores alegres, do cor-de-rosa. Tinha um nesse tom. 
Iria com ele. Corou de excitao, Olhou-se novamente no espelho. Tinha vergonha do seu rubor. Luciana dissera-lhe que ele tornava-a mais bonita. Seus olhos brilharam, 
e ela passou novamente os dedos pelas faces.
      Talvez Luciana tenha razo, Pensou, talvez eu possa ser menos feia. Estendeu-se na cama e fechou os olhos. O rosto de Ulisses apareceu-lhe na memria. Lembrou-se 
do beijo e seu corao bateu descompassado. Ele estava interessado em Luciana, mas ela podia fazer de conta que era por ela que ele Suspirava. Imaginou-o beijando 
suas faces com amor. Se isso acontecesse, morreria de ventura. Se ela pudesse!
      Luciana sabia como ser graciosa, bela, notada. Todos os rapazes a cortejavam. Gostaria muito de ser Como ela. Sbado, teriam muito que conversar.

CAPTULO 8

      Joo Henrique chegou ao teatro um pouco ansioso. Estava elegantemente vestido e discretamente perfumado. Parou alguns instantes no hall, onde os cartazes da 
pea encontravam-Se em exposio.
      Aproximou-se e fixou-os. Maria Antonieta Rangel era a estrela da companhia. Vinha de vitoriosa excurso pela Europa onde brilhara encantando todos com sua 
voz e seu desempenho.
      Os olhos de Joo Henrique brilhavam. Ela era maravilhosa! A pea, uma revista musical de alto luxo, estava fazendo muito sucesso. Mandara-lhe flores e delicado 
carto convidando-a a cear depois do espetculo. Aceitaria?
      Entrou na sala de espetculos. Estava repleto. Quando ela apareceu em cena, os aplausos explodiram entusiastas.
      Joo Henrique vibrava de satisfao. J havia visto a pea mais de dez vezes e sempre se emocionava. Conhecia as canes e at algumas falas.
      Ao cair o pano, ela teve que voltar  cena repetidas vezes. Joo Henrique saiu apressado, dirigindo-se aos camarins.
      A custo conseguiu aproximar-se. Abrindo alas entre as pessoas, alguns funcionrios cercavam a estrela que sorrindo, dirigiu-se ao camarim. Joo Henrique continuava 
fascinado. Um homem saiu do camarim e disse sorrindo:
      - Antonieta agradece a todos os cumprimentos, as flores, a bondade dos senhores. Porm, est exausta. Pretende descansar. Ela tem representado todas as noites. 
Tem conversado- com os admiradores, contudo, hoje, deseja recolher-se. Obrigado por tudo.
      Ele entrou novamente, fechando a porta do camarim e, contrariadas, as pessoas foram aos poucos, deixando o teatro.
      Joo Henrique afastou-se um pouco e ficou esperando. Quarenta minutos depois, quando ela saiu, no havia ningum mais alm de Joo Henrique. Vinha acompanhada 
pelo homem que falara e duas mulheres. Vendo-a, ele aproximou-se.
       - Perdoe-me se fiquei esperando. Fiz-lhe um convite. Desejo resposta.
       Longe de enfadar-se, ela sorriu:
       - Convite? No me lembro.
     -        Sou Joo Henrique. Convidei-a para cear comigo esta noite.
     O        homem interveio:
     -        J disse que ela deseja recolher-se. Est cansada.
       - Garanto que apreciaria. Conheo um lugar maravilhoso, onde se come muito bem!
       Ela olhou-o, sorriu e depois disse:
       - Obrigada, mas pretendo repousar. Vamos.
       Fez ligeiro aceno com a cabea e saiu. Os demais a seguiram. Apesar de decepcionado, o moo no desistiu. Aspirava o delicioso perfume que ela espalhara no 
ar e intimamente formulara projetos para conseguir seu objetivo.
       Seguiu-os de longe at o hotel onde se hospedavam. Por certo voltaria  carga no dia seguinte.
       Eram 16 horas em ponto, quando o carro de Maria Helena parou frente  bela casa de Luciana no sbado.
       Parada frente ao porto de entrada, Maria Helena admirada tocou a sineta e imediatamente uma criada vestida elegantemente abriu a porta, fazendo-as entrar 
e conduzindo-as  sala de estar.
          Luciana abraou-as com prazer dando-lhes as boas vindas e apresentando Egle.
      Maria Helena cumprimentou-a com prazer.
          - Tem uma linda casa, muito acolhedora, - disse, amvel.
      - Obrigada, - respondeu ela com simplicidade.
      Acomodaram-se e comearam a conversar com animao. Vendo-as entrosadas, Luciana levou Maria Lcia para conhecer as dependncias da casa e o seu quarto. A 
moa olhava tudo com entusiasmo.
      - Voc tem bom gosto. Gostaria de ser assim. Posso ver seus vestidos?
      - Claro. Venha.
      Luciana abriu o armrio e Maria Lcia olhou admirando tudo.
       - Eu quis vestir um vestido mais bonito, mas todos os meus so horrveis. Soltei os cabelos, mas no sei como pente-los.
      Luciana passou a mo delicadamente sobre os cabelos dela.
      - Voc aprender - disse. - O importante  querer.
      - Ser? tudo em mim fica feio. Perde a graa. Em voc no. Voc  to bonita!
      - Bobinha, voc tambm  muito bonita. Acontece que nunca se interessou por essas coisas antes. Vamos fazer uma experincia. Vista esse vestido branco.
      - Agora?
      - Sim. Vou fechar a porta. Vamos, experimente.
      Era um vestido lindssimo, justo e de corte elegante. Maria Lcia vestiu-O.
      - Maria Lcia! Ficou perfeito em voc! Agora os cabelos. Deixe-me ver... Precisa cortar um pouco as pontas. Posso?
      A moa concordou e Luciana apanhou uma tesoura, um pente e com delicadeza comps um penteado gracioso, cortando algumas pontas, deixando-o fofo na frente e 
prendendo-o em coque no alto da cabea. Passou ligeiramente um pouco de p de arroz, colocou delicado par de brincos em suas orelhas. Em seguida levou-a ao espelho 
dizendo:
      - Voc est linda! Veja como lhe fica bem.
      Maria Lcia corou de prazer vendo-se no espelho. Aquela parecia outra pessoa.
      - Qualquer cavalheiro se sentiria feliz em danar com voc. Duvido que no lhe faam a corte!
        De repente, o rosto de Maria Lcia sombreou-se e ela desmanchou o penteado dizendo com voz fria:
        - Eu no saberia o que dizer, o que conversar com eles. Eu no tenho inteligncia, e eles logo veriam que eu no consigo agradar a ningum.
        Foi tirando o vestido e colocando novamente as roupas de sempre.
        Luciana olhava calada. Depois disse:
        - Perceba que ser feia  uma opo sua. Voc prefere ocultar-se para no se expor ao erro. No sabia que era to orgulhosa assim. Lembre-se que essa escolha 
est lhe custando a felicidade. Est renunciando voluntariamente ao amor, ao sucesso, a admirao e alegria dos seus pais. Jamais saber o prazer da vitria, de 
um beijo de amor.  um alto preo pelo orgulho e pela covardia.
        Maria Lcia olhava calada.
       - Voc  orgulhosa e Covarde - repetiu Luciana.
       - Voc me despreza! - disse Maria Lcia por fim.
       Luciana abraou-a.
       - Engana-se Eu a quero muito bem. Desejo v-la feliz! Voc no  como se coloca.  uma moa bonita, gentil, inteligente, virtuosa, amorosa, s que no acredita 
nisso. Voc est muito enganada. Deixe-me ajud-la a perceber a verdade. A conhecer-se como realmente .
       Os Olhos de Maria Lcia encheram-se de lgrimas.
       - Nunca ningum falou assim comigo, - disse.
       - Somos amigas. Desejo v-la feliz. Sei que pode Conseguir tudo que quiser. No h nada que a impea. A no ser sua maneira errada de olhar para as coisas.
       - Sou covarde mesmo. Tenho receio de tudo. Se um moo quisesse me namorar, morreria de vergonha.
       Luciana segurou as mos frias de Maria Lcia, forando-a a sentar-se ao seu lado na cama.
       - Diga-me. Do que tem medo? De que sente vergonha?
       Os lbios da moa comearam a tremer, e ela no respondeu. Luciana prosseguiu:
       - Procure descobrir isso. Pense bastante. Acredita em mim?
       Maria Lcia assentiu com a cabea.
       - Pois eu lhe digo que no h nada do que deva se envergonhar. J viu hoje que  uma moa bonita, elegante. Pertence a excelente famlia.  rica, educada, 
inteligente. Qualquer moo da corte poderia apaixonar-se e chegar ao casamento. Poderia escolher, tenho certeza.
       Maria Lcia ficou pensativa por alguns instantes, depois disse baixinho:
       - Acha que um moo como o Ulisses se interessaria por mim?
       - Por que no?
           - Ele nem me olha.
      -        Como poderia v-la se se esconde dentro de uma condio de inferioridade? Voc gosta dele!
      Ela corou ainda mais, retirando as mos que Luciana retinha entre as suas.
- No gosto de ningum.
-  natural que se sinta atrada por ele.  um bonito moo.
      -        Ele gosta de voc!
      -        No acredite nisso. Os moos interessam-se em cortejar todas as moas que tm pela frente.
      -        Ele tem procurado voc.
      -        Foi ocasional. Mas, posso afirmar que no pretendo namor-lo.
Ela arregalou os olhos admirada:
      -        No gosta dele?
      -         um moo agradvel, bonito, mas no sinto nada por ele. Para namorar,  preciso algo mais.  preciso entusiasmo, amor, emoo. Quando vejo Ulisses, 
no acontece nada.
Maria Lcia suspirou:
      -        Puxa, - disse - se eu fosse voc, aceitaria. Sei que ele lhe faz a corte.
      -        Voc o aprecia! O que sente quando o v?
Novo rubor coloriu as faces de Maria Lcia.
      -        Fale o que sente! O amor  um belo sentimento. No devemos nos envergonhar do que sentimos. Conte-me: o que sente por ele?
      -        No sei o que , - disse ela baixinho - meu corao bate forte, parece querer sair pela boca. Sinto um tremor nas pernas e tenho vontade de fugir, 
mas ao mesmo tempo quero ficar perto dele. Quando ele est na sala, sinto sua presena o tempo todo. Esqueo das outras pessoas.
Luciana abraou-a com carinho.
      -        Voc nunca sentiu isso antes por outra pessoa?
      -        No. Acha que estou doente?
Luciana sorriu:
      -        No, Maria Lcia. Acho que est muito bem. Melhor do que eu esperava.
      -        Fico angustiada. No sei o que fazer. Tenho vergonha.
      -        O amor jamais ser uma vergonha. Voc sente-se atraida por Ulisses. Gostaria que ele a abraasse e beijasse. Talvez at tenha sonhado com isso.
      -        Como sabe? J sentiu isso?  amor?
-        J senti, sim. Se  amor, s o tempo dir.  uma atrao, mas para se transformar em amor, precisa de muito mais. Precisa conhec-lo melhor e conviver mais 
com ele para perceber seus verdadeiros sentimentos. Descobrir se gosta realmente dele, de sua forma de ser, ou se est vendo nele apenas um ser que voc gostaria 
que ele fosse.
       - Como assim?
       -        Todas ns sonhamos com o amor, o homem a quem dedicaremos nossa vida, criamos uma imagem ideal e a guardamos no corao. Pode acontecer que sintamos 
atrao por algum e sem conhec-lo como realmente , vemos nele esse ideal que imaginamos. Se chegarmos ao casamento, logo veremos que ele era pessoa muito diferente 
daquela que imaginamos. Haver desiluso, amargura. s vezes, h uma adaptao, pelas convenincias, pela familia, mas o amor e a felicidade ficam distanciados.
       -        Ter acontecido isso com mame?
       -        Por que diz isso?
       -        Porque entre eles no h amor. No os vejo abraados. No se beijam.
       -        So discretos. No gostam de demonstraes diante dos outros.
       -        Nunca vi meu pai olhar para minha me com olhos apaixonados.
       -        Como pode saber? Voc sempre fica fechada em seu quarto. Saiba que o amor, o casamento so coisas muito srias.  preciso conhecer bem um ao outro. 
Se voc no deixar que os rapazes se aproximem, como vai encontrar o verdadeiro amor?
       Maria Lcia pensou um pouco, depois segurou o brao de Luciana com fora.
       -        Tenho medo!
       -        De qu?
       -        Dele no gostar de mim.
       -        Se quer que algum a ame, no se rejeite. Esse  o primeiro passo.
       -        Ningum se interessa por mim.
       -        Voc no se interessa por voc! Com pensamentos to negativos a seu respeito, qualquer pessoa que se aproximar, sentir vontade de afastar-se.
       - Por qu?
- Porque o pensamento  o hlito da alma. As pessoas no trocam s palavras, trocam impresses e essas impresses refletem o nosso pensamento. Se voc no se aprecia, 
se acha que no  interessante, quem chegar a seu lado, vai sentir essa impresso. Sua onda mental as afastar, sem que saibam porqu.
       - Ser? O que ns pensamos pode influenciar os outros?
       - Claro. O pensamento sai de ns como ondas de fora. Nunca sentiu vontade de ficar perto de uma pessoa ou de afastar-se dela, sem motivo justo?
       - J. Eu sinto muito isso. Gosto muito de ficar perto de voc. Gostei desde o primeiro dia.
       Luciana sorriu alegre.
       - Voc sentiu que gosto muito de voc e desejo ficar a seu lado. Mas, sentiu tambm que eu gosto de mim mesma, sinto-me feliz de viver, agradeo a Deus todos 
os dias o dom da vida. Sinto-me em harmonia. Por isso voc gosta de ficar perto de mim.
       - No sabia que o pensamento podia causar tudo isso.
       - Pode muito mais.
       Leves batidas na porta e a criada apareceu:
       - D. Egle manda avisar que o ch vai ser servido.
       - Obrigada. Vamos, Maria Lcia, no podemos deix-las esperar. Voltaremos ao assunto. Pense em tudo quanto conversamos.
       As duas moas voltaram  sala onde foi logo servido o ch.
       Maria Helena estava encantada. Egle mantivera a conversa de forma interessante e agradvel. Sabendo que ela tambm estudara naquele famoso conservatrio ingls, 
disse curiosa:
       - A senhora certamente ser exmia intrprete. Seria abusar da sua hospitalidade pedir-lhe para tocar alguma coisa?
       Egle sorriu.
       - Estudei durante muitos anos, fui concertista, mas, agora, gosto de tocar s peas que falam ao meu corao.
       - Vov toca velhas canes de sua terra.
-        Por favor, gostaria muito de ouvi-la.
           Maria Helena estava sendo sincera. A velha senhora no se fez de rogada. Sentou-se ao piano e comeou a tocar com graa e maestria. Maria Helena emocionou-se. 
Fosse pelo ambiente agradvel daquela sala, pela simpatia daquela senhora, ou pela beleza da sua execuo, ela comoveu-se.
        Aplaudiu com entusiasmo. Ela foi tocando, tocando, quando, por fim, parou, Maria Helena suspirou encantada:
       -        Obrigada, D. Egle, por esses momentos. Meu Deus! Est escuro, estamos abusando. Desculpe ter ficado tanto tempo. Est na hora de irmos embora.
Egle sorriu com gentileza.
       -        Foi uma alegria receb-la em nossa casa, bem como a Maria Lcia. Gostaria que viessem outras vezes.
       -         muita gentileza sua. Por certo, espero receb-la tambm em minha casa. Agora vamos, Maria Lcia. Mais uma vez, obrigada. Passamos uma tarde maravilhosa. 
Nem vi passar o tempo.
          Despediram-se e Egle com Luciana as acompanharam at a porta.
       Quando se foram, Luciana abraou a av alegremente.
       -        Voc esteve maravilhosa! Ningum poderia resistir aos seus encantos. D. Maria Helena ficou encantada. Obrigada, vov.
       -         uma mulher de classe, talvez um POUCO formal, mas posso afirmar que sob o verniz da educao vibra uma alma apaixonada.
       -        Papai a descreve como pessoa fria e indiferente.
       Egle abanou a cabea dizendo Convicta:
       -        Ele se engana. Ela vibra como as cordas de um violino nas mos de um bom executante. Ningum pode sentir tanto a msica, ter tal sensibilidade que 
ela demonstrou e ser fria nos sentimentos.
       -        Foi o que pensei. Talvez ela seja reprimida pelo meio.
       -        Toda mulher se fecha quando se sente mal-amada.  claro que Jos Luiz no a amava, ela sentiu isso.
Ser essa a causa de sua aparente indiferena?
       -        Talvez. Contudo, os padres da educao de uma moa nos dias de hoje, deixam muito a desejar, principalmente no Brasil. A mulher deve obedecer o 
marido sem questionar. Fazer tudo para agradar seu senhor, que  o dono absoluto at dos seus pensamentos Depois,  feio a mulher mostrar seus sentimentos A iniciativa 
sempre deve partir do homem. Ele deve insistir na conquista, e a mulher mostrar-se indiferente. Esse  o jogo.
       -        Isso  triste, vov.
       As duas haviam entrado e se acomodado gostosamente nas poltronas da sala.
       - Posso imaginar o que aconteceu, - continuou Luciana. -
D.        Maria Helena, educada nesse sistema, casou-se por amor. Quando descobriu que no era amada como pensava, engoliu seus sentimentos, dissimulou o que sentia, 
vestiu a capa da indiferena com a qual tenta conservar intacto seu orgulho, acreditando que isso seja dignidade.
       - Eu teria agido diferente. - Egle sorriu maliciosa.
       - Eu sei, vov. Voc teria mostrado seus encantos, tentado conquistar o amor de seu marido, no ocultaria seus sentimentos.
       - Isso mesmo. Estaria errada?
       - No. Teria feito bem.
       - Ele amava outra mulher, ela ignorava isso. Mas talvez tenha deduzido com o tempo. Mesmo assim, a outra estava distante, e ela, perto. As esposas tm sempre 
mais chances de manter o interesse e o amor do marido. Pena que emoes descontroladas e o orgulho as tornem to cegas a ponto de no as aproveitar.
       - Voc o teria conquistado.
       - Apesar de que ele amava sua me. Ela era maravilhosa, seria difcil para qualquer mulher venc-la.
       Seus olhos brilhavam saudosos e seu rosto cobrira-se de um misto de orgulho e alegria.
       - Papai jamais a esqueceu. No entanto, vov, eu que a tenho visto, estado com ela, sentindo seus pensamentos, percebo que ela o ama muito. Mas quer uni-lo 
a D. Maria Helena. No posso entender isso.
       - Talvez ela mesma algum dia possa explicar. Era muito bondosa. Pode apiedar-se da sua solido. Jos Luiz parece-me muito solitrio, apesar de viver com a 
famlia. Adora ficar aqui conversando com voc, e suponho que ele no tenha com eles condies de dilogo.
       - No tem mesmo. Joo Henrique esquiva-se e  apegado  me. Maria Lcia ainda no tem condies. D. Maria Helena colocou uma barreira entre ambos.
       As duas continuaram conversando, animadamente mesmo depois que a noite j havia descido de todo.
       Maria Helena chegou em casa e encontrou o marido na sala de estar. Depois de cumpriment-lo, disse educadamente.
           - Desculpe o atraso. Gosto de estar em casa quando voc chega.
    Maria Lcia foi para o quarto. Jos Luiz, folheando uma revista, levantou os olhos dizendo:
           - Cheguei h alguns minutos. Maria Lcia saiu de casa felizmente, e junto com voc, o que me surpreendeu.
    Maria Helena Sorriu levemente.
       -        Foi de boa vontade. Devo reconhecer que ela est um pouco mais SOcivel.
       -        Estava com boa aparncia No parecia amuada como das outras vezes que a foramos a sair.
       Maria Helena Colocou a pequena bolsa e as luvas sobre o console e sentou-se em uma cadeira ao lado do marido.
       -        Foi de boa vontade. Tomou ch, comeu, pareceu-me interessada.
       -        Como conseguiu isso?
       Maria Helena deu de ombros:
       -        Ela gosta muito da Luciana. Aceita de bom grado tudo quanto ela diz ou faz.
       Jos Luiz interessou-se Fechou a revista.
       -         mesmo?
       -        J percebi isso. Espera com impacincia a chegada da professora e quando nos Convidou para o ch, aceitou prontamente
       -        Voc foi tomar ch em casa da srta. Luciana?
       -        Fui. Recebi um elegante convite de sua av, uma senhora inglesa, muito fina.
       Jos Luiz esforou.se para dissimular sua curiosidade.
       -        Voc nunca aceita convites de pessoas fora de nossas relaes, - disse.
       -        Tive vontade de aceitar este. Luciana tem se mostrado culta, fina, amiga de Maria Lcia. Fiquei curiosa. Uma moa que trabalha porque gosta,  curioso.
       -        , realmente, - Considerou ele. - E que tal?
       - Melhor do que esperava. Uma linda casa, graciosa, aconchegante D. Egle, uma senhora de linhagem, v-se logo o bero. Tudo foi agradvel e impecvel. Conversamos 
muito e nem vi o tempo passar. Ela toca piano. Voc precisava ouvi-la. Foi concertista, mas executou velhas canes inglesas que me transportaram para um outro mundo. 
Essa foi a causa do atraso.
           - Ela terminou procurando conter as emoes e dando s palavras a mesma frieza de sempre.
       - E Maria Lcia?
       - As duas foram para o quarto de Luciana onde ficaram por longo tempo. S apareceram na hora do ch. Mas ela no derrubou nada, no tremeu, nem se ruborizou 
nenhuma vez. Para ser sincera, cheguei a esquecer-me dela.
       - No resta dvida que ela est melhor. A influncia dessa professora est sendo benfica.
       - Talvez. Que bom seria se fosse verdade!
       A criada avisou que o jantar estava servido. A famlia reuniu-se ao redor da mesa. Joo Henrique conservou-se calado, como sempre, respondendo apenas as perguntas 
que ora a me, ora o pai lhe faziam sobre seus estudos.
       Jos Luiz observou Maria Lcia e achou que estava um pouco mudada. Em que seria? No pde precisar, mas seu rosto parecia-lhe distendido, calmo. Notou que 
seus cabelos estavam menos esticados e penteados diferentes. No disse nada. Bastava-lhe perceber algumas mudanas.
       Seu corao exultava de alegria. Luciana era a luz de sua vida. Iluminava tudo quanto tocava. At Maria Helena, exigente e fria, apreciava-a.
       Assim que terminou o jantar, Joo Henrique foi para o quarto, vestiu-se com apuro e saiu. Foi ao teatro. Antes passou numa florista e mandou para a estrela 
o mais lindo ramalhete que encontrou, juntamente com um carto, convidando-a novamente a cear.
       Era cedo. Dera uma gorjeta ao porteiro que o deixara entrar pela porta dos artistas, e postara-se no corredor, frente ao camarim principal.
       Maria Antonieta chegou acompanhada apenas por uma de suas damas. Joo Henrique interceptou-lhe os passos.
       - Maria Antonieta!
       -        Voc, de novo, - disse ela fingindo-se zangada, mas fixando nele os olhos brilhantes.
       -        Tenho vindo todas as noites. Hoje no me afastarei enquanto no prometer aceitar meu convite para a ceia.
        Ela sorriu fazendo um gesto vago.
       - Poucas vezes ceio sozinha com um homem. Costumo cear com amigos.
       - Cear comigo esta noite - disse ele, convicto.
       - O que o faz Pensar isso? - retrucou ela, provocante.
       - Meu amor por voc. Tenho certeza que desejar estar comigo.
       Ela riu divertida.
       - No nego que tem esprito.
       Joo Henrique aproximou seu rosto do dela e Olhando-a nos olhos disse baixinho com emoo:
       - Eu quero voc! Tanto, e hei de am-la com tanta fora que marcarei sua vida para sempre.
       Ela estremeceu levemente, depois, sem desviar os olhos, respondeu:
       - Vamos ver isso. Realmente comeo a ficar curiosa.
       Entrou no camarim e Joo Henrique, corao batendo forte, foi para o salo esperar a representao comear.
       Sentou-se na primeira fila e quando o pano desceu, ele saiu apressado. Em meio s pessoas que aguardavam na porta do camarim, Joo Henrique espiava com ansiedade. 
Jamais uma mulher despertara nele sentimentos to fortes.
       Quando ela saiu, protegida pelo homem que sempre a acompanhava e por duas mulheres, sorriu para todos, recebeu cumprimentos e flores, entregando-as para as 
outras duas. Sorriu para Joo Henrique, mas nada disse.
       Ele seguiu-os at a calada, quando uma das duas mulheres que a acompanhavam, aproximou-se, colocando-lhe na mo um papel dobrado. Corao batendo forte, 
Joo Henrique abriu-o e leu:
       "Ceio com amigos no Delfins".
       Isso bastou. Imediatamente foi para l. No finssimo restaurante em uma mesa ricamente adornada, ela estava rodeada de pessoas. Joo Henrique aproximou-se 
tocando levemente em seu brao:
      -        Obrigado - disse.
Ela sorriu e indicando a mesa num gesto largo respondeu.
      -        Acomode-se. Quero apresent-lo aos meus amigos. Ateno todos. Esse  o Joo Henrique. Convidei-o a cear conosco.
      Ele desejava sentar-se ao lado dela, mas os lugares estavam tomados. Dirigiu-se ao outro lado da mesa e sentou-se. No era o que ele desejava, mas era um comeo. 
Ensinaria aquela mulher a am-lo, ento, a teria s para si. Afast-la-ia de todos aqueles amigos bomios e levianos, cujo maior interesse consistia em gozar a vida, 
comer, beber, sem responsabilidade ou preocupaes.
       A ceia decorreu alegre e o champanhe borbulhava nas taas. Maria Antonieta comeu pouco e no tomou nada. Joo Henrique observava-a com olhos brilhantes. Ela 
conversava discretamente e, s vezes, quando seus olhos encontravam-se ela lhe sorria levemente.
       Ele apanhou um pequeno pedao de papel e rabiscou algumas palavras. Levantou-se e entregou-o disfaradamente. Voltou a seu lugar e percebeu quando ela o abriu 
e leu, guardando-o na bolsa.
       Joo Henrique esperava uma resposta. Ela continuou conversando com os amigos sem demonstrar interesse. Ele pedira-lhe um encontro a ss. Ardia de desejos 
de falar-lhe sobre as emoes que estava sentindo.
       Porm, dela apenas recebeu a mo em despedida, que ele segurou e beijou acaloradamente.
       A partir daquela noite, coava com seus novos conhecidos na esperana de conseguir o que pretendia. Foi uma semana depois que conseguiu finalmente.
       Maria Antonieta pediu que a fosse buscar na tarde do dia seguinte, em sua casa. Ela deixara o hotel.
       Joo Henrique exultou. No se preocupou com nada que no fosse aquele encontro to esperado. Na hora aprazada, tocou a sineta da casa onde Maria Antonieta 
vivia. Foi introduzido na sala de estar pela criada. Sentou-se e enquanto esperava, passou um olhar curioso pela sala.
       Mobilirio sbrio, mas de bom gosto, algumas obras de arte, objetos de prata, um piano. Nada ali parecia combinar com a moradora.
       Ouvindo rudo, levantou-se. Maria Antonieta aproximava-se. Estava linda, cabelos curtos, vestido justo mostrando as formas perfeitas de seu corpo jovem, pernas 
de fora, protegidas por finssimas meias de seda.
       -        Foi pontual, - disse estendendo a mo que Joo Henrique beijou deliciado, envolvido em uma onda de delicado perfume.
       -        Estava ansioso para conhec-la melhor - disse ele com um brilho de admirao nos olhos.
       Ela sorriu:
       -        Voc foi persistente. No fao amizades com facilidade, nem costumo receber admiradores.
       -        No sou como os outros - respondeu ele. - Tenho por voc uma admirao sincera.
       Ela sorriu de novo mostrando uma fileira de dentes alvos e bem distribudos.
       -        Arriscou-se. No sabe se sou comprometida.
       -        Tenho certeza de que  to livre quanto eu.
       -        No tenha tanta certeza assim. Ns, artistas, nem sempre revelamos nossa vida intima. Costumamos guardar segredo.
       Ele tomou-lhe a mo, levando-a aos lbios com calor.
       -        O homem que a tiver, no sair do seu lado nem por alguns instantes.
       -         muito possessivo. Desde j afirmo que no existe ningum que possa tolher-me a liberdade.  bom saber tambm que sou eu quem d as cartas, em qualquer 
jogo que me interesse.
       Joo Henrique no respondeu. No estava interessado em palavras. Abraou-a emocionado, beijando seus lbios apaixonadamente. No sendo repelido, sentiu aumentar 
sua paixo, entregando-se a ela ardentemente.
       Duas horas depois, quando saiu de l, sua alma cantava de alegria. Ela era maravilhosa. Jamais conhecera mulher igual, que tocasse todas suas fibras mais 
Intimas. Sentiu-se loucamente apaixonado. E, enquanto voltava para casa, deu livre curso  sua fantasia.
       Amava e era amado! Sabia que sua familia no aceitaria seu relacionamento com uma mulher de teatro. Mas, teriam que ceder quando percebessem que ele estava 
mesmo disposto a ir at o casamento.
       Ao pensar nisso, estremeceu. Era a primeira vez que pensava em casar-se. Ningum poderia impedir. Seu pai no ousaria. Ele no amava sua me, sentia que ele 
havia se casado por interesse. No teria moral para fazer nada. Sua me ficaria chocada. Mesmo porque cabelos curtos, mostrar as pernas, no era moda no Rio de Janeiro, 
pelo menos em casa de famlia. Ser artista de teatro era ainda pior. Contudo, sua me amava-o muito. Contava convenc-la. Ela desejava sua felicidade.
       Maria Antonieta deixaria o teatro. Ele era suficientemente rico para dar-lhe o luxo a que se acostumara. Cantaria e danaria s para ele. Seriam felizes para 
sempre.
       Quando chegou em casa, o sol j se escondera nas brumas do entardecer. Sentia-se alegre. Encontrou Maria Lcia no jardim e saudou-a bem-disposto, beijando-a 
na face.
       -        Boa tarde - disse.
       -        Boa tarde -respondeu ela, admirada. Nunca se lembrava do irmo hav-la beijado.
       -        Voc est linda! - tornou ele querendo ser gentil.
       -        Obrigada.
       Ele sentou-se ao seu lado no banco. Aquele dia, queria que todos fossem felizes.
       -        Voc nunca me beijou antes - disse ela de repente. -Por que fez isso?
       Foi a vez dele admirar-se. Sua irm no tinha o hbito de questionar.
       -        Estou contente, Maria Lcia. Desejo que todos saibam da minha alegria.
       -        Que bom. Aqui em casa ningum  alegre. Por isso venho ao jardim. Os pssaros cantam e sentem muita alegria.
       -        Tem razo. Sempre achei voc triste. Nunca me disse porqu.
       Ela deu de ombros.
       -        No tinha coragem. Todos aqui so tristes. Em casa de Luciana tem alegria no ar. Ningum precisa falar que est alegre,  estar l e ficar contente.
       Joo Henrique fitou a irm como se a estivesse vendo pela primeira vez.
       -        Eu nunca fui triste - contestou. - Ao contrrio. Sinto-me feliz. Por que acha isso?
       -        No saberia dizer. Mas, voc tambm no conversa muito. S com mame, s vezes. Papai tambm no parece feliz.
       -        Pensei que no se importasse com essas coisas. Fica sempre no quarto, no diz o que pensa. Isso, para voc,  tristeza?
       Sentiu pena da irm naquele instante. Estava feliz, desejava que todos o estivessem.
       -        Um pouco.
       -        Por que se fecha no quarto e no gosta das pessoas?
       -        Gosto de ficar sozinha para pensar. As pessoas no gostam de mim. Tanto faz eu estar como no.  a mesma coisa.
       Ele sentiu-se um pouco culpado. Pouco se importava com ela. Mal a olhava.
       -        Se voc recusa a amizade e evita as pessoas, todos vo pensar que voc no as aprecia.  o contrrio do que pensa. Se voc se retrai, as pessoas 
pensam que voc as evita porque no gosta delas.
       -        Luciana tambm acha isso.
       -        Ela est certa. Voc precisa mudar. Aproximar-se dos outros, sem receio de nada. Estou surpreendido. Nunca conversou comigo.
       Ela baixou a cabea e no respondeu. Ele percebeu que ela estava envergonhada.
       -        Se quer saber, prefiro voc conversando. Fica bem melhor. O que voc fez? Est mais bonita tambm.
       Maria Lcia corou de prazer. Levantou o rosto e em seus olhos havia mais brilho.
       -        Vou entrar, - disse Joo Henrique. - Estou atrasado. Continue assim. Est muito bem.
       Levantou-se, beijou novamente a face da irm e foi para dentro. Maria Lcia passou as costas da mo lentamente pela face que o irmo beijara levemente. Olhou 
o cu j com o brilho das primeiras estrelas e sentiu uma onda de alegria no corao.

CAPTULO 9

          A partir daquele ch em casa de Luciana, Maria Helena permitia que a filha fosse visitar a professora, pelo menos uma vez por semana. E, era em casa de 
Egle, rodeada pela aprovao e o carinho das duas, que Maria Lcia comeou a encontrar a alegria de viver.
          Ria, brincava, tocava piano, vestia os vestidos de Luciana, participava de jogos, entretendo-se agradavelmente. Todavia, ao retornar para a casa, invariavelmente, 
a moa voltava s suas roupas e assumia a antiga postura.
      -         uma questo de tempo, papai, - afirmava Luciana a Jos Luiz, em uma de suas visitas.
      -        Por que aqui ela mostra-se to diferente?
      -        No sei. Acredito que um dia ela entender que no precisa mais esconder-se atrs de uma simulada indiferena. Maria Lcia  muito diferente do que 
quer parecer.  moa inteligente, apaixonada, emotiva e sensvel. Eu diria que sua sensibilidade tanta que percebe e sente muito mais do que diz.
      -        Isso me surpreende. At Joo Henrique percebeu que ela est diferente. Falou qualquer coisa com Maria Helena.
      -        Comigo tambm. Uma tarde, quando eu saa, encontrei-o no jardim. Cumprimentou-me e disse-me atencioso:
      -        Pode conceder-me alguns minutos?
      -        Certamente - respondi.
      -        Gostaria de falar um pouco sobre Maria Lcia. Seu mtodo deve ser muito bom. Est dando resultado.
      -        Por que diz isso?
        - Porque ela conversou comigo, questionou, exps idias, consideraes. Nunca aconteceu antes. Surpreendeu-me muito. Confesso que duvidava do seu xito. 
No por sua culpa  claro, mas porque no acreditava que ela mudasse. Poderia explicar-me como procedeu?
        - No foi nada especial. Ela era insegura sentia-se incapaz, rejeitada, preterida
        - Em casa sempre teve toda ateno, conforto os melhores professores nada lhe faltou da mesma forma que eu tive.
        - Longe de mim a idia de negar esse fato. O problema estava nela, na maneira como ela olhava para o mundo, de como se posicionava frente aos outros. Fechou-se 
ainda mais e estabeleceu um crculo vicioso onde seu comportamento provocava mais insegurana e aumentava seu sentimento de rejeio.
        -  estranho Como as pessoas so diferentes. Eu nasci dos mesmos pais, fui criado igual a ela e no Sou assim.
        -  verdade Deus  muito frtil e criativo.
Ele sorriu interessado
        - Mas voc, permite que a chame assim, est conseguindo romper o crculo vicioso em que ela se envolveu.
        - A receita  simples. Ela no enxergava as belezas da vida. A Perfeio da natureza, a utilidade abenoada do prprio Corpo. Procurei mostrar-lhe isso. 
Dei-lhe afeto, O amor est muito ligado ao sentimento de segurana Agora, estou tentando faz-la perceber que tem tanta Capacidade de inteligncia como qualquer 
pessoa.
      -        Acredita mesmo nisso?
      -        Certamente Maria Lcia  arguta e observadora. Pode crer que ainda se surpreender com ela. - Como v, papai, eu j sabia disso.
      -        Voc consegue milagres, Joo Henrique no  dado a conversas em casa. Fala mais com a me.
      -        Pois comigo ele tem se mostrado atencioso. Tem me procurado para conversar e sinto que ainda seremos amigos.
      -        Sobre o que ele COnversa?  sempre to evasivo Comigo!
      -        Geralmente sobre Maria Lcia. Problemas Psicolgicos e de educao.  muito inteligente, Ainda ontem disse-me que tem procurado conversar Com Maria 
Lcia, dar-lhe mais ateno e carinho. Senti que ele acredita mais no Que eu disse e deseja Cooperar.
      -        Voc  mesmo uma feiticeira. Maria Lcia a estima de verdade. Maria Helena tambm. Conhecendo-a como conheo, no esperava por isso.
      - Est sendo injusto com ela. D. Maria Helena  pessoa boa e no  difcil agrad-la.
      Ele sorriu satisfeito.
      -        Voc  bondosa. Sei como Maria Helena  exigente. No se dobra com facilidade.
      -        Teve rgida educao. Acha que mostrar seus sentimentos  sinal de fraqueza. Para ela, a dignidade est em manter-se impassvel; acontea o que acontecer.
      -        Isso realmente acontece. Ela possui uma firmeza invejvel.
      -        Atrs da qual se protege, ocultando seus verdadeiros sentimentos. Ela est longe de ser a mulher fria e dominadora que pretende ser.
      -        Como pode saber disso? Nunca notei.
      -        Ela controla-se muito bem. Mas eu sinto com a alma. Percebo que se trata de mulher ardente e apaixonada.
      Jos Luiz fitou-a com curiosidade:
      -        J me disse isso. Custa-me crer.
      Os olhos de Luciana brilhavam um pouco mais quando disse:
      -        Se pressionar um pouco, perceber logo. Toda aquela barreira cair por terra.
      Ele ficou pensativo por alguns instantes. Depois disse com um pouco de malcia.
      -        Por que est me dizendo isso? O que est tramando?
          Luciana sorriu:
      -        Gostaria de v-lo mais feliz.
          Jos Luiz sacudiu a cabea.
          - A felicidade acabou para mim, no dia em que deixei sua me. Agora  muito tarde, s me resta viver para o arrependimento. Infelizmente no posso remediar 
o erro.
          - Pai, voc est optando pela infelicidade a cada minuto, espalhando-a  sua volta. Gostaria que percebesse isso.
          Ele franziu o cenho, e seu rosto sombreou-se de tristeza.
          - Acha que sou infeliz porque quero?
          - Acho - respondeu ela com voz firme.
          - Como pode dizer isso? Sou culpado, errei e reconheo esse erro. Mas ele agora no tem remdio. Ningum poder devolver-me Suzane e tudo o que passou.
      - Concordo. O passado  irrecupervel. Mame vive em Outro mundo. Se ainda estivesse aqui, as coisas no mudariam em nada. Ela nunca aceitaria seu amor em 
prejuzo de sua famlia. Era uma mulher digna, que respeitava o direito dos outros.
      - Quando a perdi, foi-se minha felicidade. Nunca mais voltar.
      - Engano seu. Voc escolheu mal e essa escolha no lhe deu a felicidade que gostaria. Optou pelo dinheiro, posio, poder, e realmente os obteve. Mas agora, 
a verdade arrancou o vu das suas iluses e voc percebeu que esses valores, embora desejveis, no satisfazem sua nsia de afeto. Contudo, ao que parece, o passado 
no lhe tem servido de lio para o presente e ainda continua cometendo outros enganos to graves quanto o primeiro.
      - Voc me acusa? - disse ele com amargura. - Estou arrependido. Se fosse hoje, no teria deixado Suzane. A que enganos se refere?
      Luciana aproximou-se segurando sua mo com carinho. Havia muita ternura em sua voz ao dizer:
      - Perdoe-me, papai, se estou sendo dura. Mas  preciso que acorde para a vida. No pode viver alimentando um erro passado e tornando-se cego a todas as alegrias 
que deveria estar usufruindo hoje.
      - Engana-se. Minha vida  triste. S voc tem sido a luz que me trouxe um pouco de alegria.
      - Por que teima em jogar fora a felicidade que tem em mos? Por que se coloca nessa posio egostica e ilusria?
      - No compreendo por que diz estas coisas.
      - Para que observe a verdade, Escolheu seu destino atravs de valores errados, casou-se sem amor, ama mame, sente saudades dela, mas est casado com uma culta 
e bela mulher, cheia de virtudes, que o ama com todas as foras do seu corao.
      Jos Luiz assustou-se. Quis interromp-la, porm no o fez. Havia algo em sua voz que o fazia lembrar-se de Suzane. No sabia o porqu, sentia como se ela 
estivesse ali, a dizer-lhe aquelas palavras. Luciana prosseguiu:
- Tem um filho maravilhoso, bonito de corpo e de alma, de inteligncia brilhante. Amoroso, digno. Uma filha doce, bonita e inteligente que precisa apenas de amor 
para desabrochar, que o ama e respeita. O que lhe falta? Obteve na vida muito mais do que podia esperar das circunstncias em que voluntariamente se envolveu. E 
o que faz voc? Fecha-se no passado. Perde os momentos de vida familiar que poderiam ser de alegria e de amor.
       Jos Luiz estava emocionado. Luciana calou-se, e ele tornou:
       -        Voc est enganada. Minha mulher no me ama, Joo Henrique no se afina comigo e Maria Lcia afasta-se. Jamais foi carinhosa comigo.
       -        A situao seria essa se voc procedesse de forma diferente? Se voc tivesse procurado conhecer sua esposa como ela realmente  e se esforado para 
chegar-se ao corao de seus filhos?
       Inquieto, Jos Luiz passou a mo pelos cabelos.
       -        Confesso que eu nunca soube fazer isso.
           -  preciso aprender. Voc no pode permitir que um erro de mocidade transforme-se em infelicidade para o resto da vida. No pode permitir que essa culpa 
o castigue e impea de ver a verdade. Voc  um homem bom, amoroso, inteligente, instrudo, bonito, moo.  tempo de lutar pela conquista da felicidade. Ela  um 
estado de alma que precisamos aprender a cultivar dentro do nosso corao em todos os momentos da nossa vida. No est fora de ns, na presena das pessoas, por 
mais que as amemos. Est dentro de ns, na plenitude da vida, quando colocamos nosso amor para fora, e enxergamos as coisas boas que possumos.  bno a ser conquistada. 
Ela flui de dentro para fora, e independe at das outras pessoas. Se voc quer ser feliz, esquea o erro passado, esquea sua culpa, cultive as bnos do presente 
e perceber que a felicidade sempre esteve a seu lado sem que a deixasse entrar.
        - No posso esquecer Suzane.
        - Nem  preciso. Pode am-la como sempre fez. Ela tem o seu lugar em seu corao, mas ela seria infeliz onde se encontra, se soubesse que esse amor tem sido 
empecilho a que possa amar sua famlia como ela merece.
        Jos Luiz sentiu-se preso de grande emoo. As palavras de Luciana tocavam fundo seus sentimentos, e ele no conseguiu argumentar. Quando se acalmou um pouco, 
disse:
        - Preciso pensar em tudo quanto me disse.
       - Est certo, papai. Pense. Medite. Analise. Perceba o que lhe vai no corao. Seu amor por mame, o que sente por D. Maria Helena. No posso crer que todos 
esses anos de vida em comum no tenham estabelecido laos de amizade e respeito entre ambos.
      Ele olhou-a admirado:
         - Voc acredita que ns possamos ainda viver bem juntos?
      - Por que no? Vocs formam uma famlia maravilhosa. Cada um tem nobres qualidades. Precisam s aprender a viver juntos, percebendo o que valem.
      Jos Luiz no se conteve. Levantou-se e beijou o rosto da filha.
      - Quando vi voc, compreendi que uma luz entrava em minha vida. Obrigado, minha filha. Sinto que algumas coisas mudaram dentro de mim. Estou mais animado, 
com desejo de melhorar.
      Luciana sorriu acariciando o rosto dele ainda umedecido pelas lgrimas.
      - Voc merece ser feliz, - disse com doura. - Tenho certeza de que encontrar seu caminho.
      Conversaram mais um pouco e quando Jos Luiz saiu, muitos pensamentos novos fervilhavam em sua mente. Seria mesmo verdade? Maria Helena, atrs daquela frieza, 
encobriria uma paixo no correspondida? Lembrou-se da lua-de-mel. Apesar da educao rgida que recebera, tolhendo sua espontaneidade, ele muitas vezes a sentira 
vibrar correspondendo aos seus beijos, entregando-se ardorosamente.
      Talvez Luciana estivesse certa. Talvez se ele houvesse mantido o entusiasmo dos primeiros tempos, ela tivesse se tornado uma boa companhia. E ele agora no 
estaria se sentindo to s. Afinal, Suzane no voltaria nunca mais. Por que ele deveria privar-se do carinho e do amor de uma mulher? Suas aventuras passageiras 
eram fteis e serviam apenas para acentuar o vazio ao seu redor. Por que estivera to cego? Se era verdade que Maria Helena o amava, como deveria ter se sentido 
durante aqueles anos todos? Haveria tempo para recomear?
      No se sentia encorajado a cortej-la. E se ela o repelisse? Tinha esse direito. Ele afastara-se da sua intimidade sem que houvesse um motivo plausvel. Ela 
tivera motivos para sentir-se desprezada, diminuda. Apesar disso, mantivera postura digna e fiel. Realmente, tambm nisso Luciana estava certa. Maria Helena era 
uma extraordinria mulher. Me exemplar, esposa dedicada, cuidara sempre do lar com zelo e capricho.
      Afinal, o que havia feito? Casara-se com ela pela sua posio, por interesse, enganara-a, fingira am-la. Ela percebera isto. Ele tinha certeza. As vezes, 
Maria Helena deixava transparecer pontas de ressentimentos. Era natural. Ele merecia muito mais. Ela poderia ter se vingado, no ser para ele a esposa prestativa 
e eficiente que sempre fora. Entretanto, cuidava de tudo com dignidade. Tratava-o com gentileza, principalmente na frente dos outros, como se ele fosse o melhor 
dos maridos.
      Sentiu-se arrasado. Como proceder? Precisava pensar mais, perceber melhor tudo quanto at aquela noite no havia conseguido enxergar.
      E Joo Henrique? Teria compreendido que ele se casara por interesse? Seria essa a causa do seu ressentimento?
      Chegou em casa imerso nesses pensamentos. Maria Helena j havia se recolhido. A casa estava s escuras. Foi para o seu quarto. Preparou-se para dormir, contudo, 
no conseguia conciliar o sono.
      As palavras de Luciana voltavam-lhe  mente. O que havia feito de sua vida? O que estava fazendo em seu favor? Aceitara o irremedivel como o criminoso que 
recebe o castigo. Vinte e cinco anos passaram e ele continuava punindo-se por um engano da mocidade, Por qu? Porque merecia. Trocara o amor pelo interesse. Sua 
conscincia o reprovava acusando-o continuamente. Tinha-se em conta de um fraco que no merecia ser feliz. Aceitara o nunca mais como indispensvel e durante todos 
aqueles anos carregara o peso do remorso e do mal sem remdio.
      Se Suzane estivesse viva, se ela o houvesse aceitado, teria abandonado a famlia? Como teria ficado sua conscincia?
      Remexia-se no leito inquieto. Durante esse tempo, havia pensado que encontrar Suzane, viver com ela, teria sido sua felicidade suprema. Seria mesmo? Criar 
problemas para pessoas inocentes, teria lhe trazido a felicidade?
Nunca como naquela hora Jos Luiz sentiu o amargor da derrota. Seu erro fora deixar Suzane e optar por outros interesses, mas, uma vez que o cometera, percebia que 
sua dignidade apontava-lhe o caminho adequado: tentar encontrar a felicidade com as pessoas que escolhera livremente, envolvendo-as em sua vida. Torn-las felizes, 
am-las, poderia devolver-lhe um Pouco da dignidade que perdera. Para respeitar-se, acalmar sua conscincia a nica forma seria dedicar-se  sua esposa, que se casara 
com ele ignorando a verdade; e aos filhos a quem amava, era verdade, mas aos quais no dispensara ateno e carinhos suficientes, perdido ainda no passado que voluntariamente 
truncara, mergulhado na fantasia.
       Como fora cego! Era verdade que amava Suzane, que sentia dolorosamente sua falta, mas, era tambm verdade que ele poderia viver uma vida mais amena dando 
aos seus afeto e compreenso.
       Pensou em Luciana. To moa! De onde lhe viriam idias to amadurecidas? Como ela Conseguia enxergar coisas Que ele nunca percebera? Iria procur-la para 
conversarem novamente sobre esses assuntos, O que mais ela teria notado? Maria Helena o amaria ainda? Duvidava disso. Em todo caso, naquele momento, seria muito 
bom se ele tivesse a seu lado algum para abraar, sentir-se amado e poder dar amor.
       E se fosse no quarto dela? No se lembrava quando a procurara pela ltima vez. Teve mpetos de levantar-se e ir. O orgulho o deteve. E se ela o repelisse? 
Tinha esse direito. Depois, o que lhe diria? No. No iria.
       Sentiu-se ainda mais s. Mas, em seu corao, estabeleceu o propsito de mudar. No futuro, quem sabe? Se Maria Helena o amasse mesmo, ainda que fosse um Pouco, 
com o tempo, ele a poderia reconquistar Afinal, talvez j houvesse se castigado o bastante. Dali para frente, as coisas poderiam melhorar. Essa deciso fez-lhe bem. 
Sentiu-se mais calmo. Era madrugada l quando finalmente conseguiu adormecer.
       Depois que Jos Luiz saiu, Luciana ficou pensativa. Dissera-lhe Coisas que tocaram profundamente seus sentimentos. Teria feito bem? Estaria preparado para 
conhecer a verdade? Doa-lhe v-lo to infeliz, to distante da realidade, imerso no Passado, indiferente ao presente. Amava-o muito. Apreciava sua inteligncia, 
sua generosidade, seu sorriso largo, sua sensibilidade, sua capacidade de amar. Desejava que ele percebesse que quando damos amor s pessoas, s coisas,  vida, 
expandimos nossa alma, alimentamos nOSSO esprito. Ela sentia essa necessidade dentro de si e quanto mais colocava esse sentimento em tudo quanto fazia, em tudo 
que estava  sua volta, mais felicidade sentia dentro do corao.
      Amava o pai, desejava que ele desfrutasse da mesma felicidade, desse estado de alegria interior.
      Na penumbra silenciosa da sala, Luciana, encolhida na poltrona, olhos fechados, sentiu-se bem. Sim. Fizera bem. Fora bom para ele ouvir o que lhe dissera.
      Nesse momento, uma alegria imensa a invadiu. Acabara de ver o esprito de Suzane aproximar-se. Trazia os olhos brilhantes e iluminados e um sorriso nos lbios. 
Aproximou-se de Luciana tocando-a levemente. A cabea da moa, recostada nas costas da poltrona, pendeu para o lado. O esprito de Luciana deixou o corpo e abraou 
Suzane maravilhada.
      -        Me! Que bom ver voc!
      Suzane, abraada a ela, passou uma das mos pelos seus cabelos com carinho.
      -        Filha, Deus a abenoe. Vim busc-la. Precisamos conversar.
          - Estava com saudades. Faz tempo que no vem buscar-me.
          - Voc precisa viver sua vida, no tenho direito de perturb-la.
      -        Cada visita sua  uma bno que me d foras e alegria.
      -        Da ltima vez, eu disse que sua vida iria mudar. Que a ajudaria e, tambm, que esperava que me auxiliasse. Hoje voc sabe a que eu me referia.
      -        Ao meu pai. Tudo mudou quando nos encontramos. Ele tem sido muito bom para mim.
      -        Eu sei. Voc tambm tem sido boa para ele e para sua famlia. Tenho procurado cooperar para que obtenha xito nas tarefas a que se props.
      -        Vrias vezes senti sua presena. Ainda nesta noite, foi voc quem me inspirou todas aquelas palavras.
      -        Tem razo. Obrigada por ter-me ajudado. Quero que saiba que estamos unidos por fortes laos, todos ns, e que torn-los felizes melhorando suas vidas, 
harmonizando-os, estaremos cuidando da nossa prpria felicidade.
           - Sinto que h uma fora muito grande unindo-nos. Por qu?
       -        Porque o passado fala muito forte dentro de ns. Quando for oportuno, voltarei para contar-lhe tudo. Por agora, posso esclarecer que Maria Lcia 
est muito melhor e isso alegra-me o Corao.
       -        Por que ela  to diferente do irmo? Qual a causa da sua insegurana?
       -        Em vida passada ela esteve prisioneira dentro de um quarto durante muitos anos, humilhada, doente e com o corpo coberto de feridas. As pessoas olhavam-na 
com repulsa.
       -        Pobre menina. Por iSSO esconde-se at hoje.
       -        Tudo j passou. Agora, ela pode ser feliz, Contudo a lembrana do que foi ainda a perturba, mesmo sepultada em um novo corpo, esquecida,
       -        O que Posso fazer por ela?
       -        Dar-lhe amor, carinho como at aqui. Devolver-lhe o gosto de viver, a alegria, a confiana e principalmente o amor por si mesma. Quando Conseguir 
isso, ela estar curada. Agora, preciso ir.
       - Fale mais, conte-me o que aconteceu no passado. Por que estamos juntos agora?
       - Meu tempo acabou, S posso dizer que quanto mais nos amarmos e nos ajudarmos mutuamente, melhor ser.
       - No v ainda...
           -  preciso. Sossegue seu corao. Um dia voltarei para contar-lhe a verdade. Porque eu e Jos Luiz no ficamos juntos e quais os compromissos que nos 
separam inda. Deus a abenoe. Mesmo que voc no possa estar comigo como agora, no se esquea que estarei sempre a seu lado, quando houver necessidade. Diga a 
mame que a amo muito.
      Suzane abraou Luciana com amor, beijando-lhe a testa e com muito cuidado conduziu-a ao corpo adormecido.
      Luciana abriu os olhos sentindo ainda na testa o beijo suave de sua me. Em seu peito, uma sensao intraduzvel de alegria e amor. Suspirou feliz e com gratido 
dirigiu seu pensamento a Deus em Comovida prece.

CAPTULO 10

      Joo Henrique saiu apressado. Havia dois meses que estivera em casa de Maria Antonieta pela primeira vez e a cada dia sentia aumentar seu interesse por ela.
      Comparecia ao teatro todas as noites e depois acompanhava-a  casa, onde permanecia durante horas, saindo sempre a contragosto. Falara-lhe do seu amor, dos 
seus sonhos, e ela no o levava a srio, procurando conduzir o assunto para outros interesses.
      Entretanto, Joo Henrique, cada dia mais apaixonado, alimentava planos para o futuro. Finalmente, acabara seu curso. Dentro de duas semanas, haveria a cerimnia 
da formatura e o baile de gala. Pretendia comparecer com Maria Antonieta e apresent-la aos pais e  sociedade. Dias depois, fariam o jantar de noivado e marcariam 
a data do casamento, para o comeo do ano seguinte.
      Contava com a tolerncia dos pais. No a apresentaria logo como artista. Depois de conhec-la, ficariam encantados o que facilitaria as coisas quando descobrissem 
a verdade.
      No os enganaria durante muito tempo. Ela era muito conhecida para isso. No baile mesmo, depois que a tivessem apreciado, diria tudo.
      Olhou as horas e refletiu que no chegaria em tempo de assistir o espetculo. Resolveu ir mais devagar. Esperaria por ela no final. Chegou ao teatro com a 
pea em meio e, enquanto esperava, fazia planos para o futuro.
     Estava interessado em um projeto para melhorar a cidade. No podia aceitar que a capital do pas fosse to descuidada com a higiene das ruas e a beleza de suas 
praas. Contava obter o auxilio do prefeito e da populao abastada. Organizaria um escritrio, trabalharia muito e contava com o dinheiro dos pais, a influncia 
do seu nome para conseguir seu prprio dinheiro e fazer carreira.
      Tinha certeza de poder oferecer  Maria Antonieta uma vida de rainha e todo seu amor.
      Naquela noite, quando ela saiu do teatro, rodeada de muitos amigos, quis ir ao restaurante cear. Apesar da sua ansiedade em Conversar com ela sobre o futuro, 
ele no teve outro remdio seno segui-la. Fazia parte de sua fama, de sua carreira, esses jantares, onde quase sempre, programavam-se novos Contratos e mantinham 
a popularidade. Passavam da meia-noite quando finalmente Joo Henrique despediu-se dela na porta de sua casa, para retornar meia hora depois, discretamente
      Quando entrou, ele abraou-a com paixo, beijando-lhe os lbios repetidas vezes. Vestindo longo traje de cetim cor-de-vinho, justo no corpo e aberto dos lados 
 moda chinesa, ela deixava-se beijar. Quando sentiu-se mais calmo, Joo Henrique tomou-a pela mo conduzindo-a ao sof, f-la sentar-se, sentando-se a seu lado.
      - Precisamos ter uma conversa sria - disse olhando-a nos olhos.
          Ela desviou o olhar.
          - Por favor! Hoje no. Estou cansada. No quero Pensar em nada.
          -  preciso. A cada dia que passa sinto que a amo mais. No posso mais viver sem voc. Diga que tambm me quer.
      Ela aproximou-se e beijou-o levemente nos lbios.
          - Eu gosto de voc. Seno, no estaria aqui. Mas, eu preferia que no se precipitasse. Afinal, nos Conhecemos h pouco tempo. Falaremos sobre isso outro 
dia.
      - No. Tem que ser hoje. Eu a amo. Quero casar com voc.
      Ela levantou a cabea assustada.
      - Est louco!
      - Voc me ama, eu a quero para sempre. Juntos seremos felizes.
      Ela olhou-o com Preocupao.
      -  Cedo demais para pensar nisso. No estrague nossa amizade.
      Joo Henrique tomou-a nos braos, apertando-a contra ao peito, beijando-a longamente.
      - Voc me pertence, - disse com voz que a paixo enrouquecia. - No quero perd-la!
       - Deixemos os assuntos srios para depois, - respondeu ela, baixinho. - Venha, vamos viver o momento presente.
      Puxou-o pela mo at o quarto, e Joo Henrique mergulhou novamente em seus braos, sem pensar em mais nada.
      Quando Luciana chegou em casa de Maria Helena, encontrou Maria Lcia um tanto inquieta. A moa melhorava a olhos vistos, contudo teimava ainda em manter a 
aparncia apagada de sempre.
      Depois de cumpriment-la carinhosamente, Maria Lcia puxou-a pelo brao e pediu:
      -        Sente-se aqui. Preciso da sua ajuda.
      Seu rosto estava ansioso e corado.
      -        O que ? - indagou Luciana, interessada.
      -        O baile de Joo Henrique. Ele acha que eu preciso ir.
      -        Claro. Isso  timo.
      -        Voc no entendeu. Eu no quero ir sozinha. Voc vai comigo.
      -        No sei. Trata-se da formatura dele. S iro os convidados.
      -        Mas ele a est convidando. Olhe. Pediu-me que lhe entregasse o convite, com suas desculpas por no t-lo feito pessoalmente.  que ele tem aula na 
hora em que voc vem.
      -        Obrigada. Agradea o convite.
      -        Voc ir comigo?
      -        Acha que preciso? Voc pode ir a esse baile com sua famlia.
       Os olhos dela brilhavam quando disse:
      -         que eu preciso da sua ajuda. Voc prometeu.
      -        O qu?
      -        No vai rir de mim? Posso pedir uma coisa?
       Ela estava corada e sem jeito.
      -        Pode. Fale sem medo. O que quer fazer?
      -        Quero ir bem bonita. Desejo mudar tudo. Fazer como na sua casa, ficar diferente.
       Luciana sorriu:
      -        Que bom ! Ser maravilhoso. Sua me vai adorar.
      -        Ser? Tem certeza de que no ficarei ridcula?
       Luciana beijou-a levemente na face.
      -        Ficar linda. Ver. Depois h espelhos nesta casa, poder ver por si mesma. J escolheu o vestido?
       -        No.
       -        Tenho excelente modista que o far para voc. Sua me aceitaria?
       -        No quero que ela saiba. Farei surpresa.
       -        Est bem. Faremos tudo em segredo. Sbado, quando for a minha casa, ela a esperar l. Tem tudo que vai precisar.
       Maria Lcia estava alegre e excitada.
       -        Gostaria que fosse hoje. Estou ansiosa para escolher o vestido. Terei que esperar at sbado!
       -        Pode ir amanh, se sua me deixar.
       -        Ser melhor. Direi que preciso v-la. Ela no se opor.
       -        Como queira. Amanh ento escolheremos tudo.
       Maria Lcia permaneceu pensativa durante alguns segundos, depois disse:
       -        Acha que algum moo me notar?
       Luciana sorriu alegre:
       -        Garanto que muitos a notaro e querero danar com voc.
       Maria Lcia levou a mo ao rosto assustada.
       -        Danar?
       -        Sim.
       -        Mas eu dano mal. No terei coragem. Melhor no ir.
       Luciana segurou-a pelos ombros e olhou-a firme nos olhos.
       -        No seja covarde. Voc sabe que pode fazer isso.
       Ela baixou os olhos.
       -        Olhe para mim, - continuou Luciana com firmeza. - O passado est morto. Acabou. Voc agora  outra. No tem mais um corpo doente e humilhante. Sua 
pele  limpa e sedosa. Voc  linda. Merece a felicidade. Daqui para frente, a vida lhe dar s alegria, amor, felicidade.
       Maria Lcia olhava-a admirada e havia um brilho profundo em seus olhos.
- Quem lhe contou?
- O qu?
- Os meus pesadelos. Como sabe?
Luciana acariciou o rosto de Maria Lcia com suavidade.
- Sente-se aqui, conte-me esses seus pesadelos.
      - Voc falou sobre eles. Nunca contei a ningum. Como descobriu?
      - Existem pessoas que podem descobrir coisas a nosso respeito. Digamos que converso com meu anjo da guarda e ele me disse.
      - Como se faz isso? Nunca conversei com o meu.
      - Foi em sonho. A alma de minha me vem buscar-me algumas vezes, nos encontramos durante o sono.
      -  possvel?
      - . As pessoas que morrem vo para um outro mundo e vm nos ver quando podem. Minha me veio ver-me. Sonhei com ela, conversamos e ela contou-me algumas coisas 
sobre sua vida passada.
      - Vida passada? Como assim?
      - Eu sei que ns vivemos outras vidas antes desta, aqui na Terra mesmo, de onde trazemos impresses e aprendizagem, necessidades e esperanas para novas experincias 
e progresso do nosso esprito. Em cada nova experincia, em um novo corpo na Terra, esquecemos o passado para ter liberdade de ao, mas impresses fortes nos acompanham 
e podem intervir em nosso comportamento de agora.
            - E os pesadelos? De onde vm?
      -        Vrias causas. Lembranas desagradveis do passado, desequilbrio emocional, preocupao, medo, influncias dos pensamentos dos outros, etc... Como 
eram os seus pesadelos?
      -        Horrveis. Meu corpo coberto de chagas. Mau cheiro, as pessoas afastavam-se de mim correndo. As vezes, eu estava prensada entre quatro paredes, sem 
poder encontrar sada. Acordava apavorada, sufocada. Ainda agora, ao recordar, sinto meu corpo todo queimar como se minha pele estivesse em carne viva.
      -        Mas no est. Nada disso est acontecendo agora. So impresses de uma vida que j acabou. Aquele corpo doente j no existe mais. Agora, voc tem 
outro corpo, bonito, sadio, forte; no precisa envergonhar-se dele, ao contrrio, deve orgulhar-se em possui-lo, cuidar bem dele.
      -        O que me diz  extraordinrio. Quando disse isso, tudo desapareceu. Estou admirada. Por que ningum nunca me contou?
      - As pessoas no sabem muito sobre essa coisa. Minha me tem me ensinado. H livros sobre isso tambm. Se quiser, poderemos estudar o assunto.
       - Quero. Tenho vivido assustada, sentindo emoes desencontradas, sofrendo, e voc tem me ajudado. Deus a abenoe por isso. Gostaria muito de ter uma irm.
       Luciana comoveu-se. Abraou-a com ternura.
           - Voc  minha irm. Eu a quero muito.
       - Eu tambm.
Permaneceram abraadas, sentindo alegria e paz no corao.
       No dia Seguinte, Maria Lcia foi  casa de Luciana, onde a modista l a esperava com o necessrio para que ela escolhesse o vestido.
       Vendo-a entretida rosto corado, Olhos brilhantes, Egle no se Conteve e comentou:
       - Luciana, como ela mudou! Nunca a vi to bonita!
       Luciana sorriu satisfeita. Procurou interferir o menos possvel na escolha, deixando-a decidir por si mesma.
           - Confio em seu bom gosto - dissera.
           Observou que ela soube decidir, depois, apenas pedindo opinio a Luciana que aprovou com entusiasmo. Maria Lcia estava indo muito bem.
       Quando a modista se foi, Maria Lcia considerou:
       - Mame quer escolher a roupa para mim. O que farei?
           - Diga-lhe que j escolheu uma do seu gosto.
       - Ela no confia em mim, teme que eu no me apresente bem.
Luciana sorriu:
       - Ela no sabe do que voc  capaz. O que faremos ento?
       - Vou deix-la escolher uma. Mas, vou pedir-lhe para deixar que eu venha aprontar-me aqui. Irei ao baile com voc e D. Egle.
-        Vov no ir. Voc poder ir com seus pais. Fica melhor.
      - Nesse caso, voc ir conosco, caso contrrio, no irei. No terei coragem. Diga que far isso por mim. Falarei com papai.
      - Sua me pode no gostar.
-        Gostar sim. S que eu no vou danar.
-        Por qu?
      - Eu j disse, dano mal.
      - Vamos ver isso.
       Luciana escolheu um disco e colocou-o no gramofone. Era uma valsa.
      - Venha - disse - vamos ver que tal est.
      Maria Lcia olhou-a assustada.
      - Vamos, a msica no  muito longa.
      Ela aproximou-se e Luciana enlaou-lhe a cintura comeando a danar. Quando a msica acabou, Luciana comentou:
      - Vamos novamente. Voc est muito presa. Precisa soltar mais o corpo. Vamos ver.
      Rosto corado, Maria Lcia recomeou.
      A tarde ia morrendo e o sol j se escondera quando Maria Lcia voltou para casa. Ao jantar, Maria Helena olhou-a admirada:
      - Voc demorou em casa de Luciana. O que foi fazer l?
      A moa corou.
      - Ela estava me ensinando um jogo e eu fiquei at aprender.
      - Seja como for, voc parece muito bem. Pelo jeito, gosta de estar l. - disse Jos Luiz com naturalidade.
      Aps o jantar, Maria Helena pediu:
       - Antes que se recolha, sente-se aqui, precisamos conversar.
      Maria Lcia obedeceu.
       -  sobre o baile de seu irmo. Amanh a modista vir para provar seu vestido. J o escolhi. Ficar lindo!
      Maria Helena admirou-se porque a filha disse simplesmente:
       - Sim, senhora.
      Ela no aceitava as coisas com facilidade.
       - Fico contente com sua atitude.  melhor assim. Agora, pode recolher-se.
      Vendo que Maria Lcia no se mexia, indagou:
       - O que  mais?
       - Desejo pedir-lhe um favor. - Maria Helena esperou e, aps ligeira hesitao, ela continuou: - Joo Henrique convidou Luciana. D. Egle no ir. Eu gostaria 
muito de convid-la para ir conosco.
       Foi Jos Luiz quem respondeu:
       - Certamente, filha. Sua me e eu ficaremos encantados. Ela ir conosco.
       - Amanh, quando ela vier, eu mesma farei o convite. -esclareceu Maria Helena.
       - Obrigada - respondeu Maria Lcia, satisfeita.
       Quando ela se retirou, Maria Helena comentou:
       -        Maria Lcia realmente est mudada. Pelo menos conversa.
       -         verdade. Em boa hora essa professora apareceu.
       -        Maria Lcia est muito dependente dela. Aposto que foi ela quem pediu a Luciana para vir conosco.
       -        Pode ser. Sente-se segura a seu lado. Est comeando a perceber a vida. Um dia aprender a voar.
       Jos Luiz falara como para si mesmo, olhos perdidos em um ponto vago.
       - Espero que ela no quebre a asa.
       Ele fixou-a procurando perceber o que se passava em seu ntimo.
       - Por que diz isso? Nossa filha  jovem, tem todo o direito de ser feliz.
       Maria Helena deu de ombros.
       - A felicidade  uma iluso de poucos. Tenho pena dos jovens que sempre so os mais iludidos.
       - Voc est muito amarga.
       Ela sorriu procurando desviar o assunto.
       - Falava por falar. So conceitos sociais que repetimos sem pensar.
       Jos Luiz levantou-se e aproximou-se dela tocando-lhe levemente o queixo, fazendo-a levantar o rosto para ele.
       - Talvez, algum sem pensar tenha destrudo suas iluses. Voc era to cheia de vida!
       Maria Helena cerrou os lbios com fora. Levantou-se rapidamente.
       - Eu era uma ingnua como todas as adolescentes. Felizmente, cresci.
       Jos Luiz olhou-a pensativo, depois considerou:
       - As vezes, sinto saudades da juventude!
       - Pois eu no. Prefiro conservar os ps no cho, saber com o que se pode contar.
       - As aparncias enganam. Em alguns casos, pode-se obter muito mais do que se espera. Depende da forma como nos posicionamos.
       - O que quer dizer? - admirou-se ela.
       - Que formulamos conceitos com facilidade e nos fechamos neles certos de que so verdadeiros. AI, um dia, de repente, percebemos que eles nos limitaram e 
que alm deles h outras coisas, outros valores no considerados que poderiam modificar tudo, criando novas e melhores opes.
         - No compreendo onde pretende chegar.
      - So constataes que tenho feito, nesta fase da nossa vida.
      Maria Helena estava tensa e um pouco plida. Sempre quando conversavam, eles tacitamente no se referiam ao prprio relacionamento. Ela temia tocar nesse assunto 
e no poder mais controlar seus prprios sentimentos represados. Baixou a cabea e conservou-se silenciosa.
      Jos Luiz notara seu nervosismo. Luciana teria razo? De repente, sentiu-se mais culpado. Se ela realmente o amasse ainda, depois de tudo e de tantos anos, 
o que pensaria do seu procedimento?
      Uma onda depressiva o acometeu e ele disse simplesmente:
      - So pensamentos vagos, sem nenhum sentido. Vou recolher-me. Boa noite.
      - Boa noite - respondeu ela com voz baixa.
      Vendo-o retirar-se, sentiu-se curiosa. Jos Luiz estava mudado. Mais humano. Aquela noite chegara a pensar que ele estivesse procurando uma aproximao. Seu 
corao bateu descompassado. Estaria arrependido de suas atitudes passadas? Talvez se sentisse s e desejasse achegar-se.
      Cerrou os lbios com orgulho. No queria ser para ele apenas uma companhia para ajud-lo a suportar a prpria solido. Amava-o profundamente, ardentemente, 
e no aceitaria as migalhas que ele se dispusesse a oferecer-lhe.
      A lembrana dos primeiros tempos do casamento, dos momentos de intimidade, fizeram-na vibrar de emoo.
      - Preciso controlar-me - pensou assustada.
      Devia preservar sua dignidade a todo custo. Recolheu-se, mas no conseguiu dormir. Por que Jos Luiz no a queria? Por qu? As lgrimas brotaram e ela deixou-as 
rolar livremente. S muito tarde conseguiu adormecer.
      Jos Luiz procurou Luciana para conversar. Sentia-se triste e desalentado. Antes, pensava ter na morte de Suzane o seu maior
problema, agora, observando melhor os fatos, compreendia ter Outros mais, alm daquele. O sofrimento de Maria Helena, a distncia afetiva dos filhos, somavam-se 
 sua frustrao amorosa. Julgara-se um vencedor e percebia ser apenas um vencido. Destrura suas Possibilidades de uma vida feliz e infelicitara a prpria famlia.
         Luciana recebeu-o com carinho de sempre, notou logo seu estado de esprito. A um ligeiro sinal, Egle afastou-se
discretamente e ela, tendo-o acomodado em Confortvel poltrona, sentou-se em um
banquinho a seus ps, segurando suas mos com afeto.
         Jos Luiz, observando-lhe a solicitude, disse triste:
         - Ainda bem que tenho voc. Apesar do mal que lhe fiz, boa o bastante para me amar e ajudar minha famlia.
         - Papai, no se deixe envolver por pensamentos to depressivos.
         -  verdade, filha. Tenho feito tudo errado. Sou incapaz de fazer a felicidade dos meus. Sinto-me desanimado. Gostaria que tudo houvesse sido diferente.
         Luciana Olhou-o sria dizendo com voz firme:
         - Mas no foi. Tudo  como . Nada que faa agora poder mudar o que passou. Por que perde tempo com coisas inteis?
         Ele protestou:
         - Acha intil reconhecer minha culpa? Saber que errei e que sou responsvel pela infelicidade de vrias pessoas?
         - Pai, quando comear a enxergar? Quando ver os fatos como realmente so, sem fantasias ou deturpaes?
         Ele apertou as mos dela fortemente.
         - Agora estou vendo a realidade. O fato de pensar que Maria Helena possa me amar, torna-me ainda mais culpado.
         - Porqu?
         Porque eu a iludi. Fingi que a amava quando era mentira. Porque ela  mulher digna, honesta e apesar de perceber a verdade, no me acusa. Suporta minha 
presena, atende minhas vontades. Cuida do meu bem-estar. Sinto remorsos, Luciana, pelo que fiz a ela.
         - Pai, voc sentiu que se enganou. Arrependeu-se. Isso  bom. Mas no exagere sua culpa. D. Maria Helena escolheu seu caminho livremente. Podia ter-se separado, 
reconstrudo a vida de outra forma. A sociedade pune, mas logo esquece. No entanto, ela preferiu viver a seu lado. Ama-o e respeita-o. Engana-se ao julgar-se responsvel 
pela felicidade dos outros. Essa conquista  interior e independe das outras pessoas ainda que estejam ligadas conosco.
       - Se ela me amava, deve ter se sentido infeliz ao perceber por que eu me casara com ela.
       - A desiluso di, mas  a visita da verdade. As pessoas constroem suas fantasias, mas a vida as destri fatalmente. Assim, vamos amadurecendo, aprendendo 
os valores verdadeiros. Compreendendo que o amor no condiciona nada, simplesmente  - e inunda nossa vida de felicidade. D. Maria Helena preferiu viver a seu lado, 
mesmo no sendo amada como sonhara, do que afastar-se, deixar de v-lo, de estar junto, de cuidar do seu bem-estar. Ela escolheu essa forma de felicidade e tem desfrutado 
dela. Talvez houvesse sonhado com outra, mas soube aceitar o que a vida lhe deu. Sentiu, sem sombra de dvida, que voc no tinha condies de oferecer-lhe mais 
e optou pelo possvel.
       - Acha que foi isso? To simples assim?
       - Claro, papai. As pessoas sentem o que lhes convm mais e escolhem seu caminho.
       Jos Luiz passou a mo pelos cabelos e permaneceu calado durante alguns instantes.
       - Da forma que voc fala, no me Sinto to culpado.
       - Seria bom que esquecesse a culpa. Nosso julgamento  muito relativo. Ningum  vtima nem algoz. Cada pessoa, no jogo da vida, opta, decide, participa. 
Agora, por exemplo, voc escolheu a posio de ru. Quer punir-se para satisfazer seu orgulho ferido pela noo de ter errado.
       - Est sendo severa comigo.
       -        Estou apenas percebendo fatos. Quando quiser, poder escolher outro caminho, o do bom senso e da sua prpria felicidade.
       -        No depende de mim.
       - S depende. Se prefere ficar deprimido, recriminando-se por coisas que no pode remediar ou mudar, se sentir infeliz pelo resto da vida. Ser uma pessoa 
desagradvel, triste, incapaz, que a famlia ter dificuldade em suportar. Se ao contrrio, optar pelo esquecimento do passado e desejar a felicidade a cada instante, 
percebendo as coisas boas que o cercam, valorizando as pessoas, dando-lhes amor, observando-lhes as qualidades e respeitando-lhes os limites. Colocando entusiasmo 
nas coisas boas do dia-adia, agradecendo a Deus a ddiva da vida, da felicidade, do amor, da sade e da prosperidade, sentir por fim felicidade e a espalhar ao 
seu redor.
      -         o que voc faz, filha. Voc leva a felicidade onde entra. Esse  o seu segredo.
      -        Sim, papai. Sinto no corao a alegria de viver. Cultivo o bem a cada instante e no permito que os pensamentos negativos me escravizem. Mame sempre 
me diz para agir assim, Sinto grande bem-estar.
      Jos Luiz acariciou a cabea da filha delicadamente. Ela falava de Suzane como se ela no estivesse morrido. Essa fantasia de Luciana o preocupava um pouco. 
Mas, tinha que admitir que ela era muito sensata e equilibrada e que demonstrava sabedoria muito alm de sua idade.
      -        Acha que, se eu escolher a felicidade, ela vir para mim?
      -        Claro. Se acreditar nela, se procur-la adequadamente, ver.
      -        E como sepultar meus fantasmas?
      -        Lutando. Procurando esquecer. Dizendo consigo mesmo que quer esquec-los. Que prefere o presente onde pode fazer em cada instante alguma coisa boa.
      -        Tentarei. Amanh ser o baile de Joo Henrique. Maria Helena convidou-a a ir conosco.
      Luciana sorriu.
          - Irei. Prepare-se para uma grande surpresa.
          - O que est tramando?
      -        J disse que  surpresa. Estou to entusiasmada! Mal posso esperar.
      -        No sabia que gostava de baile.
          - H muita coisa sobre mim que ainda no sabe.
          - Viremos busc-la.
          - Obrigada, mas eu irei  sua casa mais cedo. Maria Lcia
pediu.
          - Como queira.
Jos Luiz sentia-se tranqilo e alegre. A crise havia passado.
      Eram dezessete horas do dia seguinte quando Luciana desceu do carro, tocando a sineta da casa de Maria Helena.  criada que atendeu, pediu que a auxiliasse 
a carregar as caixas e
pacotes que trouxera, levando-os ao quarto de Maria Lcia.
      Enquanto subiam a escadaria para o andar superior, Luciana perguntou:
      - D. Maria Helena est?
      - No momento, descansa em seu quarto.
      Maria Lcia apareceu apressada, fisionomia alegre, auxiliando-as a colocar tudo sobre a cama. Quando a criada saiu, fechou a porta excitada.
      - E ento? - indagou.
      - No esqueci nada.
      - Estou to nervosa!
      -  natural. Quando se vai a um baile, tudo pode acontecer, at encontrar o homem de sua vida.
      Maria Lcia suspirou ruborizada.
      - Um baile  como um conto de fadas. Belos vestidos, flores, msica, rapazes atraentes, momentos de poesia, encantamento.
      Os olhos de Maria Lcia brilhavam fascinados. Havia comparecido a muitas festas, a um ou outro baile, sempre com sacrifcio, terror, obrigao. Sentindo-se 
horrvel, rejeitada, insignificante, desprezada. Agora, tudo parecia-lhe diferente. Sentia-se bonita, no se cansava de passar os dedos sobre sua pele sentindo a 
maciez, de contemplar seu talhe elegante, prejudicado sempre pela postura inadequada.
      Luciana a ensinara andar, manter a postura, danar, e ela agora percebendo que era capaz de fazer tudo isso bem, no se cansava de treinar diante do espelho. 
Sentia-se to alegre que danar era como se pudesse voar, sentindo o gosto de viver e a alegria da liberdade.
      Luciana compreendia e sabia colocar encantamento nas coisas de tal sorte que ela esperava esse baile como se fosse o primeiro.
      - Sinto haver dado trabalho a D. Maria Helena ocultando a verdade.
      - Veja o vestido que ela escolheu.
      Estava pendurado no armrio. Era um vestido fino, sbrio, discreto, sem muitos enfeites. Prprio para no chamar muito a ateno.
      -        Ela no sabe que voc mudou. Ver quando estivermos prontas.
       Conversaram alegremente at a hora do jantar.
       Era a primeira vez que Luciana jantava com a famlia e no pde deixar de sentir-se emocionada. Discreta, educada, tratada com delicadeza por todos, enquanto 
comia, ela no podia deixar de observar a classe de Maria Helena, a finura e elegncia do pai, a postura costumeira de Maria Lcia, metida em seu vestido sem graa 
e conservando a aparncia de sempre.
       Em seus olhos, porm, havia um brilho novo e arguto, uma vivacidade que ela, mantendo os olhos baixos, escondia e ningum notou. Havia a beleza viril de Joo 
Henrique, deixando transparecer no rosto o entusiasmo e a alegria.
       Naquela noite, esqueceu-se da discrio que sempre adotara diante do pai, estava loquaz e bem-disposto. Falou de seus projetos para o futuro, de seu desejo 
de casar-se e constituir famlia.
       Jos Luiz sentia-se esperanoso. O ambiente de sua casa estava acolhedor e podia perceber o contentamento em cada semblante. Depois, Luciana estava ali. No 
se cansava de observar-lhe a finura, a elegncia e a delicadeza.
       Maria Helena estava radiante. Seu querido filho estava feliz e ela orgulhava-se dele, de sua formatura com louvor e admirao dos mestres.
       Quando o jantar terminou e as duas moas pediram licena para se preparar, Luciana aproximou-se de Maria Helena e disse com sinceridade:
      -        Obrigada pelo jantar, D. Maria Helena, e pela honra de ir ao baile com os senhores. Estou muito feliz.
Maria Helena sorriu. Apreciava a delicadeza de Luciana.
      -  um prazer, Luciana, t-la conosco. Gostaria de pedir-lhe um pequeno favor.
      - Certamente, D. Maria Helena.
          Havia certa hesitao em sua voz quando ela pediu:
      - Voc sabe, Maria Lcia no tem muito gosto, eu apreciaria muito se pudesse influenci-la quanto  sua aparncia. Nesta noite, tudo dever ser alegria.
      -        Farei o possvel. Pode deixar - respondeu Luciana com um sorriso.
      Jos Luiz, Maria Helena e Joo Henrique estavam prontos esperando no hall
      Percebendo a impacincia de Maria Helena, Jos Luiz sugeriu:
      -        Ns podemos ir. Os carros esto prontos. Joo Henrique acompanhar as moas.
      -        Com prazer - concordou ele de boa vontade.
      - - Est bem. Est na hora e no gosto de esperar. Gostaria de verse Maria Lcia est decentemente vestida.
      -        Pediu  Luciana, pode ficar tranqila -lembrou Jos Luiz. Ele sabia que podia confiar nela.
      -        Vamos, - resolveu Maria Helena.
    Os dois saram deixando Joo Henrique no hall. Ele sentia-se eufrico. Convencera Antonieta a comparecer ao baile aps o teatro. Era a ltima apresentao da 
pea. A companhia partiria para a Europa dentro de alguns dias. Ela concordara em ficar e casar-se com ele. Estava exultante. Finalmente vencera. H trs dias fazia 
projetos para o futuro. Comprara um belssimo anel de brilhantes. De vez em quando, colocava a mo no bolso e apalpava a caixinha de veludo, antegozando a alegria 
de entreg-lo a sua eleita, oficializando o compromisso.
    Finalmente, um farfalhar de saias e ele no acreditou no que estava vendo. Luciana, linda, mas seu espanto era para Maria Lcia. Abriu a boca, mas no articulou 
nenhum som. Parecia-lhe outra mulher. O que havia acontecido? Um milagre?
    Ela parecia-lhe mais alta, mais esbelta, elegante em um maravilhoso vestido rosa seco, lindos cabelos penteados com extremo bom gosto, tendo harmonioso enfeite 
de flores, a pele aveludada, olhos brilhantes, o brinco delicado, tudo estava perfeito.
    Ele no escondia sua admirao. Sua irm transformara-se em uma linda e elegante mulher.
    Luciana sorriu feliz.
    - E ento? - perguntou - gostou?
       -        Eu no acredito! Maria Lcia, voc est linda! Que transformao!
       Ela sorria alegre, emocionada, sem saber o que dizer. Ele prosseguiu:
-        Tem um sorriso encantador! Como no percebi isso
antes?
          - Ela se escondia. - tornou Luciana. - Agora, tudo ser
diferente.
       -        Eu imagino. Esta  nossa grande noite. Grandes coisas acontecero - disse ele, entusiasmado. - Fao questo de entrar no salo de brao com essas 
duas beldades. S quero ver a cara dos meus amigos! Vo chegar como abelhas no mel. Maria Lcia, prepare-se. Todos querero danar com voc!
       Seu rosto coloriu-se de rubor e suas mos tremiam um pouco, mas ela disse com voz firme:
       - Quero danar a noite inteira. Aprendi. Luciana ensinou-me.
       Joo Henrique tomou a mo de Luciana e beijou-a com deferncia.
       -        Obrigado. Sei que foi voc quem trabalhou para isso. No imagina o bem que nos fez. Serei grato pelo resto da vida. Tem em mim um amigo sincero, 
um verdadeiro irmo.
       Ela sorriu e havia uma lgrima em seus olhos quando disse:
       - Vocs so meus irmos e os quero muito.
       - Agora vamos - props ele, alegre. - Quero ver a cara de mame quando ver a beldade de filha que tem.
       Ofereceu os braos com galanteria, e juntos foram para o carro.
       O Palcio das Rosas, como era chamado pela grande quantidade dessas flores que havia em seus magnficos jardins, estava fartamente iluminado. Suas enormes 
janelas, de lindas e luxuosas cortinas de renda, guarnecidas de veludo dourado, abertas, deixavam aparecer a enorme varanda que conduzia ao hall da chapelaria e 
 entrada do enorme salo.
Os carros entravam pelos grandes portes de ferro artisticamente trabalhados e seguiam por graciosa alameda, em semicrculo, e paravam frente a escadaria de mrmore 
branco, coberta por larga passadeira vermelha que se estendia desde o local onde parava o carro at a porta de entrada da varanda, indo juntar-se ao grosso tapete 
vermelho que cobria toda a sala da chapelaria e as toaletes.
       Por toda parte, luxo, bom gosto, arte e alegria. Muitas flores, requinte e elegncia desde o traje discreto e polido dos criados  distino e gentileza com 
que recebiam os convidados. O carro parava, as damas desciam apoiadas pelos cavalheiros, e os grupos entravam alegres entre o farfalhar discreto dos vestidos, o 
perfume delicioso das mulheres e a postura dos homens galantes e bem-educados.
       O salo, caprichosamente adornado, era cercado por frisas onde as mesas estavam parcialmente ocupadas. A orquestra j tocava, quando Joo Henrique, conduzindo 
as duas moas pelo brao, entrou. Pararam alguns instantes, vendo a frisa onde seus pais j estavam acomodados, dirigiram-se para l.
       Maria Lcia vendo tanta gente sentia-se um pouco temerosa. Luciana segurou-a pelo brao dizendo baixinho:
       - Voc sabe que est linda! Esta  a sua noite! Tudo magia e beleza. Seu sonho se realiza! Voc venceu!
       A moa que, copiando atitudes as quais se habituara anteriormente, tentara esconder-se atrs de Luciana, levantou a cabea e olhou frente a frente para as 
pessoas que passavam. Percebeu a admirao nos olhares masculinos e sorriu contente. Luciana tinha razo. O passado estava morto. Aquele seria seu primeiro baile.
       Quando entraram na frisa, Maria Helena levantou-se admirada. Aquela moa bonita, cabea erguida, elegante, segura de si, no poderia ser Maria Lcia! Estava 
linda!Ficou sem palavras para expressar seu estupor. Foi Jos Luiz quem tomou a mo da filha com galanteria e disse emocionado:
       - Como voc est linda! Que bom gosto!
       Olhou para Luciana como a dizer que ela transformara Maria Lcia. Luciana sorriu dizendo:
       -        O bom gosto  dela. Escolheu tudo. Desculpe. D. Maria Helena, no termos contado a verdade. A senhora teve trabalho, escolheu outro vestido, mas 
queramos fazer surpresa. Espero que compreenda.
        Maria Helena refez-se um pouco. Estava sem assunto. Finalmente disse:
       -        Esta noite  maravilhosa. Tenho a alegria de ver minha filha interessar-se pela vida.
       - Quero desde J que reserve uma valsa para mim - pediu Jos Luiz com galanteria.
       - No quero correr o risco de no poder danar com voc.
       -        Uma para mim tambm - acrescentou Joo Henrique. -J vi uma poro de amigos cumprimentando-me com muito empenho, e posso at perceber por qu.
       Maria Lcia sorria, e Maria Helena reconheceu que ela possua um sorriso encantador. Como no percebera antes?  que ela nunca sorria.
       Sentaram-se ao redor da mesa e logo Ulisses e Jarbas apareceram para cumpriment-los. Seus olhares iam Surpreendidos de Maria Lcia a Luciana, galantes e 
prestativos. Joo Henrique sorriu divertido. Orgulhava-se da elegncia dos pais, sua classe, sua finura, da beleza da irm e dos encantos de Luciana.
       Era muito bom estar ali na noite de sua festa, em meio a seus amigos, com a famlia e, logo mais, quando Antonieta chegasse, sua felicidade estaria completa.
       A orquestra tocava uma valsa de Strauss, e Jarbas pediu:
       -        Gostaria de danar com sua filha, senhor Jos Luiz. Posso?
       Jos Luiz Concordou com a cabea, e Ulisses pediu para danar com Luciana. Obtendo a permisso, os quatro dirigiram-se para o salo e logo estavam valsando 
por entre os pares com graa e alegria.
       -        Estou vendo, mas ainda no estou acreditando! -comentou Maria Helena. -  bom demais para ser verdade!
      -         verdade, mame; Maria Lcia despertou. Est Comeando a sentir o gosto de viver. Daqui para frente, tudo mudar para ela. Graas a Luciana. Abenoada 
hora em que ela apareceu.
      -         verdade. Nunca pensei que ela conseguisse.
      -        Trata-se de moa bondosa e inteligente - ajuntou Jos Luiz, Comovido.
      -         verdade, papai. Seu mtodo foi muito eficiente. Tenho Conversado com ela a respeito. Hoje, os Conceitos esto mudando. A educao deve ser encarada 
de forma diferente. A psicologia moderna est descobrindo a causa de muitos problemas humanos.
      - Voc  um engenheiro, no pensei que se interessasse pelas cincias humanas - considerou Jos Luiz, disposto a aproveitar a oportunidade para aproximar-se 
do filho.
      - O engenheiro aprende como construir uma casa, uma ponte. Usa clculos matemticos, mas sabe que precisa obedecer s leis da natureza para obter xito. O 
comportamento humano, o porqu fazemos isto ou aquilo, certamente tambm obedecer a certos fatores, certas leis naturais que ainda no conhecemos suficientemente, 
mas que a psicologia estuda. Ela vai ajudar o homem a aprender a viver melhor e encontrar solues adequadas aos seus problemas.
      - Algum j me disse que tudo  natureza, tudo  divino, tudo  Deus!
      Joo Henrique surpreendeu-se. No julgava o pai capaz de filosofar e muito menos de pensar em Deus. Para ele, o pai interessava-se apenas pela vida social, 
pelo dinheiro, pelo poder. Naquela noite, tudo parecia-lhe mgico. Todos estavam diferentes.
      - A natureza  interessante. Tem leis prprias. No pensei que se interessasse por ela.
      - Engana-se. Gosto de observar como tudo se transforma. As estaes, os seres, as coisas, as pessoas. Tenho me perguntado o porqu de muitos problemas que 
preocupam a humanidade. A dor, o sofrimento, a morte, o nascimento, enfim, a vida.
      Jos Luiz falava como para si mesmo, olhos perdidos em um ponto indefinvel.
      - Encontrou alguma resposta? - Joo Henrique interessou-se.
      - Ainda no. Tenho vrias hipteses trabalhando em minha cabea, mas ainda no conclu nada.
      - Eu tambm tenho pensado nesses assuntos, principalmente quando observo a desigualdade social. Parece que Deus no ofereceu a mesma charice para todas as 
pessoas.
      Jos Luiz fitou-o um pouco assustado.
      - No devemos questionar Deus. Ele sabe mais do que ns.
     - Concordo, ele sabe mais. Por isso mesmo, certos fatos devem ter uma explicao
mais justa. Quanto a questionar, no
 penso assim. Temos inteligncia, devemos us-la.  questionando que chegaremos ao esclarecimento desejado. Questionar no  ir contra.  apenas olhar a questo 
por vrios ngulos.
           - Tem razo. As questes sempre tm vrios aspectos.
       - Joo Henrique, as moas olham para c, e voc discutindo filosofia em pleno baile! - atalhou Maria Helena.
       -  verdade - aduziu Jos Luiz. -  melhor fazer as honras, afinal a festa  sua!
       Joo Henrique sorriu. No estava interessado em nenhuma moa. Antonieta preenchia todas as suas aspiraes. Logo mais, ela estaria em seus braos e ficariam 
juntos para sempre!
       - Gosto de pensar sobre esses assuntos - disse. Essas mocinhas dengosas e delicadas no me interessam.
       Maria Helena olhou-o preocupada Notava nele alguma coisa nova, uma alegria, uma loquacidade que no lhe era habitual, principalmente suas sadas noturnas, 
caprichando na roupa, no asseio, at o discreto perfume. Pressentia a presena de uma mulher no corao do filho.
       Sentia cime, mas ao mesmo tempo, compreendia que um dia ele se casaria e ela teria que aceitar. Ele, por certo, escolheria algum  altura.
       Maria Lcia Sentia o brao de Jarbas em volta da sua cintura e o rosto alegre do moo,  sua frente, olhando-a como se a estivesse vendo pela primeira vez.
       - Voc est linda! - disse - no sabia que danava to bem. Onde aprendeu a valsar?
       - Eu sempre soube.
       - Mas voc, nos bailes, nunca danava...
       - Eu no queria. Agora resolvi danar.
       Jarbas apertou levemente a mo que com delicadeza
Sustinha na sua.
           - Que outros encantos voc escondeu esse tempo todo?
           Ela sorriu.
           - Descubra voc mesmo - tornou, misteriosa.
           - Adoro seu sorriso! - considerou ele, galante.
       Maria Lcia sentia-se excitada percebendo que podia agradar, que a admiravam e que os rapazes gostavam de olh-la. Seu pensamento voou para Ulisses. Ele tambm 
a apreciaria?
Mostrava-se interessado em Luciana, mas ela garantira-lhe que no o queria para um namoro. Talvez pudesse despertar-lhe o interesse, quando percebesse que Luciana 
no lhe correspondia. Danaria com ela? Estremecia s em pensar nisso.
      O baile prosseguia animado. As homenagens aos
formandos, a valsa especial que Joo Henrique danou com a
me. As duas moas muito solicitadas no paravam de danar e
quando Ulisses convidou Maria Lcia, ela sentiu as pernas
tremerem e o corao disparar. Finalmente ele a enlaou e
comeou para ela um novo encantamento. Ulisses olhava-a com admirao:
      -        Ainda no acredito que seja voc. Qual foi o milagre que a transformou?
      -        Sinto vontade de viver - respondeu ela com alegria. -Agora, quero da vida tudo o que tenho direito!
      -         impressionante. Voc  linda! Como conseguiu esconder-se tanto tempo?
      -        Eu sempre estive presente. Voc  que no notou.
      -        Devia estar cego!
      Ela sorriu feliz. Sentia brotar dentro de si uma imensa fora e muita alegria de viver!
      Passava da meia-noite quando ouviu-se um zunzum pelo salo. Parada na porta, acompanhada pela sua dama, estava Antonieta. Vestia um maravilhoso vestido dourado, 
ajustado ao corpo, abrindo-se um pouco embaixo, deixando aparecer a ponta de seus sapatos. Mangas curtas, decote discreto na frente, abria-se nas costas descendo 
quase a sua cintura deixando  mostra sua pele maravilhosa e delicada. Dois panos presos nos ombros desciam soltos pelas costas at os ps. Nos cabelos curtos, delicado 
arranjo de pedraria, com pequenas plumas presas na testa.
      Joo Henrique sentiu seu corao disparar. Imediatamente dirigiu-se a ela, beijando-lhe a mo com galanteria.
      Todos os olhares dirigiram-se para eles. Com elegncia, Joo Henrique conduziu-as para a frisa.
      Jos Luiz levantara-se surpreendido. A famosa atriz de teatro, em um baile de formatura! Era inusitado.
      Maria Helena estava perplexa. Joo Henrique conhecia a tal mulher e a recepcionava em pleno baile! Ela estava escandalosamente vestida e ainda mais, tinha 
os cabelos curtos.
      Depois que a guerra se acabara, o modernismo da Europa ameaava destruir as melhores tradies da famlia. Tinha ouvido falar a respeito e no aceitava de 
forma alguma esses modismos.
      Joo Henrique aproximou-se e conduzindo Antonieta pelo brao, entraram na frisa.
      Jos Luiz, apesar da idia extravagante do filho, conservava
a fisionomia distendida e amvel. Maria Helena a custo dominava a
irritao. No gostava de chamar a ateno pblica e sentia o
olhar das pessoas voltado para eles.
      - Mame, quero apresentar-lhe a grande atriz, Maria Antonieta Rangel.Naturalmente, j a conhece.
      Antonieta fitou-a com olhos penetrantes e entreabriu os lbios em ligeiro sorriso.
      - Por certo - balbuciou Maria Helena tentando readquirir o sangue frio. - Como vai, minha senhora?
      - Senhorita, mame - apressou-se a corrigir Joo Henrique.
      - Senhorita? Bem. Como vai?
      - Muito bem - respondeu a atriz curvando ligeiramente a cabea.
      - Este  meu pai.
      Jos Luiz curvou-se com galanteria, tomando a mo delicada que Antonieta lhe oferecia, beijando-a levemente.
      - Encantado, senhorita. Tem em mim um admirador.
         - Esta  minha amiga Norma Engel.
      Aps os cumprimentos, Jos Luiz, vendo que ela no pretendia retirar-se, convidou-as a que se sentassem.
      - Est gostando do baile? - indagou ele, cortesmente.
      Antonieta passeou o olhar expressivo pelo salo depois disse:
      - Est muito belo. O Rio de Janeiro tem lindas mulheres.
         A senhorita  do Rio? - continuou Jos Luiz.
         - No. Nasci na Europa!
         - No parece. Fala sem nenhum sotaque.
      - Sou portuguesa. Meus pais vieram para o Brasil quando eu era beb. S voltei a Europa na adolescncia para estudar.
Era realmente uma mulher encantadora - pensou Jos Luiz. Maria Helena readquirira a presena de esprito. Afinal, naquela noite, o filho tinha direito a alguma extravagncia. 
O melhor que tinha a fazer era ser gentil com a moa. Tentou interessar-se pela conversa.
      - Minha me  excelente pianista - comentou Joo Henrique com orgulho.
      - No diga! Que tipo de msica prefere tocar?
      - Clssica. Para mim  a verdadeira msica.
      - Ah! - fez Antonieta.
      Joo Henrique ia dizer alguma coisa mas calou-se. Maria Lcia e Luciana acabavam de chegar acompanhadas por dois elegantes rapazes. Estavam coradas e alegres.
      - Maria Lcia, quero que conhea Antonieta. Esta  minha irm.
      A moa olhou aquela bela mulher, to diferente das que estava habituada a ver e a admirao transpareceu em seu rosto ingnuo.
      - Como vai? - indagou gentil.
      - Bem, e a outra moa?
      -  Luciana, amiga e professora de Maria Lcia.
      Luciana olhou-a nos olhos com curiosidade.
      - J vi o seu retrato e sei quem .  uma honra conhec-la.
      Os rapazes haviam se afastado e as duas sentaram-se.
      - Vocs danaram sem parar. Devem estar cansadas -disse Maria Helena.
      - Eu estou um pouco, mas Maria Lcia parece que tem asas nos ps - respondeu Luciana.
      - Estou vendo e ainda no acredito.
      Maria Lcia olhou o rosto da me e no disse nada. Sentia vontade de irrit-la, mas aquela era uma noite mgica, estava resolvida a ser feliz.
       Jos Luiz sentia-se contente. Seu relacionamento com os filhos havia melhorado e imaginava que com o tempo poderia melhorar ainda mais. Luciana era como uma 
luz, onde tocava, iluminava. Havia tomado vinho e sentia-se alegre.
       -        Vamos danar - convidou ele.
       Maria Helena estremeceu.
       -        Estou um pouco cansada - disse.
       Ele no aceitou a desculpa. Tomou-a pela mo conduzindo-a para o salo.
       -        Precisamos comemorar esta noite. Afinal nosso filho est graduado.
       O        salo em penumbra, o perfume, o encanto da noite, o rosto distendido de Jos Luiz, envolveu Maria Helena que emocionou-se quando ele a enlaou. A 
orquestra tocava um xote e o salo estava repleto de casais alegres. Jarbas com Maria Lcia, Ulisses com Luciana tambm danavam. S Joo Henrique permanecia na 
frisa ao lado das duas mulheres.
       Ulisses sentia-se empolgado.
           - Luciana, - disse - no suporto mais suas evasivas. Desde que a vi no Consigo pensar em outra coisa. Peo licena para visit-la em sua casa.
       A moa abanou a cabea com graa.
       -        No recebo visitas de rapazes em casa - disse... - Minha av no permite.
       -        Afirmo-lhe que tenho as melhores intenes. Se me autorizar, irei conversar com ela, pedir-lhe permisso
      -        No acho necessrio, senhor Ulisses.
      -        Por que me recusa? No cr na minha sinceridade?
Luciana olhou-o sria.
          - No se trata disso.
      -        Ento por qu? No consegue sequer esquecer o tratamento cerimonioso!
          - Desejo ser sincera. O senhor  amigo de Maria Lcia, de sua famlia. Tenho-lhe apreo. Sei que  um moo de bem. Seu interesse muito me honra.
       -        E ento?
       -        Ento, sou uma moa com idias prprias. S me comprometerei com algum por quem eu sinta amor.
      -        Quer dizer que no gosta de mim? - Havia uma ponta de agastamento em sua voz.
      -        Nutro pelo senhor um sentimento de amizade. No o bastante para um namoro.
      -        Voc  dura, no se importa em fazer-me sofrer.
      -        No creio que seu desapontamento o impea amanh de esquecer-me completamente.  prefervel saber logo a verdade do que alimentar iluses inteis.
      -        Voc diz isso com muita certeza, O que a faz pensar assim? No acha que com o tempo poderia vir a me amar?
      - Apesar de apreci-lo, sei que nunca o amarei. Para mim  o bastante.
    Ele apertou a mo dela com fora.
      - J sei, com certeza ama outro homem. Claro, como no pensei nisso antes? Quem  ele?
      Ela abanou a cabea negativamente. Ulisses estava sendo insistente e desagradvel. Fez o possvel para contornar a situao. No desejava criar um caso com 
ele, principalmente por causa de Maria Lcia. No queria que ela se decepcionasse. Um golpe agora poderia desencoraj-la a prosseguir em seu desenvolvimento.
      - O senhor no tem o direito de fazer-me perguntas, -respondeu. - No tenho namorado, nem estou interessada em ningum.
      - Est tentando enganar-me. Saiba que nunca recebi uma recusa. H muitas moas ansiosas por um olhar, uma palavra minha. Se me recusa,  porque tem outra pessoa.
      Apesar de contrariada, Luciana procurou sorrir ao responder:
      - Sei que  verdade, O senhor  um moo atraente e sabe disso. S que as pessoas no so iguais. Pode crer. Peo-lhe que esquea este desagradvel assunto. 
Prefiro conservar uma boa amizade. Podemos ser bons amigos.
      - No vou insistir. Tambm no vou desistir. Saberei esperar. Hei de conquist-la.
      Luciana suspirou aborrecida. Maria Lcia estava iludida. No conhecia Ulisses, to pretensioso e arrogante. Seria bom se ela se interessasse por outro. Ele 
jamais a faria feliz.
      Sentiu-se aliviada quando a msica terminou e pretextando cansao,quis voltar  frisa.
A orquestra comeou uma valsa de Strauss muito em voga, e Jos Luiz quis continuar a danar. Entregando-se ao encantamento daqueles momentos, Maria Helena Sentiu 
o corao bater mais rpido. Tudo poderia ter sido to diferente! Olhou o rosto corado do marido, tendo o corpo dele to prximo ao seu, de repente aquele amor tanto 
tempo represado, oculto, abafado, veio  tona aumentando sua emoo. Volteando em seus braos ao som da msica, todo passado desapareceu. S havia o momento, o amor, 
a proximidade dele. Suspirou fundo e Jos Luiz olhou-a encantado. Parecia-lhe outra mulher, linda, rosto corado, olhos brilhantes, lbios entreabertos, ardente, 
Suspirando em seus braos. Foi acometido de emoo e um desejo forte. Apertou-a de encontro ao peito, beijando-lhe a face e murmurando4he ao ouvido:
       -        Voc est linda! Nesta hora eu gostaria de estar em casa para am-la como merece.
       Maria Helena fechou os olhos para sentir melhor o encantamento. Estaria Sonhando?
       Teve coragem para dizer:
       -        Sou feliz.
       Ele continuava murmurando em seus ouvidos:
       -        Tenho sido cego. Sinto Vontade de beij-la! No consigo Suportar e esperar.
       Maria Helena sentiu-se como nos tempos de namoro. Sorriu provocante:
       -        Voc no se atreveria diante de todos.
       -        Voc  minha mulher. No tem nada de mais.
       -        Por isso mesmo.
       Quando a msica parou, voltaram  frisa corados e alegres. Luciana e Maria Lcia conversavam animadamente, e Joo Henrique s tinha olhos para sua deusa. 
Conversavam educadamente e quando Antonieta quis retirar-se, Joo Henrique disps-se a acompanh-la. Luciana e Maria Lcia voltariam com os pais. Luciana percebeu 
o brilho do novo anel na linda mo da atriz e compreendeu a inteno de Joo Henrique. Sentiu-se inquieta. Sabia que a famlia no iria aceitar com facilidade um 
casamento entre os dois. Mas, no era esse o ponto que a preocupava. No tinha preconceitos. Pensava mesmo que o amor era suficiente justificativa para uma unio. 
No entanto, havia algo em Antonieta que a inquietava. No sabia ainda o que. No gostava de sentir essa sensao. Geralmente, ela precedia alguma coisa desagradvel.
         Por Outro lado, ficou alegre observando a aproximao do pai com a esposa. Maria Lcia, por sua vez, estava encantada com tudo.
         - Vamos para casa - resolveu Jos Luiz -  tarde.
      Chegando em casa, as duas moas se recolheram e, uma vez no quarto, deram vazo  alegria.
      -        Voc fez muito sucesso! De agora em diante, ser sempre assim. Ver. Receber muitos convites. Foi muito cortejada esta noite - Considerou Luciana.
      - Sim. Vrios rapazes sussurraram coisas em meus ouvidos. Fiquei arrepiada.
      Luciana riu gostosamente:
      - No se declararam?
      - Certamente. No os levei a srio. At o Jarbas! Disse que ia sonhar comigo esta noite e que amanh passar em casa para ver-me.
      -  um belo rapaz.
      - Prefiro o Ulisses. To lindo! Acha que um dia ele me amar? Parecia to interessado em voc!
      - Voc no o conhece bem.
      -  amigo de meu irmo h muito tempo.
      - O Jarbas tambm. Voc nunca conviveu muito com eles. Procure aproximar-se mais, conversar, Sentir como eles pensam. Desta forma poder perceber qual dos 
dois voc gosta.
      - Farei isso. Tem certeza de que no gosta mesmo dele?
      - Tenho. Jamais o amarei. Quanto a isso, posso afirmar.
      Depois que as moas subiram, Maria Helena passou o ferrolho na porta de entrada. Jos Luiz esperava no hall. No podia apagar da lembrana o rosto ardente 
de Maria Helena, o calor que vinha dele. Vendo-a aproximar-se, impaciente tomou-a nos braos, beijando seus lbios com ardor.
      - Eu quero voc - disse - esta noite  nossa.
      Abraados, foram para o quarto e atiraram-se nos braos um do outro, como se fosse a primeira vez.

CAPTULO 11

      Jos Luiz abriu os olhos e olhou ao redor admirado. Estava no quarto de sua mulher. Subitamente recordou-se de tudo. Sentiu-se um pouco desconfortvel. O vinho, 
o champanhe, o baile, tudo contribura para quebrar o gelo entre ele e Maria Helena.
      Ela j levantara. Ele remexeu-se no leito, inquieto. Aquela noite havia sido mgica. Tantas coisas boas acontecendo! Maria Helena estivera diferente. Havia 
vida em seu rosto e uma chama ardente em seus lbios, que ele no se lembrava de ter visto antes. Sentira-se atrado por ela, e a lembrana dos momentos vividos 
juntos, era-lhe muito agradvel.
      Reconhecia que bebera um pouco alm do habitual e ela tambm. A bebida, s vezes, podia ser reveladora. Luciana teria razo? Maria Helena sob a frieza esconderia 
uma alma ardente e apaixonada? Brando calor invadiu-lhe o peito. Haveria esperana para eles? Mesmo sem am-la, poderiam relacionar-se melhor? Como estaria ela? 
O que pensaria da noite anterior?
      Jos Luiz sentia-se grato. Reconhecia que sempre recebera dela muito mais do que lhe dera. Levantou-se apressado. Olhou o relgio sobre a mesa de cabeceira. 
Passava das doze e logo seria servido o almoo. Tomou um banho, vestiu-se e desceu para a sala. Encontrou Maria Helena folheando uma revista.
      - Bom dia - disse.
          - Bom dia.
      Ela pareceu-lhe como sempre. Serena e educada. Queria dizer alguma coisa, mas conteve-se.
      - Desculpe o atraso, - disse por fim. - Os outros j se levantaram?
      - As moas esto no jardim com Joo Henrique. Comentam o baile, com certeza. As duas fizeram muito sucesso.
      -  verdade. No foram s elas que fizeram sucesso. Voc tambm estava muito bonita.
      Maria Helena estremeceu. Ficou calada durante alguns segundos, depois disse:
      - Estava muito feliz. A festa estava linda. At Maria Lcia parecia haver sado de um conto de fadas.
      -  verdade. Como est ela hoje?
      - Muito bem. Nem parece a mesma. Luciana sabe lidar com ela.
          - Essa moa  uma bno. Onde toca, transforma para melhor.
      - Vejo que a admira.
      - Por certo. Gosta de Maria Lcia, dedica-se a ela com carinho,  educada, atenciosa, discreta. Sou-lhe muito grato por tudo de bom que tem feito por ns.
      - Eu tambm a aprecio.
      Jos Luiz aproximou-se, tomando-lhe a mo, levando-a aos lbios com galanteria.
      - Obrigado - disse.
      Ela olhou-o assustada; ele prosseguiu:
      - A noite de ontem foi muito agradvel. Desejo que tenha apreciado.
      Maria Helena no soube o que responder. Ficou quieta, olhando-o. Percebendo seu embarao, ele tornou com naturalidade:
      - Estamos na hora do almoo. A que horas vai mandar servir?
      - Agora, se desejar.
      O        almoo decorreu agradvel, o ambiente, alegre. Joo Henrique mais loquaz do que o habitual e Maria Lcia, feliz e bem-humorada, contribua muito para 
isso.
      S Maria Helena estava mais calada e pensativa. Jos Luiz observava-a disfaradamente. Teria ela se arrependido pelo arroubo da noite anterior?
      A conversa decorria com animao. A certa altura, Joo Henrique mencionou Maria Antonieta. Maria Helena evitara tocar nesse assunto. Condescendia em aceitar 
aquela extravagncia do filho. Ele sempre fora moo correto e de bons costumes. Seria uma vaidade, exibir-se publicamente com aquela atriz. Capricho, nada mais. 
Levantou a cabea ao ouvi-lo perguntar:
      - O que acharam de Antonieta? Ela  maravilhosa!
      Maria Helena franziu a testa, e Jos Luiz apressou-se a dizer:
      -        De fato.  uma bela mulher. Excelente atriz. Canta e dana divinamente.
      - Voc j a viu no palco?
      -        J. Ela faz jus  fama que tem.  Conhecida em toda Europa. Representa em francs com perfeio.
      -        Ela est pensando em deixar o palco, - Continuou Joo Henrique. - Sua Companhia parte daqui alguns dias, mas ela ficar.
      -        Por que faria isso no auge d fama? - indagou Jos Luiz.
      -        Ela  mulher. Para as mulheres o amor, o lar, os filhos esto em primeiro lugar. Pretende dedicar-se  vida em famlia.
      -        No sabia que ela era casada - Considerou Jos Luiz.
      Maria Helena ouvia em Silncio. Joo Henrique sorriu:
      -        Ela no . Vai trocar a fama, o dinheiro, tudo pelo amor. Vai casar-se brevemente.
      -        Sabe com quem?
      Joo Henrique ficou srio e calado por alguns instantes, depois disse pausadamente.
      -        Comigo. Pedi sua mo, e ela aceitou.
      Houve um silncio constrangedor. Luciana baixou os olhos para o prato, Maria Lcia e Jos Luiz olharam o rosto de Maria Helena que plida no escondia seu 
estupor. Levantou-se, aproximou-se do filho, olhos brilhantes de emoo:
      -        Voc est brincando conosco. No acredito que esteja dizendo a verdade.
      Ao que Joo Henrique respondeu calmo:
      -        Eu estou. Amo Antonieta. Ela  a mulher da minha vida. Vamos nos casar.
      Vendo a palidez de Maria Helena, Jos Luiz interveio Conciliador.
      -        Deixem este assunto para depois. O momento no  apropriado. Terminemos a refeio e conversaremos.
      -        Obrigado, papai. Apreciaria muito que me ouvisse e compreendesse.
      Maria Helena fez um esforo enorme para conter-se. Reconhecia que o marido tinha razo. No podiam tratar de assunto to preocupante diante das duas moas 
e dos criados.
          Sentou-se de novo, continuando a refeio. Porm a harmonia fora quebrada. Terminaram em silncio. Luciana pediu licena para retirar-se, agradecendo a 
hospitalidade. Jos Luiz fez questo de mandar o carro lev-la em casa. Maria Lcia foi para o quarto, e os trs reuniram-se no gabinete de Jos Luiz para conversar.
       Jos Luiz estava contrariado e apreensivo. Seu filho apaixonara-se pela mulher errada. No era s pelo fato dela ser mais velha do que ele. Ela havia experimentado 
o gosto da fama, o prazer de ser aplaudida, admirada. Era de educao europia. Aceitaria a vida burguesa que Joo Henrique podia oferecer? Renunciaria s viagens, 
ao luxo, ao ambiente artstico, liberal e excitante, pela vida familiar montona do Rio de Janeiro? Custava a crer.
       Por outro lado, reconhecia que no tinha direito de impedir que o filho casasse com a mulher amada. Fora por causa dos preconceitos sociais que ele se casara 
sem amor e no desejava que o mesmo acontecesse com o filho. No sabia como agir. Maria Helena jamais concordaria.
       Com gestos lentos, fechou a porta, enquanto Maria Helena e o filho sentavam-se tensos nas poltronas diante da mesa atrs da qual ele sentou-se por sua vez. 
Olhando os dois calados, disse:
       -        Agora voc pode nos esclarecer quanto ao assunto de D. Maria Antonieta.
       Joo Henrique tornou com voz firme:
       -        Eu a amo. Pedi-lhe que se case comigo.
       -        No pode estar falando srio - considerou Maria Helena.
       -        Estou, mame. Ela  o grande amor da minha vida. Sofri muito pensando que ela pudesse no aceitar.
       -        O que diz no tem cabimento. Uma mulher de teatro! Da vida noturna. No pode pensar em dar-lhe o nosso nome!
       -        Sinto que voc pense assim. Ela  uma moa honesta e digna de usar qualquer nome.
       -        Ela no pode am-lo! Com certeza est interessada em dinheiro, conhece nossa posio social!
       Joo Henrique indignou-se:
       -        Mame! Como pode dizer uma coisa dessas? Ela  rica, famosa, amada, no precisa dos nossos haveres para nada!  uma honra que ela renuncie a tudo 
para casar comigo! Eu  que no a mereo!
       Maria Helena olhou-o furiosa:
       -        Voc est cego! No pode acreditar nisso. No v que ela no pertence  nossa classe? Esse casamento nunca daria certo! Faria a sua infelicidade! 
No posso consentir que faa essa loucura. Que jogue sua vida fora, amarrando-se a uma mulher de m vida!
       Joo Henrique trincou os dentes com raiva:
       -        No admito que fale de Antonieta dessa forma.  imprudncia de sua parte julgar to severamente algum que sequer conhece.
       Maria Helena voltou-se para o marido, nervosa:
       -        Jos Luiz, faa alguma coisa. Ele est enfeitiado por essa mulher!
       -        Deixe-nos a ss. - pediu ele. - Acalme-se. Tome um ch, descanse. Voc est muito nervosa, no  bom conversar sobre isso agora, V descansar um 
pouco.
Maria Helena levantou-se.
       -        Faa-o Compreender que est errado, - pediu com voz splice. - Por favor!
           No se preocupe. Depois falaremos.
       Conduziu-a at a porta fechando-a e Voltou a sentar-se frente ao filho. Joo Henrique abanou a cabea nervoso:
      -        Ela no entende, papai.
      -        No culpe sua me. Devemos convir que o que pretende no  muito comum.
      -        Vrias vezes conversamos sobre o amor. Ela sempre pedia para que eu s me casasse quando amasse de verdade. Agora que aconteceu, no quer aceitar.
      -        Ela teme pela sua felicidade futura. Acredita que uma moa de teatro no seja feita para o casamento.
      -        Ela acha que uma artista no pode ser digna e honesta.
      -        No se trata disso. A vida familiar exige certo grau de sacrifcio, de dedicao e at de renncia. Ela tem um preo. Essa moa estar em condies 
de querer pagar? Aps haver vivido livre, coberta de glrias, de aplausos, aceitar a vida burguesa que pode oferecer-lhe?
Joo Henrique no se deu por achado:
      - Ela tambm me ama. Estar feliz onde eu estiver, com o que eu lhe oferecer. Talvez voc no possa compreender. Sei que no se casou com mame por amor.
       Jos Luiz sentiu a velha mgoa voltando. Olhou nos olhos do filho, dizendo com sinceridade:
       -        Amei muito uma mulher, infelizmente ela morreu. Entretanto, gosto de sua me e temos vivido bem.
       Joo Henrique surpreendeu-se. O pai no era insensvel como sempre pensara. Sua frieza escondia um amor impossvel.
       -        Sinto muito, meu pai. No sabia. Nesse caso, pode compreender o que sinto por Antonieta. Se a perder, nunca mais amarei outra mulher. Serei infeliz 
pelo resto da vida.
       -        No seja to radical. Na mocidade, nos apaixonamos vrias vezes e confundimos os sentimentos. Como sabe que seus sentimentos para com essa moa so 
profundos e verdadeiros? Reconheo que ela  belssima, tem talento, atrai, cativa. Voc pode ter se entusiasmado com tudo isso. Pode ser at que se ela renunciar 
a tudo por voc, saindo desse ambiente mgico do teatro para o cotidiano da vida familiar, venha a desiludi-lo e seu entusiasmo desaparea. E o que era sonho transforme-se 
em pesadelo.
- Isso nunca acontecer, eu juro!
      - Se acontecer, ela o odiar. Como devolver-lhe tudo quanto ela deixou por sua causa?
      Joo Henrique passou a mo pelos cabelos num gesto inquieto.
      - Por que me confunde dizendo essas coisas? Claro, pensa como mame. Quer "salvar" o nome da famlia .  o preconceito da nossa sociedade podre e de fachada. 
Luto pela minha felicidade. No estou interessado no que os outros possam dizer.
      - Calma, meu filho. No estou contra voc, nem contra seu casamento. Contudo, minha experincia de vida faz brotar esses pensamentos. Tenho dvidas quanto 
ao futuro. Desejo sua felicidade. Gostaria que no se precipitasse..
      - Voc duvida do meu amor por ela.
         - Sei que  sincero. Acaba de graduar-se. Precisa consolidar sua situao financeira para que possa casar-se. Claro que lhe darei uma casa, alguns haveres, 
mas quem quer famlia precisa mant-la. Principalmente casando-se com uma moa habituada ao luxo e ao conforto. Para que se sinta digno, precisa Sustent-la com 
o mesmo nvel.
      -        Tenho pensado nisso - revelou o moo, preocupado
      Jos Luiz continuou com voz calma:
      -        Certamente. Precisa fazer carreira, e isso requer certo tempo.
      Joo Henrique estava surpreendido. No esperava encontrar justamente no pai tanta compreenso. Sentiu-se confortado. Ele referia-se a Antonieta com respeito. 
Talvez o ajudasse convencer a me.
          - Voc consente que eu me case com ela?
          Jos Luiz ficou silencioso durante alguns instantes, depois disse:
      -        Se voc realmente a amar e proceder com bom senso, darei o consentimento.
      O        rosto do moo distendeu-se:
          Obrigado, papai. No esperava que me apoiasse.
      -        Desejo sua felicidade. Contudo, precisa cuidar do seu futuro. Nesse casamento para sentir-se bem, precisa ter o que oferecer  sua mulher. No pode 
comear uma vida em comum sentindo-se inferiorizado, diminudo achando que ela perdeu quando o aceitou para marido.
      Joo Henrique levantou-se e apertou a mo do pai com entusiasmo.
      -        Obrigado, meu pai. Nunca se arrepender de haver confiado em mim.
      -        Muito bem. Amanh mesmo, trataremos do seu futuro, da sua carreira.
      -        Trabalharei ativamente. Sabe como desejo modificar a face desta cidade. Antonieta ser a minha musa e o meu trofu. Conto com voc para abrandar mame.
      -        Farei o possvel. Precisa ter pacincia com ela.
      O        filho saiu entusiasmado, e Jos Luiz permaneceu pensativo. Tentara contornar a situao. No fundo, no acreditava que aquela mulher experiente e livre 
concordasse em casar-se com um jovem um tanto provinciano e at certo Ponto ingnuo. Queria dar tempo, pensando que o assunto se resolveria por si mesmo. Em todo 
caso, se eles se amassem de verdade, ele de fato os ajudaria. Seria a forma de redimir-se dos seus enganos passados.
      Procurou Maria Helena e encontrou-a no quarto. Rosto plido, estava longe de ser aquela mulher fria e senhora de si. Vendo-o, indagou ansiosa:
      - E ento? Conseguiu esclarec-lo?
      - Calma. Vamos nos sentar.
      Lado a lado, ele continuou:
      - Conversei com ele, ponderei todos os pontos.
      Narrou  esposa minuciosamente tudo quanto conversaram. Quando terminou, ela considerou:
      - Voc deu o consentimento! No podia fazer isso de forma alguma!
      - Tentei contornar a situao. Ele est determinado. No ouvir nada contra o que pretende. Se eu houvesse sido radical, ele teria chegado a extremos que no 
desejamos. Um jovem apaixonado no atende ponderaes. Conseguindo adiar esse casamento, conto com o tempo para que ele perceba o quanto est enganado.
      - E se ele no desistir? E se ela o envolver cada vez mais?
      - Quanto tempo ela agentar a ausncia do palco, das festas e noitadas para ficar como uma donzela namorando seu jovem apaixonado?
      - Pensa mesmo isso? No acha que ela quer casar com ele por causa do nosso nome e da nossa posio?
      - Uma mulher como ela tem muitos apaixonados, to ricos ou de posio quanto Joo Henrique.
      - No to ingnuos a ponto de casar-se.
      - A  que eu tenho dvidas. Ser que ela realmente deseja casar-se? Prender-se a monotonia da vida familiar? Uma mulher como ela, habituada a brilhar, a viver 
grandes emoes...
      Maria Helena abanou a cabea:
      - No sei, no.
      - Voc  me. Olha Joo Henrique com amor. Para ela, ele  apenas um jovem provinciano apaixonado.
      - Acha que no chegaro ao casamento?
      - Acho. Penso que no ser de bom alvitre contrari-los, mostrar que no queremos. Isso pode fazer com que ele persista. As mulheres so orgulhosas. Se ela 
perceber que no a aceitamos, pode ofender-se e desejar nos contrariar, dominando Joo Henrique e manejando-o  vontade.
      - Meu Deus, - suspirou ela - como nos aconteceu uma coisa destas? Logo ele, to bom e to ajuizado!
       -        Ele  jovem, cheio de iluses. Est fascinado.
       -        No vou tolerar a presena dessa mulher!
       -        Faa um esforo. No  prudente mostrar desagrado. Um amor contrariado exacerba a fantasia.
       Maria Helena engoliu a revolta e esforou-se por aceitar. No podia perder o amor do filho. Ele deixara claro o que pretendia. Depois, Jos Luiz estava certo. 
Ela teria mais possibilidades de xito se no o contrariasse. Suspirou tentando resignar-se.
       -        Farei o possvel - tornou - por amor a ele.
       Jos Luiz sentiu-se aliviado. No gostava de discusses ou queixas. Era avesso a situaes conflitantes.
       -        Melhor assim - disse. - Com calma haveremos de encontrar uma sada. Pode ser que o tempo se encarregue de colocar tudo nos devidos lugares.
       Nos dias que se seguiram, Joo Henrique mostrou-se radiante. Informado que Maria Helena no se oporia  realizao de seu casamento, deu largas ao jbilo 
que sentia, mostrando-se afetivo, bem-disposto, feliz, cercando todos de gentilezas e agrados.
      Interessado em trabalhar e criar condies para sustentar Antonieta no luxo a que se habituara, procurou o pai, disposto a ouvir-lhe os conselhos objetivando 
seu progresso profissional. Pela sua situao financeira, seu nome, podia estabelecer-se com um escritrio, trabalhando por conta prpria. No entanto, no tinha 
experincia profissional ainda que inspirasse confiana a clientes para os grandes projetos. Costumeiramente, eles davam preferncia a engenheiros experientes e 
com anos de trabalho reconhecido e comprovado. Nunca contratariam um recm-formado.
      Sabendo disso, Jos Luiz aconselhava-o a iniciar-se, engajando-se em um grupo respeitado onde pudesse participar, aprender, at que aos poucos fosse se revelando 
com projetos prprios.
      Joo Henrique reconhecia que o pai estava certo, entretanto, sujeitar-se a um emprego dessa ordem, o faria esperar muito tempo para conquistar o que pretendia. 
Ele preferia o caminho mais rpido. Jos Luiz considerava:
      - Precisa dar tempo ao fruto de amadurecer. Para conquistar o que pretende, ter que trabalhar muito, mostrar seu talento. Sei que voc  capaz e vai vencer.
       Joo Henrique fez um gesto de contrariedade:
       - Quantos anos levarei para conseguir?
       - Tem medo que D. Maria Antonieta mude de idia?
       - No. Claro que no. Antonieta me ama. Eu  que no quero esperar muito. Vivo sonhando com o nosso casamento. No, papai. Ter que ser de outra forma.
       - O que sugere ento?
       - Um cargo pblico bem remunerado. O senhor tem amigos influentes. Arranje-me algo e no se arrepender. No pretendo encostar-me na funo. Tenho capacidade, 
sei que posso corresponder ao posto.
       - No posso passar por cima de pessoas qualificadas que esto exercendo seus cargos.
       No ser to fcil como pensa.
       - Sei que tem prestgio. Se empenhar-se, conseguir. Prometo que depois do casamento, continuarei a esforar-me. Um dia, conseguirei o que almejo.
       Jos Luiz no quis prolongar o assunto. Ser-lhe-ia fcil conseguir o que o filho pretendia. No entanto, no desejava contribuir para apressar um casamento 
que pressentia inadequado. intimamente estava disposto a simular e retardar o mais possvel o que ele lhe pedia.
       - Vou pensar no assunto - respondeu por fim.
       - Obrigado, papai. Sei que conseguir.
       Foi com Luciana que Jos Luiz conversou expondo seu ponto de vista. A filha ouviu-o com ateno, depois considerou:
       - Acredita mesmo que essa unio ser infeliz?
       - No posso afirmar. Entretanto, tenho experincia suficiente para perceber que Joo Henrique no  o tipo de homem que a inspirasse a largar tudo o que conquistou 
e gosta, pela vida pacata do lar.
       -  um belo rapaz, ama-a arrebatadamente.
          - Nem sempre  o bastante. Ele  muito inexperiente; ela  vivida.  livre, conhece o mundo inteiro, tem outras opes de vida. Joo Henrique  provinciano, 
at certo ponto ingnuo, e o que acho pior, pretende afast-la do palco, definitivamente. Quando me recordo dela no palco, magnfica, recebendo aplausos, cheia de 
vida, sinto medo. Quanto tempo ela suportar sem pisar o palco? Quanto tempo suportar a mediocridade dos nossos sales, sem ser o foco das atenes, tornando-se 
uma mulher comum?
       - Voc pode ter razo. Contudo, e se for verdade? Se o sentimento que ela nutre por ele for verdadeiro e to forte que ela o coloque em primeiro plano, e 
supra todas suas necessidades?
       - Se for assim, serei o primeiro a aceitar. Por isso quero dar tempo. Preciso certificar-me da verdade.
       Luciana permaneceu alguns instantes pensativa, depois disse:
       - Tem razo, papai. Se eles se amam de verdade, o tempo os aproximar ainda mais.
       - Caso contrrio, teremos evitado muitos aborrecimentos. Quanto a Maria Lcia, obteve sucesso total. Ainda no me recuperei da surpresa.
       Luciana sorriu contente.
       - Eu lhe disse que ela poderia desabrochar.
       - Jamais pensei que ela fosse to bonita. Como no percebi isso antes?
       Luciana fitou-o carinhosamente:
       - Geralmente ns no procuramos ver o que h atrs das palavras e atitudes das Pessoas. Nos contentamos com as aparncias.
       Jos Luiz pensou em Maria Helena. Comeava a suspeitar que, tambm com relao a ela, havia se enganado. Respondeu devagar:
       - Comeo a acreditar que tem razo. As pessoas nos Surpreendem.
       - Por que diz isso?
       - De repente tudo se modificou ao meu redor. Maria Lcia ficou linda, inteligente, normal; Joo Henrique, sempre srio, ponderado, sbrio, cheio de idias 
convencionais, apaixonado por uma cantora, disposto a colocar esse amor acima de tudo. Maria Helena...
       Ele hesitou, e ela o encorajou:
       - D. Maria Helena?
       - Bem, ela, de repente perdeu aquela frieza, aquela pose de dona do mundo, revelou-se mulher.
      Luciana fixou-o com os olhos brilhantes.
      - Voc agora comea a perceber que todos ns somos apenas pessoas; amamos, sentimos, desejamos ser felizes.
      - Ainda no estou certo. Aquela noite foi mgica. Tudo parecia diferente. Ns bebemos um pouco.
      - O suficiente para fazer cair as barreiras do orgulho.
      - Pode ser.
      Luciana, num gesto afetuoso, segurou a mo do pai:
      - Foi uma noite feliz!
      - Sim. Muito feliz.
      - Voc pode fazer de sua vida uma felicidade constante.  s querer.
      Jos Luiz comoveu-se e apertou a mo dela fortemente.
      - Eu gostaria! Mas temo que esse encanto se desfaa.
      Ela sacudiu a cabea negativamente.
      - No creio. Voc tem uma famlia maravilhosa. Basta abrir o corao e perceber isso.
      - Voc foi a luz que Deus colocou em minha vida. Com seu carinho, tudo se modificou.
      - Gosto muito de Maria Lcia e sinto-me feliz por hav-la apoiado.
      - Voc  muito querida por todos ns. At Joo Henrique e Maria Helena capitularam. Sinto-me muito bem por isso.
      Quando Jos Luiz retirou-se meia hora depois, sentia-se sereno e muito satisfeito, com a impresso que dali em diante, tudo em sua vida iria melhorar.

CAPTULO 12

      A partir da noite do baile, a vida em casa de Maria Helena comeou a modificar-se. Nos seres das teras-feiras, Maria Lcia interessou-se pelos jogos de salo 
e pelas danas. Contudo, insistia na presena de Luciana para dar-lhe coragem. Maria Helena, a pedido da filha, convidara-a e Luciana aceitara desejosa de consolidar 
a mudana de Maria Lcia. Queria que ela se sentisse mais segura e depois, poderia afastar-se sem problemas.
      A moa entusiasmara-se com o sucesso e desejava aceitar todos os convites para festas. Maria Helena aprovava feliz, percebendo o olhar surpreendido dos amigos 
e conhecidos, diante das mudanas de Maria Lcia. Se antes desejava esconder a filha, agora, exibia-a satisfeita. Percebendo que a filha s saia com Luciana, convidava 
a moa para acompanh-la.
      Assim, Luciana passou a tornar-se assdua e at de certa forma indispensvel. E onde elas estavam, Jarbas e Ulisses apareciam infalivelmente. Maria Helena 
estava contente. Casar a filha parecera-lhe um sonho quase impossvel, agora tudo estava diferente.
      Por outro lado, preocupava-a Joo Henrique que insistia em manter o noivado. Uma noite, trouxera Antonieta ao sero e pedira-lhe para tocar. Fora preciso muito 
controle para faz-lo. Notara o olhar de admirao. dos homens e alguma contrariedade nas mulheres. Joo Henrique a apresentou como noiva, e Maria Helena sabia que 
os comentrios seriam inevitveis.
      Jos Luiz, adivinhando a contrariedade da esposa, desdobrou-se em gentilezas com todos, temeroso de que Maria Helena no conseguisse conter-se. Fingiu no 
perceber o interesse dos homens e o cime das mulheres.
      Joo Henrique estava feliz. Cercava Antonieta de atenes, fitava-a com adorao. Maria Helena concentrou-se na execuo, empenhando-se para dominar a irritao. 
Algumas senhoras a fitavam com ar de reprovao.
      - Querem ver como eu reajo, pensou ela com raiva. Perdem seu tempo. No lhes darei o gosto de fazer um escndalo.
      Para alvio de Jos Luiz, Maria Helena tocou com o brilhantismo de sempre. Quando terminou, ele aproximou-se dela oferecendo-lhe o brao.
      - Foi uma bela execuo - disse com um sorriso. - Posso oferecer-lhe uma taa de champanhe?
      - Obrigada, - respondeu ela, passando o brao no dele.
      Dirigiram-se  mesa onde Jos Luiz apanhou duas taas encheu-as e tomando uma ofereceu-a  esposa.
      - Beba que lhe far bem - disse baixinho.
      Ela obedeceu enquanto ele por sua vez levava a outra aos lbios.
      Joo Henrique aproximou-se trazendo Antonieta:
      - Mame, Antonieta deseja cumpriment-la pela brilhante execuo.
      -  verdade - disse ela - a senhora  uma virtuose.
      Maria Helena conseguiu sorrir.
      - Obrigada - disse.
      Havia um brilho malicioso nos olhos de Antonieta, ou havia sido impresso? Jos Luiz interveio com delicadeza, tentando entabular uma conversao, falando 
de assuntos amenos.
      Antonieta respondeu educadamente, e Joo Henrique satisfeito com a atitude do pai, procurou participar. S Maria Helena mantinha-se silenciosa. No lhe agradava 
a postura desabrida daquela mulher, que parecia olh-los com a condescendncia de uma rainha aos seus vassalos. E o mais submisso deles era Joo Henrique. To orgulhoso, 
to srio. Como se deixara apanhar assim?
      Quando os dois se afastaram, Jos Luiz disse baixinho:
      - Controle-se. No d a perceber o quanto est contrariada com esse noivado.
      - Estou fazendo o possvel. No posso entender como Joo Henrique se envolveu dessa forma.
      Jos Luiz sorriu:
      - Eu at que posso. Devemos reconhecer que ela  uma bela mulher.
      - Ele est cego! Viu como a fitava?
      - Est apaixonado. Seja paciente e procure dissimular. Ele a odiar se demonstrar qualquer animosidade contra ela.
       -        Meu Deus! Logo Joo Henrique que sempre foi to meu amigo!
       -        Ele est fascinado. Precisamos manter a calma.
       Maria Helena fez o possvel para conter-se e enquanto atendia seus convidados, procurando demonstrar uma alegria que no sentia, desejava ardentemente que 
a reunio acabasse.
       A partir daquela noite, Joo Henrique insistia com Antonieta para que freqentasse sua casa. Depois de acompanh-lo a um jantar e de comparecer a dois saraus, 
Antonieta recusou os novos convites.
       -        Por qu? - indagou ele.
       -        Porque no gosto das pessoas e no tenho vontade de ir.
       Ele ficou magoado.
       -        Refere-se a meus amigos?
       -        Essa gente puritana e recalcada que me olha como se eu fosse uma messalina. Quem eles pensam que so? Um bando de ignorantes, no enxergam um palmo 
diante do nariz.
       -        No pode falar assim. Todos a trataram muito bem.
       -        Sei o que estou dizendo. No irei mais e est decidido.
       -        Minha famlia a recebeu muito bem.
       -        Deixe sua famlia fora disso. No vamos brigar. No tenho vontade de ir e no irei.
       -        Est bem. Tambm no quero brigar. Seja como quiser.
       -        Faremos novos amigos. Deve haver gente mais interessante nesse Rio de Janeiro.
       Ele no disse nada. Conhecia-lhe o temperamento voluntarioso. Com o tempo, haveria de faz-la compreender.
       Porm, ela no compreendeu. A cada dia tornava-se mais irritadia. Saa todas as noites procurando divertir-se, e Joo Henrique acompanhava-a contrariado. 
Tentou conversar, dizer-lhe que gostaria de ficar um pouco em casa. Estava cansado, no tinha tempo para estudar, dedicar-se ao trabalho, nem dinheiro para sustentar 
esse ritmo de vida. Mas Antonieta no lhe dava ouvidos. Ele que fosse descansar. Ela iria com os novos amigos. Joo Henrique emagreceu, perdeu o apetite.
       Maria Helena preocupava-se. Jos Luiz chamou o filho para conversar. Percebeu claramente que as coisas no iam bem.
      - No h nada - garantiu ele.
      - Voc parece cansado, no se alimenta direito, sua me preocupa-se.
      Joo Henrique sorriu:
      - Estou bem. Mame exagera. Agora que Maria Lcia melhorou, ela voltou toda ateno para mim.
      - No seja injusto. Sua me pensa em seu bem-estar. Voc no parece bem. Tem se alimentado mal. Por que no nos conta o que o est afligindo?
      - Tudo est muito bem. Minha nica preocupao agora  o dinheiro. O emprego esperado no sai, voc sabe, tenho despesas. Antonieta  mulher de classe. Freqenta 
lugares finos. Minha mesada tem sido insuficiente.
      - Precisa de dinheiro?
      Joo Henrique corou ao responder:
      - De fato. Minha situao financeira no  boa.
      - Contudo, dobrei sua mesada depois do noivado. No acha que esto gastando alm de suas posses?
      - Minha felicidade  mais importante do que um punhado de moedas. Somos ricos. No posso fazer triste figura com minha noiva.
      -        Sua mesada parece-me capaz de suprir essas necessidades a no ser que voc fosse dado a vcios, coisa que no acontece.
      Joo Henrique olhou para o pai escolhendo as palavras para responder. Estava inquieto e atormentado.
      -        Pai, a mesada que recebo  generosa. No entanto, Antonieta vivia na Europa, est habituada a gastar sem reservas. Eu no gostaria de ser mesquinho, 
de contar os tostes.
      Jos Luiz olhava-o pensativo. O problema se agravara antes do que ele pensava.
      -        Filho, - retrucou calmo. - Se ela vai casar com voc, deve aprender a viver de acordo com suas posses.
      -        Por isso desejo trabalhar o mais rpido possvel. Preciso ganhar dinheiro.
          - Tem razo. Contudo, para fazer carreira, subir na vida, conquistar prestgio, bens, posio,  preciso tempo e esforo. Ningum consegue isso de um dia 
para o outro. Sua noiva  mulher experiente. Deve saber que est compromissada com um moo recm-formado, cujos pais so ricos, mas cujos bens vir a herdar s quando 
eles morrerem. Fora disso, embora possa receber ajuda, no dever esperar uma situao brilhante. Comear a vida com seus prprios recursos, subir pelos prprios 
mritos, valoriza o carter, solidifica a unio.
       - Voc no pensava assim quando se casou - retrucou ele, sentido.
       Ouvindo a aluso sobre o motivo de seu casamento, Jos Luiz enervou-se. Procurou controlar-se. No queria brigar com o filho. Manteve silncio por alguns 
instantes, buscando agir com calma. Quando falou, estava srio e em sua voz havia um tom de tristeza.
       -  verdade. Hoje porm, se pudesse voltar atrs, agiria de outra forma.
       Percebendo a atitude digna do pai, Joo Henrique arrependeu-se.
       -        Desculpe. No pretendia ofend-lo. Na verdade estou mesmo inquieto, queria muito resolver esse problema, casar o quanto antes.
       -        Casamento no resolve problemas, meu filho. Ao contrrio, muitas vezes os acentua.  uma deciso muito sria que modificar toda sua vida. No pode 
ser precipitada.
       -        Pai, eu amo Antonieta. Sinto-me inseguro. Tenho medo que ela se arrependa. Com o casamento, tudo passar.
       -        Engana-se. A maior segurana da unio entre duas pessoas  o amor, o entendimento, a harmonia. Quando no h essas coisas, o casamento no se manter.
       Joo Henrique passou a mo nervosamente pelos cabelos em um gesto desalentado. Jos Luiz penalizou-se. Teve a certeza de que aquele compromisso no se prolongaria.
       -        Felizmente no  esse o nosso caso. Ns nos amamos e nos compreendemos. O nico problema  do dinheiro. Voc podia arranjar isso, se quisesse. Tem 
poder, prestgio...
       -        Est bem, - concordou ele para acalm-lo. - Vou providenciar.
       -        Faa isso. Um posto importante, quem sabe at no governo, e tudo estar bem. Por favor, papai. Ser-lhe-ei eternamente grato.
       - Est bem. Vou tentar.
       - Obrigado.
       - Trate de acalmar-se. Quero v-lo mais satisfeito e disposto.
       Joo Henrique sorriu. Tudo haveria de dar certo.
       Jos Luiz no pretendia facilitar as coisas para que aquele casamento se efetuasse. Percebia claramente o que estava acontecendo. No acreditava que Antonieta 
levasse o compromisso at o fim. Joo Henrique sofreria, mas acabaria por conformar-se. Era jovem e o tempo cura todas as feridas.
       Pensou em seu amor perdido, em Suzane e concluiu: quase todas. Embora sua ferida estivesse menos dorida, a saudade e o arrependimento ainda o faziam lamentar 
as atitudes passadas. Procurou Maria Helena, pondo-a a par da conversa com o filho.
       - Sinto que esse noivado no vai durar - concluiu.
       - Deus o oua! - respondeu ela, radiante.
       - Joo Henrique vai sofrer. Est envolvido at o pescoo.
       - No importa. Ele esquecer. H de encontrar outras moas que o ajudaro a equilibrar-se. Acha mesmo que as coisas esto mal entre eles?
       - Acho. Tenho a impresso que ela no se acostuma longe do palco e da vida noturna. Joo Henrique no fica em casa uma noite sequer. Tem chegado de madrugada.
       - Esta mulher est arrastando Joo Henrique para a devassido. Ele nunca foi dado a excessos. E se ela no desistir? No podemos deixar que se casem. Seria 
uma desgraa!
       - Ele no tem condies financeiras para casar-se de imediato. Quer que eu lhe arranje um emprego que lhe d condies.
       - Voc no far isso!
       - No a curto prazo. As coisas no vo bem entre eles. No quero que ele fique ressentido comigo. Procurarei arranjar-lhe um bom lugar que o valorize e o 
coloque em condies de mostrar seu conhecimento. Mas farei isso de forma a no facilitar seu casamento.
       - Devia ignorar esse pedido. Seria mais seguro.
       Jos Luiz balanou a cabea em negativa.
       -        No. A amizade de Joo Henrique  muito importante para mim. Ele nunca se aproximou. Agora que estamos nos entendendo, no desejo afast-lo.
      Maria Helena olhou-o admirada. Seu marido estava mudado. Parecia-lhe mais humano, mais prximo, muito diferente de outros tempos.
           - S no quero que ele estrague sua vida casando-se com aquela mulher.
       - Vamos esperar. Deus conduz a vida e sempre faz o melhor.
       Sem perceber, ele repetia palavras de Luciana. Maria Helena calou-se. Aprendera que as coisas sempre podem melhorar.
       Luciana e Maria Lcia estavam na sala de msica. A moa conseguira que sua aluna tocasse certinho algumas peas, mas percebia que ela distraa-se constantemente 
interessada em outras coisas. Decidiu esclarecer o que ocorria.
       - Vamos conversar um pouco - sugeriu.
Maria Lcia suspirou aliviada.
          - Voc no se interessa muito pelo piano.
      -        No  bem assim. O que posso fazer se no tenho habilidade?
      Luciana sorriu.
      -        Cuidado. No seria mais adequado dizer que no sente vontade de tocar?
      -        No. Se eu disser isso, minha me se zangar. Depois, voc no ser mais minha professora. Ir embora.
      Luciana olhou-a nos olhos enquanto dizia:
      -        Voc pode viver bem sem mim. Tem capacidade suficiente para isso.
      Maria Lcia levantou-se do banquinho e aflita segurou as mos de Luciana.
      -        Voc no vai me abandonar! Por favor. Diga que ficar. Eu prometo estudar, esforar-me. No ter motivos para me deixar.
      Luciana abraou-a:
      -        No penso em deix-la. Quem disse isso? Acontece que podemos ser amigas, nos ver, sem que precise dar-lhe aulas de piano. Nada vai mudar entre ns. 
S que no acho justo voc estudar contrariada, e sua me pagar por aulas que no lhe so proveitosas.
      -        Tenho medo que voc no venha mais aqui. Fico esperando ansiosamente sua chegada.
      - Nossa amizade est acima de todas as coisas. Lembre-se sempre disso. Agora seja franca, gosta ou no de estudar piano?
       Maria Lcia permaneceu pensativa por alguns segundos, depois disse:
       - Adoro quando voc toca, D. Egle e at mame. Mas no me sinto capaz.
       - Voc gosta de msica, aprendeu a danar com muita facilidade.
       - Mas ao piano sou sofrvel, reconheo.
       - Pense bem. Na vida, em momentos de deciso como este,  sempre bom parar e observar cuidadosamente nossos verdadeiros sentimentos. Faa isso. Procure descobrir 
o que torna sua aula de piano to sem interesse para voc. Seja honesta, corajosa. No tenha medo de ver a verdade. Reconhecer que no gosta de fazer uma coisa, 
no significa que seja incapaz de fazer maravilhosamente outras, s vezes, at mais importantes e que lhe dariam mais valor do que esta. Aprender a se conhecer  
o caminho mais seguro para a felicidade.
       - Est bem. Tentarei. Mas prometa que se no houver mais aulas de piano voc vir aqui da mesma forma.
       - Se voc desejar, e sua me permitir, virei sempre.
       Na aula seguinte, Luciana encontrou Maria Lcia a sua espera. Assim que se recolheram  sala de msica, foi logo dizendo
       - Fiz o que voc mandou. Pensei, procurei sentir no fundo do corao e j sei do que no gosto.
       - timo. O que ?
       - Essas msicas complicadas. So enfadonhas, tristes. Deixam-me deprimida. Gostaria de tocar msicas da moda. Gosto de melodias brejeiras, alegres.
       -        Estamos descobrindo que voc  uma moa alegre e gosta de divertir-se. Podemos tentar de forma diferente. Ao invs de clssicos, aprender chorinhos, 
valsas, modinhas.
       -        Minha me no concordar.  exigente e no transige quanto a isso. Ou clssico, ou no tocarei nada.
       -        Sua preferncia por esse tipo de msica no  to forte como pensa.
          - Porqu?
      - Porque no est querendo lutar e defender seus gostos, suas idias. S merece conquistar o que deseja, quem luta para isso.
      -        Voc fala, mas mame  dura. No permitir.
      -        Se voc se considera derrotada antes de tentar, no h nada para fazer. E diz que gosta de lutar.
      -        Gostaria sim. Acredite. Adoraria no sarau tocar as msicas que os jovens apreciam. Quando fomos ao sarau em casa dos Menezes, adorei ver a Celinha 
ao piano. Reparou como todos se alegraram quando ela tocou? Gostaria de ser como ela. Cheguei a invej-la.
          - Est bem. Tentaremos. Falarei com D. Maria Helena. Veremos o que acontecer.
      -        Tenho medo!
      -        No diga isso. Onde est a moa corajosa que venceu todos os medos e brilhou no baile de Joo Henrique?
          Maria Lcia respirou fundo.
          - Seja - disse. - Vamos tentar.
          - Assim  que se fala. O que pode acontecer de pior?
          - Ela dizer no...
      -        Esse fato no vai mudar nada. Continuaremos como at agora por mais algum tempo, depois voltaremos ao assunto.
      -        Voc  maravilhosa. O que seria de mim sem voc?
          - Um dia descobriria a verdade e reagiria por si mesma.
      Naquela tarde mesmo, ao encerrar a aula, Luciana pediu para conversar com Maria Helena. Uma vez em seu gabinete, foi direto ao assunto.
      -        Precisamos conversar sobre as aulas de piano de Maria Lcia.
      -        Estou  sua disposio. Sente-se, por favor.
      Luciana acomodou-se em graciosa poltrona enquanto sua interlocutora sentava-se em outra.
      -        A senhora tem observado Maria Lcia ao piano. O que acha?
      -        Ela tem melhorado. Toca as peas sem errar,  j uma grande vitria.
      -        Estive pensando que isso no  o bastante para tornar-se um bom executante.  preciso mais.
      -  preciso talento, - aduziu Maria Helena, - e isso certamente ela no possui.  isso que quer me dizer.
      - No  exatamente isso, D. Maria Helena. Na Inglaterra, no conservatrio, h grandes professores. Todos eles interessados em estudar esse assunto. Fizeram 
experincias, pesquisas e chegaram a alguns resultados que muito tm contribudo para o incentivo e o desenvolvimento dos instrumentistas.
      Maria Helena interessou-se:
      - Acha que poderiam ajudar Maria Lcia a ser uma boa musicista?
      - Talvez. Tem ajudado muitas pessoas. Por que no ela?
      - Pode ser. Na poca moderna tudo est se modificando.
      - Diga-me, D. Maria Helena, quando decidiu que Maria Lcia deveria estudar piano, o que esperava dela? Que se tornasse uma grande virtuose como a senhora, 
ou outras pessoas famosas?
      - No. Desde o comeo eu sabia que Maria Lcia no tinha condies de tornar-se grande executante.
      - Desculpe insistir nesse ponto.  muito importante para o progresso dela que falemos sobre isso.
      -  inusitado, Luciana. Mas, concordo. Voc tem conseguido com ela o que ningum jamais conseguiu. Hoje, graas a voc, minha filha  uma moa normal, como 
as outras. Confio em sua capacidade e em seus mtodos de ensinar, embora sejam diferentes.
      - Desde o incio, a senhora acreditava que ela no se tornaria grande pianista.
      - Isso mesmo.
      - Mas insistiu ainda assim.
      - Sim. Pensei que a msica pudesse sensibiliz-la, despertar-lhe o interesse pela vida. Maria Lcia foi sempre uma menina triste. A msica tem o dom de falar 
aos sentimentos.
      -  verdade. A senhora pensou com acerto. Se surpreenderia se eu lhe dissesse que sua filha talvez possa tornar-se uma brilhante musicista?
      Maria Helena abriu a boca e fechou-a de novo sem saber o que dizer. Ficou silenciosa alguns momentos, depois disse:
          - Voc  surpreendente. Pensei que fosse dizer-me que seria melhor desistir dessas aulas; porque ela jamais faria isso bem, e agora... Voc realmente me 
surpreende. No sei o que dizer... Em que se baseia para afirmar isso?
     -        Em uma frase que li de famoso autor: o prazer est associado ao processo de aprendizagem. S faremos o melhor, se tivermos prazer em faz-lo. No foi 
assim com a senhora? No adorava suas aulas de piano?
     -         verdade. Eram para mim os melhores momentos. Aguardava-os ansiosamente.
     -        Ainda hoje quando toca, seu rosto de transfigura de prazer e alegria.
     -         verdade. Contudo, no vejo a relao que isso possa ter com minha Filha. Ela sempre sentou-se ao piano Como quem vai ao sacrifcio.
     -        Tem razo nisso tambm. A princpio tambm pensei como a senhora e procurei incentivar-lhe o gosto pelas artes e tudo o mais. Observando sempre, COnversando 
com ela, cheguei  Concluso de que ela no aprecia os CLSSICOS.
          - Como? A verdadeira msica. A msica eterna!
      -         verdade. A senhora j tem sensibilidade para sentir isso. Mas, as pessoas so diferentes umas das outras. O que comove uma at as lgrimas, deixa 
a outras indiferentes, e a recproca  verdadeira.
      -        Onde quer chegar?
      -        Descobri que Maria Lcia no aprecia os clssicos, mas comove-se e adora msicas populares. Aprender a execut-las seria para ela enorme prazer.
      -        Ela disse isso?
      -        No claramente Receia desgost-la Ficou entusiasmada com a Celinha.
Maria Helena, cenho fechado, olhava sria e calada.
          - Disse-me que gostaria de ser como ela e alegrar uma festa.
          - Fazer rudos Como eles fazem.
      -        Os Costumes esto mudando. Ela  jovem, deseja viver sua poca.
      -        O que sugere?
          - Gostaria da sua permisso para ensinar-lhe algumas peas atuais. Terei cuidado ao escolher. Isso lhe daria prazer e incentivaria ao estudo. Depois que 
ela adquirir gosto, talvez desenvolva a sensibilidade que lhe falta.
      Maria Helena suspirou.
      -        Est bem. Confio em seu bom senso. Confesso que se conseguir que ela se torne uma executora brilhante, ser um milagre. Vamos ver isso.
      Luciana levantou-se alegre.
      -        Obrigada, D. Maria Helena. A senhora  uma mulher compreensiva e inteligente. Obrigada mais uma vez.
      Notando a euforia de Luciana, Maria Helena sorriu. Gostava muito dela e agradecia a Deus hav-la colocado em seu caminho.
      Luciana voltou a entrar na sala de msica, olhos brilhantes de prazer. Maria Lcia a esperava.
      -        D. Maria Helena concordou. - disse alegre.
          - Parece mentira! S voc poderia ter conseguido isso! Qual nada. Sua me mostrou-se muito compreensiva.
      Maria Lcia entusiasmou-se:
      -        Quero aprender aquele chorinho que mexeu com todas as pessoas. Ao ouvi-lo, at os mais sisudos marcavam o compasso com os ps.
      -        Eu sei. Vov tem boa coleo de Nazar. Na prxima aula, trarei algumas para escolhermos juntas. Sabe o que faremos?
      -        O qu?
      -        Surpreenderemos a todos. Voc vai escolher duas msicas e estud-las. Quando estiver tocando bem, as executar em nosso sarau.
      Maria Lcia enrubesceu, mas seus olhos brilharam de prazer.
      -        Acha que serei capaz?
      -        Voc  capaz. Resta descobrir se quer e se gosta.
      -        Vamos tentar. Se voc diz, eu acredito.
      Uma vez em casa, Luciana aconselhou-se com a av que a
ajudou a escolher algumas msicas que, mesmo sendo populares e
estando em voga, ofereciam boas condies de desenvolvimento e
aprendizagem.
      Egle entusiasmou-se:
      -        Agora, tenho comigo que essa menina ir apreciar as aulas. Nem todos possuem sensibilidade para sentir a msica mais elaborada. Os jovens gostam de 
coisas alegres.
      Luciana concordou satisfeita. A partir daquele dia, Maria Lcia passou a interessar-se mais pelo piano, e sua execuo melhorou sensivelmente. Luciana estava 
radiante. Alm do mais, descobrira que Maria Lcia possua belo timbre de voz, muita afinao e gostava de cantar, embora tentasse no demonstrar. Com o tempo, haveria 
de faz-la mudar de idia.
      Em pouco tempo, Maria Lcia executava as duas msicas bastante bem. Um chorinho e uma valsa de Nazar.
      - Amanh  noite, no sarau, voc vai execut-la.
      Apesar de um pouco assustada, os olhos de Maria Lcia brilharam.
      - Acha que conseguirei? Uma coisa  tocar s para ns, outra  estar na frente de todos. Sinto um frio no estmago. No tenho coragem!
      - Por qu? Voc est tocando muito bem. No tem que se preocupar.  s fazer de conta que estamos s ns duas aqui, como sempre.
      - Ulisses vir?
      - Ele e Jarbas nunca faltam. So os primeiros a chegar e os ltimos a sair. O Jarbas s tem olhos para voc.
      - Eu preferia que fosse o Ulisses. Esse s olha para voc.
      - Um dia ele h de perceber que perde seu tempo e desistir.
      - Voc no gosta mesmo dele?
         - Claro que no.
      - Eu no gostaria de mago-la. V-se que ele est interessado e que vocs no namoram porque voc no quer.
      - No quero mesmo. No me interesso por ele. No pretendo namor-lo.
      - Posso tentar conquist-lo? Voc no me julgaria mal?
         - Por certo que no.
         - Sonho com ele todas as noites. Estou apaixonada.
      Luciana sentiu-se apreensiva. No considerava Ulisses capaz de fazer Maria Lcia feliz. Jarbas seria mais indicado, possua carter, delicadeza e parecia sinceramente 
interessado nela.
      - No sente nada pelo Jarbas? Ele est apaixonado por voc.
      -        Pode ser. Mas prefiro Ulisses. Quando ele aparece, meu
corao bate mais forte, fico trmula. Quando dano com ele, a
emoo toma conta de mim.
         Luciana sorriu:
         - No tem jeito mesmo.
         - Acha que ele pode interessar-se por mim?
      -        Claro. Entretanto, s vezes, essas coisas no acontecem como imaginamos. Sabe por qu?
      - No.
         - Porque Deus escolheu para ns coisa melhor.
         - Para mim, se Ulisses me amasse, seria a felicidade.
      -        Voc pensa assim agora. Imagina apenas. No experimentou viver com ele num relacionamento dia-a-dia. Deus sabe tudo e quando no nos d o que desejamos 
 porque nos reserva coisa melhor.
      -        Gosto dele. Se ele no quiser, no caso com mais ningum.
      -        No seja radical nem injusta. Est agindo como uma criana mimada. Como pode saber o futuro? Quem nos garante que esse seu entusiasmo no acabe e 
amanh aparea outra pessoa que desperte seu afeto de forma mais profunda e verdadeira do que agora?
      -        No creio. No me interesso por mais ningum. Luciana mudou de assunto dizendo:
        - Vamos repassar essas msicas. Amanh surpreenderemos a todos.
      Maria Lcia riu excitada. Tocar no sarau! Teria coragem?
      -        Imagine que o sarau j comeou. Todos esto aqui, sua me, seu pai, Ulisses, Jarbas, todos.
      -        Fico tremendo s em pensar.
      -        Eles esto aqui, mas voc vai tocar s para mim, s eu estou perto de voc. Vai ser um sucesso. Vamos. Toque.
      Maria Lcia, trmula, obedeceu e aos poucos foi se firmando e conseguiu tocar bem.
      -        Muito bem, - aprovou Luciana. - Vamos novamente e durante a execuo vai sentir a msica e mergulhar nela de corpo e alma. Nesta sala no haver mais 
ningum. S voc, a msica e seus sentimentos. No existe mais nada. Deixe-se levar e perceba o que cada nota desperta dentro de voc.
      Maria Lcia comeou a tocar, e Luciana continuou falando e a moa aos poucos foi se envolvendo com a melodia, sentindo vibrar de emoo, num crescendo de entusiasmo 
e expresso. Quando ela terminou, Luciana no conteve o entusiasmo. Beijou-a na face carinhosamente. Maria Lcia olhou-a emocionada sem encontrar palavras para descrever 
o que lhe acontecera. Luciana considerou:
      - Hoje, sua alma conseguiu expressar-se atravs da msica. Sinto que daqui para frente voc encontrar seu prprio caminho dentro da arte.
      - Foi uma emoo muito forte. No posso explicar. Uma felicidade, alguma coisa muito grande, muito boa, dentro de mim.
      - Eu sei. Amanh far tudo bem, tenho certeza.

CAPTULO 13

      Joo Henrique apressou-se. Estava impaciente para ver Antonieta. Naquela noite, pretendia falar com ela longamente. Faz-la compreender que a situao precisava 
mudar. Aquela vida bomia no tinha sentido. No que eles no pudessem sair de vez em quando para as noitadas alegres das quais ela tanto gostava. Mas, a vida no 
se resumia apenas nisso. Eles haveriam de constituir uma famlia, viver vida regular, como todas as pessoas. Antonieta o amava muito e acabaria por compreender. 
Deu os ltimos retoques nos cabelos e olhou-se no espelho satisfeito. Estava elegante e muito bem vestido.
      Desceu as escadas apressado. Sua me, no hall, o interpelou:
      - Vai buscar Antonieta?
      - No, mame. Hoje no viremos ao sarau.
      Maria Helena no perdeu a oportunidade.
      - Tenho a impresso de que sua noiva no gosta de freqentar nossa casa. Nunca mais apareceu em nossos saraus.
      Ele fez um gesto vago:
             - No  isso, me. Temos tido alguns compromissos inadiveis. Hoje pretendemos ficar em casa e programar nosso futuro. Temos sado muito e estamos cansados. 
Na semana que vem, viremos com certeza.
             - Est bem, meu filho. Fica para a outra semana. Joo Henrique saiu apressado. Maria Helena suspirou resignada. Nada podia fazer. Circulou pelos sales, 
ultimando os detalhes. Os amigos j comeariam a chegar.
             Luciana estava no quarto de Maria Lcia, observando-a enquanto se preparava.
             - Voc est linda - disse. - Esse vestido assenta-lhe muito bem.
      Maria Lcia corou de prazer.
      - Eu o escolhi.
       - Voc tem muito bom gosto,
       - Obrigada. Vamos descer. Mame faz questo da pontualidade
       Vendo a filha aparecer no salo, Maria Helena sorriu satisfeita. Ela estava linda.
       - Voc est muito elegante - disse. - Luciana escolheu o seu vestido?
       - No, - apressou-se em responder Luciana. - Tambm gostei muito dele, D. Maria Helena. Maria Lcia tem muito bom gosto.
       Maria Helena no respondeu. Ainda tinha suas dvidas, mas o que lhe importava era que agora sua filha estava apresentvel. Qualquer me se orgulharia dela.
       Luciana, de repente, levou a mo  testa e empalideceu.
       - O que foi, no se sente bem? - indagou Maria Helena com Preocupao.
       Luciana fechou os olhos por alguns instantes e no respondeu. Quando os abriu, as duas olhavam-na assustadas.
       - O que foi? - perguntou Maria Lcia.
       - Nada, - balbuciou a moa. - J passou. - Sua voz estava um pouco ansiosa ao perguntar: - Joo Henrique onde est?
       - O que aconteceu? Por que pergunta? No estou entendendo... - disse Maria Helena, admirada.
Ele est em casa?
       - No. Acaba de sair. Foi  casa de Antonieta.
       - Ele vai precisar muito do nosso apoio. Vamos pedir a Deus por ele.
A voz de Luciana estava firme.
      -        O que est acontecendo? - perguntou Maria Helena, angustiada.
         Jos Luiz chegara e vendo-as aproximou-se curioso.
      -        Vai acontecer alguma Coisa que o deixar perturbado. Sinto que ele precisa de orao.
      - Meu Deus!  estranho! - fez Maria Helena. - Como pode saber?
      - A me dela costuma avis-la das coisas - esclareceu - Maria Lcia. - J aconteceu antes.
      Maria Helena olhou o marido sem saber o que dizer. Luciana sempre lhe parecera equilibrada.
      - Vamos rezar -- pediu Luciana fechando os olhos e permanecendo silenciosa.
      - Vamos rezar -- disse Jos Luiz com seriedade. -- A prece  sempre um bem.
      Todos fecharam os olhos e permaneceram orando. Ao fim de alguns minutos, Luciana abriu os olhos dizendo:
      - Graas a Deus. Ele est protegido.
      Maria Helena desejava saber.
      - Que perigo  esse que Joo Henrique corre?
      - No sei, D. Maria Helena. Senti que ele no est bem. Sofreu uma grande contrariedade. A orao ajuda muito nesses casos.
          Maria Helena olhou o marido interdita.
          - No se preocupe - tornou Luciana - no acontecer mais.
      Os amigos comearam a chegar, e Maria Helena com o marido apressaram-se a receb-los.
      O        sarau decorreu animado e vrias pessoas, como habitualmente, apresentaram-se tocando, declamando poesias, cantando. Quando Jos Luiz preparava-se 
para encerrar as apresentaes, Luciana levantou-se e dirigindo-se ao piano anunciou:
      - Senhoras e senhores, tenho a alegria de apresentar-lhes minha aluna, Maria Lcia, que executar modinhas de Ernesto Nazar.
      Um zunzum de curiosidade encheu a sala, enquanto Maria Helena, entre a preocupao e a surpresa, trocava olhares com o marido.
      Luciana tomou Maria Lcia pela mo e conduziu-a ao piano dizendo-lhe baixinho:
      - Ficarei aqui a seu lado. Toque sentindo a msica, como ontem.
      A moa, um pouco trmula, sentou-se ao piano e comeou a tocar. Seu corao batia descompassado e ela pensou: "No h ningum aqui. S eu e Luciana. A msica 
e eu".
      A execuo que se iniciara tmida foi se firmando, e ela tocou a valsa e ao terminar, os aplausos foram insistentes e entusisticos.
      Os olhos de Maria Helena brilhavam quando ela tocou o chorinho com graa e emoo. Quando acabou, as pessoas aplaudiam, pedindo bis nsistentemente. Luciana 
disse emocionada:
      - Toque de novo. Foi um sucesso.
      Maria Lcia, rosto corado, sentindo a alegria vibrar no corao, executou novamente o choro, com entusiasmo. Quando terminou, foi muito aplaudida e abraada 
por todos. Maria Helena sentia-se comovida. Nunca permitira esse tipo de msica em sua casa. Mas era inegvel que, surpreendentemente, sua filha as executara bastante 
bem. Luciana era realmente milagrosa.
      - Maria Helena, hoje o sarau foi muito bom. Nunca esteve to alegre!
      - Foi o melhor dos saraus! Que beleza! Estava timo. Minha filha gostaria de ter vindo.
      O        entusiasmo e a alegria das pessoas foi grande e se referiam a Maria Lcia com admirao e carinho.
      Jos Luiz sentia-se feliz. Luciana transformara Maria Lcia em uma artista. Acontecera um milagre. Aproximou-se dela dizendo:
      - Voc fez de Maria Lcia uma artista.
      Luciana sacudiu a cabea.
      - No concordo. Ningum conseguiria isso, se ela no tivesse talento. Apenas ajudei a descobrir sua verdadeira personalidade. Ainda tem mais. Aguarde novas 
surpresas.
      - Depois desta, acredito em tudo quanto me disser. O que ainda falta acontecer?
      -  segredo. Quando chegar a hora, saber.
      Maria Lcia sorria feliz. Jarbas e Ulisses a fitavam com admirao.
      - Voc  maravilhosa - disse Jarbas sem conter o entusiasmo.
Estava apaixonado por Maria Lcia. Adorava seu sorriso, o brilho de seus olhos, seu jeito meigo de dizer as coisas, a brejeirice que transparecia em alguns momentos, 
faziam-no supor que ela guardava ainda novos segredos que ele sentia vontade de desvendar. No lhe passava despercebida a predileo dela por Ulisses. O amigo, no 
entanto, estava ardentemente apaixonado por Luciana. Esperava que com o tempo, Maria Lcia acabasse por desiludir-se e ento, ele teria sua chance.
       Quando saram, Ulisses despediu-se de Jarbas dizendo-se cansado. Fingiu ir embora, mas escondeu-se na rua prxima. Precisava falar a ss com Luciana. No 
queria perder a oportunidade. Maria Helena sempre mandava o seu carro lev-la em casa. Estugou o passo e tomou um carro de aluguel para chegar depressa. Sabia onde 
ela morava. Desceu nas proximidades da casa e esperou. Quando a viu chegar, entrar no jardim, e o carro saiu, aproximou-se chamando-a:
       - Luciana!
       A moa voltou-se surpreendida.
       -        Voc? O que deseja?
       -        Falar-lhe.
       -         tarde. Preciso entrar. Vov est me esperando.
       -        Por favor. S um momento. Estou desesperado! Se no me quiser, fao uma loucura.
       Luciana aproximou-se do porto.
       -        No seja criana. Conversaremos outra hora.
       Ele agarrou a mo dela com paixo.
       -        Deixe-me entrar. Abra o porto! No agento mais sua indiferena.
       -         muito tarde. Por favor, v se embora. - disse ela tentando soltar a mo que ele segurava com fora atravs das grades do porto. - Est me machucando. 
No compreende que eu no desejo nada com voc?
       -        Por qu? Ser que o entusiasmo que Maria Lcia tem por mim a impede de me aceitar?
       - No se trata disso. Quem ps essa idia em sua cabea?
       - Por que no? Maria Lcia me quer. Voc faz tudo para agrad-la. Ainda no entendi por qu. Qual seu interesse por ela? Freqentar as altas rodas? Eu tenho 
posio e nome. Minha famlia  to importante quanto a dela. Posso dar-lhe tudo isso se me quiser.
           Luciana ficou furiosa. Sua averso por ele aumentou. Num gesto decidido, puxou a mo e disse com raiva:
      - Est enganado, Ulisses. Compreenda que no me interesso por voc nem pelo seu nome de famlia. Deixe-me em paz.
       Virou as costas e rapidamente galgou a varanda batendo na porta. Antes de entrar, ouviu-o dizer:
       - Voc me paga. Hei de descobrir o que est por trs desse seu interesse. No brinque comigo. Pode se arrepender.
       Luciana fechou a porta, e Egle que a esperava, abraou-a preocupada.
       - Filha, o que aconteceu?
       A moa contou-lhe, e ela decidiu:
       - De agora em diante, no ir sozinha aos saraus. Eu irei com voc.
       Luciana beijou-lhe o rosto carinhosamente.
       - Obrigada, vov. Voc tem sido sempre convidada. Ser bom participar.
       Egle, depois da morte de Suzane, afastara-se do convvio social. Agora, percebia que no poderia abster-se. Luciana precisava de sua guarda e ela no lhe 
faltaria. Com entusiasmo, Luciana relatou-lhe o sucesso de Maria Lcia.
       - Dentro em pouco, ela no precisar mais de mim, - disse satisfeita.
       - Voc gosta muito dela.
       - Gosto, vov!  como uma flor que est desabrochando.
       - Est se apegando a toda famlia.
       -  verdade. So pessoas que admiro e respeito. Amo meu pai, admiro Joo Henrique, to inteligente. Tanto ele como a me tm nobres sentimentos. Vov, sinto 
que ele no est bem. Tive um dos meus pressentimentos. Eu o vi desesperado, apertando a cabea entre as mos.
       -  preciso rezar, filha. Voc nunca se engana.
       - Fao votos que desta vez tenha me enganado. Sabe como acontece. No pude esconder. Maria Lcia, a me, meu pai notaram. Rezamos juntos.
       - Vou rezar tambm. Nada acontecer a ele.
       As duas recolheram-se para dormir.
       No dia seguinte,  tarde, a sineta da porta tocou com certa insistncia. Maria Helena entrou assim que a criada abriu. Egle recebeu-a gentilmente.
      - Desculpe vir sem avisar, - disse ela aps os cumprimentos. - Estou muito nervosa. Posso falar com Luciana?
         - Claro.
         Luciana atendeu prontamente.
         - D. Maria Helena, o que aconteceu?
      -        Preciso da sua ajuda. Joo Henrique desapareceu. No voltou para casa ontem  noite. Jos Luiz saiu para procur-lo. Foi imediatamente em casa de 
Antonieta e l recebeu a informao de que a casa estava vazia. Ela havia viajado sem dizer para onde. Estamos aflitos.
      Luciana olhou para a av preocupada.
         - Ele teria viajado com ela? - perguntou Egle.
      -        Pensamos que no. Saiu com a roupa do corpo e sequer dispunha de dinheiro para isso. Luciana, voc pressentiu que algo ia acontecer. Pode nos ajudar?
      -        Sente-se, D. Maria Helena. Vamos pensar com calma, confiar em Deus.
      Maria Helena sentou-se dizendo:
      -        No sabemos o que realmente aconteceu. Se ela partiu sem avis-lo, ele deve estar desesperado. Infelizmente, nos ltimos tempos, vive obcecado por 
essa mulher. Temo que cometa alguma loucura.
      -        Deus no h de permitir - tornou Egle. - Talvez ele esteja em casa de algum amigo, tenha bebido um pouco a mais, sabe como so essas coisas.
      -        Pensamos nisso. Jos Luiz esteve com seus amigos e ningum sabe dele.
      -        A senhora o viu ontem quando saiu? - inquiriu Luciana.
      -        Sim. Pedi-lhe para trazer Antonieta ao nosso sarau. Ele respondeu que pretendiam ficar em casa conversando, estavam cansados, viriam na prxima semana.
      -        Est claro que ele no sabia que ela pretendia viajar.
      -        Isso  o que me preocupa. Se ela o deixou dessa forma, ele deve estar desatinado.
      -        Vamos pedir ajuda a Deus - sugeriu Egle. - Ele tudo sabe e tudo v. Por certo vir em nosso auxilio.
      -        Tem razo, vov.
         - Vamos para nossa saleta, - props ela.
       Acomodadas em agradveis poltronas na sala graciosa, Egle proferiu uma prece, pedindo a ajuda de Deus. Quando ela se calou, Luciana levantou-se e aproximando-se 
de Maria Helena colocou a mo direita sobre sua testa dizendo com voz suave:
      - Acalme seu corao. A desiluso  fora que muitas vezes se manifesta com violncia, parecendo arrasar tudo por onde passa. Contudo, ela traz consigo a revelao 
da verdade, que com o tempo far renascer em seu lugar, as flores da alegria e do bem. Guarde seu corao em paz. Confiemos em Deus.
      Luciana sentou-se e abriu os olhos.
         - Sente-se melhor? indagou EgIe.
         - Sim, respondeu Maria Helena. A prece fez-me muito bem.
      - Vamos tomar um ch. A mensagem foi de confiana -disse Egle saindo para providenciar.
      - O que ela quis dizer? - perguntou Maria Helena.
         - Que precisamos confiar. Deus nos ajudar.
      - Isso eu sei. Mas o que precisamos fazer? Quero encontrar Joo Henrique.
      - Vamos tomar o ch - disse Luciana. - Se tivermos que fazer alguma coisa, Deus nos guiar.
      Maria Helena olhou-a admirada. De que forma Deus as guiaria? Notou que Luciana estava um pouco diferente. Seus olhos pareciam fixos em um ponto distante. Guardou 
silncio. Egle serviu o ch e ao estender a xcara para Maria Helena disse:
      - Beba, D. Maria Helena. Vai fazer-lhe bem.
      Serviu-se por sua vez, mas no se dirigiu a Luciana. As duas tomaram o ch em silncio. Depois de alguns minutos, Luciana deu um salto do sof.
      - Eu sei onde ele est - disse.
         - Sabe? - indagou Maria Helena, admirada.
         - Sim. Vamos busc-lo. Est com o carro a?
         - Estou.
         - Ento vamos.
      - Vou com vocs - disse Egle saindo para apanhar a bolsa e o chapu.
      Com o corao aos saltos, Maria Helena as acompanhou. Parecia-lhe loucura agir assim, mas Luciana estava decidida. Uma vez no carro, Maria Helena perguntou:
- Onde ele est?
- Vi o lugar, mas no sei onde fica. No se preocupe, mame est aqui e nos guiar.
-  E dirigindo-se ao motorista disse:
          - Pode seguir at o fim da rua e virar  direita.
      Maria Helena sentiu-se inquieta. Era loucura. Um morto no podia aparecer assim, sem mais aquela e ensinar as coisas. Olhou a fisionomia de Egle e ela estava 
calma. Acreditaria naquilo?
      Egle olhou-a e vendo-lhe o olhar perturbado, disse com um sorriso:
      -        No se preocupe. Luciana sabe o que est fazendo. Vamos ajudar com nossa orao e confiana em Deus. O mais importante  encontrar seu filho. No 
 isso o que quer?
      -        Sim.  isso o que eu mais quero no mundo.
      -        Ento reze e confie.
      Maria Helena obedeceu. Rezou de todo corao pedindo ajuda para Joo Henrique. Luciana imperturbvel dizia ao motorista por onde deveria ir. Passaram marginando 
as praias. O local era deserto e as casas tinham ficado para trs. Luciana pediu:
      -        Bem devagar, por favor. Deve ser por aqui.
      -        Santo Deus, no h viva alma!
      -        Calma, D. Maria Helena. Vamos encontr-lo. Pare aqui, por favor. Vamos descer e dar uma olhada. Ele est sentado no cho, encostado em uma pedra.
      -        Santo Deus, - gemeu Maria Helena, assustada.
      Luciana saiu do carro e as duas a seguiram. O terreno era irregular, e o mar bramia com certa violncia. Ao passarem por uma das rochas que havia no local, 
elas depararam com Joo Henrique. Sentado no cho, encostado em uma elevao do terreno, olhos fechados parecendo dormir, roupas em desalinho, sujo e descomposto, 
l estava ele.
      Maria Helena no se conteve:
      -        Meu filho! Deus do cu, o que aconteceu?
      Debruou-se sobre ele chamando-o com insistncia. Ele no acordava. Egle tornou:
      -        Vamos chamar o motorista e coloc-lo no carro.
      Luciana foi at o mar e tirando uma echarpe que trazia ao pescoo, molhou-a e torcendo-a voltou colocando-a sobre a testa do moo. Ao contato da gua, ele 
abriu os olhos um tanto alheio.
      -        Graas a Deus. Meu filho, fale comigo, o que aconteceu?
      Ele olhou-as incerto, e Luciana disse com voz firme:
      - Est tudo bem, Joo Henrique. Tudo bem. Vamos para casa. Voc precisa de repouso.
      Ele fez meno de levantar-se, mas no conseguiu. Luciana passou seu brao sob o dele dizendo:
      - Apie-se em mim. Vamos para casa.
      Maria Helena ia dizer algo, mas Luciana fez-lhe sinal para que se calasse. Ela obedeceu. Auxiliado pelas trs, ele conseguiu erguer-se e caminhar lentamente 
para o carro.
      Luciana conversava com ele repetindo que tudo estava bem. Vendo-o acomodado no carro entre a me e Luciana, Egle sentada na frente ao lado do motorista disse 
com alegria:
      - Em nosso corao s deve haver a satisfao do reencontro. Os esclarecimentos viro depois, quando for oportuno. No nos esqueamos da gratido. Vamos pensar 
em Deus.
      Maria Helena fechou os olhos e silenciosamente comeou a rezar.

CAPTULO 14

       Maria Helena apanhou a xcara de ch que Egle lhe estendia.
       - Beba, D. Maria Helena. Seu filho ficar bom, tudo vai passar.
       - O que teria acontecido? - indagou ela no escondendo a preocupao.
       - O mdico acredita que ele tenha sofrido alguma emoo forte. Est em choque. O calmante que lhe deu o far dormir algumas horas e quando acordar, tudo ter 
passado.
       Maria Helena colocou a xcara sobre a mesinha prxima e apanhando a mo de Egle disse comovida:
       - Nunca esquecerei o que esto fazendo por ns. Luciana tem sido o anjo bom que transformou nossa casa. O que ela fez hoje foi inacreditvel. Como podia saber 
onde ele estava?
       - H pessoas que possuem a faculdade de perceber alm dos cinco sentidos fsicos.
       Luciana tem sensibilidade.
       - Nunca pensei que isso existisse. Agora sei. O que aconteceu foi um verdadeiro milagre.
       - Deus ajuda sempre. Seu filho  um moo bom.
       Maria Helena ainda estava trmula. Apesar do mdico haver dito que ele parecia ter apenas um abalo nervoso e que logo estaria bem, ela sentia-se angustiada. 
S se acalmaria quando o visse em seu estado normal. Fez meno de levantar-se e Egle pediu:
       - Descanse um pouco. Tome mais ch. Far-lhe- bem. Joo Henrique dorme, Luciana e Maria Lcia esto velando. Qualquer coisa nos avisaro. A senhora est muito 
nervosa. Procure recuperar-se.
       Maria Helena obedeceu. Precisava ficar bem para cuidar do filho.
       - Tenho certeza de que aquela cantora lhe pregou uma pea. Vai ver que viajou e sequer o avisou. Ele saiu ontem to animado! Tenho certeza de que ignorava 
a partida dela.
      -        Pelo que sei, ele estava muito apaixonado.
      -        Obcecado, D. Egle. S pensava nela. Tanto eu como Jos Luiz pressentimos que esse noivado no ia dar certo. Mas ele quis e com tal veemncia que resolvemos 
contemporizar.
      -        Sbia deciso. A paixo tolda a razo. A vida sempre corrige nossos enganos, mas a desiluso  difcil de superar. Joo Henrique precisar de todo 
apoio e carinho.
      -        Por certo. Depois do que ela lhe fez, o rompimento ser inevitvel.
      -        O tempo cura todas as feridas. Um dia ele encontrar um amor de verdade e ser feliz.
      -        Deus a oua.  s o que eu peo, sua felicidade.
      No quarto de Joo Henrique, enquanto ele dormia, as duas moas velavam, trocando idias em voz baixa.
      -        O que ter acontecido? - conjeturou Maria Lcia. -Papai disse que Antonieta viajou e ningum sabe para onde. Suspeita-se que tenha deixado o Brasil. 
Ontem  noite saiu um vapor rumo  Europa. Ela pode ter seguido nele.
      -        Pobre Joo Henrique, que desiluso! - considerou Luciana. - Ele  louco por ela.
      -        Tem paixo. E agora, como vai ser?
      -        Ele  um homem. Sofrer, mas h de superar. Talvez tenha sido melhor assim. Um casamento com Antonieta no ia dar certo. Eles so muito diferentes. 
A separao seria inevitvel.
      A criada havia ido ao banheiro apanhar a roupa de Joo Henrique para lavar e apareceu no quarto com alguns objetos.
      -        Estavam nos bolsos - disse - colocando-os sobre a cmoda.
      Maria Lcia aproximou-se dizendo:
      -        Veja Luciana, h uma carta amarrotada. Vamos ver o que diz.
      Luciana aproximou-se tambm.
          - Pode nos esclarecer. Abra.
Maria Lcia abriu e as duas leram: "Joo Henrique. Preciso partir. Embora goste de voc, no consigo suportar a vida burguesa do Rio de Janeiro. Tenho necessidade 
dos aplausos, da platia, dos amigos, do brilho, das noitadas alegres. No sou a mulher que voc sonha. Voltarei ao palco. Vou em busca de tudo que eu sempre amei. 
Perdoe-me e no me procure mais.  definitivo. Um dia encontrar outra que se contente em viver para o lar e para a famlia. Seja feliz.  o que eu desejo. Adeus. 
Antonieta. Ps. No insista. Ningum lhe dar meu endereo. Quero que seja assim".
      As duas olharam-se. Ento fora isso. Ela o abandonara definitivamente.
      - Vamos mostrar a D. Maria Helena, - sugeriu Luciana.
      - V voc. Eu fico ao lado dele.
      Luciana pegou a carta, dirigiu-se a outra sala e aproximando-se de Maria Helena estendeu-lhe o papel em silncio. Ela leu e passou-o a Egle.
      - Foi o que suspeitei. De certa maneira, foi melhor assim. Finalmente ela se revelou. Jos Luiz previu isso.
      - Ela foi sincera - reconheceu Egle. - Antes assim.
      - Sequer se deu conta do mal que fez a meu filho. Brincou com os sentimentos dele. Nunca pretendeu abandonar a vida que levava.
      Pelos olhos de Egle passou um brilho de emoo quando considerou:
      - Talvez estejamos sendo muito rigorosos com ela. Joo Henrique  um belo homem, pode t-la atrado realmente. Entretanto, as emoes do palco so muito fortes. 
Ao que sei, quem as experimenta, dificilmente consegue abster-se. Nota-se que ela ficou dividida entre o amor e a carreira. Optou por sua vocao artstica.
      - Porque no o amava o bastante - tornou Maria Helena.
      - Talvez. A paixo pelo palco foi maior. Seja como for, ela foi sincera.
      - Melhor assim, D. Egle. Di-me v-lo sofrendo deste jeito, mas se o casamento se consumasse, se houvesse filhos, seria pior.
      - Certamente.
      -        Luciana voltou ao quarto e sentou-se ao lado de Maria Lcia, fazendo-lhe companhia na viglia. Jos Luiz avisado, chegou pouco depois. Na sala, com 
Egle, Maria Helena contou-lhe tudo, emocionando-o. Maria Helena considerou:
-        Coisas estranhas aconteceram hoje. Foi um verdadeiro milagre. A maneira como Luciana nos conduziu, encontrou o local onde Joo Henrique estava, foi impressionante. 
Ela fez isso com naturalidade, sem nervosismo ou como se algum invisvel a orientasse. Maria Lcia nos contou que ela v a alma de sua me, que a orienta e ajuda.
      Jos Luiz lutou para reter as lgrimas.
      -         verdade isso, D. Egle? Ela v a me e conversa com ela?
      -        Sim. Ela e a me tinham muita afinidade. Quando Suzane morreu, Luciana estava com quatorze anos. Nos primeiros dias, chorava muito, sentia saudades. 
At que um dia, ela lhe apareceu. Disse-lhe que estava bem e que no devia chorar. Prometeu-lhe visit-la sempre. E tem cumprido sua promessa. Quando temos algum 
problema, ela sempre aparece.
      -         extraordinrio! - comentou Maria Helena - Nunca pensei que fosse possvel. E a senhora no se preocupou vendo-a s voltas com essas coisas?
      -        Fiquei atenta. Sei que a vida continua depois da morte do corpo, em Outros mundos. Mas procurei certificar-me de que era mesmo Suzane.
      -        E obteve a confirmao? - indagou Jos Luiz, ansioso.
      -        Sim. Inmeras vezes, ela identificou-se dizendo coisas que Luciana desconhecia e que s eu sabia. Algumas delas do passado, que nem ela, Suzane, soubera 
em vida.
      -        No lhe pareceu uma coisa mrbida para uma jovem, relacionar-se com a alma de sua me? - inquiriu Maria Helena.
      Egle sorriu e sacudiu a cabea negativamente.
      -        Essa relao nunca foi mrbida. Suzane  alegre e muito Sensata. O fato dela estar vivendo em outro lugar no a modificou. Os senhores podem observar. 
Luciana  moa equilibrada, inteligente. A proximidade de Suzane s a ajudou. Acrescentou conhecimento, percepo, enriqueceu. Sua influncia  saudvel e nos transmite 
muita alegria e paz.
      Maria Helena abriu a boca e fechou de novo, no encontrando palavras para dizer. Foi Jos Luiz quem considerou:
      -        Uma vez, Luciana fez meno a isso, mas para ser franco no acreditei.
      -        Agora, depois do que houve hoje, seria bom comear a pensar e compreender o que Shakespeare j dizia h sculos: "H mais coisas entre o cu e a Terra 
do que sonha nossa v filosofia". - respondeu Egle.
       -  verdade - concordou Jos Luiz. - Diga-me, D. Egle, a senhora tambm a v?
       - Infelizmente no. Adoraria. Mas, no tenho essa felicidade.
       - Apreciaria muito poder v-la, conversar com ela -observando os olhos de Maria Helena fixos nele, explicou - seria interessante. Gostaria de agradecer-lhe 
o que fez por Joo Henrique.
       - Faa isso, Dr. Jos Luiz, ore por ela. Os espritos percebem nossos pensamentos.
       Apesar dos acontecimentos, o ambiente da casa era tranqilo. O moo dormia ainda e as duas moas permaneciam velando. S concordaram em jantar depois que 
os demais j o haviam feito, e Maria Helena com Egle as substituram.
       Jos Luiz, na sala, tinha um livro aberto entre as mos, que fixava sem ler. Seus pensamentos divagavam. As saudades de Suzane doam. Recordava os velhos 
tempos e nunca seu amor por ela esteve to presente. Ah! se ele pudesse v-la por um instante que fosse! Seu sorriso lindo, seus olhos emotivos e belos! Abra-la 
de novo, ouvir-lhe a voz! Se pudesse dizer-lhe o quanto se arrependia das atitudes passadas, o quanto ainda a amava... Mas ele no merecia e pelo resto da vida arrastaria 
o remorso e o arrependimento.
       Fundo suspiro escapou-se-lhe dos lbios.
       - No desanime. Procure amar as pessoas, torn-las felizes.  o melhor caminho para conquistar felicidade.
       Jos Luiz abriu os olhos, e Luciana estava diante dele.
       - Por que me diz isso? - indagou ligeiramente surpreendido.
       - No sei. ia passando e pediram para dar-lhe este recado.
       Vendo que Maria Lcia se demorava na copa e que Luciana estava s, no se conteve:
     -        Foi Suzane!
     -        Foi.
       Jos Luiz sentiu aumentar a emoo.
     -        Daria alguns anos de minha vida para v-la ainda que por um momento.
      - Acalme-se. Ela sabe o que se passa dentro do seu corao. Procure entender seu recado. Ela s deseja a felicidade de todos.
      Vendo Maria Lcia aproximar-se, Jos Luiz disse com naturalidade:
      - Deve ser emocionante poder prever as coisas e ver o que est oculto  maioria.
      Luciana sorriu:
         -  uma condio como outra qualquer.
Maria Lcia abraou Luciana com carinho:
      - Ela  uma fada escondida. S exibe seus poderes de vez em quando.
      Todos riram e enquanto as duas moas voltavam ao quarto de Joo Henrique, Jos Luiz permaneceu pensativo.
      Seria mesmo possvel conversar com os que j morreram?
No estariam sendo vitimas de uma alucinao? A figura de Suzane acudiu forte em sua lembrana. A recordao foi to viva que, de repente, ele sentiu uma onda de 
perfume no ar.
Imediatamente reconheceu: era dela!
      - Suzane - pensou. -  voc? Que saudade!
      Enterrou a cabea entre as mos, deixando que as lgrimas
corressem livremente. Jamais poderia esquecer. Se ela estava viva
em outro mundo, se ela estava ali naquele instante, teria algum dia
a chance de encontr-la de novo? Tambm vou morrer - pensou.
         - Irei para onde ela est?
      Abriu os olhos e procurou controlar-se. E se algum o surpreendesse em crise? Ningum a no ser ele mesmo fora culpado pela sua dor. Devia agentar sozinho 
as conseqncias dos seus enganos. Lembrou-se das palavras de Luciana:
      - No desanime. Procure amar as pessoas, torn-las felizes.  o melhor caminho para conquistar a felicidade.
      Teria mesmo sido um recado de Suzane? Preocupar-se com ele, com sua felicidade, era bem tpico da sua nobreza de alma. Como poderia ser feliz sem ela? Lembrou-se 
de seus filhos.
      Amava-os. Quanto a Maria Helena, respeitava-a. Mas, amor, era outro sentimento. No seria loucura continuar amando uma morta?
      Ele estava vivo e ansiava por afeto.
         Suspirou fundo e levantou-se. Maria Helena e Egle estavam diante dele.
      - Desculpe - balbuciou contrafeito. - No as vi chegar. Fiquei perturbado com o que aconteceu.
Egle aproximou-se sorrindo com suavidade.
Joo Henrique est bem - disse. Uma desiluso amorosa di, mas passa. Ele  jovem. Vai refazer-se.
     -        Assim espero. - considerou Maria Helena.
Jos Luiz sacudiu a cabea.
     -        No sei... As vezes marcam pelo resto da vida.
        Ele pensava em seu amor por Suzane. Egle no disse nada. Ela se lembrava que sua filha tambm nunca conseguira esquecer.
       Era tarde da noite quando Joo Henrique acordou. Remexeu-se no leito e apesar dos olhos abertos ainda parecia um pouco alheio.
       Maria Helena aproximou-se solcita, fixando-o com amor. Estava s no quarto. Egle e Luciana haviam se retirado e os demais dormiam. Ela recusara o oferecimento 
das duas moas para passarem a noite velando. Quando Joo Henrique despertasse, ela queria estar a seu lado, apoi-lo e verificar a profundidade da ferida.
       De repente, ele sentou-se no leito assustado.
       - Me? O que aconteceu?
       - Nada, meu filho. Est tudo bem. Voc est em sua cama, e eu estou aqui.
       Ele passou a mo pela testa como querendo afastar um pensamento ruim.
       - Me! Ento foi isso! Estava dormindo! Tive um pesadelo horrvel. Ainda bem que acordei. Que susto!
       Maria Helena tentou ocultar a preocupao.
       - Seja o que for, agora tudo passou.
       Ele insistiu:
       - Tive um pesadelo terrvel. Sonhei que Antonieta havia partido, me abandonado. Foi sonho, no foi? - indagou num misto de ansiedade e esperana.
       Maria Helena no respondeu.
       - Sa de casa feliz para v-la. Mas quando cheguei l, ela havia partido. Resolvera voltar ao palco. Deixou-me uma carta de despedida. Me, responda, por 
favor! Diga que eu sonhei e que isso no aconteceu! Que a carta to cruel no existe!
       Maria Helena baixou os olhos sem coragem para falar.
      - Por que no responde? Aconteceu mesmo? Ela me deixou? Foi verdade? A carta, onde est. Levantou-se e, embora atordoado ainda, tentou encontr-la. Maria Helena 
tentou faz-lo deitar-se novamente.
      -        Calma, meu filho.
      -        Eu quero a carta.
      -        Sei onde ela est. S vou entreg-la se se acalmar. Deite-se. O mdico deu-lhe um calmante. No est em condies de levantar-se.
      -        Est bem. Quero a carta.
      -        Acomode-se. Tente acalmar-se. Vamos, relaxe um pouco o corpo.
          - No estou doente. Quero a carta.
      -        Vou busc-la. Estava no bolso de sua cala que foi para lavar.
      Maria Helena tirou-a da gaveta e entregou-a ao filho. Ele apanhou-a e aproximou-a do abajur. Maria Helena apreensiva observava os ritos de dor e o nervosismo 
dele enquanto lia. Ao terminar, deixou-se cair na cama desalentado.
      -        Tudo acabado! - disse num sopro. - Ela no me quer mais!
      -        Precisa compreender e aceitar. Ela escolheu livremente.
      -        Ela disse que me amava! Como pde esquecer tudo e partir para o mundo da fantasia que  o palco?
      - Ela  uma artista! O palco  a vida do artista!
          - Mas eu dei-lhe todo meu amor! Ela parecia to feliz! Maria Helena no respondeu. Sabia que sequer seria ouvida.
Melhor deix-lo desabafar a desiluso, o desapontamento. Joo Henrique sempre fora sensato, equilibrado. Com o tempo, refletiria melhor e acabaria por aceitar os 
fatos.
      Com carinho alisou-lhe os cabelos enquanto ele extravasava seu desgosto. Durante mais de uma hora, ele se lamentou, at que exausto, adormeceu. Maria Helena 
sentiu-se mais calma. Acomodou-se no sof e pensou:
      - Amanh ser outro dia. - Apesar da preocupao, no fundo sentia alivio. Ficar livre de Antonieta fora timo. Um dia seu filho encontraria uma boa moa, digna 
dele, e seria feliz. Pensando assim recostada nas almofadas adormeceu.
       Nos dias que se seguiram, Joo Henrique no saiu do quarto. Caiu em grande depresso. Ningum e nada conseguia interess-lo. Maria Helena, Jos Luiz, Maria 
Lcia tentaram faz-lo deixar o quarto, sem xito. Maria Helena comentou com o marido:
      - Faz uma semana que ele no sai do quarto, mal toca nos alimentos e permanece na cama, aptico, triste, distante. No  natural! Precisamos fazer alguma coisa! 
Desse jeito ele adoecer de verdade.
      - Tem razo -- concordou Jos Luiz. -- J era para ter melhorado.
      - Devemos chamar o mdico novamente?
      Jos Luiz balanou a cabea:
      - No vai adiantar. Ele vai receitar outro calmante e pronto.
      - Maria Lcia e Luciana fizeram vrias tentativas de interess-lo em algumas coisas, inutilmente. Parece que ele nem as v.
      Jos Luiz no pde furtar-se a uma sensao de tristeza. Uma vez ouvira um padre dizer que os filhos pagam pelos pecados dos pais. Antonieta causara a seu 
filho a mesma dor que ele provocara em Suzane. Seu sentimento de culpa apareceu mais forte, aumentando sua depresso. Teria que arcar com mais esse remorso?
      Acabrunhado, Jos Luiz no teve nimo para responder. Era inegvel que o problema do filho reavivava a ferida que ele trazia no corao. Se ao menos pudesse 
fazer algo para melhorar as coisas, sentir-se-ia mais confortado. A sensao da prpria impotncia o deprimia, a culpa sufocava-o. No era justo que os outros sofressem 
pelo seu erro. Seu filho no merecia ser punido. Era um moo correto e idealista. A vida era cruel e vingativa!
      Sentindo-se oprimido e triste, resolveu andar um pouco. Passava das dez, mas ele sequer percebeu. Saiu a p e caminhou durante algum tempo. Pensou em Suzane. 
Se fosse verdade que ela vivesse em outro mundo, talvez tivesse respostas s suas indagaes.
      Ela falava com Luciana, poderia falar com ele tambm. Sentia necessidade de conforto, de esclarecimento de compreenso. Dirigiu-se  casa de Luciana, sem pensar 
no adiantado da hora. Apesar de j se terem recolhido, Egle recebeu-o com carinho.
      - Desculpe incomodar - foi dizendo ele assim que ela abriu a porta. - Estou muito triste. Gostaria de conversar com Luciana.
      Egle fixando-lhe o rosto atormentado sugeriu.
      -        Entre. Sente-se. Vou cham-la. Aceita uma xcara de ch enquanto espera?
      -        Obrigado. O que eu quero  conversar. Quero saber de Suzane. Estou desesperado.
      -        Acalme-se. Desesperar-se no o ajudar em nada. Venha. Vou servir-lhe um ch, e Luciana vir num instante.
      -        Jos Luiz deixou-se cair em uma poltrona, e Egle dirigiu-se  cozinha. Depois de alguns minutos, voltou com uma xcara fumegante que colocou nas mos 
dele dizendo:
      -        Beba. Far-lhe- bem. Vou avisar Luciana.
      Jos Luiz comeou a tomar o ch e sentiu um calor agradvel no corpo. A sala aconchegante, a ateno e a solicitude de Egle, deram-lhe de pronto agradvel 
sensao de bem-estar.
      Quando Luciana chegou, ele sentia-se mais calmo. Retribuiu o beijo que ela lhe deu na face com carinho.
      -        Desculpe. J  tarde. Estou muito triste hoje. H pessoas como eu que s causam dor e no merecem viver.
      Luciana olhou-o surpreendida.
      -        No diga isso! Por favor!
      -         verdade. Sou o culpado de tudo. Meu filho est sofrendo por minha culpa. Estou sendo punido!
      -        No estou entendendo - murmurou Luciana, sentando-se no banquinho em frente ao pai, segurando as mos dele e olhando-o nos olhos, procurando sentir 
o que ele desejava expressar.
      -        Eu fiz Suzane sofrer. Eu a abandonei depois de hav-la iludido. Eu fui muito pior do que Antonieta. Ela seguiu sua vocao, eu fiz isso por dinheiro, 
posio! Eu sou culpado. Meu filho est sendo castigado por minha culpa. Minha dor  maior porque feri um inocente. Eu deveria pagar, no ele! Isso  injusto.
      Luciana fixou-o incrdula:
      -        Voc acredita nisso mesmo? Acha que Joo Henrique est sendo punido por sua culpa?
          - Sim. S pode ser isso. Ele  um moo bom, e nada fez para merecer. Eu, sim, estraguei a vida de vrias pessoas, inclusive de sua me e a sua. Acha que 
posso suportar o peso da culpa depois disso?
       Luciana balanou a cabea negativamente.
       -        Isso no pode ser. Voc, um homem inteligente, como pode pensar dessa forma? Como pode ofender assim a bondade de Deus? Seu orgulho o cega a ponto 
de julgar-se o centro do universo?
       Jos Luiz olhou-a surpreendido. A voz de Luciana era enrgica e firme. Ele no encontrou palavras para responder. Ela prosseguiu:
       -        Por que  to cruel consigo mesmo? Por que  to rigoroso em seu julgamento? Por que exige de si mesmo uma atitude que ainda no tem condies de 
assumir? Voc  humano, e um ser humano  limitado, passvel de erros. Errou e vai errar outras vezes ainda, isso  natural no estado de evoluo em que nos encontramos. 
Embora desejando fazer o melhor, seria muita pretenso admitir que j possumos a habilidade de acertar sempre. Voc escolheu o que lhe pareceu melhor naquela ocasio. 
A vida no lhe ofereceu tudo ao mesmo tempo. Era uma coisa ou outra. Voc queria as duas. Quis ludibriar a vida, pretendendo ir alm do que ela lhe deu. Optou por 
uma, mas no desistiu da outra. A vida  livre. No se deixa manipular. E voc nunca se conformou com isso. Ficou frustrado. Se houvesse escolhido a outra opo, 
teria se conformado em no possuir a posio que hoje ocupa? Como aceitaria a viuvez? No estaria se culpando por haver perdido o que tem hoje?
       Jos Luiz olhou-a um pouco plido.
          Est sendo muito dura comigo.
       Ela abanou a cabea:
       -        No. Estou tentando mostrar-lhe a verdade. Voc ficou dividido a vida inteira. Chorando um amor impossvel, deixando passar a felicidade que a vida 
lhe ofereceu e est lhe oferecendo agora.
       -        Sinto-me deslocado. Amo Suzane.  ela que eu quero!
       - No banque a criana caprichosa. Sabe que isso  impossvel no momento.
          - Se ao menos Joo Henrique estivesse bem...
          - Ele est. Cada pessoa atrai para si as experincias que necessita para desenvolver seus potenciais e alcanar a maturidade. O que aconteceu com ele nada 
tem a ver com seus problemas passados. Cada um  responsvel pelo prprio destino. Atrai sempre de acordo com o que irradia. Joo Henrique estava iludido. Antonieta 
no era a mulher que ele imaginava. Tinha outros interesses. Aps uma iluso, a desiluso  fatal. A verdade aparece e recicla conceitos, idias e at sentimentos. 
 da vida. Ningum  culpado por isso. A maturidade do ser  objetivo da natureza. E ela se conquista dentro desse processo, na vivncia, na experincia nem sempre 
agradvel, porm adequada, perfeita. Deus no erra, por isso, tudo quanto ele faz est certo e  para o bem. - Antonieta de fato no era mulher para ele. Um dia, 
ele teria que descobrir. Ele est sofrendo. Di-me v-lo to diferente do que sempre foi. Fiquei imaginando o que Suzane sofreu, abandonada, com um filho para nascer. 
 isso que torna aguda minha culpa!
      -        Isso j aconteceu e nada que fizer pode alterar esse fato. O tempo no volta. Contudo, eu j lhe disse, mame nunca amou outro homem, mas jamais foi 
triste. Aceitou com coragem o que a vida lhe ofereceu e procurou ser feliz com o que possua. Cantava, sorria, distribua amor e carinho onde quer que fosse. Jamais 
guardou mgoa ou ressentimentos. Compreendeu, aceitou. Posso garantir-lhe que fomos felizes apesar do que lhe aconteceu.
      -        Ela era uma mulher excepcional!
      -        Era uma mulher lcida, inteligente. Tornava o momento presente sempre o mais importante. Fazia tudo com alegria. No se lamentava, no se posicionava 
como vitima, nem procurava culpados para justificar o que lhe acontecera.
      -        Era uma mulher forte!
          - Como qualquer pessoa.
          - Eu sou um fraco.
          - No acredito na sua fraqueza. O que faz pensar assim  o excesso de auto-piedade.  o hbito de mimar-se querendo fugir  responsabilidade de viver. 
Por que se coloca como um ser incapaz, desprovido de energia, para tomar conta de sua prpria vida? Por que se subestima? Voc foi forte bastante para assumir sua 
ambio, seu desejo de ser socialmente um vencedor, agora, que experimentou essa satisfao e ela no lhe deu tudo quanto sua alma quer, por que se acovarda? A fora 
que usou naquele tempo, ainda est ai dentro de voc.  s direcion-la para um objetivo que lhe d mais alegria. No existe fraqueza. Ningum  fraco.  s medo 
de escolher novos objetivos e seguir adiante.
      -        Tudo acabou para mim depois que Suzane se foi.
      -        Se voc escolhe ser infeliz, eu lamento. Se quisesse, tudo poderia ser diferente.
      Luciana largou a mo dele que segurava entre as suas e levantou-se. Ele levantou-se por sua vez abraando-a suavemente.
      - No me abandone. Sinto que preciso de voc. Eu a quero
muito.
      Luciana olhou-o com olhos brilhantes de emoo.
      -        Eu tambm o quero muito, -- disse com doura.
      Jos Luiz apertou-a nos braos com carinho.
      -        Voc fala como se eu fosse dono do mundo. Como se eu pudesse mudar as coisas, como se minha felicidade dependesse s de mim... No  bem assim...
      Ela afastou-se um pouco segurando seus braos e olhando-o nos olhos:
      -        S  assim. Voc  dono do seu pensamento, da forma como escolher acreditar, assim ser.
      - No posso mudar os fatos passados.
      - No pode mesmo. Mas pode perceber que eles no
existem mais e que ser intil reviv-los. A vida  como , e
ningum conseguir manipul-la. Por isso, esquecer o que j foi, 
uma escolha sbia e proveitosa.
      -        Como esquecer Suzane? O que fazer com a saudade?
      - Esquecer o passado no significa esquecer as pessoas que amamos. Eu nunca a esqueci e tambm sinto saudade. Mas esquecer coisas desagradveis, enganos, situaes 
que j no podemos modificar  necessrio. Por outro lado, como eu j lhe disse uma vez, enquanto se ilude e se emaranha no passado, sequer percebe o quanto poderia 
ser feliz agora, no momento presente.
      - Voc j me disse isso.
-  verdade. Gostaria que percebesse que a felicidade  conquista de cada minuto, na intimidade da nossa alma, sentindo-a em cada coisa, em cada instante, em todos 
os momentos de nossa vida. Fazer-se feliz  um poder do homem consciente, lcido, que sabe perceber a grandeza e a beleza de cada instante para conservar esse estado 
de alma vivendo o presente.  buscar a alegria, a essncia a luz, a dignidade, o amor. A vida nos oferece tudo isso, o tempo todo.  preciso irradiar, sentir, escolher, 
para Conquistar.
      -        Ouvindo-a dizer essas coisas, sinto-me encorajado. Gostaria de acreditar.
Ela sorriu alegre:
       -         s experimentar Este nosso encontro hoje  um momento feliz.
       -         verdade. Voc tem o dom de acalmar e devolver-me a coragem de viver.
       -        Para viver no  preciso coragem, s alegria.  ter olhos para enxergar a verdade.
       Continuaram conversando mais algum tempo e quando Jos Luiz se despediu, sentia-se bem melhor. Luciana acompanhou-o at a varanda, e Jos Luiz abraou-a beijando-lhe 
o rosto com carinho.
       -        Obrigado, - disse. - Deus a abenoe.
       Ela sorriu satisfeita e entrou em casa fechando a porta. Jos Luiz saiu, entrou no carro e foi para casa. Nenhum dos dois percebeu que algum observava a 
cena entre a surpresa e o rancor.
       -        Ento  isso! Bem que eu suspeitei que havia algo para ela me desprezar. Pudera! Ela j tem um amor. H quanto tempo se encontrariam na calada da 
noite? E a av? Com certeza encobria tudo. Ruminando sua decepo, Ulisses voltou para casa.
       Por que no percebera antes? Lembrava-se agora que, sempre ao referir-se a Luciana, os olhos de Jos Luiz brilhavam de maneira especial. Sempre a elogiava.
       Pobre D. Maria Helena. Enganada despudoradamente Sorriu levemente. Agora, de posse desse segredo, as coisas haveriam de mudar. Luciana no mais o recusaria. 
Claro que ele agora no precisaria chegar ao casamento. Sabia como conseguir o que queria.

CAPTULO 15

      Maria Helena entrou no quarto do filho com um sorriso nos lbios e disposio. Enquanto abria as janelas, foi dizendo:
      - Bom dia, meu filho. Est um lindo dia, cheio de sol.  hora de voc sair desse quarto. Chega de cama. Vamos, levante-se.
      Joo Henrique levantou a cabea contrariado, passou a mo pelos cabelos e tornou a mergulhar no travesseiro.
      A voz de Maria Helena tornou-se splice:
      - Vamos, meu filho. No deixarei que fique deitado nem mais um minuto. Voc nunca foi preguioso.
      - Deixe-me em paz - resmungou ele.
      - Voc no pode continuar fechado nesse quarto. Precisa reagir. Vamos, levante-se.
      Ela tentou puxar as cobertas.
      - Pare com isso - disse ele com raiva. - Se insistir, vou para a rua e no volto mais. Deixe-me em paz.
      Maria Helena sentiu que ele falava srio. Fez um gesto de desalento e sentiu vontade de chorar. Controlou-se a custo. Saiu do quarto sentindo que no conseguia 
reter as lgrimas.
      Luciana e Maria Lcia a encontraram prostrada, na sala de estar.
          - D. Maria Helena, a senhora est triste. Aconteceu alguma coisa?
          - Joo Henrique no quer sair do quarto. Tentei ajud-lo, mas ele ameaou ir embora de casa. Ele est transtornado! Aquela mulher desgraou nossa vida!
      - A senhora no acredita nisso - esclareceu Luciana.
      - Jamais vi meu filho desse jeito. Est acabado.
      - De forma alguma! - A voz de Luciana era enrgica. -No deve deixar-se abater. Afaste de seu corao esse pensamento. Ele vai reagir, por certo.
      - Eu quero ajudar.
       -         preciso dar um tempo para que ele amadurea. E isso  s ele mesmo quem pode escolher.
       -        Ele no vai sair sozinho dessa mgoa. Est ferido.
       -        A verdade machuca, mas sempre  mais proveitosa do que a iluso. Vai chegar a hora em que ele, esgotada essa fase, desejar sair dela e tudo se resolver.
       -        No posso ficar de braos cruzados enquanto meu filho sofre sozinho.
       -        Ele no quer dividir sua dor.  um processo interior que ningum tem o direito de intervir.
       Maria Helena, num sbito impulso, levantou-se e segurou as mos de Luciana com fora:
       -        Luciana! Ajude-me! Sei que voc pode! Pea  sua me. Ela foi to boa. Sem ela talvez no o tivssemos encontrado. Dizem que as almas podem nos ajudar. 
Voc a v! Pea-lhe esse favor. Ela  me, sabe como me encontro. Temo que ele fique seriamente doente.
       Luciana retribuiu o aperto de mo, e seus olhos brilharam quando disse:
       -        Est bem. Irei v-lo. Tentarei falar com ele mais uma vez.
       Dirigiu-se ao quarto do moo e vendo que as duas a seguiam, voltou-se dizendo:
       -        Quero v-lo a ss.
       -        Est bem, estaremos esperando na sala.
       Luciana entrou no quarto. Joo Henrique fechara novamente as janelas, correra o reposteiro e deitado de costas, olhos fechados, parecia dormir.
       Luciana parou diante da cama e silenciosamente estendeu as mos sobre ele, em prece. Com amor, imaginou Joo Henrique cheio de vitalidade e bem-estar. Com 
alegria, percebeu que Suzane aproximava-se colocando-se  cabeceira dele, estendendo sua mo direita sobre sua testa. Dirigiu-se a Luciana, pedindo:
       -        Fale com ele.
       Em seguida, colocou sua mo esquerda na testa dela. A moa sentiu uma onda de alegria invadir-lhe o corao.
       -        Joo Henrique, - chamou - sei que no est dormindo. Olhe para mim. - Vendo que ele no atendia, repetiu: - Abra os olhos. H algumas coisas que 
desejo lhe dizer.
       Vendo que ele permanecia quieto, prosseguiu:
      -        Por que se comporta qual criana caprichosa? Por que se castiga dessa forma? At quando vai agir de maneira to infantil? Voc  um homem, por que 
no se permite crescer? Acha que fazendo birra a vida vai lhe dar o que deseja? No percebeu que ela no  como sua me que sempre lhe fez todas as vontades?
Ele abriu os olhos fitando-a com raiva.
      - Pode zangar-se  vontade. Vou dizer-lhe o que precisa ouvir. Voc  forte o bastante para compreender que no se pode forar os sentimentos de ningum. Antonieta 
amava mais sua arte do que voc. Preferiu a vida movimentada  vida burguesa que lhe ofereceu. Era um direito dela. Ela podia escolher e decidir o que fazer com 
sua prpria vida. Por que a recrimina? Ela fez o que lhe pareceu melhor. E voc a amava realmente? No estaria fascinado pela sua arte, pela sua beleza, pelo seu 
talento, ou at pela sua fama? Tem certeza de que deixando-o, ela no machucou mais sua vaidade do que seu corao?
Ele trincou os dentes de raiva.
      - No tem o direito de falar assim comigo. Voc no sabe de nada.
      - Talvez. Mas, tenho certeza de que voc no  fraco, capaz de ser destrudo por uma mulher que no o amou o bastante.
Ele sentou-se no leito como movido por uma mola.
      - Voc  forte e inteligente para compreender. A vida s faz o que  certo. Se a afastou do seu caminho, foi para seu bem. Alis, a vida sempre trabalha para 
nos dar o melhor. Pena que nem sempre temos condies de ver. Voc  um cego. Olhe para sua vida. Belo rosto, corpo saudvel, bonito, cultura, posio, famlia, 
respeito, estima, amizade. Tudo lhe pertence, voc tem o poder de escolha nas mos. Por que escolhe a infelicidade? Abra os olhos e olhe  sua volta. Observe! Ser 
recusado pode ser amargo, mas voc no o foi por valer menos, ou por no ser bom o suficiente. Foi recusado apenas porque os sonhos dela eram diferentes dos seus. 
Seus anseios eram sua arte, os aplausos, a msica, o palco. Voc no. Essa diferena definiu os caminhos, alterou os rumos. Por que no pode aceitar uma coisa to 
simples e clara? Por que exagera sua dor? No v que seu orgulho prefere a posio de "vtima" do que o reconhecimento de que estava enganado e que juntos nunca 
seriam felizes?
      Joo Henrique olhou para Luciana, abriu a boca, tornou a fech-la, por fim disse:
      - Eu acreditei nessa felicidade.
       - Mentira. Voc sempre soube que no ia dar certo. No fundo, no fundo, sentia isso.
      Ele passou de novo a mo sobre os cabelos. Por fim admitiu.
      -  verdade. Eu temia que ela me deixasse.
      - De onde lhe vinha esse temor? Por que voc sentia que ela no pensava da mesma forma que voc. No tinha os mesmos anseios.  claro que ela o amou. A seu 
modo. Mas entre sua paixo pelo teatro e voc, ela no resistiu.
      - Eu tambm acho isso. Ela me amou. Eu sinto que toquei seu corao. Por isso me iludi. No esperava o que aconteceu.
      - Voc sabia que um dia ela o deixaria. Era fatal. Mulheres como Antonieta dedicam a vida  carreira. No conseguem viver sem isso. Por outro lado, voc no 
conseguiria deixar seus projetos e segui-la. De uma certa forma, tambm a abandonou. Por um momento, estiveram juntos. A vida  isso. Rene e separa as pessoas. 
Mesmo vivendo juntos uma vida inteira h sempre a hora da separao onde cada um deve seguir seu rumo. Entretanto, o amor no tem tempo, momento, lugar, ele brota 
em nossa alma como ddiva que ilumina e alimenta. Nesse sentimento, o reencontro acontecer um dia.
          - No desejo v-la nunca mais.
      - Reconhea que no a amava de verdade. A paixo ilude e passa. As coisas esto certas como esto. No adianta machucarse por causa disso.
      Ele suspirou fundo, olhou para ela e sorriu:
      - Obrigado - disse. - Voc tem razo. Tenho agido como uma criana caprichosa. Nenhuma mulher tem fora suficiente para me derrubar.
      Luciana sorriu alegre:
      - Sinto-me aliviada. No agentava mais olhar sua cara de pobre coitado.
      - No sou nenhum coitado.
      -  o que parecia. Mas eu sabia que voc nunca foi fraco. Ao contrrio, dentro de voc h muita fora para vencer tudo na vida, com a ajuda de Deus. Vamos 
tomar um ch l embaixo?
Precisamos contar aos outros que voc  o Joo Henrique de sempre.
          - Est bem. Irei. Na verdade sinto vergonha. Fiz papel de tolo.
      - Tambm agora no vamos bancar o homem de ferro. Basta ser apenas o homem que voc .
      Ele sorriu outra vez. Parecia haver acordado de um pesadelo. Teve fome:
      - Pode ir que eu j vou. Quero melhorar a aparncia.
      Luciana saiu do quarto satisfeita. intimamente agradeceu a ajuda de sua me. Sabia que ela contribura decisivamente para que Joo Henrique sasse da iluso 
em que se envolvera. Vendo o olhar ansioso de Maria Helena, foi logo dizendo:
      - D. Maria Helena, pode mandar preparar um ch completo porque Joo Henrique nos far companhia.
      O        rosto de Maria Helena iluminou-se:
      - Ele vai descer?
      - Sim. Est se arrumando. Quando ele vier, nada de emoo. Vamos agir normalmente, como se nada houvesse. Ele sente-se envergonhado.
      - Por certo - concordou Maria Helena, satisfeita. -Vamos, quero que ele se sinta muito bem. Obrigada, minha filha. Voc  o anjo bom que apareceu em nossa 
vida.
      -         melhor nos apressarmos. No gostaria que nos surpreendesse falando no assunto.
      -        Tem razo, - apoiou Maria Lcia.
      -        Lembrem-se: alegria e serenidade.
      Dirigiram-se  copa e Maria Helena mandou preparar a mesa para o lanche, verificando os detalhes com carinho. As duas moas esperavam conversando em um gracioso 
sof a um canto da copa. Maria Lcia comentava seu assunto predileto: Ulisses. Luciana tentava conduzir a conversa para outro lado, mas Maria Lcia insistia.
      -        Voc acha que ele me ama?
      -        Como posso saber?
      -        Voc percebe as coisas, sempre descobre o que eu estou pensando.
          Luciana sorriu:
      -        Voc  como uma irm e estamos sempre juntas. Alm do mais, seus olhos so reveladores.
       -        Os dele, no so?
       Luciana tentou desviar o assunto:
       -        Ele  homem e pensa diferente de ns. No tenho experincia para tratar com eles.
       -        Contudo, percebeu que Jarbas se interessa por mim.
       -        Ele d muito na vista.
       -        Talvez Ulisses no me ame. Ele sempre anda atrs de voc.
       -        J falei que ele no me interessa.
       Maria Helena juntou-se a elas.
       -        Est tudo pronto. Ele vir mesmo?
       -        Ele vem vindo.
       De fato, Joo Henrique entrava na copa.
       -        Que bom t-lo conosco, meu filho. Vamos nos sentar.
       Acomodaram-se. Joo Henrique estava magro, plido, porm vestido elegantemente como sempre fora, e Maria Helena sorriu com satisfao. Luciana com delicadeza 
comeou a conversar sobre a vida na Inglaterra, seus costumes, seu povo, e Joo Henrique animou-se falando de sua viagem a Europa , suas impresses ao contato com 
outros povos e a conversa decorreu agradvel.
       Foram para a sala de estar e, animado, ele foi buscar um livro onde havia gravuras dos lugares que ele mais gostava. Maria Lcia, que antigamente no participava 
dessas conversas, juntou-se a eles com entusiasmo. Maria Helena admirou-se vendo-a discorrer sobre o assunto com segurana mesmo sem nunca haver sado do Brasil. 
Sua filha aprendera muito com a convivncia de Luciana.
       Observando os trs jovens entretidos, conversando animadamente, ela sentiu que seu corao enchia-se de paz. Pensou na me de Luciana com carinho e gratido. 
Comeava a sentir que, de fato, os que morrem no s continuam vivos em outro mundo como podem intervir em nossas vidas.
       Suzane por certo ajudara-os. Inmeras vezes Luciana tentara convencer Joo Henrique a reagir, sem conseguir. No entanto, agora, aps ela haver pedido, finalmente 
ele atendera.
      Deveria rezar para agradecer? Ouvira dizer que  bom rezar para as almas e pedir por elas. No entanto, a alma de Suzane no precisava de oraes, ela estava 
em condies de ajudar.
      - Se eu pudesse v-la! - pensou. - Dar-lhe-ia um beijo de gratido. Dizem que os espritos sabem ver o que se passa em nosso corao. Se fosse verdade, se 
ela estivesse ali, deveria saber de seu amor pelo marido. Seu amor sofrido, sufocado, escondido, que a custo tentava conter. Poderia ajud-la tambm nisso? Ah! Se 
ele viesse a am-la! Sonhara a vida inteira com isso. Nunca acontecera. Talvez Suzane a ajudasse a esquecer. A apagar esse amor do corao.
      Suzane estava ali, emocionada, abraou-a com carinho dizendo-lhe ao ouvido:
      - Infelizmente, no tenho esse poder. Eu mesma ainda no apaguei a chama que arde em meu corao. Apesar de tudo, eu gostaria muito de estar em seu lugar, 
ao lado dele. Maria Helena, esquea as mgoas do passado. Procure conquist-lo agora, aproveite essa convivncia, essa chance que a vida lhe deu de estar a seu lado! 
Ame-o, compreenda-o, ajude-o a descobrir os tesouros de amor que ele guarda dentro do corao. Voc  uma mulher bela, cheia de vida, tem todas as vantagens. No 
deixe passar o tempo inutilmente.
      Maria Helena, de repente, sentiu-se animada. Agora que seu filho estava melhor, era hora de pensar nela, em cuidar de si, da sua felicidade.
      Lembrou-se da noite do baile e sentiu-se alegre. Talvez ela houvesse negligenciado muito e aceitado a derrota. O orgulho no fora bom conselheiro. De agora 
em diante, tudo seria diferente. Ela mudaria. Talvez pudesse reconquistar o marido.
      Pensando assim, deixou os trs na sala e foi para o quarto. Desejava estar bem bonita quando Jos Luiz chegasse.
          Naquela noite, o jantar decorreu alegre como h muito no acontecia. Jos Luiz participava alegremente surpreendido. Chegara em casa desanimado, certo 
de encontrar o ambiente triste e pesado dos ltimos tempos e inexplicavelmente havia como que um brilho novo em cada coisa. Joo Henrique um tanto magro, calmo, 
as duas moas alegres e animadas e at Maria Helena, olhos brilhantes, com melhor aparncia. O que acontecera durante sua ausncia?
      O jantar decorreu leve e alegre e, ao final, Maria Helena props uma sesso musical onde cada uma tocaria algo da sua especialidade.
       Luciana tocou belas canes inglesas; Maria Lcia, modinhas e valsas modernas, e Maria Helena, belas peas de musica ligeira.
       Sentados no sof com um clice de Porto entre as mos, os dois homens deixaram-se ficar gostosamente ouvindo.
       Suzane aproximou-se de Jos Luiz e abraando-o com carinho, disse-lhe ao ouvido:
       - Isso  felicidade! Aproveite esses momentos de beleza e de alegria. Viva sua vida agora. Esquea o passado. Cada um precisa viver seu momento, consciente 
das riquezas que a vida oferece. Eu o amo muito, mas esse amor  luz de libertao e de alegria. Minha felicidade  contribuir para seu crescimento espiritual e 
seu bem-estar. A vida nos colocou de lados opostos. Ela age sempre certo. Talvez ns ainda no estejamos prontos para uma unio mais verdadeira. Apesar de desejar 
estar a seu lado, no gosto de ser obstculo  sua felicidade. Meu amor  profundo e verdadeiro e desejo que voc tenha da vida o melhor. Quero libertar voc. O 
amor no  exclusivista. Maria Helena  uma bela mulher, ela o ama! Voc nunca a viu como ela . Nunca a olhou a no ser para servir a seus projetos. Contudo, ela 
 uma alma nobre, cheia de beleza e amor.
       Jos Luiz, segurando o clice entre os dedos, pensamento perdido no tempo, lembrava Suzane, mas aos poucos, envolvido pelo ambiente agradvel, comeou a pensar 
que era homem privilegiado. Tinha uma bela e bem formada famlia. Fixando Maria Helena, notou que havia algo diferente. Ela parecia-lhe mais jovem, mais mulher. 
Ouvindo-a tocar com tanta sensibilidade, pela primeira vez comeou a pensar que ela no era to fria e indiferente quanto parecia ser. Por que uma mulher to sensvel 
para a arte, mostrava-se conformada em viver sem amor? Como ela aceitaria isso?
       Maria Helena, sentindo o olhar do marido sobre ela, a custo dominava o desejo de abra-lo e dizer-lhe o quanto o amara em silncio durante todos aqueles 
anos.
       - Ele vai me amar! - pensou com veemncia. - Hei de conquist-lo. Por que no? Estamos juntos, unidos pela famlia.
      Naquele instante, ela sentiu que o orgulho no mais importava e sim a realizao desse amor com o qual sonhara durante toda sua vida.
       Foram momentos agradveis e quando Luciana disse que precisava ir para casa, Joo Henrique ofereceu-se para acompanh-la e Maria Lcia pediu permisso para 
ir junto.
       Maria Helena ficou s com o marido. Em outras ocasies, ela teria logo dado boa noite e se recolhido, porm, naquela noite aproximou-se dele dizendo com um 
sorriso:
       -        Esta noite estou feliz! Adoraria danar! Pena que no temos ningum para tocar para ns.
       Ele levantou-se corts:
       -        Podemos colocar um disco na vitrola.
       -        Eu adoraria.
       Subitamente Jos Luiz sentiu-se alegre. Dirigiu-se  estante de discos e logo parou indeciso.
       -        Voc gosta de clssico.
       Ela sorriu bem-humorada:
       -        Para ouvir, para tocar, mas para danar  claro que deve ser outra.
       -        O que por exemplo?
       -        Uma valsa, um foxtrote.
       Enquanto ele a olhava admirado, ela com desenvoltura, escolheu um disco e deu-o ao marido.
       -        Eu gosto deste.
       Ele colocou o disco e logo uma msica agradvel e suave encheu o ar. Jos Luiz enlaou-a e comearam a danar. Ele no se conteve:
- Voc nunca me disse que apreciava essa msica!
- Voc nunca perguntou. No  linda?
      De fato. A orquestra tocava um belo foxtrote, e eles danaram com prazer. A emoo foi tomando conta de ambos. A msica, a proximidade, o perfume de Maria 
Helena e principalmente o calor que vinha dela, envolvera Jos Luiz fazendo-o apert-la mais entre os braos, cedendo a uma atrao irresistvel.
      - Maria Helena, - murmurou ele ao seu ouvido, - voc hoje est diferente!
      Ela sentiu o corao bater mais forte.
      - Estou alegre! Nosso filho est bem.  s questo de tempo.
      - A alegria fez-lhe bem. Voc est linda!
         - Esta noite, sinto vontade de viver, de amar, de ser feliz!
      Jos Luiz parou de repente e seus braos afrouxaram. Fixando o rosto corado de Maria Helena, palpitante de vida e desejo no se conteve:
      - Perdo - disse.
         - Por qu?
      - Eu no soube faz-la feliz. Tenho sido egosta, pensando s em mim, fechado em meus problemas, esqueci que voc tem suas necessidades de afeto, de felicidade.
      O acento de sinceridade da voz do marido contribuiu para que ela se deixasse envolver mais pela emoo que no tentava dominar.
      - Sim - respondeu ela com voz apaixonada. - Eu posso amar, e quero ser amada de verdade! No agento mais viver recalcando meus sentimentos, fingindo uma frieza 
que no sinto.
      Ele passou a mo pelos cabelos procurando palavras para no feri-la ainda mais. Ela abraou-o com carinho, dizendo:
      - Jos Luiz, o que aconteceu conosco? Eu o amei desde o primeiro dia! E esse amor ainda vibra dentro de mim! Por que tudo no continuou como nos primeiros 
tempos? Por que apareceu entre ns essa barreira, onde o orgulho ganhou espao transformando-nos em pessoas indiferentes e dissimuladas? O que nos separa? Por que 
no podemos nos amar de verdade? Essas perguntas tm me angustiado toda a vida!
      Jos Luiz sentiu desejos de abrir o corao, dizer a verdade, falar do seu amor por Suzane, do seu erro, assumir sua culpa. Sentindo o corpo palpitante da 
esposa, vendo seu rosto ansioso, percebendo o sentimento que a envolvia, no teve coragem. Apenas disse comovido:
      - Voc me ama!
      - Sim - concordou ela com paixo. - Eu o amo! Sempre. No suporto mais calar esse sentimento.
Jos Luiz sentiu uma onda de calor envolver seu corao. Como fora cego! Essa mulher vibrante, bela, apaixonada, o amava, estava ali, em seus braos, sequiosa de 
amor, e ele cultivando um amor impossvel! Reconheceu que Maria Helena tocava seus sentimentos. Apertou-a em seus braos beijando-a repetidas vezes com emoo.
       -        Jos Luiz, - disse ela por fim - diga-me, o que nos separa?
       -        Nada. Tenho sido cego at agora. Acreditava que voc no me quisesse mais. Agora que sei que me ama, que comeo a v-la como , nada nos h de separar. 
Seremos felizes. O passado est morto. De hoje em diante, lhe darei todo amor que merece. Voc  uma mulher extraordinria.
       -        Voc no disse que me ama!
       -        Eu a amo! Prometo recuperar o tempo perdido!
       Abraando-a com carinho, beijou-lhe os lbios repetidas vezes, sentindo a emoo crescer dentro de si. Depois, abraados, foram para o quarto, esquecidos 
de tudo o mais.
       O        esprito de Suzane, vendo-os abraados, no pde evitar uma lgrima. Uma bela mulher aproximou-se dela dizendo emocionada:
       -        Voc realmente libertou-se de sculos de apego.
       Suzane olhou-a serena:
       - Ainda di um pouco - murmurou esforando-se para sorrir.
       A outra passou o brao sobre seus ombros com afeto:
          - Eu sei. Entretanto o amor s  verdadeiro quando liberta. O apego revela imaturidade e falta de confiana na vida.
          - Eu sei. Para libertar-me desse velho hbito foi que escolhi minha ltima encarnao na Terra. Eu sabia que tudo quanto eu mais amava ser-me-ia tirado 
para que eu aprendesse a suprema alegria de dar, o prazer de facilitar a que cada um encontre seu prprio caminho de crescimento, livre, de acordo com sua necessidade 
interior.
      -        O que pensa fazer agora?
      -        Ainda ajudar um pouco mais. Minha misso com eles est quase no fim.
      -        E depois?
            - Quero cuidar de mim. Aprender, crescer, tornar-me mais madura. Sinto que minha felicidade est nisso. Durante anos tenho cultivado meu amor por Jos 
Luiz, sofrendo sua ausncia mesmo sabendo que no momento seria impossvel viver a seu lado!
      A amiga estreitou o brao como a infundir-lhe coragem, e ela prosseguiu:
      -        Quando eu ainda estava na Terra, acreditava que ele me houvesse esquecido. Trocara-me por outra e, mesmo sabendo que sua ambio o estimulara, pensava 
que seu interesse por mim fora transitrio e sem profundidade. Esse pensamento ajudou-me a aceitar a separao. No se pode forar o amor e eu, sentindo-me preterida, 
mal-amada, tratei de viver da melhor forma possvel, apesar de no conseguir amar outra vez.
      Fez pequena pausa e vendo que a outra ouvia-a atentamente, continuou:
      -        Contudo, quando voltei para c, comecei a sentir que Jos Luiz me chamava constantemente. Seu rosto triste me aparecia, e eu sentia seus pensamentos 
de tristeza e de culpa. Onde quer que eu estivesse, ouvia-o chamar-me angustiado e descobri que ele no era feliz. Eu tambm sentia saudades e muitas vezes, quando 
dei por mim, eu o estava abraando apaixonada, atormentada pela sua angstia!
      -        Pobre amiga. Avalio sua luta.
      -        Felizmente, sempre contei com o apoio de amigos dedicados, e voc tambm contribuiu muito para meu reequilbrio.
      -        Infelizmente, as pessoas na Terra ainda ignoram a fora do pensamento ao qual imprimimos nossas emoes. No sabem que entregar-se ao desnimo,  
culpa,  auto-condenao, nos prejudica, no s atraindo mais infelicidade, como essas energias atingem tambm as pessoas envolvidas, conturbando-as.
      -        Durante algum tempo vivi a seu lado, sem poder afastar-me. Se por um lado sentia-me triste constatando sua infelicidade, por outro, a certeza de ser 
amada, a comprovao de que ele nunca me esquecera, dava-me alegria e eu pensava: " por minha causa que ele sofre! Eu sou responsvel de alguma forma pela sua infelicidade!"
      -        Que iluso!
          -  verdade. Cheguei a esse ponto, confusa e apaixonada. Sempre que podia, tentava confort-lo, abra-lo, dizendo a seu ouvido que o perdoava e o amava 
de todo o corao. Eu que regressara da Terra bem, deixando-me envolver por esse problema, adoeci. Voc sabe como foi difcil para mim, deix-lo por algum tempo 
e submeter-me ao tratamento adequado. Querida Anita, sou-lhe muito grata! Foi voc quem me ensinou a perceber a verdade. Freqentar suas aulas foi maravilhoso. Conhecer 
as leis csmicas, perfeitas e belas que movem a vida, olhar para dentro de mim, sentir o que sou, minha essncia, descobrir o eu superior, encontrar Deus, desenvolver 
minha maturidade, mostrou-me o glorioso destino de todos os seres vivos.
       - Voc estava madura, foi s despert-la e logo desabrochou maravilhosamente.
       - Crescer traz uma alegria consciente e insubstituvel. Em nossa iluso, queremos agarrar nas pessoas, segur-las, conduzilas, a pretexto de amar e proteger 
e as escravizamos com nossas energias, bloqueando seu desenvolvimento, obstrumos sua viso. Sabe o que descobri?
       -        No.
       -        Que esse sentimento que s vezes chamamos de amor, na realidade tem outro nome.
       -        Qual?
       -        Obsesso!
       -        No est sendo dura com voc?
       -        No. Eu e Jos Luiz, a pretexto de nos amar, nos obsedivamos mutuamente. Quando ele me deixou, essa iluso bloqueou meus sentimentos. Eu me julgava 
dcil, conformada, naquele tempo. Descobri agora, que foi o orgulho que me conduziu. No me revoltei, no guardei ressentimentos ou mgoa, felizmente, mas qual criana 
orgulhosa e mimada, se a vida no me deu o que eu queria, eu no quis mais nada. No me permiti ser feliz com outra pessoa, bloqueei os sentimentos. Depois, a vaidade 
de saber que era amada, continuou me unindo a ele e nossa insatisfao, nossa iluso, roubou largo tempo de nossa felicidade que teria sido possvel se tivssemos 
encarado a situao com realismo.
       - Tem razo. A vida sempre sabe o que  melhor e cumpre seu papel de conduzir a felicidade.
          - Agora eu sei. Eu acreditava na dor e no sofrimento. Ignorava que fomos criados para a felicidade. Que esse  o nosso destino e vontade de Deus. Depois 
que aprendi que o amor liberta, que senti a alegria de amar de verdade, que  grande o prazer de dar amor, a satisfao foi grande e eu pensei que, assim como eu 
descobrira essas coisas, o melhor que poderia fazer seria tentar passar essas idias para aqueles a quem amo.
      -        Voc se preparou para isso. Conseguiu unir Luciana ao pai.
      -        Luciana  um esprito lcido e adorvel que muito nos tem ajudado. Uni-los foi maravilhoso. Porm, Jos Luiz guarda ainda a iluso do passado. Acredita 
me amar. As vezes, me pergunto se seu amor no  apenas a raiva da criana por que um dos seus brinquedos foi-lhe tirado. Ele poderia ter me escolhido. No o fez. 
Ele queria tudo. Pensou em ter as duas e quando no conseguiu, frustrou-se.
      -        Voc est sendo severa. No acredita que ele a ame?
      -        Acredito sim. A seu modo, contudo, sinto que no momento, nossos caminhos so diferentes. A vida nos separou. Ela deseja nossa felicidade. Eu agora 
desejo de todo corao que ele possa usufruir do presente, das bnos que possui, do amor da bela famlia, de uma alma generosa e fiel que o ama e pode embelezar 
seus momentos, oferecendo-lhe o que eu no lhe posso dar. Sinceramente, desejo que me esquea e seja feliz com Maria Helena.
      -        Voc  generosa!
      -        No sei se  generosidade. O que sinto  que agora a vida despertou dentro de mim com a fora da alegria. Neste momento, quero ser eu mesma. Descobrir 
o que  melhor para mim agora. Sem amarras nem obstculos! Beber da fonte da espiritualidade e revigorar minha alma na lucidez palpitante da conscincia universal. 
Sinto que o amor tem outro significado para mim, mais real e , ao mesmo tempo, mais profundo. Quero encontrar outras almas como eu, e trocar energias com elas. Quero 
crescer ainda mais e aprender a viver plenamente. No sinto mais vontade de um amor terreno.
Anita sorriu com satisfao.
      -        Sim, Suzane. Sua luz brilha e voc poderia desde j deixar a Terra para sempre, rumo a outros planos.
          - Desejo um pouco mais de tempo. Acabar o que comecei. Preparar o terreno, depois irei. Quando mergulhamos no estado de alegria, quando tomamos conscincia 
do que somos, do poder que temos de criar nosso destino; quando descobrimos que todo nosso sofrimento foi criado por ns, pelos nossos pensamentos e atitudes, no 
podemos conceber deixar as coisas como esto; nos sentimos desejosos de contar, mostrar. Tanta simplicidade na vida, na realidade das coisas, tanta facilidade na 
conquista da felicidade, nos impulsionam e nos motivam a nos comunicar com as pessoas, numa tentativa justificada de melhorar as condies de vida na Terra, de apressar 
o momento da maturidade de cada um.
      -        Isso  natural, querida, mas deve lembrar-se que cada um s percebe isso quando est preparado. No adianta forar. As coisas acontecem como devem 
e no momento exato.
      -        Mas de vez em quando, podemos dar um empurrozinho.
      Anita sorriu alegre, passando o brao sobre os ombros de Suzane, lembrou:
      -        Precisamos ir agora. Est na hora.
      Suzane concordou e ainda abraadas saram, desaparecendo rapidamente no horizonte.

CAPTULO 16

      Maria Helena acordou feliz no dia seguinte. Por que demorara tanto a demonstrar ao marido seu amor? Por causa do seu orgulho, por tantos anos sofrera amargando 
o cime e a angstia. Como fora tola! Felizmente havia mudado. Rompera a barreira do preconceito e descobrira que, ao contrrio do que havia temido, o marido correspondera 
a seu amor, com ardor inesperado.
      Aquela noite juntos fora maravilhosa. Seu corao batia descompassado s em lembrar-se dos seus arroubos, de como dera vazo a sua paixo, deixando-a fluir 
plenamente com toda fora do seu corao, vencendo os preconceitos da sua educao repressora e formal.
      Sentia-se feliz. Agora acreditava n amor do marido. Sentira nos seus olhos, nos beijos, na sua emoo, que ele a queria e essa descoberta aumentava sua felicidade. 
Quanto tempo perdido! Mas agora, dali por diante, tudo seria felicidade. Seu filho logo esqueceria o amor impossvel e por certo encontraria algum que o fizesse 
feliz.
      Naquela tarde, quando Luciana chegou para tocar com Maria Lcia, ela sentia-se alegre e bem-disposta. Recebeu a moa com carinho e fez-lhes companhia na sala 
de msica, interessando-se pelas novidades musicais que Luciana trouxera, atrevendo-se a tocar uma delas, apesar de tratar-se de uma msica popular.
      Luciana sentia-se contente observando a mudana de Maria Helena, e Maria Lcia, surpreendida com a atitude materna, inibia-se. Quando ela saiu, considerou:
      - O que aconteceu com ela? Nunca a vi desse jeito. Ainda ontem estava irritada e num dos seus piores dias.
      - Alguma coisa boa. Ela estava radiosa, feliz.
          -  estranho!
          - Por qu?
          - Ela nunca foi assim.
          - Pois eu gostei. D. Maria Helena parece outra pessoa.
      - No sei, no. Ser que ela est bem da cabea?
      Luciana riu francamente.
      - Claro. Afinal no era voc quem se queixava do ar "duro" de sua me? Ela est mudando e para melhor. No lhe parece?
      -        Bem... de fato... hoje ela estava como sempre eu desejei que fosse, mas...
      -        Mas nada. Vamos aproveitar esse estado de esprito, essa alegria s nos far bem.
      -        Voc sabe que ando triste. Ulisses no tem aparecido.
      -        Jarbas tem vindo sempre - respondeu Luciana com voz intencional.
      -        Ele no me interessa. Gosto de Ulisses, acho que estou apaixonada por ele.
      Luciana no respondeu. Depois de alguns instantes, tornou:
      -        Voc j tocou essa valsa?  linda. Experimente.
      Maria Lcia olhou a partitura e pediu:
      -        Toque voc. Ainda no sei essa.
      Luciana comeou a tocar, e Maria Lcia envolvida pela msica, esqueceu a preocupao de momentos antes. Luciana contudo, pensava com tristeza na atrao que 
Maria Lcia sentia por Ulisses. Ele no era digno dela e no a amava. Era a ela, Luciana, que ele dizia amar. Apesar de no corresponder a esse amor, temia que Maria 
Lcia descobrisse e se sentisse preterida. Mesmo tendo mudado, ela sabia que a moa ainda no se sentia plenamente segura. Por vezes, pequenas coisas a afetavam, 
fazendo-a retomar, embora fracamente, algumas atitudes antigas.
      Luciana sabia que Maria Lcia ainda precisava de certo apoio para poder definitivamente conquistar a alegria de viver. Sentia imenso carinho por ela e no 
desejava que nada pudesse feri-la. Ela ainda no estava madura o bastante para enfrentar os problemas da vida. Necessitava um pouco mais de tempo. Vendo-a alegre 
e atenta, procurou afastar a preocupao.
        A porta abriu-se e Joo Henrique entrou, acompanhado de Ulisses e Jarbas.
        - Sabia que eram vocs! Com essa msica linda! - Foi logo abraando Luciana e beijando a irm.
        Aps os cumprimentos, Joo Henrique tornou:
        - Fiquem a, vou tomar um banho e deso em seguida.
       Maria Lcia estava pouco enrubescida pela surpresa, calada. Luciana tomou a palavra:
       - Vamos nos sentar. Preferem Conversar, certamente
       - Por favor, Continue tocando. No queremos interromper. Essa msica  nova? - indagou Jarbas, interessado.
           - .
       -  linda. No acha, Ulisses?
       - Acho. Toque por favor, desejamos ouvi-la. Ulisses a olhava com admirao.
       Luciana no disse nada. Comeou a tocar e Jarbas aproximou-se de Maria Lcia, olhando-a embevecido.
       - Est cada dia mais bonita, - disse.
       A moa baixou os olhos para esconder seu desagrado. Quando ele perceberia que ela no o queria? Temia que Ulisses, para respeitar o amigo, no a quisesse 
namorar. Afastou-se dele dirigindo-se ao piano, ao lado de Luciana que procurou acabar o constrangimento, animando a Participao de todos, tocando modinhas em voga 
e quando Joo Henrique voltou, o ambiente estava alegre e descontrado.
       Os rapazes despediram-se e Luciana ficou um pouco mais. No fim da tarde, ela saiu. Havia caminhado alguns passos quando Ulisses a interceptou.
- Luciana.
A moa parou. Vendo-o, esperou.
- Preciso falar-lhe.
Ela esboou ligeiro gesto de Contrariedade.
- Estivemos juntos at a pouco. Por que s agora?
           -  um assunto srio, particular No podia falar diante dos Outros.
- De que se trata?
- Venha, permita-me lev-la em casa. Pelo Caminho Conversaremos.
- No. Diga logo o que quer. Pretendo ir s para casa.
           - Talvez mude de idia depois da nossa conversa. Vamos pelo menos sair daqui, a no ser que no se importe que nos vejam juntos.
           Luciana pensou em Maria Lcia e Concordou:
- Est bem, vamos andar um pouco.
Quando se distanciaram, Ulisses disse com voz suave:
      - Luciana, desde que a vi no consigo pensar em outra coisa. Estou apaixonado!
      Luciana parou constrangida.
      - Por favor, - pediu - no continue.
      - Estou louco por voc! No tenho dormido, no consigo sequer trabalhar!
      Ele tomou as mos dela apertando-as com fora enquanto ela tentava desvencilhar-se.
      - Ulisses! Contenha-se!
      - No suporto mais sua indiferena! Voc vai ser minha de qualquer jeito.
      Enrubescida, Luciana, tendo conseguido desvencilhar-se, disse nervosa:
      - Deixe-me em paz. No estou interessada em voc. Nunca alimentei suas esperanas.
      Dominado pela emoo, ele tentou abra-la.
      - Por favor! Estamos na rua. Contenha-se!
      Ele sequer parecia ouvi-la, abraou-a forte, tentando beijar-lhe os lbios. Assustada, Luciana empurrou-o com fora sem conseguir sair. A rua estava deserta, 
j comeava a escurecer. Ulisses puxou-a para um porto, encostando-a, dizendo sfrego:
      - Hoje no a deixarei ir, antes que saiba o quanto a quero.
      Beijava-a na face ardorosamente, apertava-a com redobrada fora. Luciana entre a raiva e o receio, sentia o rosto afogueado e lgrimas descerem pelas faces. 
Atordoada, colrica, disse com voz que lutou por tornar firme:
      - Deixe-me! Tenho nojo de voc. Jamais serei sua!
      Ulisses sentiu como se lhe jogassem um balde de gua fria.
      - Por que se faz de santa? No se envergonha com o que faz? Eu  que deveria ter nojo de uma mulher to baixa como voc! No vai se livrar de mim dessa forma. 
Vai agora comigo para um lugar onde estaremos a ss, ou eu conto tudo que sei! Desmascaro sua pouca vergonha. Quero ver se D. Maria Helena a receber depois de saber 
a verdade!
        Imobilizada pela surpresa, Luciana sentiu um mal-estar. Tudo comeou rodar  sua volta. Foi quando o porto em que estavam encostados abriu-se e uma voz 
enrgica perguntou:
        - O que est acontecendo aqui?
        Luciana antes de desmaiar ainda teve foras para dizer:
       -        Socorro! Ajude-me por favor!
       Quando acordou, estava estendida em um sof, e um rosto ansioso de mulher debruava-se sobre ela. Ainda atordoada, Luciana perguntou:
       - O que aconteceu? Onde estou?
       -        Graas a Deus. Est tudo bem. Voc desmaiou. Est em minha casa.
       Luciana tentou sentar-se, conseguindo com alguma dificuldade.
       -        Desculpe - disse.
       -        Sente-se melhor?
- Sim. - calou-se recordando-se de Ulisses. - Meu Deus, foi horrvel!
- Tome um pouco de gua. Sentir-se- melhor.
       Luciana aceitou, segurando o copo com as mos trmulas. Fixou o rosto da sua interlocutora Gostou dela. Mulher dos seus quarenta, rosto bonito e agradvel, 
fina e bem vestida. Acanhada, Luciana passou as mos pelos cabelos, tentando ajeitar-se e compor a roupa em desalinho
       -        Meu nome  Margarida Fontes, e este  meu irmo Jos Antnio.
       Foi a que Luciana viu o moo alto, magro, cabelos castanhos, rosto claro, queixo proeminente, testa larga, traje elegante, que se levantara de uma poltrona 
e aproximava-se.
       -        Meu nome  Luciana. Sou muito grata pela ajuda. Lamento haver dado trabalho. Agora creio que j posso ir. Vov deve estar preocupada, j escureceu!
       -        Apesar do Susto que dei no atrevido, no  aconselhvel sair sozinha por essas ruas escuras.
       -        Antes de ir, gostaria de dizer que jamais poderei agradecer o bastante. O porto abriu na hora em que eu no suportava mais.
       -        Eu estava lendo na varanda quando ouvi um rudo e vi o porto balanar. Aproximei-me, ouvi o que diziam. vi logo que voc estava sendo agredida. 
Abri o porto e aproveitando o Susto do patife, dei-lhe um safano e obriguei-o a correr. Segurei voc que desabou de vez. Chamei Margarida para ajud-la.
- Gostaria de dizer que no tenho nada com esse moo. Ele  amigo dos filhos do Dr. Jos Luiz e D. Maria Helena. freqenta a casa , parecia-me de bons costumes. 
D. Maria Helena quase sempre manda seu chofer levar-me. Hoje, como era cedo, no quis molest-la. Ulisses esperou-me fora e no aceitou minha recusa. Eu nunca lhe 
dei esperanas. Alm de no am-lo, Maria Lcia, a quem estimo como irm,  apaixonada por ele.
       - Pobre moa - comentou Margarida. - Apaixonar-se por um patife desses.
       - Seja como for, no desejo desgost-la.
       - Sugiro que se acautele. Ele  um mau-carter. Nunca erro quando vejo um - sugeriu Jos Antnio com um sorriso.
       Possua lindos dentes e covinhas quando sorria. Luciana sorriu mais calma.
       - No facilitarei mais as coisas para ele. Agora preciso ir. Vov deve estar preocupada.
       - Mandei preparar um ch, aceita uma xcara? - ofereceu Margarida.
       -  muita gentileza sua, contudo preciso ir.
       - Aceite. Dez minutos a mais no far diferena. Depois Jos Antnio a levar at sua casa.
       - No ser preciso. Estou bem, creia.
       - Depois do que houve, no podemos permitir que saia sozinha. Acompanharei voc at sua casa.
       - Est bem. Aceito.
       - Assim  que se fala - concluiu Margarida levantando-se.
           - Vou mandar servir o ch.
       Saiu da sala e Jos Antnio esclareceu:
       - Se no aceitasse, ela se sentiria frustrada. Sente-se por favor. Conhece os Camargo h muito tempo?
       - Sou amiga de Maria Lcia. Dou-lhe aulas de piano.
       -  professora de piano?
       - Oh! No. Maria Lcia vivia muito s e foi a forma de nos tornarmos amigas. Com o tempo, isso aconteceu realmente. Nos vemos com freqncia. Tanto eu quanto 
vov gostamos muito de toda a famlia.
       -        Meu pai foi muito amigo do pai de D. Maria Helena. Quando eu era criana, freqentvamos a casa. Depois do falecimento de papai e do casamento dela, 
no nos vimos mais.
       -        Vamos ao nosso ch - convidou Margarida aparecendo na porta.
       Depois de lavar as mos e certificar-se de que estava apresentvel, Luciana sentou-se junto com seus novos amigos, ao redor de pequena mesa redonda, arrumada 
com gosto, onde alm do bule fumegante de ch, havia deliciosas iguanas.
          Mas isso  uma festa! - Considerou Luciana com Sinceridade
          A vida  uma festa. H que reverenci-la constantemente
                - Concordou Margarida.
                Luciana sorriu alegre. Sentia-se  vontade como se os conhecesse de longa data. Aps o ch e a palestra agradvel, Luciana quis ir para casa. No 
desejava preocupar a av. Abraou Margarida com gratido e ofereceu a casa. Abraaram-se novamente e Luciana instalou-se no automvel de Jos Antnio.
       Sentia-se protegida e grata. Indicou o caminho e ao chegar Convidou-o a conhecer Egle. Esta os recebeu com ateno, convidando Jos Antnio a entrar. Na sala, 
instalados em gostosa poltrona, Luciana relatou o que lhe acontecera. Egle ouviu em silncio. Luciana finalizou:
      -        Pois , vov, o Sr. Jos Antnio e D. Margarida foram muito gentis. Ele fez questo de acompanhar-me.
      -        No sei como agradecer-lhe. - disse Egle com um brilho agradecido nos olhos. - Luciana  um tesouro. Deus os abenoe por isso.
      -        Qualquer pessoa teria feito o que fizemos. Apesar do fato desagradvel, creia que tivemos grande prazer em conhecer Luciana. Margarida a apreciou 
muito.
      -        So to bondosos! - Considerou Luciana.
      -        Conheo minha irm. Afirmo que ela no faz amizades com facilidade. Creia, conhec-la nos deu grande prazer.
       A conversa decorreu amena e quando Jos Antnio se despediu, as duas sentiam que haviam reencontrado novos amigos. Quando se viram a ss, Egle comentou:
      -        Que moo agradvel. Fino, educado. Tenho impresso de conhec-lo de algum lugar.
      -        Voc tambm? Vov, sinto que tanto ele quanto Margarida so Velhos conhecidos.
      -        A irm tambm  gentil?
      -        Muito. Gostei dela. Alegre, cheia de vida, ao mesmo tempo, serena.  uma pessoa iluminada.
      - Tanto assim?
      - A primeira impresso foi essa.
      - Voc nunca se engana com as pessoas. Quero conhec-la. Podemos convid-la a um ch aqui em casa. Desejo agradecer o que fez por voc.
      - Seria timo.
      - Quanto a Ulisses, no deve mais sair sozinha.
      - Ele estava furioso. Parecia louco. Falava coisas que no entendi. Ameaou-me.
      - Seria prudente falar a Maria Helena. No  aconselhvel receber esse patife dentro de casa.
      Luciana abanou a cabea.
      - No. Isso no. Ele  amigo de Joo Henrique. Depois Maria Lcia sofreria muito.
      - Seria bom para ela. Essa iluso poder prejudic-la.
      - Tenho medo. Ela ainda no se sente de todo segura. Tenho comigo que ela acabar por esquecer essa paixo, sem que seja preciso faz-la sofrer.
      - Ainda penso que seria melhor contar.
      - No. Tomarei cuidado. O que houve hoje no se repetir. No andarei sozinha pelas ruas. Pelo menos por algum tempo, at que esse capricho de Ulisses passe.
      - Voc quer jantar?
      - No, vov. O lanche de Margarida estava delicioso.
      Egle passou o brao sobre os ombros de Luciana:
      -        Quem sente Deus dentro do corao sempre est protegida. Hoje, em minhas preces de gratido, estaro mais duas pessoas.
     Luciana concordou:
-        Sabe, vov? Apesar de tudo, sinto-me muito feliz.
           Luciana no viu o brilho comovido nos olhos de Egle, nem sentiu que alm dela, Suzane tambm abraava-a com amor. Seu pensamento estava longe, perdido 
em uns olhos castanhos e profundos, um sorriso franco e acolhedor, que lhe dava ares de menino e colocava deliciosas covinhas em sua face.

CAPTULO 17

       Naquela tarde, Maria Helena sentia-se particularmente feliz. Sentou-se ao piano e seus dedos percorreram o teclado com prazer. Enquanto tocava, seu pensamento 
recordava os momentos de intimidade com o marido. Um milagre acontecera. O sonho de toda sua vida concretizara-se por fim. Jos Luiz transformara-se em outro homem. 
Apaixonado, atencioso, como ela sempre desejara. Desde que ela lhe confessara seu amor, tudo mudara.
       Por que demorara tanto para vencer o orgulho? Quem ama no deve ter preconceitos. Se houvesse feito isso antes, por certo no teria sofrido tanto.
       A idia de que ele se casara pelo seu dinheiro e posio a transformara e cavara um abismo que por pouco arruinaria para sempre suas vidas. Arrependia-se 
tambm de haver permitido que o formalismo de uma educao moralista, rgida e preconceituosa, a transformasse em uma mulher fria, cheia de regras e papis sociais, 
manietando sua alma de mulher ardente e cheia de amor.
      Rompera essa barreira, vencida pela paixo, pela necessidade de amar e assim pudera despertar no marido o sentimento que ele deveria sentir por ela, mas que 
no encontrava espao para expressar-se, frente sua indiferena sempre presente.
      Maria Helena sorriu embalada pelos pensamentos que a enchiam de alegria e felicidade.
      A criada entrou com uma salva na mo e colocou-a sobre o piano sem dizer nada. Sabia que quando Maria Helena tocava, no queria ser interrompida. Passando 
os olhos sobre a salva, Maria Helena parou de tocar. Havia uma carta sobre ela. Apanhou-a, abriu-a e leu:
"Prezada senhora. H j algum tempo, seu marido vem se encontrando com uma senhorita altas horas da noite. Como amigo da famlia, no acreditei no que meus olhos 
viram e fui investigar. Descobri entre outras coisas que a casa onde ela mora foi comprada por ele. Poderia dar outros detalhes, porm, o melhor ser verificar com 
seus prprios olhos. Fique preparada. Oportunamente avisarei e poder surpreend-los. Sou seu amigo e admirador que muito a estima".
       No havia assinatura. Maria Helena, plida, mos trmulas, acionou a campainha. A criada apareceu solcita:
- O que  isto? Quem trouxe?
       - Um portador. Disse para entregar  senhora imediatamente.
       Ela olhou o envelope e leu seu nome.
- Est bem. Pode ir.
       Quando a criada saiu, Maria Helena deixou-se cair no sof. Uma amante! Jos Luiz tinha uma amante! Era de esperar uma vez que durante tantos anos eles viveram 
sem relacionar-se intimamente.
       Esse pensamento, longe de confort-la, perturbava-a ainda mais. Logo agora, que ela acreditara no seu amor! Seria Jos Luiz to venal a ponto de fingir am-la 
para usufruir de uma situao que ela provocara?
       Seu rosto plido coloriu-se de sbito rubor. Ela se declarara. Que vergonha! Jos Luiz no a amava. Apenas dera vazo as emoes do momento, nada mais. Fora 
leviana, expondo-se desse jeito.
       Agoniada, torceu as mos em desespero. Seria mesmo verdade? Se ele de fato comprara at uma casa para ela, a histria deveria ser antiga. Como saber? O cime 
apareceu forte. Quem teria escrito essa carta? Leu novamente. Ele lhe pedia para aguardar. Prometeu-lhe provas. Claro. Era uma carta annima. Poderia ser uma infmia.
       Mil pensamentos circulavam em sua cabea, e ela procurou acalmar-se. No poderia fazer nada antes de obter a prova prometida. Como poderia viver at l? Precisava 
encontrar foras para que ningum desconfiasse. S assim, poderia descobrir a verdade. Habituada a ocultar seus sentimentos, comps 3 fisionomias, porm, sentia 
a dor aguda do cime ferindo seu corao.
       Ningum notou nada. Ela conseguiu seu intento. A carta, escondida no bolso do vestido, fazia-a sentir que tudo era verdade.
      Sempre se perguntara como Jos Luiz suportara os anos em que estiveram separados. Agora sabia. Amaria essa mulher? Por certo. Teria filhos com ela?
      A esse pensamento seu corao apertou-se. Ardia por saber.
      No dia seguinte,  tarde, enquanto Luciana e Maria Lcia conversavam animadas na sala de msica, Joo Henrique chegou com Ulisses. Maria Helena recebeu-os 
com carinho. Joo Henrique subiu para trocar de roupa. Vendo-se sozinho com ela, Ulisses disse respeitoso:
      - Poderia conceder-me alguns minutos? Preciso falar-lhe a ss.
      - Por certo. Pode falar, estamos sozinhos.
      - Preferia um lugar reservado, O assunto  muito grave.
      - Est bem. Venha ao escritrio. Ningum nos interromper.
      Uma vez l, ofereceu a Ulisses uma cadeira e sentou-se a seu lado.
      - Pode falar.
      Ele hesitou.
      - No sei se devo...
      - Do que se trata? Alguma coisa com Joo Henrique?
      - No. No  nada com ele. Acho melhor no dizer. Afinal, no tenho nada com isso.
      - Voc me assusta. Fale logo.
      - A senhora me conhece h muitos anos, desde menino. Sabe como estimo sua famlia. Joo Henrique  como meu irmo! S por isso que vou contar o que sei.
      - O que ?
      - No leve a mal, D. Maria Helena. Estou revoltado. A senhora, uma pessoa to boa, ser enganada dessa forma! Logo por quem.
      Maria Helena empalideceu.
      - Pelo amor de Deus, - pediu. - O que voc sabe que eu -        Seja l o que for, quero saber j. No contarei a ningum que foi voc. Agora fale.
      - Fui eu quem lhe escreveu aquela carta.
      - Voc!
      - Sim.
      - Ento voc sabe tudo a respeito.
      - Sei!
      - Fale, pelo amor de Deus!
      - Est bem! O doutor Jos Luiz tem uma amante. Eu o vi sair vrias vezes, tarde da noite, da casa dela. Despediam-se amorosamente. Preocupado, passei a vigi-los. 
Ele vai l regularmente. Descobri que a bela casa onde ela mora, foi ele quem comprou.
      - Isso voc j disse na carta. Quero saber mais. Como  ela?
      - Jovem e bela. Rosto angelical, atrs do qual eu jamais poderia supor havia uma pessoa to baixa. Capaz de tanto fingimento.
      - Jovem.., bela... . Ento no pode ser coisa antiga.
      - Talvez uns dois anos.
      - Quem  ela?
      - A senhora vai surpreender-se tanto quanto eu...
      - Fale.
      - Essa jovem traidora, hipcrita, que se finge de amiga para roubar-lhe o marido  Luciana.
      - Luciana? - o rosto de Maria Helena contraiu-se em dolorosa surpresa. - No posso acreditar! Isso no pode ser verdade. Voc est enganado.
      - Infelizmente no. Gostaria de poupar-lhe esse desgosto, mas no posso deixar que a senhora seja to cruelmente enganada. Essa moa insinuou-se em sua casa 
interessada em seu marido. Descobri que ela era muito pobre antes dele comprar-lhe a casa. Alm da casa, mobiliada com luxo, deu-lhe dinheiro, comprou-lhe jias. 
Ela e a av mudaram de vida. Claro. O Dr. Jos Luiz  generoso!
Maria Helena passou a mo na testa como a querer libertarse daquela idia. A situao era to angustiante que ela no queria acreditar. De repente, lembrou-se: fora 
Jos Luiz quem sugerira Luciana como professora da filha. Ele sempre se interessava pela moa, dedicava-lhe especial ateno.
      -        Meu Deus! - gemeu ela - Que horror!
      Os olhos de Ulisses brilharam de satisfao enquanto ele dizia com voz aflita:
      -        Por favor, D. Maria Helena. Tenha calma. Sei que a situao  negra, mas no se precipite. Precisa ser mais esperta do que ela. Afast-la de sua casa 
e do convvio de sua famlia. Acabar com essa imoralidade!
      Lgrimas corriam pelas faces de Maria Helena, embora lutasse para as conter. A violncia da surpresa prostrava-a. Quando conseguiu controlar-se, disse com 
voz trmula:
      -        Vou pensar. Encontrarei uma forma. Voc ver. Obrigada por haver me alertado.
      -        Lamento haver sido eu o portador. Contudo, no poderia ficar calado, diante de tal ousadia.
      -        Obrigada, ser-lhe-ei eternamente grata. Agora v, antes que algum o veja aqui comigo.
      Ele saiu rpido, acomodando-se gostosamente na sala de estar, esperando por Joo Henrique. Maria Helena, sentindo no poder conter-se, foi para seu quarto, 
trancou a porta e atirou-se no leito chorando convulsivamente.
      As duas moas saram da sala de msica e encontraram Ulisses. Maria Lcia sorriu com prazer indo abra-lo. Luciana cumprimentou-o com um aceno de cabea. 
Ulisses, bem-humorado, cortejou Maria Lcia, dirigindo-lhe galanteios e a moa no escondia o contentamento.
      Luciana sentiu aumentar a preocupao. Sabia que Ulisses no amava Maria Lcia, temia que ela viesse mais tarde a sofrer por isso. Contudo, sentiu que no 
podia fazer nada. Pensou em Suzane. Se ela pudesse ajudar! Teve vontade de sair dali, ir para casa.
      -        Maria Lcia, vou para casa.
          - Que pena. No vai ficar para jantar?
          - Obrigada, meu bem, hoje no posso. Vov me espera.
          - Voc disse que ia ficar... - fez ela, pesarosa.
      -        , eu disse, mas lembrei-me agora que no posso. Fica para outro dia.
      Despediu-se e saiu. Precisava ir para casa. Sentia um aperto no corao e no sabia explicar por qu.
       Quando ela saiu, Ulisses segurou a mo de Maria Lcia dizendo:
       -        Deixe-a ir. Ser melhor. Vem, sente-se a meu lado. Precisamos conversar.
       A moa corou de emoo. Ele prosseguiu:
       -        Sabe que est muito linda e que eu gosto muito de voc?
       -        Voc nunca disse.
       -        . Eu estava cego. Depois, fui iludido pela sua melhor amiga.
       -        Luciana?
       -        Sim. Luciana. H muito desejo falar-lhe sobre ela. Sabe que est apaixonada por mim?
       Maria Lcia foi do rubor  palidez sucessivamente.
       -        No  verdade! Ao contrrio, ela sempre disse que no o aprecia. Alis, sempre pensei que voc  que gostasse dela!
       -        Impresso sua. Eu gosto mesmo  de voc. Vrias vezes disse isso a ela. Queria que me ajudasse a conquistar voc. Sempre faz tudo que ela manda!
Maria Lcia irritou-se:
       -        No  isso, no. Sou dona do meu nariz. Sempre s fao o que quero. Nem mame me vencia.
       -        Pois no parece. Luciana conduz voc com facilidade. Ela me afastava do seu lado, dizendo que voc me detestava. Mas quando ela disse que me amava, 
entendi tudo. Ela queria me afastar de voc!
       -        Ela fez isso? - disse ela dolorosamente surpreendida.
       -        Fez. Sofri muito. Mas, agora, resolvi contar a verdade. Ela nunca foi sua amiga.  falsa e interesseira.
       -        No diga isso dela!
       -        Ainda a defende? Depois do que ela fez? Pois eu vou contar-lhe mais.
       Maria Lcia tapou os ouvidos:
       -        No quero. Chega! No suportarei!
       -         um segredo. Posso confiar em voc?
       Ela hesitou. Desejava saber, mas ao mesmo tempo sentia medo.
-        No sei - disse.
       - Ento no conto.  um segredo muito srio.
       - O que ?
          - Jura que no conta a ningum?
       - Juro.
       - Vou contar o que eu descobri sobre ela.
       Ulisses contou a mesma histria que a Maria Helena.
       - No pode ser. No acredito!
       - Juro que vi. Estou dizendo a verdade.
       - Meu Deus. Que horror!
       - Ela nunca foi sua amiga. Aproximou-se de voc por causa de seu pai. Quer o dinheiro dele, mas ao mesmo tempo, o meu amor. Acha que eu podia concordar?
       Maria Lcia, plida, corao apertado, no queria acreditar.
       - No pode ser - disse com voz sumida. - Voc deve ter se enganado.
       - Juro que  verdade. Gostaria de estar enganado. Sei como vocs a estimam. Pensei muito antes de tomar essa deciso. Como esconder a verdade se vocs so 
como minha famlia? Joo Henrique  meu melhor amigo. Respeito seus pais como os meus prprios. Depois, h voc que, quem sabe um dia, ainda ser a me de meus filhos!
       O        rosto plido da moa coloriu-se de rubor. Apesar de tudo, ele a amava. Era por ela que estava ali, tentando defender seu amor.
       - Preciso pensar - disse ela - conversar com Luciana, saber a verdade.
       - Duvida de mim? Acha que ela vai declarar-se culpada? Ela sempre tentou me indispor com voc. Nunca foi favorvel ao nosso amor.
       Maria Lcia reconheceu que Luciana no se entusiasmava quando confidenciava seu amor por Ulisses.
       - Minha me sabe?
       - Sim. Contei-lhe tudo. No podia permitir que ela continuasse sendo enganada dessa forma. Fiz mais, pedi-lhe que comprove a verdade. No ser difcil. Seu 
pai vai sempre l.
       - Custo a crer. E D. Egle?
       - Encobre a neta, certamente.
       -  uma grande senhora, tem classe.
      -        Mas faz o que Luciana quer. Ela  astuciosa. Consegue tudo o que quer. Voc sempre a obedeceu!
       -        Eu sou livre. Sempre fiz o que quis.
       -        Pois no parece. Estou mostrando a verdade e voc est to cega por ela que no consegue ver.
       Maria Lcia baixou a cabea confundida. Percebia o fascnio que Luciana sempre exercera em sua vida. Seria verdade? Estaria sendo enganada? Teria sido manipulada 
todo esse tempo?
       Ulisses abraou-a com entusiasmo, procurando seus lbios. O corao batendo forte, Maria Lcia entregou-se a esse beijo que mil vezes sonhara receber; Sentia 
as pernas trmulas e forte calor no corpo. Ele amava-a! Que importncia tinha o resto? Sabia que o queria e que faria tudo para conservar o seu amor.
       -        Diga que me ama - pediu ele.
       -        Sim. Eu o amo! - confessou ela afinal.
       -        Isso  o que eu queria ouvir de seus lbios. S peo para esperar um pouco para contar  sua famlia. No momento, no tenho condies financeiras 
para pedir sua mo. Seu pai  rico, tem posio. No posso chegar a ele de mos vazias. Vamos namorar em segredo, por algum tempo. S enquanto eu me preparo. Assim 
que tiver condies, oficializo o pedido.
       Maria Lcia ouvia-o fascinada.
       -        Mal posso acreditar - disse enlevada.
       -         verdade.
       -        Acha que vai demorar? Gostaria de gritar a todos a nossa felicidade.
     -        Eu tambm. Tenho alguns negcios que se se efetivarem, brevemente farei o pedido.
- Sinto-me to feliz! Apesar da desiluso com Luciana.
      - Prometa-me que no mais a receber nesta casa.
      - No sei. Precisamos conversar. H muitas coisas que eu gostaria de dizer-lhe.
      - Por favor, no! Ser doloroso para voc. Desejo poup-la. Depois, tenho medo. Ela no vai conformar-se em ser desmascarada. Far tudo para engan-la de novo. 
Vai querer nos separar. No posso permitir.
      - Se ela vier, no posso deixar de esclarecer tudo.
      - Prometa que no a receber. Jure que pelo menos desta vez no obedecer aos desejos dela!
           -  difcil.
       -        V como est dependente?
       -        No sou dependente.
       -        . S faz o que ela quer.
       -         mentira.
       -        Ento prove. Est sabendo que ela os enganou o tempo todo,  sem carter, desrespeitou sua me, impediu nosso amor e ainda assim quer justific-la? 
Dar-lhe chance de engan-la de novo? A verdade  que voc  medrosa. No quer admitir que perdeu a muleta. Pendurou-se nela para sair da sua timidez. Voc no precisa 
mais dela. Eu estou aqui e a amo: Desejo seu bem, a sua felicidade. Sua me precisa da sua compreenso. Quer ver D. Maria Helena desrespeitada?
       -        Est bem, reconheo que tem razo.
       -        Prometa que no a procurar, nem a receber aqui.
       -        Est bem. Prometo.
       -        Isso. Assim  melhor. Eu estou cuidando da sua felicidade e do bem-estar da sua famlia. Agora lembre-se: mantenha nosso segredo. Virei v-la sempre 
que possvel.
       Quando Ulisses se foi com Joo Henrique, Maria Lcia, em seu quarto, revivia o que acontecera com detalhes. Sentimentos contraditrios afluiam em seu corao. 
Amava Luciana. Como pudera enganar-se a tal ponto? Ela sabia de seu amor por Ulisses e, agora percebia claramente, tentara sempre desencoraj-la. Por qu? Tambm 
se apaixonara por ele. Podia entender isso, mas imagin-la nos braos de seu pai, chocava-a muito mais. 'Como? Sempre to discreta, mostrando-se espiritualizada, 
falando com dignidade e vendendo seu amor a um homem casado, cuja casa freqentava e era recebida carinhosamente?
       Esse comportamento era aviltante. De fato, Ulisses estava certo, ela no merecia nenhuma considerao. Sabia que seu pai no tinha um bom relacionamento com 
a me. Percebera muitas coisas que agora apareciam mais claras, mas apesar dos desentendimentos, Maria Helena nunca deixara de ser esposa correta e dedicada.
       Ela prpria fazia algumas restries  me cuja educao formal e voltada s regras, a irritava. Mas, conhecia-lhe a honestidade e a dedicao  famlia. 
Podia compreender que seu
pai tivesse alguma aventura fora do lar. Sempre ouvira dizer que a maioria dos homens casados tinham amantes para satisfazer seus ntimos desejos sexuais. Coisas 
que as esposas no se permitem fazer. Sua me, to fria e formal, seria uma dessas? O que no aceitava era que fosse com Luciana, jovem, bela, culta, que por certo 
poderia escolher um homem livre para casar-se! E ainda traz-la para dentro da prpria famlia. Isso era demais!
       Podia avaliar como sua me estava se sentindo. Que horror! Como haviam sido enganadas! Ulisses a libertara dessa situao. Ulisses! Logo estariam casados 
e felizes! Como seria bom!
       -        No serei uma esposa dessas - considerou. - Meu marido no vai precisar ter amante. Certamente isso no acontecer comigo. Nos amaremos eternamente. 
Viveremos um para o outro.
       Luciana chegou em casa um pouco indisposta. Sentia o corao apertado, oprimido, e uma ponta de angstia. Egle percebeu logo.
       -        Voc no est bem. O que foi? Aconteceu alguma coisa?
       -        No, nada. Mas, sinto-me angustiada. No sei o que . Parece que, de repente, caiu sobre mim um peso.
       -        Energia pesada.
       -        . S pode ser. No sei, vov. O Ulisses apareceu l. Aquela cena ainda no me saiu da lembrana.
       -         uma pena que voc teime em guardar segredo com Jos Luiz. No percebe que  prejudicial?
       -        Sabe, vov, ele estava rodeando Maria Lcia, fazendo-lhe a corte. Ela est apaixonada por ele. Pode corresponder. J pensou que tristeza?
       -        Algum precisa prevenir Maria Helena. Ela sempre to cuidadosa agasalha em casa aquele patife.
        - No tenho coragem. No gosto de delatar ningum. Confio em Deus. Pedirei a mame que nos ajude a proteger Maria Lcia.
- Se prefere assim... Em todo caso, Jos Luiz deveria saber.
       -        No, vov. Entreguemos nas mos de Deus. Em se tratando de pessoas e sentimentos, s ele sabe o que vai dentro de cada um.
       A campainha soou e Egle foi abrir. Voltou alegre com uma carta nas mos.
       -         de Margarida Fontes. Convida-nos para almoar com eles no domingo.
       Luciana corou de prazer.
       -        Que bom! Iremos com certeza!
       -        Claro. Vou telefonar agradecendo e dizer-lhe que aceitamos.
       -        Vou usar aquele vestido rosa novo, o que acha?
       -        Lindo! Estou pensando em levar umas flores. Aquele vaso de orqudea.
       -        Vov! Voc vai dar-lhe suas orqudeas? Bom sinal esse.
       -        Sente-se melhor agora?
       -        Sim. Apesar que a opresso permanece.  como se uma tempestade fosse desabar sobre minha cabea.
       -        Seja o que for, a vida sempre faz o melhor.
       -         verdade. Confio em Deus. O mal  s iluso. Jamais nos atingir.
       No dia seguinte,  tarde, um mensageiro tocou a sineta da porta e Luciana foi abrir. Entregou uma carta endereada a ela. Abriu-a e leu:
       "Cara Luciana. Eu, Maria Lcia e Joo Henrique, resolvemos viajar por algum tempo. Por essa razo, nossa casa permanecer fechada. Avisaremos o nosso regresso. 
Respeitosamente, Maria Helena".
       -  estranho. - disse Luciana - O que ter acontecido?
       Egle apareceu na sala:
       - O que foi?
       - D.Maria Helena fechou a casa, viajou com Maria Lcia e Joo Henrique.
       - Para onde?
       - No sei. No disse. Estranho, ontem ningum falou nada sobre isso. Sequer contou para onde. Maria Lcia nem me mandou uma palavra sequer. No lhe parece 
esquisito?
       - ... Teria acontecido alguma coisa? Jos Luiz foi com eles?
       - No sei. Ela no disse.
       - Algum parente de fora pode ter adoecido.
       - Pode. No sei, mas sinto voltar o aperto no corao quando penso nisso. Alguma coisa ruim est lhes acontecendo, sinto isso. Meu Deus, o que ser?
      -        Podemos fazer uma concentrao e rezar por eles.
      -        Faremos isso, vov. D. Maria Helena est muito angustiada, visualizo seu rosto muito triste. Algo est acontecendo a ela. Se ao menos eu pudesse ver 
o que !
      -        Acalme-se, Luciana. Seja o que for, confiemos em Deus. Ele no faz sempre o melhor?
      -        Tem razo, vov. Se ao menos soubssemos para onde foram...
      -        Seja o que for, no est em nossas mos resolver. Faremos a nossa parte. Criarmos pensamentos de bem-estar, de alegria e de felicidade; mandaremos 
a elas essa energia. Lembre-se que se voc sente o problema dela  para que o suavize mandando energias renovadoras.  s o que podemos fazer.
      -        Tem razo, vov. Faremos isso agora mesmo.
      Sentaram-se na sala e Egle fez comovida orao. Depois, em silncio, as duas tentaram visualizar Maria Helena e os filhos, radiantes de felicidade. Luciana, 
pensando nelas, sentiu um amor muito grande por elas. Amava-as. Empolgada por esse sentimento, abraou-os um a um, expressando o que lhe ia na alma.
      Sentiu-se muito bem depois disso. Toda angstia e opresso desapareceram do seu corao. Suzane, a seu lado, abraou-a carinhosamente dizendo-lhe ao ouvido:
      -        Isso mesmo, filha. D-lhes amor e confie em Deus. As
experincias amadurecem e so necessrias. Compreenda.
Luciana sorriu.
          - Mame veio - comentou.
          - Sim. Eu senti.
          - Agora est tudo bem. Seja o que for, sinto-me em paz.
          - Eu tambm.
      Tranqilas e alegres, planejaram a visita aos Fontes no domingo. Egle notou com satisfao que Luciana mostrava-se entusiasmada e mais interessada do que o 
habitual.
      Na noite seguinte, Jos Luiz procurou-a com satisfao.
      -        Sinto-me sozinho, - foi dizendo logo ao sentar-se na cmoda poltrona da sala de estar.
      -        Posso avaliar. Recebemos uma nota de D. Maria Helena. O que aconteceu? - indagou Luciana. - Estive l anteontem e Maria Lcia no disse nada. Para 
onde foram?
      -        Para Petrpolis. Foi de repente.
      -        Aconteceu alguma coisa?
      -        No. Maria Helena se disse cansada. Pensou que os ares da Serra lhe fariam bem. Estava um pouco abatida.
      -        Vo demorar?
      -        No sei.
      -        Tenho impresso que algo aconteceu. Eu sinto. Algum desgosto. Quando penso em D. Maria Helena, sinto um aperto no corao.
      Jos Luiz sacudiu a cabea.
      -        Voc est enganada. No houve nada. Ao contrrio, nunca estivemos to bem - ele parou, hesitando um pouco.
      -        Ficaria muito feliz em saber que as coisas melhoraram para vocs - disse Egle com suavidade. - Maria Helena  uma mulher maravilhosa, voc  um homem 
de sorte.
      -        Agora, eu sei disso. Suzane no volta mais. No posso viver s do passado. Sou humano.
      -        Tenho a certeza de que mame sempre desejou a felicidade de vocs. Penso at que se sentia triste, sendo um obstculo a essa felicidade.
      A conversa continuou amena e agradvel. Jos Luiz sentia -se bem ali, naquele ambiente de compreenso e carinho. Foi ficando. Era muito tarde quando saiu. 
Luciana acompanhou-o  varanda.
      -        Voc  a luz da minha vida - disse ele olhando-a com amor. - S comecei a ser feliz depois que a encontrei. Deus a abenoe.
      Abraou-a demoradamente beijando-a na face. Saiu, entrou no carro e sequer notou que do outro lado da rua havia um outro carro, cortinas descidas, s escuras.
      Maria Helena estava l, ao lado de Ulisses.
      -        Ento, - disse ele depois que Jos Luiz se foi - ainda duvida?
      Maria Helena torcia as mos frias e procurava controlar suas emoes. No queria que Ulisses percebesse a que ponto se sentia infeliz.
      -        Sim - disse por fim. - No h como duvidar.
      -        O que pensa fazer?
      -        Voltar para Petrpolis agora mesmo. No quero que Joo Henrique saiba de nada. No vai aceitar isso. Preciso pensar...
          Logo agora que ele se relaciona melhor com o pai! No quero que se desentendam.
      - A senhora  uma grande dama. Quanto mais a conheo, mais a admiro.
      - No h nada mais importante para mim do que a famlia. Farei tudo para preserv-la. Espero contar com sua discrio de homem de bem. Quero que jure que no 
contar esta histria a ningum mais.
      Ulisses apressou-se a jurar. Convinha-lhe que ningum mais soubesse.
      - E quanto a Luciana? - indagou ansioso.
      - Vou pensar o que fazer. Nunca mais por os ps em nossa casa, eu garanto.
      - Mas Joo Henrique e o prprio Dr. Jos Luiz desejaro saber o motivo. Vai falar a verdade?
      - No. Seria a humilhao maior. Seria descer da minha dignidade de mulher. Descobrirei um jeito, ver.
      Perdida em seus pensamentos ntimos, Maria Helena no notou o ar de satisfao de Ulisses.
      - Vamos embora, - pediu. - A estrada  longa.
      - Como queira.
      Em minutos o carro desaparecia na curva da rua.

CAPTULO 18

      Luciana acordou cedo e bem-disposta. Satisfeita, levantou-se, vestiu-se e foi tomar seu caf na copa. Vendo-a, Egle no escondeu a alegria.
      - Como voc est bem-disposta est manh! Corada.
      - Sinto-me feliz, vov. Tenho vontade de cantar, danar. J notou como os passarinhos cantaram hoje cedo?
      Egle balanou a cabea.
      - Acho que sei porque essa alegria toda... Tem a ver com os Fontes.
      Luciana corou mas concordou sorrindo.
      -  verdade, vov. Nesses dois meses que Maria Lcia est fora, eles tm sido companheiros ideais.
      - Vocs no se largam. Todos os dias, nunca vi coisa igual!
      -  que eles so mesmo especiais. Adoro Margarida. Nunca conheci ningum como ela. Seu Otimismo, sua inteligncia, sua bondade, me comovem e ajudam. Tenho 
aprendido muito com ela.
      - Eu sei. Margarida  uma mulher duzentos anos na frente da nossa poca.  original, espirituosa e voc tem razo. Muito bondosa.
      - Sinto-me muito bem ao seu lado. Desde aquele domingo maravilhoso que fomos almoar l, minha vida se transformou.
      - Voc agora me parece mais feliz.
      - Estou, vov. Eu vivia bem. Mas agora, sinto-me ainda melhor. Havia muitas coisas que no conseguia entender. Margarida tem me mostrado aspectos que eu nunca 
havia notado e que modificaram muito minha maneira de pensar.
      -  verdade, Luciana. A mim tambm ajudou.
      - Voc?
      - Sim. Desde que Suzane morreu, e voc ficou comigo,
sempre receei ter que partir e deix-la s no mundo. Temia a
crueldade dos outros, pensava que eu necessitava estar aqui, a
seu lado, para proteg-la.
          - Voc nunca me disse!
          - No queria preocup-la. Mas, apesar de saber que a vida continua, que a morte  uma iluso, temia ter que ir, deixando-a no mundo. Quando Jos Luiz apareceu, 
fiquei mais aliviada. Contudo, ele tem famlia que desconhece o passado. Sempre me perguntei como Maria Helena receberia a verdade. Margarida mostrou-me o quanto 
estava enganada. Se eu precisar ir amanh, irei em paz.
Luciana levantou-se e abraou a av com carinho.
      - No fale assim. Voc ainda ficar muito tempo comigo.
      -        Eu gostaria de ficar, mas se precisar partir, no ser um drama.
      - Margarida faz milagres. Como foi?
      - Sabe Luciana. nossa educao, a sociedade, a posio da mulher em nosso mundo, a religio que sempre procurou nos dominar pelo temor e no pelo amor, as 
iluses das pessoas, acreditando no mal como soluo de suas dificuldades, tornou o nosso mundo muito triste e cruel. A bondade confunde-se com a fraqueza, a dignidade 
com o orgulho, o amor com a paixo, a honestidade com aparncia. Tudo isso vem confundindo nossos sentimentos e, por isso, colocamos os medos em nossas vidas. Sentimos 
medo de viver, de morrer, das pessoas, da natureza e at do castigo de Deus. O medo tem atormentado nossas vidas e impedido que enxerguemos a verdade. Ele deturpa 
os fatos, paralisa nosso desempenho, escurece nossas decises.
      -         verdade, vov. J notei isso.
      -        Margarida fez-me compreender que isso tudo no passa de iluso, de mentiras nas quais acreditamos ao longo de nossas vidas. So crenas profundas 
que determinam todas as nossas atitudes no dia-a-dia.
      -        Claro. Se eu creio que algo  de certa forma, tomarei atitudes sempre em relao a isso.
          - Pois . Compreendi que os medos so gerados pela crena de que o mundo  perigoso. Esquecida de que Deus est cuidando de tudo. Que ele  bom, perfeito, 
justo e muito mais do que podemos imaginar, j que ele controla e mantm o equilbrio do universo. E o mais importante, que ele nos criou para a alegria e felicidade. 
O paraso. Rodeou-nos de beleza, colocou-nos na Terra, um planeta cheio de flores, deu-nos tudo, previu os mnimos detalhes. Nossos medos no seriam meras pretenses? 
Nossa falta de f no ser uma infantilidade espiritual?
      - Vov! Como voc cresceu.
      - Disseste bem, Luciana. Eu cresci. Alm disso, os espritos dizem sempre que  preciso dar para receber. Que cada um recebe de acordo com o que d.
      -  verdade.
      - Ento eu descobri que isso se aplica no s  esmola que damos na igreja, o dinheiro na mo do pobre, mas s energias que acumulamos com nossos pensamentos 
e distribumos a todo instante.
      -  mesmo. Cada pessoa distribui suas energias por onde passa. Posso sent-las muitas vezes.
      - Os sensitivos sentem. Margarida disse-me que essas energias que damos naturalmente, fruto de nossa forma de sentir, de pensar,  que atraem e repelem os 
fatos o pessoas em nossas vidas.
      - Ela falou-me sobre isso.
      - Logo, se isso  verdade, voc que s pensa no bem, irradia o bem, estar protegida. Nenhum mal a atingir.
      - O mal  iluso, vov. No acredito nele. At o mais triste assassino, um dia, compreender isso.
      - Concordo. Mas a presena de Jos Antnio concorre para seu entusiasmo.
      - Gosto dele, vov.  carinhoso, inteligente, culto. J notou como ele trata Margarida?
      - J. So pessoas muito especiais. Parece que gostam de ns. Ele j se declarou?
      - Vov!
      - Por que essa admirao?  o que ele far nos prximos dias, se  que ainda no o fez.
      - Voc acha mesmo?
      - Acho. Desde j digo que concordo. Abenoarei vocs com alegria.
A sineta tocou.
         - Espera algum?
      - Sim, vov. Eles me convidaram para escolher alguns tecidos. Pretendem reformar a sala de estar.
Egle balanou a cabea.
      - No h o que justificar, os motivos aparecem sempre. V abrir logo.
      Luciana corada e alegre apressou-se em obedecer. Margarida e Jos Antnio entraram e abraaram Luciana carinhosamente. Egle apressou-se em cumpriment-los. 
Minutos depois, vendo-os sair, Egle sentiu-se feliz. Gostava deles o bastante para desejar tlos na famlia. Luciana seria feliz, com certeza. Percebera o interesse 
do moo e a aprovao de Margarida. Aquele era um namoro que tinha tudo para dar certo, embora ele ainda no houvesse se declarado.
      Naquele fim de semana, em Petrpolis, Maria Helena recebeu o marido aparentando uma alegria que no sentia. Havia dois meses que estava l com a filha e no 
desejava voltar ao Rio. Voltar, significava enfrentar o problema de Luciana, e ela no conseguira ainda encontrar uma desculpa para afast-la de casa.
      Inconformado, Jos Luiz insistia para voltarem dizendo-se muito s. Joo Henrique, depois de uma semana, regressara, mas pouco se viam. O rapaz esforava-se 
para esquecer a desiluso passada, e mergulhara no trabalho, tendo voltado aos projetos de sanidade e urbanizao da cidade, sonho maior de sua juventude. Fora isso, 
tornara-se assistente de um grande engenheiro, trabalhando o dia inteiro, visando praticar e tornar-se um bom profissional.
          Tinha pouco lazer, ao contrrio de outros tempos, no ia a concertos ou teatros. Preferia recolher-se para trabalhar em seus projetos, voltara-se mais 
para coisas buclicas, preferindo sentar-se nos parques, ou ir a Paquet, quase sempre sozinho, perdido em seus pensamentos. Seus amigos, voltados s atividades 
mundanas, raramente o seguiam.
            Jarbas, algumas vezes, o acompanhara, porm, Joo Henrique mostrara-se to distante e introspectivo que ele afastara-se, percebendo que o amigo preferia 
a solido.
      Em casa, ficava em seu escritrio, estudando, e Jos Luiz permanecia realmente s.
      Uma tarde, Jos Luiz a ss com Maria Helena na sala de estar, foi direto ao assunto:
            - Maria Helena, vim busc-la. Amanh voltaremos para casa. No agento mais ficar l sem vocs.
      - Reconheo que tem razo. Contudo, sinto-me to bem aqui, que apreciaria ficar mais um pouco.
       Jos Luiz olhou-a srio:
     - Aconteceu alguma coisa? Tenho notado que h momentos em que voc me parece distante. Por acaso, arrependeu-se? No deseja mais viver a meu lado? Ter o passado 
mais fora do que o presente?
       Ela apressou-se em dissimular
       -        No, Por que diz isso?
       -        Porque no estou entendendo. Primeiro voc disse que me amava, que sempre Sonhou com nossa felicidade. Compreendi o quanto a amava tambm e nos entendemos 
como nunca. No consigo esquecer as noites que passamos juntos depois disso. Pensei que no houvesse mais sombras entre ns, que Pudssemos viver bem agora. Porm, 
voc, de repente, me abandona decide ficar longe de casa e sempre que desejo lev-la de volta, vem com desculpas. Hoje, estou disposto a esclarecer. O que est acontecendo? 
Quero a verdade.
       Maria Helena Sentiu que precisava encontrar uma sada. Olhou-o nos olhos e decidiu:
       -        Est bem. Direi a verdade. No vai recriminar-me? Rir de minha fraqueza?
       Ele abanou a cabea.
       -        Seja o que for, Posso entender. Sabe que sou Compreensivo
       -        Muito bem. Notou que agora meu relacionamento com Maria Lcia melhorou?
            - Notei e a felicito. Vocs nunca se entenderam. Agora tornaram-se atenciosas uma com a outra. Maria Lcia mudou muito.
            - Quando percebi que me havia enganado a respeito dela, julgando-a incapaz, Senti enorme remorso. Claro que ela nunca seria como Joo Henrique, sempre 
inteligente e sagaz, mas ela pode ser pessoa comum, o que chega a ser bom na mulher. No percebi isso e sempre a tratei de forma inadequada. Contudo, ela mostrava-se 
ressentida comigo, mesmo quando resolvi conquistar seu afeto, acabar com os desentendimentos que havia entre ns. AI, percebi que ela gostava de Luciana muito mais 
do que de mim. Fiquei arrasada de cime.
       -        Que despropsito. Logo com Luciana!
       -        Foi mais forte do que eu. Ela s falava em Luciana, tudo era Luciana. S Luciana. Eu nada representava para ela.
       -        Por que no me disse?
       -        Tive vergonha. Afinal, sou mulher amadurecida. No quis confessar meu cime. A situao chegou a um ponto, que eu no suportava v-las juntas. Ento 
eu pensei que se me afastasse dela por algum tempo, conseguiria vencer esse cime. Contudo, s em pensar em voltar, fico horrorizada. Aqui, longe dela, Maria Lcia 
achegou-se mais a mim. Ao voltar, Luciana vir nos ver e tudo voltar a ser como antes. Eu no quero! No suportaria perder o amor de minha filha para uma estranha!
       Jos Luiz surpreendido podia perceber a raiva que Maria Helena colocava nas palavras. Sentia que ela falava seriamente. Jamais imaginara que isso pudesse 
acontecer. Estava desgostoso.
       -        Eu estranhei seu silncio sobre Luciana. Afinal ela tornou-se habitual em nossa casa.
       - Agora, sinto-me sem coragem de enfrentar a mesma situao de novo. Meu cime continua mais vivo do que nunca. No permitirei que ela roube o amor das pessoas 
que amo!
       Disse isso com tal veemncia que Jos Luiz assustou-se.
          - Parece que voc a odeia, no entanto ela nos fez muito bem.
          -  isso que eu odeio. Ela  maravilhosa e vocs a amam. E eu? Sou absolutista. Me recuso a dividir o amor de minha famlia com uma estranha por melhor 
que ela parea ser.
          - Nesse caso, o que pretende fazer?
          - Tambm desejo voltar para nossa casa. Quero que me prometa que essa moa no mais por seus ps l.
          Jos Luiz levantou-se irritado.
          - No acha que est sendo infantil, depreciando uma pessoa que deu o melhor de si e no tem culpa de seus complexos pessoais?
          - Eu disse que voc no ia entender. Eu no quero mais essa situao. Por outro lado, Maria Lcia vive pendurada em Luciana. Precisa ser independente. 
At quando ficar apoiada nela?
          - Por causa disto, voc no tem o direito de desfeitear Luciana afastando-a da nossa casa, sem motivo justo.
      "Ele a ama!" - pensou ela com raiva. "A defende com veemncia." Procurou esconder o que sentia e dizer com naturalidade:
       -        Claro que no penso em ofend-la. Conversarei com ela e com Egle. Pedirei que se afaste por algum tempo. Explicarei que  para o bem de Maria Lcia. 
Para que ela aprenda a ser auto-suficiente. Tenho certeza de que compreendero Depois de algum tempo, quem sabe, quando eu estiver mais segura com minha filha, a 
chamaremos de volta.
       Jos Luiz Suspirou contrariado, mas aqueles eram os sentimentos da esposa, seria melhor mesmo Luciana afastar-se por certo tempo.
       -        Est bem - disse. - Se  assim que quer, seja. O que dir para Maria Lcia? Ela vai querer ver Luciana.
       -        Esses dois meses aqui foram muito positivos. No comeo ela perguntava muito, agora, esqueceu. Se Luciana alegar Outras ocupaes, ela aceitar.
       -        Sendo assim, regressaremos amanh.
       -        Sim. Amanh.
       Jos Luiz abraou-a, beijando-lhe os cabelos procurando seus lbios com ardor.
       -        Estou saudoso, - disse emocionado.
       Maria Helena entregou-se ao prazer doloroso daquele beijo que a fazia estremecer de emoo mas que, ao mesmo tempo, como um punhal remexia a ferida em seu 
corao.
       Maria Lcia no quarto, sentada no cho, Costas apoiada na cama, sentia-se profundamente entediada. Estava s. Ansiosamente aguardara a presena de Ulisses. 
Ele no aparecera nem lhe enviara uma palavra sequer.
Nos primeiros tempos, entretera-se em recordar suas palavras de amor, e os beijos que haviam trocado. Tinha pressa em voltar ao Rio, em rev-lo. Ali, em Petrpolis, 
tudo era difcil. Ele desejava manter segredo. Cada sbado, esperava ansiosa. Joo Henrique no vinha. Se ele viesse, Ulisses teria pretexto para vir junto. Sozinho, 
no teria desculpa. Desejava pedir  me para voltar, porm, vendo-a to triste e sofrida, no tinha coragem. Compreendia o que ela deveria estar sentindo. Por isso, 
achegara-se mais a ela tentando ser solidria. Foi com satisfao que  mesa do jantar, ouviu do pai a noticia de que regressariam no dia seguinte.
       Seu rosto cobriu-se de rubor, e os lbios entreabriram-se em um sorriso.
       Na tarde de domingo, eles regressaram ao Rio. Foi com alegria que Maria Lcia  noite, vestiu-se com capricho e esperou.
       Embora Joo Henrique estivesse em casa, Ulisses no apareceu. Na manh de segunda-feira, Egle recebeu com alegria um telefonema de Maria Helena dizendo que 
iria visit-las  tarde.
       Com prazer, Luciana arrumou a sala colocando flores frescas, e Egle preparou guloseimas para o lanche. Eram quase 16 horas quando Maria Helena chegou e para 
decepo das duas, estava s. Cumprimentou-as educadamente e disse que precisava conversar. Reunidas na sala, Maria Helena disse que se preocupava com a dependncia 
da filha e por isso estava interessada em afast-la por algum tempo mais da convivncia com as duas amigas.
       - Tenho notado - exps ela, - nestes dois meses a ss com ela, que ela melhorou muito. Est mais independente, mais adulta. Por essa razo, gostaria que ficassem 
algum tempo afastadas dela. Quero ver se ela se liberta.
           - Sempre desejei que ela se tornasse mais dona de si. Contudo, D. Maria Helena, ela ainda no me parece pronta. Eu mesma tencionava fazer isso, mas temo 
que seja cedo demais. Ela ainda no se integrou socialmente - disse Luciana.
           - Pois eu no penso assim. Ela est muito bem. Vim pedir-lhe que por algum tempo, no nos procure. No desejo aborrec-las, mas isso  muito importante 
para mim.  um pedido que lhes fao em nome da nossa amizade. Quando eu achar oportuno, virei procur-las.  s por algum tempo, para ajudar minha filha.
           - Claro - concordou Egle. - Est no seu direito. Ns compreendemos. No se preocupe. Ter o tempo que quiser.
           - Por certo, D. Maria Helena. Gosto de Maria Lcia e farei tudo pela sua felicidade.
           Lutando com seus sentimentos de mgoa e rancor, Maria Helena dissimulou ao mximo. Despediu-se em tom quase carinhoso, deixando as duas surpreendidas 
e pensativas. Depois que ela saiu, Luciana comentou:
     - Aconteceu alguma coisa, vov. Sinto que algo muito grave se passou. O que ser?
     - Tem razo. A atitude dela  estranha e me pareceu um tanto falsa.
            - Eu me senti angustiada.  como se todo tempo ela me empurrasse. Ela est contra mim. Mas, por que? Nada fiz que pudesse aborrec-la
     - Por certo. Sempre lhes deu apoio, amor.
            - No consigo entender. Est claro que ela me Colocou para fora de sua casa. Por qu? Nosso relacionamento sempre foi bom e eu sentia que ela me apreciava.
            Seja o que for, uma Coisa eu sei: - no fizemos nada para aborrec-la. Por isso, coloque isso nas mos de Deus e conservemos nossos coraes em paz. 
A verdade sempre
aparece.
            - Tem razo, vov. Sinto-me triste por Maria Lcia. Tenho saudades.        Estar bem mesmo? No gosto deste pressentimento que me oprime o corao.
       - Pois no o cultive dentro de si. Ele no vai ajudar em nada. Temos conscincia das nossas atitudes. Convm lembrar as palavras de Suzane. Tudo sempre acontece 
pelo melhor. Pensemos na paz.
       - Tenho conscincia de que agi sempre visando o bem de Maria Lcia. Mas sei, sinto que ela ainda precisa de apoio. Sua Postura  mais desembaraada, mas seus 
sentimentos ainda esto distorcidos. H coisas que no consegue perceber e reage com certa tendncia depressiva. Espero que D. Maria Helena esteja certa. Sua paixo 
por Ulisses pode complicar sua vida.
       - Ele no gosta dela, o que  um bem. Com o tempo ele vai desiludi-la.  jovem. Vai aparecer um amor verdadeiro e ento, tudo vai acabar bem.
      - No sei o que  pior para ela. Se o desprezo de Ulisses, ou o interesse que o vi manifestar.
      - Ele quis vingar-se de voc. Sabe que no o tolera e no deseja que Maria Lcia o namore.
          - Seja como for, vi como ela reagiu. Sei que ele no  sincero. Se a deixar, ela cair na depresso; se ficar com ela, ser por outros interesses e ela 
viver infeliz. Maria Lcia no  como as outras moas.  muito sensvel. Mais do que deixa transparecer.  perspicaz, percebe as coisas, mas as interpreta sempre 
da mesma maneira. No se valoriza. As coisas mais simples, na cabea dela, tomam forma de rejeio, de critica, de incapacidade pessoal.
      - Tanto assim?
      - . Foi difcil conseguir que ela comeasse a olhar-se como  e no como imagina ser. Por isso, D. Maria Helena, sem saber, contribuiu para agravar seu estado, 
criticando-a constantemente, vigiando-a, comentando suas falhas, valorizando Joo Henrique, comparando-os todo o tempo.
       - Notei como Maria Helena preocupa-se com as aparncias.
       - Ela tentou educar a filha, deu o melhor de si, partindo do princpio de que a crtica, a punio, conserta e modifica a pessoa. Fez o que seus pais fizeram 
com ela, nunca a ouviu contar como eles foram exigentes e rgidos em sua educao?
          - S que com ela no aconteceu o mesmo que com Maria Lcia.
      - As pessoas so diferentes. Cada um reage a sua maneira. Contudo, embora D. Maria Helena tenha se tornado uma dama de classe, sua rigidez de princpios, sua 
forma de ver a vida atravs do que aprendeu dos pais, tm dificultado sua felicidade familiar, afetiva.
       - Felizmente, agora parece que ela mudou. Est mais humana e melhor. Entendeu-se com Jos Luiz.
     Luciana abanou a cabea.
       - Sei que algo aconteceu, vov. Quem nos visitou hoje no foi a D. Maria Helena dos ltimos tempos. Foi aquela que conheci no primeiro dia. Com uma mgoa 
no corao que ela habilmente procurava dissimular.
       - Tambm notei certa diferena. Jos Luiz no disse nada?
       - Talvez no saiba.
       - No podemos fazer nada. Ela nos afastou claramente.
       - S nos resta esperar e rezar para que tudo se harmonize. Por maior que seja nossa amizade, no temos o direito de interferir. Elas escolheram. Quando mudarem 
de idia, as receberemos da mesma forma.
           Naquela noite, Jos Antnio, sentado na varanda da casa, olhos perdidos em um ponto distante, no percebeu quando Margarida aproximou-se com a xcara 
de caf.
      Eles costumavam, no vero, sentarem-se na varanda, aps o jantar e saborearem o caf, acomodados nas largas e gostosas poltronas estofadas que Margarida caprichosamente 
mandara fazer.
       Vendo o irmo absorto, sorriu maliciosa e estendendo a xcara fumegante disse bem-humorada:
      - Eis seu caf.
      Arrancado de seus devaneios, o moo sobressaltou-se ligeiramente e apressou-se a pegar a xcara. Margarida foi buscar outra e acomodou-se por sua vez com satisfao.
      - Margarida estive pensando..
      Ela no disse nada e ele depois de sorver um gole de caf
continuou:
- Luciana  encantadora. Tambm acho.
      - To verdadeira, to inteligente. Depois, ela no  piegas como a maioria das moas que conhecemos
      -        Ela no  piegas.  at muito prtica e firme nas suas Convices.
      -        Aprecio muito isso. Ela  uma mulher de verdade. Natural, fala da vida de maneira simples, me encanta.
      -        Alm disso  linda. De corpo e de alma.
      - Vejo que tambm a aprecia.
      - Luciana possui uma lucidez que me encanta.  um esprito iluminado.
      Jos Antnio entusiasmou-se.
      - Nunca Conheci ningum como ela.
      - Posso dizer o que penso?
-  Claro.
-  Voc est apaixonado. Salta aos olhos.
      Jos Antnio colocou a xcara na mesinha lateral e coou a cabea pensativo.
      - Nota-se tanto assim?
      Margarida riu sonoramente Seu riso era contagiante e o moo riu tambm.
      - Penso que Luciana o fisgou. Voc j capitulou. Da, s para a declarao.
      - Isso me preocupa.
      - Voc? Com a experincia que Possui?
      - Sinto-me inseguro.
      - As mulheres nunca resistiram ao seu charme. E voc nunca teve dificuldade de se declarar.
      - Com Luciana  diferente. Fico emocionado, inseguro. E se ela no me quiser?
      - Isso no vai acontecer. Ela gosta de voc.
      - At agora, como amigo. Mas, da ao casamento...
      -        Casamento? Ento  mesmo srio. Voc nunca pensou nisso. Receei que ficasse para titio.
      -        Luciana  a mulher que escolhi e com a qual desejo viver para sempre.
Margarida ficou sria e respondeu com suavidade:
      -        Fico contente por voc e por mim. Soube escolher.
      -        Desde que nossos pais morreram, temos vivido juntos e sempre nos relacionamos muito bem. Nos compreendemos e nos apreciamos mutuamente. Nunca pensei 
em casar porque eu no desejava truncar essa harmonia. Luciana ampliou o circulo integrando-se naturalmente. D. Egle tambm  pessoa agradvel e bondosa.
      -        D. Egle  mulher de fibra e sensibilidade.  forte sem ser rude, suave sem fraqueza. Descobriu o ponto de equilbrio que as pessoas buscam, s vezes 
durante toda a vida. Quando vai declarar-se?
- O quanto antes. Acha que me aceitar?
      Margarida disse maliciosa:
      - V l agora e fale com ela.
      -  tarde. No as quero incomodar.
      - Vai esperar at amanh com essa dvida?
      - Vai ser duro. Agora que resolvi, estou ansioso por saber.
      - No  to tarde assim. Apenas 20 horas. Resolva logo.
      Jos Antnio levantou-se entusiasmado.
      - Tem razo. Irei agora mesmo.
             Arrumou-se com capricho e saiu. Quinze minutos depois, estava em casa de Luciana. Notou surpreendido o carro parado em frente da porta.
      - Ela tem visitas, - pensou contrariado. - Voltarei outro dia.
             Sentia-se ansioso. Podia ser que as visitas no se demorassem. Baixou as cortinas do carro e resolveu esperar.
      O tempo foi passando e nada da visita ir embora. Estava quase desistindo quando viu a porta da sala abrir-se e o Dr. Jos Luiz sair abraado a Luciana. Seu 
corao deu um salto. Eles estavam sozinhos e abraados.
       A moa acompanhou-o at o porto do jardim, e ele viu quando o visitante a beijou na face. Depois, entrou no carro e afastou-se, enquanto Luciana se recolhia.
       O        inesperado deixou-o angustiado e infeliz. Luciana, a mulher que amava e com a qual pretendia se casar, estaria mantendo relaes amorosas com o Dr. 
Jos Luiz? O caso parecia-lhe mais srio, sabendo da amizade que, segundo Luciana, unia as duas famlias.
       Estaria a moa apaixonada pelo pai de sua melhor amiga? O Dr. Jos Luiz era homem bonito, elegante, rico e de aparncia jovem, qualquer mulher poderia apaixonar-se 
por ele. Nervoso, ligou o carro e voltou para casa.
       Margarida correu a seu encontro e observando-lhe o ar transtornado, perguntou-o:
       -        O que aconteceu? Parece que viu uma assombrao.
       -        Estou decepcionado. Podemos estar enganados sobre Luciana. Ela pode no ser aquela que pensamos.
       -        O que aconteceu?
       Jos Antnio Contou a cena que presenciara e finalizou:
       -        Infelizmente ela deve estar apaixonada por ele. Estavam abraados. Por mais amizade, a intimidade sugeria algo alm. Depois ele estava sem a famlia. 
Por que iria procur-la  noite e a ss?
       -        Eles no estavam ss. D. Egle deveria estar na casa.
       -         verdade. Ela faz tudo que Luciana quer. Pode haver facilitado as coisas.
       Margarida abanou a cabea:
       - No D. Egle. Sabe o que penso? Voc est com Cimes!
       - Estou mesmo. Eles estavam abraados.
          - No seja malicioso. No julgue o que no conhece. Depois, eu no me engano; alm de D. Egle, sei que Luciana no se prestaria a esse papel. Namorar um 
homem casado e ainda mais pai de sua melhor amiga! J notou como ela fala de Maria Helena? Se estivesse lhe roubando o marido, no agiria dessa forma. Depois, confio 
em Luciana.  uma moa digna e sincera. Voc est enganado!
      -        Acredita mesmo?
      -        Tenho certeza. V l amanh e esclarea tudo. Ver que tenho razo.
      -        No tenho o direito de imtrometer-me em sua vida particular.
      -        Tem agora. Se a vai pedir em casamento, precisa saber o que ela sente.
      -        Acha mesmo?
      -        Acho.
      -        E se voc estiver enganada. E se ela estiver mesmo apaixonada por ele?
      -        No creio. Mas se eu estiver enganada, sempre ser melhor saber. A dvida, alm de penosa, pode ser pior do que a verdade. Acalme seu corao. Para 
que julgar o que no sabemos? Amanh v at l e fale o que sente.
      -        Est certo. Tem razo. Irei logo cedo.
      Apesar de lutar para acalmar-se, Jos Antnio no dormiu bem naquela noite. No desejava perder Luciana. Amava-a sinceramente. Sua alegria, sua beleza, seu 
esprito lcido, seus olhos brilhantes e seu sorriso leve, deram novo encanto  sua vida, fazendo-o abdicar da sua liberdade. Era a primeira vez que pensara em casamento, 
embora j estivesse perto dos trinta e cinco anos.
      Em vo tentava convencer-se de que a cena que presenciara no denotava relacionamento amoroso. Recordando-a, sentia o corao apertado e uma angstia que o 
fazia remexer-se no leito sem conseguir adormecer.
       Levantou-se cedo e Margarida vendo seu rosto tenso comentou:
       -        Pelo jeito, no dormiu bem.
       -        Tentei, no consegui.
       -        O cime di. Vamos tomar caf. Vai l agora?
       -        Ainda  muito cedo. Vou esperar um pouco. Talvez ali pelas dez...
       -        No precisa esperar tanto. Sei que elas levantam cedo. s nove est bem.
      Jos Antnio concordou, contudo o tempo para ele no passava. s Oito ele j estava no carro, disposto a sair. Margarida sorriu. Os apaixonados sempre so 
impulsivos.
- V logo - aconselhou. No agento ver a sua ansiedade.
         - , eu vou, no d mais para esperar.
      Corao aos saltos, tocou a sineta em casa de Luciana. Foi a moa quem abriu e vendo-o, seu rosto distendeu-se em alegre sorriso.
      - Voc! - disse. Que bom v-lo! Entre.
Na sala, ele desculpou-se:
         - Desculpe ter vindo to cedo. No  de bom-tom.
         - Aconteceu alguma coisa? Margarida est bem ?
         - Est. No aconteceu nada... isto , eu...
Egle apareceu na sala abraando-o com carinho:
         - Bom dia. Tudo bem?
      - Sim. - disse ele tomando coragem. - Vim aqui porque no agentava mais esperar. Preciso falar com Luciana.
         - Nesse caso, sente-se, fique  vontade. Vou cuidar do caf na cozinha.
      A ss com ela, Jos Antnio aproximou-se e tomando a mo de Luciana levou-a aos lbios beijando-a vrias vezes, depois, puxando-a para si, abraou-a, beijando-a 
nos lbios repetidas vezes.
      Sentindo-se correspondido, no ocultou seu entusiasmo, dizendo-lhe aos ouvidos com voz emocionada:
      - Eu a amo, Luciana! Amo como nunca amei ningum em minha vida! Por favor, diga que me ama!
      Luciana, sentindo grande emoo, respondeu:
      - Sim. Eu tambm o amo! Voc  o meu primeiro e nico amor.
         - Vim para pedir que se case comigo. Quer ser minha esposa?
         - Sim.
         Beijaram-se repetidas vezes. Depois, Luciana puxou o moo, fazendo-o sentar a seu lado no sof.
-        Precisamos conversar. H uma coisa que desejo contar-te.
Jos Antnio empalideceu. Temia a verdade.
      - Ns nos amamos. Seja o que for que houver no passado, no vai mudar esse fato.
      - Voc  generoso. Mas no posso casar com voc omitindo a verdade. Precisa conhecer nosso segredo.
      Corao apertado, Jos Antnio esperou. Luciana contou toda histria de sua me, seu reencontro com o pai e seu relacionamento com a famlia dele. Sentindo-se 
aliviado  medida que ouvia, Jos Antnio no escondia sua alegria. Luciana finalizou:
      -        Devo dizer-lhe que nunca pedi, nem pedirei nada a meu pai. No sou herdeira de seus bens. Temos apenas esta casa. Sou moa pobre e sem nome de famlia, 
o que no  seu caso.
      -        No continue, peo. Eu a amo! Se me quiser, serei o homem mais feliz do mundo. S isso me importa.
      Abraou-a e beijou-a com carinho.
      -        Venha, pediu ela com os olhos brilhantes de alegria. -Vamos contar a vov.
      Egle chorou de alegria. E ali mesmo, sentados ao redor da mesa na cozinha, saboreando seu delicioso caf com bolo, eles fizeram planos para o futuro.
      Em casa de Maria Helena, o ambiente no era o mesmo. Havia uma atmosfera pesada. Joo Henrique mergulhara no trabalho, Maria Lcia voltara a fechar-se no quarto 
do qual encontrava desculpas para no sair, e Maria Helena tentava em vo esconder sua tristeza, procurando ser a mesma de antes, sem ter a espontaneidade e o mesmo 
brilho.
      Entristecido, Jos Luiz no encontrava mais em casa o aconchego e a satisfao de antes. O que teria acontecido? Algo havia mudado, mas o que? Inconformado, 
tentou falar com a esposa. Ela porm negou que houvesse algo:
      -        As coisas mudaram por aqui. Maria Lcia no toca mais, voc anda quieta, sem entusiasmo. Joo Henrique mal pra em casa.
     -         impresso sua. Tudo est como sempre foi.
Jos Luiz abraou-a com carinho:
           - No quero que seja como antigamente. Quero que seja como alguns meses atrs. O que houve, no me ama mais?
     -        Amo - a voz dela tremia. - Amo a cada dia mais!
Jos Luiz satisfeito, beijou-a com ardor.
     -        Gosto de voc ardente, apaixonada.  assim que me faz esquecer todas as tristezas.
       - Por que nunca fala delas?
       -        Para qu? So coisas sem remdio. Prefiro esquecer, mergulhar em seus braos, viver!
       -         verdade o que me diz? Ainda quer o meu amor?
       -        Claro! O que a faz pensar o Contrrio?
       -        Nada. s vezes penso que voc preferia estar em outros braos.
       Ele apertou-a de encontro ao peito.
       -        No existe nenhuma mulher no mundo que eu desejo mais do que voc. Por que duvida?
       -        No sei. Mas, se voc me quer, vivamos esse momento de felicidade.
       Maria Helena beijou-o apaixonadamente. Depois desse dia, ela resolveu reagir ao cime e a dor que a atormentava. Se queria preservar a famlia e o casamento, 
precisava tornar o lar alegre e acolhedor.
       Procurou unir mais a famlia, tentou conversar com a filha. Maria Lcia esperava a visita de Ulisses com redobrada ansiedade. Porm, ele nunca mais a procurara. 
Jarbas, ao contrrio, tentara de todas as formas alegr-la, enviando-lhe flores, convidando-a a passeios, sem xito. Quando ela aceitava falar com ele, era para 
saber notcias de Ulisses, e o moo delicadamente desviava o assunto.
       -         cimes, - pensava ela com raiva. As raras vezes em que ele aparecera ao lado de Joo Henrique, evitara falar-lhe a ss, e a moa, triste, no entendia 
sua atitude depois do que lhe dissera.
       Maria Helena foi encontr-la fechada no quarto. Bateu chamando-a e quando ela abriu, percebeu o quanto ela mudara. No se arrumava mais, e ela observou que 
Maria Lcia assemelhava-se ao que era antes, descuidada e triste. Fingiu no perceber e foi dizendo:
       - Maria Lcia, esta casa anda triste e sem vida. Sinto que  hora de mudar. Por isso, amanh  noite, teremos um sarau. Desejo que toque tambm.
         A moa abanou a cabea:        
      -        No quero. Voc pode tocar, eu nem sei mais como se faz isso.
       - Eu toco clssico, mas voc conhece as canes em voga. Joo Henrique e seus amigos vo apreciar. Pensei convidar os Medeiros, os Cardosos, e at os Souzas. 
Todos eles tm filhos na sua idade e de Joo Henrique. Vamos alegrar nossa casa.
       - Voc nunca foi disso. Por que agora?
       - Vamos ajudar Joo Henrique - mentiu ela. - Ele anda triste. Acho que ainda no esqueceu aquela cantora. Gostaria que ele encontrasse alguma moa e se apaixonasse. 
Preciso da sua ajuda.
       - Isso no vai dar certo.
       - Tente pelo menos. No sente vontade de danar? Voc gostava tanto!
       - Bobagem. J passou. Eu gosto mesmo  de sossego.
       - Ento vamos fazer o sarau?
       Ela deu de ombros.
       - Tudo bem - disse por fim.
       - Quando Joo Henrique chegar, falaremos com ele hoje ao jantar. Voc me ajuda?
       - Fale voc mesmo. No tenho jeito para isso.
       Maria Helena fingiu no perceber o ar desanimado da filha.
       - No se atrase para o jantar.
       Maria Lcia no respondeu. Quando a me se foi, fechou a porta e voltou a sentar-se no cho, encostando na cama. No tinha vontade de festa. Para qu? Ela 
era uma moa feia, sem graa. Certamente Ulisses encontrara algum mais interessante e a esquecera. Ela no passava de uma boba, desajeitada, feia, quem iria apaixonar-se?
       Lembrou-se de Jarbas. Ele a cortejava! Mas, Jarbas era um moo bondoso, delicado, com certeza sentia pena, vendo-a to desprezada.
       Sua me que tocasse no sarau. Ela no se prestaria mais a isso. Pensou em Luciana. Mentirosa! Como pudera crer em suas palavras? Enquanto a enganava, buscava 
os braos de seu pai. Que horror!
       O        mundo no era um lugar confivel. As pessoas eram ms, sem carter. Seu prprio pai no hesitara em trazer a. prpria amante dentro de casa. E se 
Ulisses casasse com ela e fizesse o mesmo, como se sentiria?
      Um suor frio passou pelo seu corpo. Pela primeira vez sentiu pena de sua me. Ela, to segura de si, to cheia de regras, com tanta classe, tocando com maestria, 
fora to desvalorizada! De que lhe adiantara tanto esforo, tanta cultura? Isso no lhe dera felicidade. Percebia o esforo que ela sempre fizera para ocultar o 
amor que sentia. A vida inteira notara sua emoo dissimulada quando o pai aparecia, seu autocontrole. E agora, depois de tudo, o pior. Aquela paixo louca por uma 
jovem. Sim, porque s uma louca paixo poderia explicar o que ele fizera.
       Maria Lcia suspirou desalentada. Viver no era bom. No se sentia com coragem de dissimular convivendo socialmente com as pessoas, guardando a amargura e 
a tristeza no corao. Ulisses a esquecera!
       Ficou ali, remoendo seu desencanto, sem perceber o tempo passar. S saiu dessa apatia quando a criada bateu na porta insistentemente.
       Levantou-se contrariada e a abriu.
       - D. Maria Helena pede para senhorinha descer. Esto todos  mesa para o jantar.
       Maria Lcia fechou a porta irritada e no respondeu. No sentia fome, nem vontade de ver o resto da famlia. Quando a criada tornou a chamar, minutos depois, 
resolveu ir. Desceu e mal respondeu aos cumprimentos dos pais e do irmo.
       Maria Helena notou com desgosto que ela no mudara de roupa nem penteara os cabelos. Apesar de irritada, no disse nada. Estava disposta a melhorar o ambiente 
do lar. A filha estava abalada com o que acontecera. Era jovem, logo esqueceria. Tentou animar o ambiente, mantendo uma conversao agradvel.
       Jos Luiz, interessado em cooperar, procurou conversar alegremente. Joo Henrique animou-se. Falou de seus projetos, do saneamento que planejava propor ao 
municpio, da melhoria do nvel da cidade.
       Maria Lcia, calada, ouvia sem interessar-se. Maria Helena falou do sarau. Exps suas idias ao que Joo Henrique respondeu:
       - Faa como quiser. Eu no disponho de tempo para saraus. At perdi o gosto por eles. Falta gente inteligente, interessante, culta, nesse Rio de Janeiro.
      - No diga isso, meu filho - rebateu Maria Helena. -Conheo muita gente interessante para convidar. Pessoas de minhas relaes das quais nos afastamos com 
o tempo, mas que so excelentes. Tm filhos jovens, como vocs. Desejo renovar nossas relaes. Alegrar nossa casa!
      - Como quiser, mame.
      - Voc se encarrega de convidar Ulisses e Jarbas. Os outros eu mesma o farei.
      Ouvindo o nome de Ulisses, Maria Lcia interessou-se.
      - Farei isso. Jarbas vir com certeza. Ulisses no sei. Anda apaixonado.
      - Verdade? Quem  ela?
      - A filha mais jovem dos Albuquerques. Alm de linda  muito rica. Estudou na Europa. Ulisses est fascinado. J fez o pedido. Deseja casar-se com ela a qualquer 
custo.
      Maria Lcia sentiu que o ar lhe faltava. Empalideceu.
      - O que foi? - perguntou Jos Luiz. - No se sente bem?
      - Estou com dor de estmago.
      - No comeu nada - disse Maria Helena.
      - No estou com fome.
      Bebeu um copo de gua. Esforou-se para acalmar-se. Desejava saber mais. Ulisses ia casar-se! Divertira-se com ela! Nunca a amara!
      Jos Luiz lanou-lhe um olhar preocupado. Percebia claramente como a filha modificara-se. Falaria a Maria Helena. O afastamento de Luciana no a beneficiara. 
Ao contrrio.
      Maria Helena vendo que Maria Lcia estava mais corada, tentou retomar o assunto:
      - Nesse caso, convidaremos a moa tambm. Sempre nos relacionamos bem com os Albuquerques. Conheo Marianinha desde criana.
      - Est certo, mame. Se ela vier, ele vir com certeza.
      - Esto noivos?
      - Ainda no. Ele pediu, mas ela ainda no se decidiu.
      - Aceitar certamente. Ulisses  um belo rapaz, de muito boa famlia.
      - Nessas coisas do corao,  difcil prever.
      - E voc, no encontrou ningum?
      O        rosto de Joo Henrique contraiu-se.
        - No, me. No desejo entrar no rol dos imbecis. Amor, nunca mais.
       -        Voc est muito amargo - disse Jos Luiz. - No  fcil esquecer uma desiluso de amor, mas o tempo  santo remdio. Um dia, quando menos esperar, 
acontecer novamente. A vida  cheia de surpresas.
       Maria Helena empalideceu e tentou controlar-se. Ele por certo falava dos seus sentimentos por Luciana. Joo Henrique franziu o cenho:
       -        No comigo.
       Vencendo a mgoa, Maria Helena considerou:
       -        Algum dia, dever se casar. Constituir famlia. No  bom viver s a vida inteira.
       -        Quando eu achar que devo, escolherei para casar uma mulher honesta, de boa famlia, rica, educada e viveremos em paz. A amizade  um belo sentimento. 
Amor, nunca mais.
       -        Um casamento sem amor no o far feliz - disse Jos Luiz, pensativo.
       -        Engana-se, meu pai. Um relacionamento sem amor ser calmo, sem dor.
       -        Voc  jovem e ainda no esqueceu a desiluso. O amor  a melhor coisa da vida. Quando o encontramos, precisamos segur-lo para sempre. O que voc 
sentiu, talvez fosse s paixo, no amor. H muita diferena entre uma coisa e outra.
       -        J decidi. Sei o que quero. No momento, desejo dedicar-me totalmente ao projeto. Estou entusiasmado.
       -         muito bonito de sua parte. Sei o quanto ama nossa cidade, nossa gente. Vamos dar tempo ao tempo.
       Maria Lcia sequer ouvia. Que loucura pensar que um moo como Ulisses pudesse gostar dela! Agora sabia. Nem ele, nem ningum jamais a amaria. Ela era feia, 
sem graa e desajeitada. Deu graas a Deus quando o jantar terminou e ia subir para o quarto quando Maria Helena sugeriu:
       -        Hoje estamos juntos, que tal um pouco de msica? Maria Lcia, gostaramos de ouvi-la. Quer tocar para ns?
       O        rosto da moa coloriu-se de intenso rubor, e Maria Helena sentiu um aperto no corao.
       -        No posso, mame. No me Sinto bem - balbuciou ela. -Quero ir para o quarto.
       - Voc est de novo fechada no quarto. Uma moa! Vamos l, toque para ns.
       Maria Lcia apertou os lbios trmulos e seus olhos encheram-se de lgrimas. Jos Luiz interveio:
       - Deixe-a. Se ela no est bem, fica para Outro dia.
       -  melhor, me, - concordou Joo Henrique. - Eu preciso mesmo trabalhar no projeto.
       - Quando os dois se recolheram, Jos Luiz voltou ao assunto:
       - Maria Lcia piorou! Ela estava to bem!
       - No sei a que vem essa atitude dela.
       - Parece infeliz! Ter acontecido alguma coisa que a tenha desgostado?
       - No aconteceu nada.
       - Talvez sinta falta de Luciana. Separ-las no foi uma boa idia.
       - Ela no pode viver dependente de Luciana a vida toda Precisa aprender a viver sozinha.
       - Temo que no consiga. Seria melhor pedir a Luciana que volte.
       - Nunca! Sei cuidar bem de minha filha e no preciso de ningum entre ns.
       - Terei ouvido bem? Estar com cimes de Luciana? Pensa que Maria Lcia poder gostar mais dela do que de voc?
       Maria Helena irritou-se.
       Isso j passou. Agora no sinto mais cimes de ningum. S penso que eu posso resolver esse assunto.
       - Sei que  inteligente e tem todo o direito como me de tomar certas atitudes. s vezes, chego a pensar que tem alguma coisa contra Luciana. Se no  cime, 
o que ?
       -        Nada - mentiu ela. - S penso que posso cuidar de minha famlia sem a interferncia de estranhos.
       -        Luciana no  uma estranha.  uma amiga dedicada. Sempre pensei que a apreciasse.
       -        Isso no vem ao caso. O que eu quero  cuidar da minha famlia do meu jeito. S isso.
       Jos Luiz olhou-a e no respondeu. Comeava a desconfiar que alguma coisa acontecera e Luciana tinha razo ao pensar isso.
          Teria Maria Helena descoberto a verdade? Saberia que Luciana era sua filha?
       Vrias vezes pensara em abrir-se com ela, agora que haviam se entendido. Mas, sabia-a formal e preconceituosa em alguns aspectos. Temia que ela, conhecendo 
a verdade, se recusasse a conviver com Luciana.
       Agora, comeava a pensar que talvez ela j houvesse descoberto tudo. Seria isso? Teve vontade de perguntar, esclarecer. Hesitou. Logo agora que estavam vivendo 
melhor, dizer-lhe que a desposara por dinheiro e posio e conservara o amor de outra no corao todos aqueles anos, no seria fcil. Poderia arruinar definitivamente 
seu casamento.
       Isso ele no queria. Descobrira que a amava e desejava estar com ela. O amor de Suzane transformara-se em linda recordao da juventude, apenas isso. Um sonho 
romntico que ele havia acalentado inutilmente e que o impedira de ser feliz com a mulher com quem se casara por livre opo e com a qual se dispusera a viver toda 
sua vida.
       Jos Luiz tinha sede de viver, de ser feliz. A felicidade estava ali, com Maria Helena que estava viva, de carne e osso, que o amava com paixo a ponto de 
despertar nele sentimentos novos, de alegria e de ternura. Queria aproveitar todos os minutos dessa felicidade, beber da fonte da vida a todo instante. Vivera anos 
de solido isolado em um sonho impossvel. Perdera tempo demais. Agora, compreendera que a realidade podia ser melhor do que o sonho e sentia-se inebriado. A solido 
acabara. Amava os filhos, comeava a compreend-los. Dizer a verdade agora, no seria atirar fora tudo isso? Maria Helena era mulher orgulhosa.
       Por outro lado, e se ela j soubesse o seu segredo? Sua atitude com Luciana era injustificada. A no ser que...
       Luciana dissera-lhe que Maria Lcia ainda no estava preparada para seguir por si mesma. E a prova disso era que a filha regredia a olhos vistos. Ao jantar, 
parecera-lhe v-la igual aos velhos tempos. O que fazer?
Iria procurar Luciana para conversar. Talvez D. Egle o aconselhasse como proceder. Gostava dela, apreciava sua dignidade, seu equilbrio. No insistiu com a esposa. 
Resolveu contemporizar. Pediu-lhe que tocasse, o que ela fez de bom grado. Nutria esperanas de que ele esquecesse Luciana. s vezes perguntava se ele continuava 
se relacionando com ela. Sentia-se tentada a voltar l, s escondidas, saber se eles ainda estavam juntos. Contudo, no ousava. Se presenciasse a mesma cena de antes, 
o que faria? Teria foras para separar-se dele definitivamente?
       No. Isso no. Havia os filhos, a sociedade e seu amor por ele. Apesar de tudo, queria estar a seu lado.
       Jos Luiz notou seu nervosismo, sua palidez.
       Preocupado, na tarde do dia seguinte, dirigiu-se  casa de Luciana. Recebido com carinho, confidenciou sua tristeza, suas desconfianas.
       As duas o ouviram atentamente. Ao final, Luciana considerou:
       -        Eu sabia que havia algo. A mudana de D. Maria Helena conosco foi visvel. Ter mesmo descoberto a verdade?
       -        Pode ser - considerou Egle, pensativa. - Conversei muito com Maria Helena, em vrias oportunidades. Ela  formal, educada com rigor, exigente quanto 
a amizades, mas, por outro lado, demonstrou que apreciava Luciana, que a estimava sinceramente, a ponto de aceitar suas opinies e seu relacionamento ntimo com 
a famlia. No creio que apenas esse preconceito, por um deslize anterior a seu casamento, pudesse modific-la tanto. Ela possui agudo senso de justia.  uma verdadeira 
dama. Sua classe  inata. Para proceder assim, deve ter havido algo pior. Algo que nos rebaixe a seus olhos, fazendo-a desejar afastar-nos do seu convvio.
       -        Isso no pode ser, vov. No aconteceu nada que pudesse dar margem a nenhum mal-entendido. A ltima vez que estive l, nosso relacionamento foi o 
de sempre.
       Jos Luiz suspirou e disse:
       -        No sei o que foi, mas algo realmente aconteceu. No sei que atitude tomar.
       -        Se eu pudesse sugerir algo, diria que a verdade sempre ser adequada. Talvez tenha chegado a hora de abrir seu corao e dizer-lhe tudo.
       -        J pensei nisso. Porm, temo no ser compreendido, O que tenho a dizer-lhe no  nada lisonjeiro para mim. Receio que ela no me perdoe. Logo agora... 
- parou indeciso.
       -        Que voc descobriu que a ama! - completou Luciana com os olhos brilhantes.
      Ele baixou a cabea envergonhado. Egle levantou-se e abraou-o comovida:
      -        At que enfim! Eu sempre soube que voc a amava. Ela  uma mulher forte, com encantos demais, muito ligada a voc, para que sasse ileso desse relacionamento. 
Se no estivesse preso por um sonho de amor impossvel, teria percebido h mais tempo.
      -        Ainda amo Suzane!
      -        Eu sei - concordou Luciana - mas Maria Helena est aqui, e voc a ama tambm. Fico feliz por vocs. O amor  a grande fora da vida.
      -         verdade. Voc tinha razo quando disse que a vida me deu uma famlia maravilhosa e que era um homem feliz. Eu sou! Sei que amo meus filhos, Maria 
Helena, vocs, Suzane! E esse amor enche meu corao de alegria. No quero perd-la de novo.
      -        No perder. Ver. Tudo vai se esclarecer.
      A sineta da porta soou e Luciana foi abrir. Voltou instantes depois com Jos Antnio. Jos Luiz surpreendeu-se. Conhecia-o e a sua famlia. Cumprimentaram-se.
      - Foi bom encontr-lo aqui, dr. Jos Luiz. Pensava procur-lo um dia destes. Temos um assunto urgente a conversar.
      -        Podemos marcar uma hora em meu escritrio.
      -        O assunto  importante, porm, pessoal. Gostaria de falar agora.
      -        Pois no. Estou s ordens.
      -        Desejo pedir a mo de sua filha Luciana em casamento. Tenho o consentimento dela e a aprovao de D. Egle, mas gostaria de sua autorizao.
      Apanhado de surpresa, Jos Luiz no soube o que dizer. Seus olhos foram do rosto corado de Luciana ao rosto emocionado de Egle.
      - Conhece nossa famlia, pode tomar informaes pessoais se julgar conveniente. Garanto que posso oferecer a Luciana muito amor e boa posio social.
      -        O que me diz, Luciana?
      -        Amo Jos Antnio, pai. Nos compreendemos. Desejo casar-me com ele.
      - Nesse caso, sinto-me honrado em aceitar seu pedido. Quais so os planos?
      -        Sentem-se novamente e, antes dos planos, vamos comemorar. Tenho um vinho especial que abrirei agora. Depois falaremos - props Egle com satisfao.
      Luciana abraou o pai comovida e Jos Antnio tambm. Jos Luiz estava embargado de emoo. Luciana merecia a felicidade. Sua escolha fora acertada. Sentiu-se 
bem ali, no aconchego amoroso daquele lar. E, ao despedir-se uma hora depois, pediu a Luciana:
      - Filha, reze por mim. Pea a sua me que nos ajude. Gostaria que tambm Maria Helena, Maria Lcia e Joo Henrique, pudessem estar conosco e usufruir a felicidade 
que temos aqui.
      A moa beijou-o na face com carinho.
      -        Por certo. Eles so minha famlia tambm. Confio em Deus e sei que a verdade aparecer. Tenho vontade de abraar Maria Helena, de ajud-la. Tudo dar 
certo, ver.
      Quando Jos Luiz saiu, sentia-se mais calmo. Confiava que tudo iria melhorar.
      Sentados na sala, mos enlaadas, Luciana comentou:
      -        Voc foi corajoso. No esperava que fosse formalizar o pedido.
      -        Acha que eu perderia essa oportunidade? Desejo casar o quanto antes. Agora j podemos marcar a data.
      -        Preciso de tempo para comprar o enxoval.
      - Um ms ser mais do que suficiente.
      -         pouco. Pelo menos trs ou quatro.
      -        Vai ser difcil esperar.
      -        O tempo passa rpido.
      Luciana calou-se e baixou a cabea pensativa.
      - O que foi? No est feliz com meu pedido?
      - Claro! Estou muito contente.
      -        Pareceu-me triste. Algo a aborrece?
      -         verdade. Estou to feliz! Gostaria que todos os que amo se sentissem felizes como eu. Gosto de Maria Lcia. Ela  to meiga, to delicada! Estava 
em fase de recuperao. Eu sabia que ela no estava pronta ainda para enfrentar a vida sozinha! Se ao menos eu houvesse tido mais algum tempo!
      - V v-la! Tente alguma coisa. Voc  feiticeira. Consegue maravilhas com as pessoas.
      - D. Maria Helena mudou conosco. No sei o que houve. Mas algo me diz que aconteceu alguma coisa que a afastou de ns. Percebi claramente que ela de repente 
mudou e nos impediu de ver Maria Lcia.
      -        Ser cime? Certas mes so ciumentas dos filhos.
      Luciana abanou a cabea.
      -        No creio. Ela  inteligente. Sempre nos relacionamos muito bem.
      -        Por que no a procura e tenta esclarecer o que houve?
      -        J tentei. Ela no deseja nos ver ou falar. Tem se esquivado.
      -        ... voc pode ter razo. Teria descoberto o segredo do marido? Seu relacionamento com sua me?
      -        Pode ser. Papai teme que isso tenha acontecido. Julga-a preconceituosa.
      -        Por que ele no se entende com ela a respeito?
      -        Tem medo. Maria Lcia no est bem. Gostaria de v
la.
      -        Talvez possamos dar um jeito nisso.
      -        O que pretende fazer?
      -        Deixe comigo! Sabe se o dr. Jos Luiz e O. Maria Helena costumam freqentar saraus?
      -        Sei que freqentam a casa dos Albuquerques, esporadicamente, outros. O que vai fazer?
      -        Falar com Margarida. Ela nos ajudar nisso.
      -        O que est tramando? -
      -        Vamos tentar descobrir alguma coisa. Ela  muito bem relacionada com eles e conhece Maria Helena. Veremos.
      -        Faria isso por mim?
      -        O que eu no faria para v-la feliz?
      Jos Antnio beijou delicadamente a mo que detinha na sua.
      -        Voc me compreende. Eu o amo muito - disse Luciana com suavidade. - Sei de uma pessoa que poderia nos ajudar.
      - Quem?
      -        Jarbas. Um rapaz amigo de Joo Henrique.  tima pessoa, e alm de tudo, sei que est apaixonado por Maria Lcia. Faria tudo para ajud-la.
       -         uma boa idia. Convide-o a vir aqui e falaremos com ele.
       -        Como no pensei nisso antes? Certamente ser um precioso aliado. Hoje mesmo entrarei em contato com ele.
       Naquela mesma tarde, Luciana enviou um portador  casa de Jarbas convidando-o ao ch na tarde do dia seguinte. Jarbas nunca havia ido  casa de Luciana, mas 
aceitou o convite de bom grado. Nunca pudera entender a causa do afastamento da moa. Apreciava-a e percebia o quanto ela havia ajudado Maria Lcia.
       Chegou pontualmente s 17:30. Jos Antnio o esperava na sala com os demais. Cumprimentaram-se. Falaram do prximo casamento de Luciana e depois, como no 
podia deixar de ser, sobre o que os preocupava.
       Infelizmente Jarbas no sabia nada sobre o assunto. Contudo esclareceu:
       -        Concordo que deve ter havido algo. Notei que D. Maria Helena, naqueles dias, andava adoentada, abatida. E as poucas vezes que referiu-se a voc, 
foi com mgoa, amargura, eu diria at com raiva. Mas com Maria Lcia, foi pior. Ela estava muito amargurada. Quando perguntei por voc, disse que nunca mais queria 
v-la. Que voc no era sua amiga. Era fingida, mentirosa.
       -        Ela disse isso? - perguntou Luciana dolorosamente surpreendida. - No pode ser! Ns nunca tivemos a mais ligeira briga!
       -        Posso ser sincero? No vai ofender-se?
       -        Claro que pode. Por favor, fale.
       -        No sei se devo... no quero criar problemas. Talvez esteja sendo ousado...
       -        Fale logo. No v que estou angustiada? Seja franco. O que percebeu?
       -        Voc sabe que gosto dela. Eu diria mesmo que a amo. Aquele seu ar ingnuo, seu sorriso lindo, seu rubor, tudo me encanta. Se ela me quisesse, eu 
seria o homem mais feliz do mundo. No entanto, ela no me quer, gosta do Ulisses e ele...
       -        Fale - insisti... Luciana.
       -        Ele estava gostando de voc. Ele mesmo me disse. Estava apaixonado por voc. Maria Lcia sentia cimes.
       -        Sei disso. Eu mesma tentei mostrar-lhe o quanto estava enganada, Ulisses no ama ningum e no merece que ela goste dele.
       -        Sou suspeito para opinar. Eu gosto dela, e ele  meu amigo. Porm, reconheo que ele no  digno de confiana.
      -        No  mesmo.
      -        s vezes, penso que isso tudo tem o dedo dele. Surpreendi-o falando de voc com raiva para Maria Lcia.
      -        Verdade?
      -        Ele tinha srios motivos para ter raiva de voc --considerou Jos Antnio. -- Foi escorraado.
Jarbas surpreendeu-se:
      -         mesmo? Nunca me contou isso.
      -        Pois foi graas a ele que nos conhecemos. De algum modo devemos-lhe isso.
Depois de conhecer o episdio, Jarbas concluiu:
      -        Ento foi ele! Aprontou alguma coisa. Conheo-o.  extremamente vingativo.
      -        O que teria feito? - indagou Egle, preocupada.
      -        Tentarei descobrir atravs de Maria Lcia. Anda arredia de novo. Tenho ido l com Joo Henrique, mas est sempre trancada no quarto.
      -        Pobre Maria Lcia -- lamentou Luciana. -- O que lhe tero feito?
      -        Hei de descobrir.
      -        Contamos com voc para nos ajudar, -- disse Luciana --ns a amamos muito, ela merece a felicidade.
      -        Por certo. Farei o que puder. Tentarei aproximar-me dela. Veremos.
      -        Obrigada, Jarbas. Sabia que nos ajudaria.
      -        Desejo que ela seja feliz ainda que no seja comigo. Gosto de v-la rir, tocar, adoro seu jeito manso de falar mais com os olhos do que com os lbios. 
Farei tudo para devolver-lhe a alegria.
      -        Vamos ao ch - sugeriu Egle. - Os bolinhos vo esfriar.
       A partir daquele dia, Jarbas procurou pretextos para ver Maria Lcia. Aproximou-se mais de Joo Henrique, o que lhe foi fcil. Admirava o amigo e aprovava 
seus projetos. Interessava-se muito por eles e vrias vezes oferecera-se para cooperar. Estudaram juntos, formaram-se na mesma profisso, eram amigos. Desde o principio, 
tivera inteno de juntar-se a ele em seus projetos de sanidade e melhoria da qualidade de vida da populao.
       Contudo, vendo-se preterido por Maria Lcia, resolvera afastar-se para tentar esquec-la. Arrependia-se disso. Retomou os antigos interesses com redobrado 
entusiasmo, e Joo Henrique sentindo-se compreendido e apoiado pelo amigo, a cada dia encorajava-se mais. Tornaram-se inseparveis. Jos Luiz aprovava esses projetos 
e estimulava-os a continuar. Por alimentar idias novas em relao a maioria dos engenheiros, Joo Henrique no se adaptava com facilidade em um emprego. Compreendendo 
isso, Jos Luiz cooperou para que os dois moos montassem seu prprio escritrio, oferecendo-lhes emprstimo que pagariam quando pudessem.
          Entusiasmados, os dois no se largavam. Essa situao permitiu que Jarbas estivesse constantemente em casa de Maria Lcia. Ela continuava arredia. Havia 
duas semanas que estivera com Luciana e ainda no conseguira falar-lhe.
          Interessada nos projetos do filho, Maria Helena convidou-o a almoar no domingo e Jarbas exultou. Certamente veria Maria Lcia.
          Foi com tristeza que constatou o quanto a moa havia mudado. Aptica, apagada, calada, indiferente, sequer parecia a garota pela qual ele se apaixonara. 
Tinha a certeza de que acontecera alguma coisa, mas o que? Estava disposto a descobrir.
          Aps o almoo, antes que Maria Lcia se afastasse, aproximou-se dela.
          - Como vai, Maria Lcia3
          - Bem.
          - Gostaria de dar uma volta pelo jardim com voc. Precisamos conversar.
          - Sobre o que?
          - Sobre muitas coisas. Faz tempo que no nos vemos. Tenho novidades para contar.
       -        Desculpe, mas vou para o meu quarto.
       Ele segurou-a pelo brao.
       -        No vai no. Desta vez no a deixarei escapar.
       -        Largue o meu brao.
       -        Ento venha comigo.
       -        Minha me est olhando.
       -        No quer que ela intervenha, quer?
       Ela sacudiu os ombros:
       -        No me importa - disse desafiadora.
       -        Pois a mim, sim. Vou falar com voc hoje de qualquer forma. Estou decidido.
       Maria Lcia olhou-o curiosa. Jarbas sempre to delicado, agora parecia-lhe diferente. O que teria acontecido?
       -        Est bem - disse - vamos ao jardim.
       -        Assim  melhor.
       Foram andando em silncio at que Jarbas parou:
       -        Sentemo-nos aqui.
       Ela obedeceu.
       -        O que quer? - perguntou.
       -        Falar com voc. Esclarecer algumas coisas que no esto bem.
       Maria Lcia no respondeu, ele continuou.
       -        Eu a amo, Maria Lcia. Ouviu? Eu estou apaixonado por voc!
       Ela olhou-o assustada:
       -        Por que me olha assim? Sempre demonstrei meu amor.  verdade que voc nunca me encorajou. E ao dizer-lhe isto, no espero que me corresponda. S 
quero deixar claro que a amo de todo o corao e s desejo a sua felicidade. Se eu a visse feliz, alegre, como era antes, nunca lhe falaria dos meus sentimentos. 
Mas, vendo-a triste e s, destruindo a sua juventude, no me conformo em cruzar os braos. Eu a amo tanto, que a sua felicidade  a coisa mais importante para mim, 
mesmo que voc nunca venha a gostar de mim.
       Havia tanta firmeza, tanta emoo nas palavras de Jarbas, tanto sentimento em seus olhos que Maria Lcia no resistiu. Desabou a chorar. Um pranto dorido, 
refletindo tanta dor que Jarbas a abraou emocionado. Com a cabea encostada em seu peito, ela no conseguia reter o pranto.
          - Chore, - disse Jarbas - alivie seu corao. Lave sua
      Movido por um forte sentimento afetivo, ele alisou-lhe os cabelos carinhosamente. Depois de alguns minutos, ela parou de chorar e tentou se recompor.
      - Desculpe - disse. - No esperava ouvir o que me disse.
      -        Sente-se melhor?
      -        Tentei me conter. Desculpe.
      -        Por que se justifica? Todos ns precisamos desabafar de vez em quando. Sente-se melhor?
      -        Sim.
      -        Agora, conte-me tudo.
      -        Contar o que? No h nada para contar.
      -        No minta. Sei que aconteceu alguma coisa muito forte que a fez muito infeliz. O que foi?
      -        Bobagem. No houve nada.
      -        Hoje eu lhe abri meu corao. Dei-lhe a maior prova de confiana que um homem pode dar. Mesmo sabendo que no me ama, disse-lhe a verdade. Por que 
no confia em mim?
      -        As pessoas mentem com facilidade. Voc diz que me ama, eu no acredito.
      -        Por qu?
      -        Porque no sou bonita, atraente.
      -        Acha que menti?
      -        No  isso. Penso que est enganado. O que sente por mim  pena. Eu no preciso da piedade de ningum.
      -        Voc s enxerga o que quer ver. Quem se engana voc.
      Os dois ficaram calados alguns minutos. De repente, Jarbas num gesto rpido, tirou o pente que prendia os cabelos dela e os mesmo se soltaram.
      -        Por que fez isso?
      -        Porque seus cabelos so lindos e eu adoro v-los soltos.
      Antes que ela pudesse replicar, ele abraou-a beijando-lhe os lbios ardentemente.
      - Eu a amo, entendeu? Eu quero voc! Ser que no sente nada?
      Ruborizada, Maria Lcia sentia o corao bater forte e a respirao difcil. A surpresa a emudeceu. Ele esforou-se para conter-se. Permaneceu em silncio 
novamente.
      -        No deveria ter feito isso!
      -        Voc est viva!  uma mulher. Queria que sentisse isso. Por que teima em se destruir? Que prazer encontra em se depreciar? Senti que voc gostou. 
Por que no confessa isso?
      -        Sinto-me confusa.
      -        No quis confundi-la. Eu tambm perdi a cabea.
      Novamente o silncio.
      -        Estive com Luciana.
      Silncio.
      -        No quer saber como ela est?
      -        No.
      -        Ela quer ver voc. Sente saudades.
      -         mentira. No quero ver aquela traidora nunca mais.
      -        O que foi que ela fez?
      - No quero falar nisso. Ela nunca foi minha amiga.
      -        No  verdade. Ela se preocupa com o seu bem-estar. Sofre por no poder v-la. No sabe o que aconteceu.
      -        Mudemos de assunto, por favor.
      -        Ela vai se casar.
      -        Casar?
      -        Sim. Ficou noiva do dr. Jos Antnio Fontes. Voc o conhece?
      -        Irmo de Margarida Fontes.
      -        Esse mesmo. Eles esto muito felizes. Amam-se muito.
      -        Eu pensei que... que ela nunca se casasse...
      -        Por que no?  uma bela moa. O Ulisses andou apaixonado por ela. Levou um fora to declarado que a odeia por isso.
contou.
          - Ulisses a odeia?
          - Sim. Vou contar-lhe uma histria que o dr. Fontes me
      Jarbas deliberadamente relatou o que sabia. Maria Lcia estava muito surpreendida. Se sua me no houvesse constatado que seu pai a visitava na calada da noite, 
pensaria que Ulisses teria mentido.
      -        Ser mesmo? Ulisses teria sido capaz de tal baixeza?

      - O dr. Fontes  um cavalheiro. No posso duvidar. Alm do mais, foi assim que eles se conheceram. Foi ele quem a socorreu.
      -        Que patife!
      - Eu diria que quando a paixo comanda, nem sempre conseguimos nos dominar.
      - No a tal ponto. Voc no seria capaz disso.
      -        Voc percebeu meus sentimentos, e o meu beijo no a agrediu. Obrigado por me dizer.
      Maria Lcia corou envergonhada.
      -        Voc me confunde.
      -        Digo a verdade. Luciana gosta muito de voc e sofre sua ausncia.
      Maria Lcia abanou a cabea.
      - No acredito. Prefiro no falar sobre ela.
      - Ela gostaria muito de v-la, conversar com voc. Por que no a ouve? Por que no a deixa esclarecer os fatos, se  que h alguma coisa?
      - No. No quero v-la nunca mais. Pea-lhe para deixar-me em paz.
      Jarbas olhou-a com amor. Naqueles instantes, esquecida de sua rigidez, cabelos soltos, rosto corado, olhos brilhantes, ela voltara a ser a moa bonita que 
ele tanto amava.
      - Voc est linda - disse com naturalidade.
      Ela baixou a cabea e Jarbas tomou-lhe a mo com carinho:
      - Prometa que no fugir mais de mim. Se no pode me amar, pelo menos pode ser minha amiga.
      - Tentarei - balbuciou ela.
      - Tenho vindo aqui muitas vezes e nunca a vejo. No me aceita nem como amigo?
      Havia tanto carinho na voz dele que Maria Lcia esboou um sorriso.
      - Adoro seu sorriso! Voc foi feita para sorrir. Se dependesse de mim, estaria sempre assim.
        Levou a mo dela aos lbios com ternura. Maria Lcia no retirou a mo. Sentiu-se bem ao lado dele. Lembrou que Jarbas nunca a magoara. Nem a ela nem a ningum. 
Joo Henrique o respeitava e o fizera seu scio. Poderia confiar nele, em sua amizade? Decepcionada e em meio a solido em que se encontrava, era bom saber que algum 
a amava.
       -        Voc  um amigo - disse ela por fim.
       -        No se fechar no quarto quando eu chegar?
       Ela abanou a cabea negativamente.
       -        No fico no quarto por sua causa. Gosto de pensar.
       Ele passou a mo sobre a testa dela, acariciando-a levemente.
       -        Vive muito s. Ao invs de pensar sozinha, fique comigo. Faa-me companhia. Falaremos, teremos nossos assuntos, nosso segredos. Promete?
       -        Est bem.
       -        Vamos conversar mais um pouco. Est uma tarde to agradvel!
       Com satisfao, Jarbas procurou interess-la em outros assuntos.
       Na sala, Joo Henrique na soleira, vendo os pais sentados conversando, perguntou:
       -        Viram o Jarbas?
       -        Est tentando conversar com Maria Lcia. Graas a ele, ela ainda no se fechou no quarto - disse Maria Helena. - Quer um caf?
       -        Quero.
       Joo Henrique apanhou a xcara que ela lhe ofereceu e sentou-se em uma poltrona.
       -        Tem tido notcias de Luciana? - perguntou ele de repente.
       Jos Luiz olhou-o interessado. Apanhada de surpresa, Maria Helena no conteve o ar de desagrado. Por um instante, empalideceu, mas controlou-se rapidamente.
       -        Por que pergunta? - disse com voz fria.
       -        s vezes me pergunto porque ela nos esqueceu. Parecia to nossa amiga!
       -        Voc a apreciava - disse Jos Luiz.
       -        Claro.  pessoa lcida e equilibrada. Sempre a admirei.
       -        As aparncias enganam! - retrucou Maria Helena, irritada. No podia suportar que seu filho a elogiasse!
       -        Por que diz isso? Luciana sempre me pareceu leal e dedicada.
         - Se fosse assim, no nos teria esquecido - disfarou ela.
  - Mas, ela se foi e no vejo porque agora falarmos nela.
  -  que Jarbas esteve com ela.
          Maria Helena estremeceu.
          - Disse que ela vai se casar.
          - Casar?
      - Sim. Com o dr. Fontes.
      - Irmo de Margarida?
      - Esse mesmo. Conheceram-se, apaixonaram-se e esto noivos. Pretendem casar-se brevemente.
      Maria Helena fixou o marido curiosa. Teriam rompido? Ele pareceu-lhe calmo e satisfeito. Era surpreendente! Seu corao bateu forte. Ento ele no a amava? 
Teria sido apenas uma aventura? Era comum nos homens de meia-idade.
      Jos Luiz observava-a em silncio. A atitude de Maria Helena dava-lhe a certeza de que algo acontecera mesmo, forando-a a afastar-se de Luciana. Saberia a 
verdade?
      Joo Henrique tomou seu caf, colocou a xcara sobre a mesa.
      - Formam um belo par. - disse Jos Luiz. - Sero felizes, por certo.
      Ele disfara - pensou Maria Helena. Mas a satisfao com a qual ele dissera essas palavras intrigava-a. No teria cimes?
      - Pode ser - retrucou Joo Henrique - se durar.
      - Quando h afinidade e amor,  maravilhoso - considerou Jos Luiz. - Voc est ctico.  natural. A desiluso di. Mas, sempre ser melhor do que o engano. 
Para haver felicidade  preciso que ambos desejem a mesma coisa, ainda que sejam duas pessoas diferentes.
      - Tem razo. Quando s um ama, sempre d errado -concluiu ele com amargura.
      - Se est falando de Antonieta, ainda penso que ela o amava tambm.
          Ele fez um gesto brusco.
      - No creio.
          - Amava sim. Tanto que quase abandonou tudo por sua causa.
          - Quase, disse bem. Naquele tempo, eu teria deixado tudo
       -        No sei se isso teria sido melhor ou pior. O que penso que teria acabado cedo ou tarde. O artista tem no palco sua maior paixo. Se ela o abandonasse 
por sua causa se tornaria muito infeliz. Voc no suportaria.
       -        Seja como for, acabou. Ela no representa mais nada para mim. Agora, estou imunizado. Nenhuma mulher vai me fazer sofrer mais.
Jos Luiz balanou a cabea.
       -        Voc diz que a esqueceu, mas conserva o ressentimento no corao. Precisa livrar-se dele.
       -        Est enganado, pai. Compreendo que ela amasse mais o teatro do que a mim. No guardo rancor. Mas no quero passar tudo de novo. Nenhuma mulher me 
far de joguete.
       -        Amar no  isso. Amor acontece.  espontneo e enche nossa vida de alegria, de razo para viver, de plenitude.  um sentimento que, quando recproco, 
nos leva a felicidade. No  uma guerra onde cada um precisa dominar o outro. E para mereclo, h que correr o risco. Como pode encontrar a felicidade sem tentar? 
Fechando o corao aos sentimentos mais importantes da vida?
       -        No sou um romntico como voc. Quando achar oportuno, procuro uma esposa culta, agradvel, bonita, prendada a quem respeite e estime. Por enquanto, 
casamento me d nuseas.
       -        Isso tambm passar. Tudo passa a seu tempo. E, quando acordamos, acabamos por lamentar o tempo perdido.
       -        Voc  um sonhador.
       -        Fui. E por causa disso, desperdicei os melhores anos de minha vida. Agora, penso diferente. A felicidade, ns a fazemos. Sempre est ao alcance da 
mo. ~ s querer.
       -        Voc fala como se ela dependesse de ns!
       -        S depende.
       -        No creio. Somos joguetes do destino. Ningum sabe o dia de amanh.
       - Isso, meu filho,  acreditar que a vida seja desordenada e caprichosa. No  o que podemos perceber olhando a natureza.
      - Vivemos em um mundo misterioso, do qual na realidade sabemos muito pouco. Mas isso, no significa que possamos comand-lo.
      -        Tem razo quanto a isso. Conhecemos muito pouco, e por mais que desejemos domin-lo, manipul-lo, no conseguimos. A vida  incontrolvel! Mas, a 
nossa felicidade no depende de conhecer o mundo ou de domin-lo. Nossa felicidade depende da forma como olhamos a vida, de como aceitamos os nossos limites e do 
bom senso para avaliar o bem que j temos. Escolhemos a forma que desejamos interpretar o que nos acontece e geralmente, pressionados pelas iluses, pelo orgulho, 
nos tornamos cegos aos bens que possumos e desejamos coisas discutveis, sem saber se elas, uma vez conquistadas, nos dariam felicidade. Perdemos muito tempo correndo 
atrs das iluses criadas pela nossa imaginao, e nos esquecemos de desfrutar e viver situaes, momentos reais que nos colocariam em estado de felicidade.
      Maria Helena ouvia-o surpreendida. A que iluses se referia? Seria  sua paixo por Luciana? Joo Henrique deu de ombros:
      -        Voc est falando a mesma coisa que eu. O amor  iluso. O bom senso  que me faz pensar em casar, se eu o fizer algum dia , com a pessoa certa onde 
o amor no aparea, s o respeito e a amizade.
      -        Esses sentimentos so importantes, porm, se no houver o encantamento do amor, perder o sabor. A felicidade  saborosa, precisa satisfazer o corao.
      -        No acredito em amor. O que h  interesse, convenincia, nada mais.
      Jos Luiz sorriu:
      -        Vamos dar tempo ao tempo. A vida guarda surpresas que modificam nossa maneira de ver.
      -        Jarbas est demorando.
      -        Deixe-o com Maria Lcia. Ser bom para ela - pediu Maria Helena.
      -        Ela no anda muito bem.
          - Voc notou.
      -        Est arredia como antigamente. Parece uma ostra dentro da casca - considerou Joo Henrique.
         Maria Helena suspirou:
      - Por isso no quero que chame Jarbas. Est conseguindo entret-la.
      Joo Henrique sorriu levemente:
         - s vezes penso que ele anda interessado nela.
      - ?! - fez Maria Helena. - Seria muito bom se ela correspondesse. Mas ela no me parece o tipo de moa que se apaixone.  muito fria.
      - Eu no diria isso - considerou Jos Luiz - Ela  dissimulada, no fria.
      - Por que acha isso?
         - Tenho-a observado, quando toca, dana ou sorri.
         - Isso era antes. Agora anda diferente.
      - Maria Helena, o que aconteceu? Por que ela mudou tanto? Seria por causa de Luciana?
      Maria Helena estremeceu. Controlou-se para no mostrar emoo. Respondeu com voz fria:
      - No creio. O mal  que Maria Lcia no  igual as outras moas. Nunca fala o que sente. Sempre fechada.
      - No adianta. Ela no me ouve. S responde o necessrio e eu preciso arrancar as palavras. Ela  difcil mesmo.
      - Houve tempo em que ela estava to bem. Parecia to feliz! - considerou ele.
      -  mesmo, papai - aduziu Joo Henrique. - Chegou a tornar-se encantadora. Pensando bem, vocs tm razo. O que mudou? Ela me parece to triste! Como uma sombra 
do que foi. Teria sido alguma desiluso amorosa?
      - No creio - disse Maria Helena - Ela nunca interessou-se por ningum.
      - Nunca se sabe o que vai no corao de uma mulher -disse Jos Luiz.
      - A presena de Luciana fez-lhe bem. Pena que ela nos tenha esquecido.
      - Ainda penso que deveramos procur-la. Convid-la para vir em casa - sugeriu Jos Luiz.
      - Isso no. Nunca hei de correr atrs das pessoas. Se ela esqueceu-se de ns, no a procuraremos.
      Jos Luiz ia retrucar, porm calou-se vendo Jarbas e Maria Lcia aparecerem na soleira. Olhou a filha e percebeu que estava menos tensa. Haveria esperana 
para ela?
      Quando Jarbas saiu, ele estava certo de que algo desagradvel acontecera, afastando Luciana daquela casa.
      A noite, Jarbas relatou a Luciana e Jos Antnio sua conversa com Maria Lcia. Quando acabou, Luciana no se conteve:
      -        Eu sabia que havia algo!
      -        Ela surpreendeu-se muito com a notcia do seu noivado. A princpio chegou a duvidar.
      -        Jarbas, voc  realmente nosso amigo e est se esforando para nos ajudar. Por isso, devo ser honesta com voc e contar-lhe nosso segredo.
      -        Segredo?
      -        Sim. H um segredo em nossas vidas, unindo nossas famlias.
      Enquanto Egle preparava o ch, Luciana sentada no sof,
tendo a mo de Jos Antnio entre as suas, contou a Jarbas a
histria do seu nascimento. O moo ouviu-a com respeito e
admirao e ao final no se conteve:
      -        Ento, vocs so irms!
      -        Somos. Eu aproximei-me dela a pedido do meu pai para ajud-la.
      -        As aulas de msica foram pretexto.
      -        Isso! Sabe como O. Maria Helena  austera. Se soubesse a verdade, jamais me permitiria freqentar-lhe a casa. Depois de tudo que aconteceu, fico me 
perguntando: ter ela descoberto a verdade? Ser esta a razo da sua repulsa por mim?
      Jarbas meneou a cabea pensativo.
      -        No sei. Se ela houvesse descoberto tudo, no seria mais natural que reagisse, falasse com voc, com o dr. Jos Luiz, enfim, procurasse uma explicao?
      -        No creio. O. Maria Helena  sempre muito reservada. Agora, depois do que me contou, s pode ter sido isso. Ela descobriu tudo e me afastou de sua 
casa.
      -        Certo. Suponhamos que isso tenha acontecido. Mas e Maria Lcia, por que estaria contra voc?
      - No sei o que lhe disseram. Ela  muito sensvel e no estava ainda bem o bastante para poder discernir. Sentiu-se enganada e magoada.
      - Tenho uma idia - disse Jos Antnio - na semana que vem, h o sarau dos Albuquerques e D. Maria Helena costuma freqent-lo com o marido. Poderia interessar 
Maria Lcia e acompanh-los?
      - Certamente. Posso tentar. Ela anda muito isolada, mas insistirei. Joo Henrique disse-me que D. Maria Helena aprovou minha proximidade com Maria Lcia. Tenho 
bom pretexto. O que pensa fazer?
      - Minha irm costuma freqentar os Albuquerques. Talvez possamos ir com ela.
      - Eu?
         - Sim, Luciana. Afinal preciso apresent-la aos amigos.
         - Ser embaraoso. D. Maria Helena no vai gostar.
      -  educada. No se atrever a demonstrar isso. Ser uma boa oportunidade para falar com Maria Lcia e tentar desfazer esse mal-entendido.
      - No gostaria de forar uma situao. No quero prejudicar o relacionamento de meu pai com a famlia. Vamos esperar um pouco mais.
      Maria Lcia, depois de despedir-se de Jarbas, foi para o quarto. Sentia-se confusa e emocionada. A confisso dele a sensibilizara, mas principalmente o beijo 
de amor que lhe dera, fazia seu corao bater mais depressa. Nunca ningum a beijara daquela forma. Os beijos de Ulisses haviam sido to excitantes na poca, agora, 
diante da sensao to ardente e nova que sentira, pareciam-lhe frios e distantes.
      Seria ela to sem pudor a ponto de emocionar-se quando um homem a tocava? Ela no amava Jarbas. Por que sentira tanta emoo?
      Sentou-se no cho e encostou-se na beira da cama, tentando encontrar resposta para o que sentia. No conseguia. Quando ele a tomara nos braos e a beijara, 
fora arrebatador. S ao recordar-se, sentia arrepio pelo corpo. Que loucura! E se acontecesse de novo?
      Levou a mo ao peito como para impedir o corao de acelerar suas batidas. Nunca havia sentido isso por Ulisses.
          Estaria enganada? Lembrou-se de Luciana. Amaria o noivo de verdade? Ou estaria fingindo? Continuaria a amar seu pai ou o teria esquecido?
      Desejava saber a verdade. Ulisses! Seria to sem-carter a ponto de forar Luciana? No podia duvidar. Jarbas no mentiria. Fora por causa disso que eles se 
conheceram.
      Sentiu saudades de Luciana. Seria bom conversar com ela, desabafar, conhecer seus sentimentos, saber tudo.
      Seu rosto entristeceu. Isso no era possvel. Ela no era a pessoa que ela gostaria que fosse. Tudo mentira. Interesse, nada mais. A pessoa da qual ela gostava, 
no existia. Tudo iluso. Ela era sozinha e no adiantava querer.
      Pensou em Jarbas e seu corao apressou as batidas. Teve medo. Poderia confiar? No a estaria enganando, como Ulisses ou Luciana? Melhor seria no envolver-se 
com ele. Sentiu-se muito s e sem vontade de lutar. O melhor seria ficar ali, no seu canto, onde nada nem ningum conseguiria mago-la mais.

CAPTULO 19

      Sentado frente sua escrivaninha lavrada, Joo Henrique estudava atentamente o projeto que tinha estendido sobre ela. Urgia termin-lo porqanto dentro de dois 
dias o apresentaria a uma comisso do senado de onde esperava o licitamento para execuo do mesmo.
      Batendo ligeiramente, Ulisses entrou no escritrio. Seu rosto estava transtornado e descomposto. Fitando-o, Joo Henrique no conteve a admirao.
      -        Aconteceu alguma coisa?
      -        Aconteceu - disse ele deixando-se cair na poltrona em frente a escrivaninha.
      -        O que foi? Voc parece aborrecido.
      -        Aborrecido?  pouco. O mundo desabou sobre mim.
      Joo Henrique enrolou o projeto e sentou-se novamente dizendo:
      -        O que houve?
      -        Aquela ingrata! Tudo preparado. Tudo certo. E ela simplesmente disse no. Veio com uma histria de que no ia me fazer feliz, que no era a mulher 
que eu queria, simplesmente me recusou.
      -        Assim sem motivo?
      -        Assim. Depois de tudo, jamais pensei que fizesse isso comigo. Estou desesperado. Ela me paga. No vou deixar assim.
      -        Pretende insistir?
      -        Isso eu j fiz. Tentei por todos os meios. Exigi, implorei, fiz tudo. Ela no voltou atrs.
      Joo Henrique entristeceu-se. Lembrou-se de Antonieta. As mulheres sabiam ser cruis. Penalizado, tentou confortar o amigo.
      - No adianta. Quando no h amor, insistir no ajuda. J passei por isso. Acalme-se. Di, mas passa. O tempo  um santo remdio.
      -        No sou voc. No vou conformar-me. Ela vai ter que me aceitar. Se continuar recusando, me vingarei. Ningum me humilha impunemente. Isso eu garanto.
Havia tanto rancor em sua voz que Joo Henrique assustou-se:
- Calma, homem! No se pode obrigar uma pessoa a nos amar!
      -        Ela era gentil comigo desde o comeo, deu-me no s esperanas como a certeza de que poderamos ser felizes juntos! Eu acreditei. Coloquei todos os 
meus sonhos em suas mos e agora, quando fiz o pedido, ela disse no! O que ela queria era humilhar-me!
      -        De nada adianta revoltar-se. O melhor ser aceitar e tentar esquecer.
      -        Isso no.
      -        Eu consegui. Agora, nem me recordo daquele amor louco. Passou. No cometa nenhuma loucura. Tudo vai passar.
      Joo Henrique tentou inutilmente acalmar o amigo, que por fim saiu nervoso e revoltado. Vendo-o afastar-se, Joo Henrique suspirou sentindo-se aliviado por 
estar imune  paixo. A cada dia mais se convencia de que o amor era armadilha perigosa e intil, na qual jamais voltaria a cair. Ulisses estava nervoso, logo refletiria 
e por certo mudaria de opinio.
      Estudou o projeto que estendeu novamente sobre a mesa e mergulhou no trabalho com interesse.
      Quando Jarbas chegou uma hora depois, encontrou-o ainda trabalhando.
      -        Estou preocupado - disse logo.
      - Com que? - indagou Joo Henrique sem muito interesse.
      -        Com Ulisses.
      Joo Henrique levantou os olhos e respondeu:
      - No  nada. Ele passou por aqui h pouco. A Marianinha recusou-o. Est magoado, mas logo passar. Sei como .
      - Ulisses no  como voc.  muito vingativo. Est planejando uma loucura.
      - Est ameaador, mas logo pensar melhor. Voc vai ver.
      - Agora, quando vinha para c, eu o vi na loja do sargento, comprando um revlver.
      - O qu?
          - Isso mesmo. Ele no me viu.
          - Por que no o abordou?
      - No adianta. Ele no me ouve nunca. Vim cham-lo. Voc tem mais fora sobre ele. Com voc, ele  mais atento. No est planejando boa coisa. Sinto o cheiro 
no ar. Sei que quando ele se enfurece,  um perigo. No raciocina. Depois, parece que as coisas no esto indo bem ultimamente. Ele anda sem dinheiro e est endividado.
      - Ele sempre gastou muito e andou endividado. Mas a herana garante tudo. Ele no precisa preocupar-se.
      Jarbas olhou o amigo indeciso.
      - O que est me escondendo? Quando voc fica com essa cara...
      -  que ultimamente tem chegado ao meu conhecimento certos fatos com relao a Ulisses. Mas, no sei at que ponto so reais.
      - Intrigas sempre as h. O que falam dele agora?
      - Que nunca teve herana nenhuma. Que sempre foi pobre e que essa histria era para iludir as pessoas.
      - O fato de ser pobre no o desmerece.
          - Mas querer enganar os outros, at os amigos, sim.
          - Ele pertence a excelente e tradicional famlia.
      -  verdade. Seja como for, ele  nosso amigo. No podemos deix-lo cometer uma besteira e estragar sua vida.
      Joo Henrique concordou.
      - Tem razo. No momento de crise podemos exagerar. Vamos at sua casa.
      Jarbas concordou e os dois dirigiram-se  casa de Ulisses.
      A tarde estava no fim quando tocaram a campainha. Em bairro calmo e residencial, ele residia com uma tia, irm de sua me, na velha e ampla casa da famlia, 
onde tudo recordava os tempos antigos. Ulisses conservava-a em memria dos pais, dizia ele, mortos em um trgico acidente no mar.
      Informados que Ulisses no voltara para casa, eles conversaram um pouco com a tia, no mencionando sua preocupao.
          A convite dela, resolveram entrar e esperar. A noite cara de todo e Ulisses no voltava.
      Esforando-se por no demonstrar a preocupao, os dois despediram-se e na rua, deram vazo  ansiedade. Onde Ulisses teria ido? O que pretendia fazer? Como 
encontr-lo?
      -        S h um jeito - disse Jarbas. - Irmos ver Marianinha.
      -        Isso no. Eu sequer a conheo!
      -        Eu sim. No muito porque ela  pouco socivel. Mas nossas famlias visitam-se. Seus pais freqentam os Albuquerques. Voc nunca foi aos saraus?
      -        Eu? Claro que no. No tenho tempo para essas futilidades.
      -        Houve tempo em que voc no pensava assim.
      -        E voc viu no que deu. Depois, aquelas pessoas eram diferentes dessas provincianas do Rio de Janeiro.
      -        Isso no importa. O que eu penso  que o Ulisses vai tentar alguma coisa contra Marianinha. Se a arma que ele comprou foi para vingar-se, ele ir 
procur-la!
      -         verdade.
      -        E ns estaremos alerta. Podemos evitar uma tragdia. Ele ficar com raiva, mas mais tarde nos agradecer.
      -        Pensando bem, tem razo.
      Joo Henrique tirou o relgio do bolso do colete dizendo com ar preocupado:
      -        No ser um pouco tarde para um sarau? Depois no estou vestido para isso.
      -        Voc est sempre muito bem vestido. Nosso traje pode no ser o mais elegante, mas no destoar por certo.
      -        Ento vamos l.
      A casa dos Albuquerques estava iluminada, os pesados reposteiros de veludo corridos e as janelas protegidas apenas pelas delicadas e finas cortinas brancas 
de voil, deixavam passar a luz atravs das vidraas e mostravam os vultos das pessoas movimentando-se em seus sales.
      Joo Henrique suspirou entediado, e Jarbas tentando disfarar o riso, vendo-o constrangimento, tocou a sineta. Um criado abriu imediatamente e Jarbas foi dizendo:
      - Doutor Jarbas Junqueira Silva e doutor Joo Henrique Camargo.
      O criado inclinou a cabea:
      - Queiram entrar por favor.
      Os dois o acompanharam. Quando entraram no vasto salo, houve um movimento de curiosidade. Embora sempre muito requisitado, Joo Henrique nunca comparecia 
s reunies familiares. Sua presena despertou logo um zunzum inusitado. Imediatamente, D. Prola apressou-se em receb-los. Enquanto os dois beijavam-lhe a mo 
com galanteria, ela foi dizendo:
      -  uma honra receb-los em minha casa. Sejam bem-vindos.
      Enquanto conversavam trivialmente com a dona da casa e o coronel Albuquerque, seu marido, eles disfaradamente procuravam o Ulisses entre os convidados. Felizmente 
ele no estava. Teria desistido?
      Prola, mulher requintada e fina, cumulou-os de gentilezas apresentando-os s pessoas com delicadeza. Bonita , alta, elegante, sabia receber com maestria, 
e Joo Henrique entendeu porque Maria Helena lhe freqentava a casa.
      Apresentado a Marianinha, Joo Henrique no conteve um pensamento de rancor. Cumprimentou-a educadamente, porm com frieza. Vendo-a ereta, elegante, muito 
bem vestida, os negros cabelos curtos muito bem penteados, o vestido curto ousado deixando  mostra suas pernas bem torneadas e principalmente seus olhos grandes 
e negros, a boca altiva e carnuda, bonita e dona de si, olhando-o com indiferena, sentiu raiva. Por causa dela, Ulisses estava disposto a destruir sua vida, e ela 
no parecia se importar. Destrura os sentimentos dele, e no se importava. Permanecia indiferente e fria, altiva e intocvel, como uma deusa.
      Irritado, disse disfaradamente a Jarbas:
      - Ele no est. Vamos sair daqui.
      - No agora. No seria elegante. Depois, e se ele aparecer? Pode estar esperando acabar o sarau.
A parte musical havia parado para dar tempo a que os homens fossem rumar e conversar seus assuntos, e as mulheres, por sua vez, fizessem o mesmo, tomando licor e 
saboreando a rica mesa da sala de jantar. Os jovens, em sua maioria, preferiam os jogos de salo e ruidosamente entretinham-se em outra sala.
       -        Aceitaria um clice de vinho, licor ou refresco? -insistiu gentilmente D. Prola, chamando delicadamente o criado para servir. Vendo-os com um copo 
de vinho nas mos, ela completou: - Estejam a gosto. Se preferirem, podero passar a outra sala. Creio que conhecem quase todas as pessoas presentes. Pena no haverem 
chegado a tempo de ouvirem o recital. Esteve belssimo. Apesar disso, sentimos a ausncia de Maria Helena. Ela sempre nos delicia com sua execuo.
       - Mame toca bem.
       - Toca bem? Ela  magistral! Sempre muito aplaudida.
       Prola afastou-se e os dois rapazes juntaram-se a alguns conhecidos conversando. Joo Henrique era muito conceituado socialmente. As pessoas mais velhas apreciavam 
ouvi-lo e o procuravam para conversar.
       Jarbas deixou-o na companhia de vrias pessoas e dirigiu-se ao jardim. Vira Marianinha e decidiu abord-la.
       - Marianinha - chamou. Ela voltou-se e esperou. Ele Continuou: - Preciso conversar com voc.
       Lado a lado foram andando, e o moo tocou no assunto que o preocupava.
       - Tem visto Ulisses?
       - Por que pergunta?
       Porque ele a ama e parece que voc no o aceitou.  verdade?
       - . Ulisses  um moo bonito, de boa famlia, mas eu no o quero para marido.
       - No gosta dele?
       -        Ele  interessante, atencioso, tem me cercado de gentilezas, mas para casar  preciso haver algo mais.
       -        Que voc no tem.
       -        Isso.
       -        Ele est inconformado e infeliz.  sua resposta definitiva? No deseja pensar no assunto?
       -        No. Para qu? Para ser franca mesmo, jamais me casaria com ele.
      - Viemos aqui esta noite por causa disso. Ele no est aceitando sua recusa. Ele est muito revoltado e voc deve tomar alguns cuidados.
      - Acha que ele seria capaz de tentar  fora? Jarbas tentou contornar:
      - No sei. Um homem apaixonado, desesperado, pode cometer muitos excessos. Mesmo agora, no jardim, sinto certo receio.
      - A situao  assim to grave?
      - Bem. No sei. Ele diz que voc o encorajou s para humilh-lo.
      - Sempre desconfiei de seus excessos de atenes. Pareciam-me falsas. Para dizer a verdade, nunca as levei a srio.
      - Ele disse que o encorajou.
Pelos olhos dela passou um brilho de contrariedade.
      - Nunca fui alm dos princpios da boa educao para com uma pessoa que me cercava de gentilezas. No tive para com ele nenhum gesto mais especial. Lamento 
que ele em sua exaltao interpretasse de ouLra forma.
      - Sua recusa o fez sofrer.
      - Sofreria muito mais se cu casasse sem amor. Creia, logo isso passar, estou certa.
      - Apesar de tudo, tome cuidado pelo menos por alguns dias, at ele se acalmar.
      Ela sorriu levemente.
         - No vai acontecer nada.
      Os dois ficaram at a hora das despedidas e aliviados, saram, agradecendo a hospitalidade.
      Uma vez na rua, decidiram passar novamente em casa de Ulisses. Tudo escuro. Teria ele desistido?
      - Vamos embora, Jarbas. A estas horas, ele j deve estar dormindo, ou bebendo em algum bar para esquecer.
      - Pode ser. Mas no estou sossegado.
      - Fizemos o possvel. Com certeza ele j se acalmou. Vamos para casa.
      No carro de Joo Henrique, Jarbas pediu:
         - Antes de me deixar em casa, vamos dar uma passada pela casa de Marianinha, ver se tudo est bem.
         - Bobagem. Em todo caso, se isso o acalma, vamos l.
      A rua estava calma e deserta. Ao passarem pela casa, Jarbas segurou o brao do amigo com fora.
      - Pare. H um homem no jardim. vi um vulto escondendo-se atrs da rvore.
      - Tem certeza?
      - Tenho. Escondeu-se quando nos viu.
      - Ento vamos seguir e fingir que fomos embora.
      Deixaram o carro em rua prxima e voltaram, sem fazer rudo, espiaram pelas grades do porto. Tudo quieto, normal.
      - Voc se enganou - sussurrou Joo Henrique.
      - No! eu vi claramente! S pode ser ele. Vai fazer besteira!
      - O que vamos fazer? No podemos alarmar todo mundo. E se no houver ningum?
      - Vamos pular o muro e verificar.
      - Voc est louco! E se nos descobrem, o que diremos?
      - No sei. Eles no tem cachorros, isso eu sei. Vamos. No  difcil.
      Joo Henrique olhou-o indeciso.
      - Venha, homem. Trata-se de ajudar um amigo! Vamos lembrar nossas aventuras romnticas. Recorda-se da Marilda? Quanto pulamos aquele muro, na ausncia do marido?
      - Nem quero lembrar. Loucuras da adolescncia. Nunca mais faria isso de novo.
      Jarbas comeou a rir.
      - At que ela era interessante...
      - Deixe de risadas. Desse jeito todos vo acordar!
      - Calado! Psiu! Vamos!
      Os dois, depois de olharem para os lados, certificando-se de que no havia ningum, subiram pelas grades e entraram no jardim.
      O        silncio era profundo e eles foram caminhando devagar, procurando no fazer rudo.
      - Parece que est tudo bem - sussurrou Joo Henrique. -Voc se enganou. Vamos embora.
      Jarbas apanhou algo no cho.
      - Veja isto! Uma abotoadura!  do Ulisses!
      - Como sabe?
      - Olha o monograma.
      -  mesmo.
      - Ele est aqui! Precisamos ach-lo.
      Cautelosos olharam para a casa. Tudo escuro, nenhuma luz.
      - Olhe aquela janela l em cima. Est entreaberta! Vai ver que ele entrou por ali. - disse Jarbas.
      - E se no for? No podemos invadir a casa. Podem acordar!
      -  ele! Vamos subir e espiar.
      - Como?
      - Pela varanda.  difcil. Vamos tirar os sapatos.
      -  loucura. O melhor  chamar os donos da casa.
      - E promover um escndalo? Eles vo nos odiar se o fizermos. Vamos subir. Se no houver nada, prometo que iremos embora e esquecerei o assunto.
      - Vamos ento.
      Cautelosamente, sem rudo, os dois ganharam o telhado da varanda e espiaram pela janela entreaberta. O que viram os estarreceu.
      Mariana, seminua, encostada na parede do quarto tendo Ulsses  sua frente, de costas para a janela.
      A moa tremia assustada enquanto ele dizia em tom contido:
      - No adianta, meu bem. Se gritar eu atiro. Agora que fechei a porta, ningum entrar. Estamos sozinhos, eu e voc. Eu queria casar, voc recusou. Vamos, tire 
a roupa toda. No adianta fugir. Ningum me humilha impunemente. Eu me vingo! Pensou que eu ia aceitar um no? Voc vai ser minha de qualquer jeito. Depois, vou 
embora! Voc ficar com a minha marca!
      - Voc est louco! V embora. Recusei seu pedido porque no o amo. Saia e eu no contarei a ningum o que se passou aqui.
      Ele nem parecia ouvir. Aproximou-se dela encostando a arma em seu pescoo.
      - Voc  linda! - disse - Se eu atirar, vai ser uma pena.
      - Meu pai o matar!
      - Ningum me ver.
      Ulisses com a mo esquerda abraou a cintura dela, conservando com a direita a arma encostada no peito dela. Aterrorizada, ela no se mexia e ele beijou-a 
nos lbios repetidas vezes.
       Jarbas e Joo Henrique, do lado de fora, no sabiam o que fazer. Temiam precipitar a tragdia. No estado emocional de Ulisses, um susto poderia faz-lo puxar 
o gatilho.
      Joo Henrique sussurrou no ouvido de Jarbas:
      - Vou tentar entrar sem rudo.
      - Cuidado.
      Ulisses, empolgado, sentia-se seguro. Marianinha, olhos abertos, percebeu a presena de Joo Henrique e vendo que o moo cautelosamente tentava entrar, procurou 
desviar a ateno de Ulisses:
      - Voc nunca me beijou desse jeito - disse.
      Ele exultou.
      - Ah! Gostou? Era o que eu pensava. As mulheres fingem indiferena, mas adoram ser dominadas. Vai ver que depois desta noite, voc me aceitar como marido. 
Eu sou bom nisso, sabia?
      - S agora estou percebendo como voc  - retrucou ela.
-        Se afastar essa arma, poderemos ficar mais a vontade.
      - Pensa que sou tolo? Por enquanto  melhor no facilitar.
      Joo Henrique aproximou-se e tendo feito um sinal a Marianinha que se abaixasse, aproveitou o momento em que Ulisses a beijava para dar um soco violento na 
arma, segurando seu brao, torcendo-o para trs.
      Ulisses assustou-se violentamente, puxou o gatilho, mas Marianinha escorregara para o cho e a bala perdeu-se em um canto do quarto. Jarbas atirou-se sobre 
Ulisses, tentando segur-lo.
      Gritos, sustos, as luzes da casa acendendo. Quando os pais de Marianinha bateram na porta do quarto, Jarbas a abriu, ante os olhos assustados do resto da famlia.
      Ulisses esbravejava a um canto, dominado por Joo Henrique. Marianinha, trmula, embrulhada em um robe que apressara em vestir, estava s e salva.
      O coronel dominava-se a custo. Exigiu explicaes. Como atreviam-se a entrar na casa s escondidas, daquela forma?
      Foi Mariana quem explicou:
      - Pai, se estou viva, devo ao Joo Henrique e ao Jarbas. Nunca esquecerei o que fizeram por mim esta noite.
      Os dois no sabiam o que dizer. Precisavam dar explicaes ao coronel, mas no desejavam agravar a situao do amigo, a quem julgavam enlouquecido.
      -        Algum pode me explicar o que se passou aqui? Quem atirou?
      -        Eu posso contar o que aconteceu - disse Mariana.
      -        Voc est plida e trmula, filha, precisa acalmar-se. Essa  uma conversa para homens. - interveio Prola.
      -        E para a polcia - disse o coronel.
      -        No, mame. Por minha causa, esses dois cavalheiros arriscaram a vida e a honra. No posso permitir que sejam envolvidos. Estou disposta a esclarecer 
o que se passou e sei que meu pai, justo como , saber agir corretamente.
      -        Est bem - anuiu o coronel. - Vamos at a sala. Vou entregar este homem para a policia.
      Ulisses, rubro de dio, disse com voz abafada:
      -        Vocs me pagam! Diziam-se meus amigos! Traidores.
      O coronel, apontando a arma que trazia, ordenou:
      -        Vamos. Se facilitar, mato-o como a um co. Sabe que se o fizer, a lei me proteger. O senhor, alm de assaltar minha casa durante a noite, atentou 
contra a vida de minha filha. Ande. Vamos. Obedea se quer continuar vivo!
      Os olhos do coronel brilhavam firmes, e Ulisses obedeceu prontamente. Na sala, colocado sob a mira da arma de dois empregados da casa, Ulisses arrependia-se 
da aventura. Porm, era tarde. A famlia reunida, ouvira o relato de Mariana que ao final dirigiu-se aos dois moos emocionada:
      -        Quando eu vi voc, Joo Henrique, aparecer na janela, pensei: estou salva! Meu corao parecia que ia sair pela boca. Temia que ele atirasse se visse 
voc.
      -        Confesso que tremi, - respondeu o moo emocionado -a porta do quarto fechada a chave, eu senti que no podia perder um segundo, nem avisar ningum. 
Foi uma tentativa desesperada. Nem quero me lembrar!
      -        Eu pensei que se conversasse com ele tentando distra-lo, voc teria mais chance.
      -        Foi muito inteligente de sua parte.  muito corajosa -disse Joo Henrique.
      -        Eu no queria morrer! E nem permitir que ele fizesse o que pretendia. Tinha que tentar!
       Prola abraou Joo Henrique com os olhos cheios de lgrimas.
       -        Obrigada, meu filho! Mariana tem razo. Nunca poderemos pagar o que voc fez! Permita-me dar-lhe um abrao. De hoje em diante, ter em mim uma amiga 
dedicada!
       -        Agradea ao Jarbas - respondeu ele tentando disfarar a emoo. - Foi ele quem suspeitou do Ulisses. Eu nunca poderia pensar que sua loucura chegasse 
a tanto.
       Prola abraou Jarbas comovida.
       -        Vocs merecem uma medalha. Nunca esquecerei esta noite.
       -        Vamos, Prola, - disse o coronel tentando disfarar a emoo - providencie um caf para ns. Todos precisamos.
       Quando o chefe de polcia chegou, o coronel acusou formal-mente Ulisses de haver tentado contra a vida de Mariana, aps ver recusado seu pedido de casamento. 
Ele no teve outro jeito seno levar Ulisses preso. Este, vendo-se em perigo, procurou dominar a raiva e tentar safar-se. Alegou desespero, fingiu-se louco de paixo, 
buscando impressionar o delegado.
       Conseguiu at certo ponto, alegando o bom nome de sua famlia, dizendo estar sofrendo muito. Uma vez na delegacia, no interrogatrio, chorou, jurou que nunca 
teria coragem de amea-la. A arma era apenas para seu suicdio. Estava disposto a matar-se se essa ltima tentativa fracassasse.
       Apesar de condescendente, o delegado no podia ignorar a queixa do coronel, pessoa influente e benquista na sociedade. Por isso, manteve Ulisses preso, dando-lhe 
conselhos, que se acalmasse e desistisse do suicdio. Mulher alguma merecia isso.
       Vendo-se recolhido  cela, Ulisses deu livre curso ao rancor. Sua raiva era contra Joo Henrique e Jarbas. Por que haviam se intrometido? Se eles no houvessem 
aparecido, no s estaria livre como ningum saberia de nada. Acreditava que uma vez consumado seu plano, Marianinha no teria outra alternativa seno aceitar seu 
pedido de casamento.
Aqueles idiotas, intrometidos, eram os responsveis pela triste situao em que se encontrava. No temia a priso. Tinha certeza de que um bom advogado o livraria 
facilmente. Sabia que o coronel era enrgico, porm contava impressionar a opinio pblica a seu favor se preciso fosse. Um homem apaixonado e desesperado cativa 
logo as simpatias da sociedade.
       O que ele temia e o irritava, era a possibilidade de ver descoberta a mentira de sua vida. A idia da herana junto com o nome da famlia, abrira-lhe todas 
as portas. O que seria de sua reputao se o soubessem pobre e endividado? O moo rico, desesperado, apaixonado, sofrendo a ponto de querer acabar com a prpria 
vida, por certo seria visto com bons olhos e at com simpatia. O moo pobre, mentiroso, pressionado pelas dvidas, oportunista, tentando um casamento rico como ltima 
sada, seria por certo execrado.
       Estava claro que representaria o papel do primeiro com vigor e contava com isso para sair dali, mas, e se descobrissem o que temia? Se desconfiassem e fossem 
investigar?
       Nesse momento, pensando nisso, seu desespero era bem real.
       - Bandidos! - pensou - Aqueles dois me pagam! Nunca pensei que fossem capaz de me prejudicar! Eles vo me pagar. Quando sair daqui, me vingarei.
       No dia seguinte, a notcia correu de boca em boca. Joo Henrique no comentou o que acontecera. Porm, ao jantar, Maria Helena j sabia. Preocupada com alguns 
comentrios, procurou a amiga e Prola relatou-lhe tudo detalhadamente, terminando por tecer comentrios elogiosos aos dois rapazes.
       Maria Helena emocionou-se. Joo Henrique arriscara a vida! Sentiu-se orgulhosa pelo seu gesto.
       Na hora de jantar, ela mencionou o assunto. Maria Lcia assustou-se. Ulisses tentara matar Marianinha! Que horror! Prestou ateno ao que Joo Henrique contava. 
Era verdade. Ele tentara com Luciana e agora com Mariana. No tolerava recusa.
       - Nunca pensei que Ulisses pudesse proceder assim -comentou Maria Helena. - Voc passou por um problema parecido, mas teve uma reao diferente.
- Posso entender o que ele sentiu. Estvamos tentando evitar uma tragdia. Pensvamos ajud-lo. Porm, vendo-o agir daquela forma, percebi que estvamos enganados 
a respeito dele. Havia maldade no que ele dizia. E, pode parecer estranho, mas ele no demonstrava estar apaixonado por Mariana. Ao contrrio, mostrava-se calculista, 
deliberadamente cruel. Confesso que desconhecia o Ulisses.
      -        Ouvi dizer que a tal herana que ele vive a apregoar, nunca existiu - comentou Jos Luiz.
      -        Ele precisava de dinheiro, com certeza. Est coberto de dvidas - respondeu Joo Henrique. - Seu desespero com a recusa dela pode ter sido por causa 
disso. Jarbas contou-me o que aconteceu com Luciana.
      -        O que foi? - indagou Maria Helena, curiosa.
      -        Foi o noivo dela quem contou a Jarbas. Ulisses vendo-se recusado, esperou-a quando saa daqui e tentou obrig-la a aceita-lo. Agarrou-a justamente 
no porto de D. Margarida. O Jos Antnio ouviu rudos e a socorreu, pondo Ulisses a correr. Foi assim que se conheceram.
      -        Que canalha! - interveio Jos Luiz.
      -        Eu nunca soube que ele interessava-se por Luciana! considerou Maria Helena.
      -        Isso eu sei muito bem. Ele entusiasmou-se desde o primeiro dia, quando a conheceu. Eu e Jarbas nos divertimos, porque ela nunca lhe deu a menor ateno. 
Alis, Luciana sempre foi muito correta.
      Maria Lcia ouvia, sentindo suas dvidas crescerem. Por isso Luciana no gostava de Ulisses e a aconselhava a no alimentar seu interesse por ele. E o caso 
com seu pai? Seria verdade? At que ponto Ulisses as iludira? Comeou a suspeitar que fora ingnua no tentando averiguar melhor a verdade. Jarbas teria razo?
      Emocionou-se ao pensar nele. Aquele beijo ardente, no saa da sua lembrana. Ele havia lhe afirmado que Luciana a queria bem, poderia acreditar? No estaria 
ele mentindo como Ulisses?
      -        Que diferena do Jarbas! - considerou Maria Helena.
      -        No se pode comparar. Jarbas  digno de toda a confiana. - disse Jos Luiz.
          - Concordo. Jarbas sempre foi muito diferente de Ulisses. Mais correto, sincero, bondoso, educado - ajuntou Joo Henrique. - Ulisses sempre foi meio desatento, 
desorganizado, leviano com as mulheres. No pensei que chegasse a tanto. Alegou que Marianinha o encorajou para divertir-se  sua custa. A principio, acreditei, 
embora Jarbas afirmasse o contrrio. Porm, ontem notei que era verdade. Ela foi muito corajosa e mesmo ameaada, tendo a arma encostada no pescoo, portou-se com 
seriedade. Tem muita coragem. Agentou a situao sem nenhum chilique. Quando o coronel entrou no quarto e exigiu explicaes da nossa presena ali, ela esclareceu 
tudo com firmeza.
      -        Marianinha  muito correta. Por no gostar de futilidades,  tida como orgulhosa. Conheo-a bem. Ela no perde tempo com mexericos nem banalidades. 
Gasta seu tempo com coisas interessantes. Pinta muito bem e  muito culta. - respondeu Maria Helena.
      -        Voc a conhece bem. Alis, entendi porque voc lhes freqenta a casa. D. Prola  muito agradvel e educada. O coronel, um homem de bem.
      -        Isso mesmo, meu filho. Os Albuquerques so nossos melhores amigos. Fico contente por voc os apreciar. Prola ficou encantada com vocs dois. Insistiu 
que voltassem a visit-los com freqncia.
      -        O coronel tambm interessa-se muito em melhorar nossa cidade. Tem at algumas idias que me exps, muito inteligentes. Esse  um assunto do qual ele 
gosta muito e o torna eloqente e entusiasta. Conversou com ele sobre seus projetos?
      -        No, papai. No houve oportunidade. No sabia desse particular.
      -        Quando tiver chance, fale sobre esse assunto. Ficar surpreendido com o que ele sabe. Acredito mesmo que encontrar nele poderoso aliado.  muito 
influente politicamente.
      -        No diga! Farei isso.
      Maria Lcia assim que acabou o jantar, foi para o quarto. Fechou a porta e olhou-se no espelho. No gostou do que viu. Estava feia. Jarbas gostava dos seus 
cabelos soltos. Rapidamente tirou os grampos que os prendiam. Apanhou uma escova e comeou a escov-los, tentando pente-los de diversos modos. Estavam compridos. 
Agora a nova moda era cort-los bem curtos. Ela os preferia pelos ombros. Qual seria a preferncia de Jarbas?
      Sim. Seus cabelos eram lindos, sedosos, brilhantes. Jarbas tinha razo. E se passasse um pouco de carmim? Luciana a ensinara a colorir delicadamente as faces 
e os lbios. Ela no era to feia como pensava. Seu vestido no lhe caa bem.
      Abriu o guarda-roupa, apanhou um que Luciana gostava e o vestiu. Sentiu-se mais animada. No dia seguinte, vestiria aquela roupa, talvez Jarbas viesse. Queria 
que a achasse bonita.
      Pensou em Luciana. Teriam sido enganadas? Ulisses poderia ter mentido para vingar-se de Luciana. Mas, e seu pai? Como entraria nessa histria? Teria se apaixonado 
por Luciana? Ela era linda e inteligente, e, seu pai, muito sedutor. Sua me o tratava friamente. Teria tido uma paixo? Uma aventura? Luciana no era uma aventureira. 
Talvez o tivesse recusado. Continuava cheia de dvidas e por mais que tentasse, no conseguia esclarec-las.
      Na tarde do dia seguinte, quando Jarbas chegou, encontrou Maria Lcia modificada. Satisfeito, percebeu que ela soltara os cabelos, vestira-se melhor e parecia 
mais  vontade.
      Aproximou-se dela, dizendo com prazer:
-        Que alegria encontr-la! Como vai?
      Ela corou ao responder:
-        Bem. E voc?
-        Melhor agora vendo voc. Senti saudades. No pude vir
antes.
      -        Faz trs dias que no vem aqui.
      -        Sentiu minha falta?
      -        Senti. Fiquei sabendo do que houve em casa de Marianinha.
      -        Joo Henrique contou.
      -        D. Prola contou a mame, e ele explicou como foi.
      -        No ficou triste?
      -        Eu? Por qu?
      -        Voc gosta do Ulisses.
      Ela enrubesceu. Ele continuou: - No negue. Voc gosta
dele.
      - Estava enganada. No o conhecia. Agora, sinto que nunca gostei realmente dele. Foi coisa de criana.
      - No sofreu com o que aconteceu?
      - Nem um pouco.
      - Melhor assim.
      Ficaram calados alguns segundos, depois ela disse:
      - Tenho pensado muito no que me disse sobre Luciana.
      - Sim?
      - Sim. Tenho tido algumas dvidas. Ontem quando Joo Henrique falou sobre o Ulisses e Luciana, pensei que ele poderia ter inventado tudo para vingar-se.
      -        Ento ele inventou algo. Ele fez intrigas sobre Luciana como eu suspeitava.
      -        Sim. Ele disse coisas graves e srias.
      -        Conte-me tudo.
      -        No posso. So coisas de famlia.
      -        No posso ser indiscreto, mas afirmo que seja o que for que ele tenha inventado, Luciana  inocente.
      -        Tem certeza? Talvez voc no saiba certas coisas...
      -        Sei o bastante para dizer isso. Luciana  uma moa muito digna, correta e ama muito a voc e a toda sua famlia.
      -        Gostaria muito de acreditar!
      -        Voc gosta dela!
      -Ela era minha melhor amiga. Era como se fosse da famlia.
      Jarbas colocou as mos nos braos de Maria Lcia, olhou-a bem nos olhos e pediu:
      -        Venha comigo. Vamos ver Luciana.
      Maria Lcia estremeceu:
      -        No posso! Minha me no permitiria!
      -        Confie em mim. Pedirei a D. Maria Helena para lev-la a uma confeitaria e iremos  casa dela.
      Maria Lcia, trmula, pelo prazer de sair com ele de um lado e a possibilidade de rever Luciana de outro, excitada no sabia o que responder.
      -        Venha - disse ele - vamos at a sala. D. Maria Helena vai permitir.
      Maria Helena no s permitiu como sentiu-se agradavelmente surpreendida. Jarbas estaria pretendendo namorar sua filha? Claro que sim. Como no notara? Ela 
se arrumara melhor, estava mais bonita. Comeou a pensar que Jarbas seria o genro ideal. Bonito, fino, educado, rico, honesto, amigo da famlia.
      Uma vez no carro, Maria Lcia assustada considerou:
      -        No ser imprprio aparecer assim, sem avisar? Ela me receber?
      -        Tanto ela quanto D. Egle ficaro felizes em abra-la.
      Jarbas abraou-a com carinho, segurando entre as suas a mo gelada da moa.
      - Acalme-se - recomendou. - H muito j deveria ter feito isto. Abra o seu corao, conte-lhes o que aconteceu. Tenho certeza de que tudo se esclarecer.
      - Voc acha?
      - Estou certo disso.
      Quando Jarbas tocou a sineta, Maria Lcia trmula lutava para dominar a emoo. Luciana abriu a porta e vendo-os foi tomada de forte emoo.
      - Maria Lcia! - disse e correu abrir o porto do jardim, abraando-a carinhosamente.
      Maria Lcia abraou-a tambm e no conteve o pranto, chorando copiosamente. Quando se dominou um pouco, Luciana disse:
      - Vem, minha querida. Vamos entrar. Soou a hora de esclarecermos muitas coisas. Temos muito que conversar.
      Egle abraou-a com carinho. Maria Lcia no conseguia parar de chorar. Seus sentidos soluos eram eloqentes o bastante para dizer o quanto havia sido dolorosa 
para ela aquela separao.
      - Venha, Jarbas - convidou Egle. - Vamos para outra sala. Elas tm muito que conversar.
      Quando os dois se afastaram, Luciana fez Maria Lcia sentar-se no sof e sentou-se a seu lado, segurando as frias mos dela entre as suas.
      - Estou muito feliz com sua visita. - disse. - Sei que tem algo a me dizer. H muito desconfio que o afastamento de vocs teve algum motivo. Suspeito o qual 
tenha sido. Gostaria de saber a verdade.
      - Eu tambm. Quando eu soube o que o Ulisses fez  Marianinha, no consegui tirar a dvida da minha cabea. Vim aqui saber a verdade. Gostaria que no mentisse 
para mim. Por mais dolorosa que seja, eu quero saber. No agento mais.
      - O que quer saber?
      - Sobre voc e meu pai.
      - Ento  isso? Voc j sabe?
      - Ento  verdade? Voc e ele...
      - Foi h muitos anos. Aconteceu antes dele conhecer sua me.
      - Do que est falando?
      - Dele e de minha me.
      - Sua me?
      - Sim. Ele a conheceu antes de sua me. No tempo em que ele era estudante em S. Paulo. Depois, no Rio, comeou a namorar sua me e casou-se com ela. Quando 
eu nasci, ele j estava casado.
      - No estou entendendo. Quer dizer que voc conhecia meu
pai?
          - No. Vou contar-lhe tudo como aconteceu, sem omitir nada.
      Segurando as mos de Maria Lcia, Luciana contou detalhadamente o que sabia do passado, o encontro com o pai no cemitrio, a maneira pela qual resolvera apresentar-se 
em casa dele.
      Maria Lcia, comovida, comeava a entender muitas coisas sobre o relacionamento dos pas. Quando Luciana acabou, ela no se conteve:
      - Voc  minha irm! Por isso gostei de voc logo que a vi! Meu Deus! Como fomos injustos com voc! Que vergonha!
      - Eu pensei que D. Maria Helena houvesse descoberto a verdade e no me perdoasse pelo fato de haver ocultado. Tive receio de que ela no me aceitasse. Sou 
uma filha bastarda. Sei como ela  exigente com suas relaes.
      - Voc  uma moa digna. Isso  o que importa. Estou orgulhosa de ser sua irm. Mame sequer desconfia dessa possibilidade.
      - Ento por que me afastou de vocs?
      - Ulisses. Ele disse que...
      Ela parou envergonhada:
      - Fale, o que foi?
      -        Ele disse que voc e papai.. - eram... amantes. Que ele havia at comprado esta casa.
      Luciana empalideceu. Essa idia jamais lhe ocorrera.
      -        Como puderam acreditar? Nem me deram chance de me defender!
      -        Uma noite, ele trouxe mame aqui e ela viu quando papai saiu abraado a voc na varanda, ele a beijou ao despedir-se.
      - Ele fez isso! Que maldade! Ela acreditou!
      -        Acreditou. Ela viu com os prprios olhos. Jamais poderia pensar que ele fosse seu pai!
      - Por que no me disse nada? Eu teria explicado tudo. Papai tambm no sabe disso. Ele estava to feliz, agora que descobriu que a ama, e esto vivendo melhor. 
Vrias vezes desejou contar-lhe a verdade.
      -        Mame precisa saber de tudo. No quero que ela continue a julg-la capaz de tanta falsidade.
      -        Certamente. Mesmo que ela no me aceite agora, precisamos sossegar seu corao. Avalio seu sofrimento com essa calnia. No momento em que eles reataram 
e constataram seu amor!
      -        Ela sofreu muito. Lutou para esconder, mas eu vi. Fomos a Petrpolis e l, eu a ouvia andar pelo quarto  noite, e no dia seguinte, ela ficava abatida. 
Receei que adoecesse.
      -        Voc me odiou.
      -        No. Eu no podia odi-la, mesmo acreditando naquela calnia. Mas confesso que sofri muito.
      Luciana abraou-a com carinho.
      -        Abenoado Jarbas, que conseguiu traz-la aqui hoje.
      -        Ele sempre tentou convencer-me a vir.
      -        Ele a quer muito bem.
      O        rosto dela coloriu-se.
      -        Voc acha mesmo? No estar com pena de mim?
      -        No. Ele ama-a muito. Tanto que faz tudo para v-la feliz.
      -        Penso que estou gostando dele. Fui ingnua com Ulisses. Ele fingiu que me amava.
      -        Chegou a isso?
      -        Sim. Quando falou de voc, no acreditei. Ele me beijou, disse que ficaria sempre a meu lado, que me amava. Que eu podia confiar. Pediu segredo com 
minha famlia, que ele me pediria em casamento no momento propicio. Fazia tudo pelo meu bem e para defender minha me. Acreditei.
      Luciana indignada esforava-se para controlar-se.
      -        Ele teve a coragem!
      -        Depois de tudo, quando mame me proibiu de ver voc, e disse que presenciara o fato, ele desapareceu. Quase no freqentava nossa casa e quando aparecia 
era com Joo Henrique e nem me notava. Descobri que no me amava. Quando soube que pedira a mo de Marianinha, no pensei que ela fosse recusar.
      -        Voc sofreu com isso.
      - Um pouco. Mas, ontem, quando Joo Henrique falou o que ele fizera, descobri que estivera enganada. De algum tempo para c, eu mudei. J no pensava nele.
      -        No? Pensava em algum outro?
      -        Para voc, posso contar. Uma tarde, Jarbas me confessou seu amor e me beijou. Senti uma emoo muito forte, como eu nunca sentira com o beijo do Ulisses. 
E desde esse dia, quando penso nele, sinto um calor no corpo, meu corao bate forte. Gostaria que me beijasse de novo.
      Luciana sorriu:
      -        Voc est se apaixonando por ele. Desejo que seja amor. Ele certamente a far muito feliz.
      -        Em casa todos o apreciam.
          -  um homem de bem. Alm disso, um moo bonito, tem todas as qualidades.
      -        E seu noivo? Ouvi contar que vai se casar.
      Luciana abraada a Maria Lcia, contou-lhe tudo a respeito de Jos Antnio, quanto o amava. Entretidas, as duas continuaram trocando confidncias.
      Finalmente, Egle e Jarbas reapareceram. Havia na copa um lanche saboroso. Egle convidou-os a sabore-lo.
      -        Antes, vov, quero que saibam a razo do afastamento de D. Maria Helena.
      Em poucas palavras, exps os fatos e os dois, surpreendidos, no esconderam a indignao.
      -        Isso  bem do Ulisses - reconheceu Jarbas. - Desde os tempos de colgio, nunca deixou passar uma ofensa sem revide. No pensei que chegasse a tanto.
      -        Depois do que me contou sobre Marianinha, ele  capaz de muito mais. - considerou Egle.
      -        O que pensa fazer? - indagou Jarbas a Luciana.
      -        Claro que esclarecer tudo. No posso permitir que D. Maria Helena sofra e prejudique sua vida com o marido por causa disso. Contudo, no devo procur-la. 
Embora atingida por essa calnia, o passado no me pertence. Falarei com papai. Gostaria que voc, Maria Lcia, no dissesse nada a sua me. Esse assunto dever 
ser resolvido entre ela e ele. Agora que descobriram que se amam, precisam entender-se, explicar-se. Para que esse amor se modifique, no pode haver nenhuma sombra 
entre eles.
         Egle assentiu com a cabea.
         - Tem razo, Luciana. Essa conversa ser definitiva entre eles.
         - Vou pedir a papai que venha aqui e o colocarei a par de tudo.
         - E voc? No vai defender-se? Pensei em chegar em casa e dizer a mame o quanto nos enganamos.
      Luciana sacudiu a cabea.
      -        No. Eu no tenho culpa de nada. No preciso de defesa. Ele  quem dever entender-se com ela.
      -        Eu no quero que ela me afaste de voc - disse Maria Lcia. - Se ela proibir-me de v-la, no vou obedecer. Fugirei de casa.
      Luciana olhou-a surpreendida. Essa atitude vindo dela, mostrava que ela havia mudado.
      -        Faria isso por mim?
      - Sim. Faria tambm por mim. Hoje percebi que apesar de tudo, dentro de mim eu sentia que podia confiar em voc. Sentia saudades. Pensava em voc, no que me 
dizia, como voc fazia as coisas. Senti muito sua falta. Quero estar com voc, eu gosto de voc, e no deixarei que ningum me impea.
      Luciana abraou-a, beijando-a na face.
      -        Saber o que quer e lutar por isso,  meio caminho para a felicidade - disse Luciana olhando para Jarbas com inteno.
      -        Vamos ao lanche - sugeriu Egle e desta vez foi atendida prontamente.
      Quando deixaram a casa de Luciana, Maria Lcia parecia outra pessoa. Corada, olhos brilhantes, voltara a ser a moa que ele aprendera a amar. No trajeto da 
volta, esforou-se para controlar o desejo de tom-la nos braos e beij-la de novo. No queria aproveitar-se da situao. Ela passara por momentos de forte emoo.
      -        Obrigada. - disse ela de repente. - Se no fosse voc, eu no estaria to feliz!
      -        Adoro v-la feliz!
      -        Estive pensando. O que me disse no outro dia  mesmo verdade? Voc gosta mesmo de mim? Seja sincero. No me engane.
      - Eu no teria coragem de engan-la. Se no fosse verdade, eu no teria dito. Depois, voc no sentiu? Quando a beijei, pensei morrer de emoo. No percebeu? 
Acha que isso se pode fingir?
      Jarbas abraara-a sentindo que seus escrpulos desapareciam. Ela to prxima, olhos brilhantes, lbios entreabertos, cheia de emoo, fazia-o esquecer tudo 
o mais.
      -        Eu a amo! - disse - Muito! Muito!
      Beijou-a repetidas vezes e ela abraou-o tambm, sentindo vontade que aquele momento no acabasse. Depois, ele com voz trmula disse-lhe baixinho:
      -        Ser verdade o que estou sentindo? Voc no me recusa? Voc me quer, ainda que seja um pouco? Diga. Posso ter esperanas?
      -        Sim. No sei se isso  amor. Mas nunca senti nada assim antes. Queria que o dia de hoje no se acabasse.
      -        Meu amor! Se me quiser, serei o homem mais feliz do mundo! Voc  tudo o que eu sonhei.
      Maria Lcia passou os braos no pescoo dele e beijou-o levemente nos lbios. Comovido, Jarbas estreitou-a de encontro ao peito e eles ficaram abraados, sentindo 
o corao bater descompassado, mas ao mesmo tempo uma deliciosa sensao de alegria e de paz.
      Ao chegarem em casa, Maria Lcia assustou-se.
          Meu Deus! J escureceu! Mame vai ralhar comigo.
      -        Nos demoramos mais do que o previsto. Pedirei desculpas a D. Maria Helena. No quero que nos impea de sair novamente.
      Ela sorriu feliz. Quando entraram na sala, Maria Helena levantou-se olhando-os curiosa. Percebeu logo o rosto emocionado de Maria Lcia.
      -        Espero que me desculpe, D. Maria Helena. Ficamos
conversando e nos entretemos tanto que no percebemos o tempo
passar.
          Jos Luiz sentado em gostosa poltrona, observava-os.
          - De fato  tarde. No pensei que demorassem tanto.
          - A culpa foi minha - tornou Jarbas. - Sinto muito.
      -        A culpa tambm foi minha - disse Maria Lcia - A conversa estava to boa que eu no vi passar o tempo.
      Maria Helena ficou boquiaberta. Sua filha nunca tivera uma atitude como essa. Era sempre evasiva, reticente, tmida. Algo acontecera e ela ainda no sabia 
se era bom.
      - Voc sabe que no pode ficar tanto tempo fora de casa.
      - Quando sairmos de novo, prometo pensar nisso.
      Jos Luiz olhou para Maria Helena. Estaria ouvindo bem?
      - Certamente, minha filha - respondeu ela educadamente.
      Jarbas agradeceu a compreenso deles e despediu-se. Maria Lcia foi para o quarto.
      - Voc ouviu? - indagou Maria Helena quando se viu a ss com o marido.
      - Sim, O que est havendo? Jarbas e Maria Lcia estaro namorando? Terei entendido bem?
      - Tudo faz crer que sim.  surpreendente! Eles abusaram para um primeiro passeio, porm, gosto dele,  excelente partido para nossa filha.
      - Quanto a isto, concordo. Ela parece diferente. Estar apaixonada por ele?
      Maria Helena balanou a cabea e sorriu:
      - Quem diria! Parecia to sonsa, to boba, conquistar logo um moo como ele! Ser mesmo que ele se interessa por ela?
      - Por que a levaria a passear? Nunca fez isso antes. Depois eles pareciam diferentes, havia um brilho em seus olhos!
      - Se isso for verdade, nem acredito. Maria Lcia ter condies de casar-se, dirigir uma famlia?
      - Por que no? O amor remove montanhas.
      O rosto de Maria Helena sombreou-se.
      - Veremos isso. - disse.
      Afastou-se. Jos Luiz notou sua sbita tristeza. Teria cimes da filha? Ainda se fosse com Joo Henrique, poderia entender, mas com Maria Lcia era loucura. 
Ela nunca fora apegada a ela. Pensou em Luciana, sentiu saudades. Estar com ela era como sair numa manh clara de primavera e sentir o sol. Sempre se sentia revigorado 
ao visit-la.
      No dia seguinte  tarde, foi procur-la. Depois do abrao carinhoso, Luciana disse alegre:
      - Esperava-o com impacincia. Ontem Maria Lcia esteve aqui.
      - Aqui? Ento...
      -        Jarbas a trouxe.
      -        Pensei que... Isto ... ns, Maria Helena e eu imaginamos que eles estivessem namorando. Foi a primeira vez que Jarbas convidou-a para sair. Nos enganamos.
Luciana sorriu balanando a cabea com graa:
      -        No. No se enganaram. Jarbas  apaixonado por ela h algum tempo. Ela agora parece interessar-se por ele.
      -        Ento  verdade?
      -        Talvez seja um pouco cedo para dizer. Se Maria Lcia quiser, Jarbas ficar feliz.
      -        Quem diria! Mas, o que ela veio fazer aqui?
      Luciana em poucas palavras narrou-lhe o que sabia. Jos Luiz reagiu indignado:
      -        Aquele patife j est preso, caso contrrio acertaramos contas. Que maldade! Nunca pensei que ele chegasse a esse ponto. Afinal, sempre foi recebido 
em nossa casa como um filho!
      -         lamentvel, papai. Posso avaliar a tristeza de D. Maria Helena.
      -        Ela me conhece, como pde imaginar-me capaz de uma atitude dessas? Sempre respeitei a famlia. E voc, ela acreditou que fosse capaz de tanta desfaatez?
      -        Pai, o cime cega as pessoas. D. Maria Helena nos viu abraados tarde da noite. Presenciou seu beijo de despedida. O que mais poderia pensar?
         Eu sou culpado. Deveria ter-lhe contado a verdade. Voc  minha filha, orgulho-me disso. Vou procur-la e esclarecer tudo.
      -        Ser melhor. Vocs se amam. Para que a unio de ambos se complete, no deve haver nenhuma sombra, nenhuma dvida ou desentendimento. Deixe o orgulho 
de lado. Seja sincero, fale dos seus sentimentos. Tenho certeza de que D. Maria Helena compreender.
      -        Tem razo, Luciana. No quero que esse mal-entendido dure um dia mais. Hoje mesmo conversaremos. Vou reconhecer voc como minha filha. No desejo 
que ningum mais se julgue no direito de insult-la.
      -        Pai, isso no ser preciso. Dentro de menos de um ms, estarei casada. O nome de Jos Antnio ser suficiente para colocar-me ao abrigo de qualquer 
mal-entendido.
      -        Apesar disso, vou reconhec-la.
      -        D. Maria Helena pode sentir-se constrangida.  muito conhecida na sociedade. No h necessidade de perturb-la. Ela j sofreu muito por causa do passado. 
No  justo que continue a ser molestada por algo que nem sabia.
Jos Luiz balanou a cabea negativamente.
      -        No. Se Maria Helena no souber compreender, se ela, apesar dos muitos benefcios que recebeu de seu corao generoso, preferir o preconceito, a hipocrisia 
social, ento, no  a mulher que eu pensei. Nesse caso, ser muito difcil conservar nosso amor. Para am-la, sinto que preciso admir-la. Todos esses anos, mesmo 
perdido nos sonhos do passado, eu a admirava como mulher de classe, como me, como esposa. Sempre me orgulhei dela. Sempre a tive como extraordinria mulher. Quando 
descobri que ela no era fria e indiferente como eu pensava, foi fcil am-la. Mas o amor tem um encanto que de repente pode romper-se.
      -        No  o caso de D. Maria Helena.
      -        Talvez no. Mas para isso, preciso saber.  preciso que nossas almas se desnudem para avaliar nossos sentimentos.
Luciana suspirou pensativa.
      -        No se preocupe, filha. A voc no cabe nenhuma responsabilidade sobre o nosso relacionamento. Ao contrrio. Voc sempre mostrou-me coisas que eu 
desconhecia, fez-me pensar. Tentou nos unir. Mas isso  uma coisa minha e dela. A partir desse entendimento, nossa vida vai mudar.
       - Para melhor. Eu sei.
       - Quero voc junto com o resto da famlia! Voc soube conquistar o amor e a amizade de todos.
      -        Estou feliz por sentir o seu carinho e a estima de Maria Lcia. Nossa amizade no precisa de mais nada. No gostaria de aborrecer D. Maria Helena, 
constrang-la. Por favor! No force nenhuma situao.
       Jos Luiz acariciou o rosto dela levemente.
      -        No se preocupe. Sei como fazer as coisas.
Ele despediu-se. No caminho de volta, deu largas ao seu desagrado. Maria Helena o julgara capaz de tanta baixeza! Jamais teria o desplante de colocar uma amante 
em convivncia ntima com sua filha. Como pudera pensar isso dele?  verdade que durante anos declinara o seu papel de marido, mas logo agora, que haviam se entendido, 
que lhe confessara seu amor, que demonstrava maior interesse em ser feliz ao lado dela e da famlia!
      Que espcie de homem ela julgaria que ele fosse? Diante do que presenciara, por que no lhe contara ainda que fosse para exigir-lhe explicaes? Por que representara 
uma comdia, fingindo am-lo, guardando a mgoa no corao?
      Julgara Luciana sem ao menos ouvi-la ou dar-lhe chance de explicar. Maria Helena fora longe demais. Ulisses armara o lao, mas ela aceitara, sem questionar. 
Sentia-se decepcionado, triste. Como conviver com algum capaz de esconder seus verdadeiros sentimentos? A situao entre eles tornara-se insustentvel. Percebia 
que havia chegado a hora da verdade. No podiam continuar convivendo sem esclarecer bem o sentimento que os unia.
      Se fosse antigamente, ele simplesmente voltaria  indiferena costumeira e esqueceria os ltimos acontecimentos. Mas, agora, no se conformava mais com isso. 
Havia percebido o quanto Maria Helena significava em sua vida. Sentia que a amava. Desejava estar com ela, beij-la, sentir seu amor. No se contentava mais com 
sua frieza, ou sua indiferena. Precisava conhecer a extenso dos sentimentos dela. Saber se ela fingia am-lo apenas para o bem-estar da famlia, para mant-la 
unida, bem como ao nome. Sabia como isso era importante para ela. At que ponto o amava? Teria aceitado seu amor apenas por conveno?
      Passou a mo pelos cabelos angustiado. Teria a vida se vingado dele a esse ponto? Ele que se casara por interesse, agora que estava apaixonado por ela, estaria 
recebendo o troco?
      Esse pensamento f-lo inquietar-se ainda mais. Estava farto de meias situaes. Queria saber.

CAPTULO 20

      Joo Henrique estugou o passo, dizendo a Jarbas:
      -        Vamos que no  delicado chegarmos atrasados. Logo ao jantar!  horrvel.
      Jarbas sorriu e considerou:
      -        Foi voc quem demorou para se arrumar. Agora fica me apressando!
      -        Os Albuquerques so pessoas de classe, esto nos fazendo uma gentileza.
      -        Voc parece muito animado com este jantar. Faz tempo que no o vejo to bem-disposto.
      -        Minha me ensinou-me as normas da boa educao. Esse jantar  em nossa homenagem.
-        Est bem. Vamos l. Tocaram a sineta e o criado abriu, convidando-os a entrar.
Na sala de estar, o coronel e Prola apressaram-se em abra-los.
      -        Sejam bem-vindos, meus filhos. Que prazer! - disse Prola com alegria.
      -        Espero no estar muito atrasado! - desculpou-se Joo Henrique.
      -        No est no. Aceita um estimulante?
      -        Obrigado, coronel. Aceito.
      Ele os serviu com prazer. Era especialista em vinhos e adorava apreci-los com os amigos.
-        Sentem-se por favor. Os dois acomodaram-se e a conversa fluiu agradvel.
Minutos depois, Marianinha e Ester apareceram na sala. Os rapazes levantaram-se para cumpriment-las.
-        Ento - perguntou Joo Henrique - j se recuperou?
      -        Estou tentando. No nego que foram maus momentos. Gostaria de poder esquec-los.
      - Marianinha sempre foi a corajosa e eu, a medrosa - disse Ester com um sorriso - Mas agora, ela no gosta de dormir sozinha no quarto.
      -        Depois do que ela passou,  natural, - disse Joo Henrique.
      -        Se fosse comigo, nem sei como estaria! S de pensar nisso, fico apavorada.
      -        No h perigo de nada - garantiu o coronel. - Ulisses est preso e cuidarei para que no saia de l to cedo.
      -        Pelo menos at que ele esquea o que aconteceu - disse Jarbas.
      -        Por que diz isso? - indagou Mariana.
      -        Ulisses no gosta de perder. Sempre vai  forra. Desta vez chegou a perder at a liberdade. Pelo que sei sobre ele,  bom mesmo que fique l, pelo 
menos at esquecer o que houve.
      -        Pensa que ele tentaria alguma coisa mais? - indagou Prola, assustada.
      -        No sei, D. Prola. Pode ser que a lio tenha sido suficiente. Em todo caso,  bom no facilitar.
      -        Pode crer que estou vigilante. Ficar l por uns tempos.
- garantiu o coronel determinado.
      -        Falemos de coisas mais agradveis - props Joo Henrique. - Esqueamos aquele lamentvel incidente.
      -        No esquecerei nunca - disse Mariana com um brilho emocionado nos olhos. - Foi isso que nos aproximou e fez-me perceber quem so os meus verdadeiros 
amigos.
      -        Tem razo - aduziu Prola. - Pelo menos, esse foi o lado bom. Recebemos vocs dois em nossa casa e nos tornamos verdadeiramente amigos.
      Os rapazes sorriram satisfeitos. O ambiente dos Albuquerques era to agradvel que eles se sentiram muito bem l. O jantar foi magnfico e Joo Henrique pensou 
em sua me. Ela sabia escolher muito bem seus amigos.
      Depois do jantar, os dois rapazes foram com as duas moas para sala de msica, enquanto o coronel e Prola jogavam uma partida de xadrez. Joo Henrique estava 
alegre, animado. Enquanto Jarbas e Ester colocavam discos na vitrola, cantarolando as msicas em voga, Joo Henrique conversava com Marianinha.
      Olhando para ela, ele no podia esquecer a beleza do seu corpo semidespido. Ela era realmente bonita. Tendo-a to prximo de si, sentiu vontade de toc-la, 
beijar seus lbios carnudos e entreabertos. Conteve-se a custo. Ela era moa de famlia.
      - Compreendo porque Ulisses se apaixonou por voc! -disse quase sem pensar.
      - Por qu?
      - Voc tem muita fora de atrao. Ele no resistiu.
      - Espero que no pense que eu tentei conquist-lo. Nunca senti nenhuma atrao por ele.
      - Ele ficou louco por voc!
      Ela sacudiu a cabea.
      - No sei, no. Pelo que soube a respeito dele, penso que o dinheiro de meu pai foi que despertou essa paixo louca.
      Joo Henrique riu francamente. Ela estava certa em parte. Conversaram sobre outros assuntos, e Joo Henrique encantou-se quando descobriu que o coronel sonhava 
em melhorar o Rio de Janeiro, tinha alguns projetos e que ela o ajudava muito nesse mister.
      Era estudiosa dos costumes e sonhava poder melhorar a cultura, a vida do povo, fazer do Rio de Janeiro um lugar maravilhoso como as grandes capitais do mundo.
      - Quando eu estudava na Frana - comentou ela - aprendi muito com a educao do povo, seu amor pela cidade, e sonho tornar o nosso Rio to privilegiado, to 
lindo, uma cidade limpa, educada, como Paris, para a admirao e a alegria de todos.  muito agradvel morar em uma cidade civilizada. Sou admiradora ardorosa da 
nossa cidade que considero uma das mais belas do mundo.
      Joo Henrique no escondeu seu entusiasmo. Encantado, falou de seus projetos e os dois empenharam-se no assunto que nem perceberam o adiantado da hora. Foi 
Jarbas quem lembrou ao amigo que precisavam ir embora. Ao despedir-se, Marianinha lembrou:
      - Gostaria de continuar nosso assunto. O tempo passou to depressa! Que pena! Papai adoraria falar com voc sobre isso.
      - Voltarei um outro dia - prometeu Joo Henrique com prazer.
      Uma vez na rua, Jarbas considerou:
      - Foi uma noite muito agradvel!
      - Maravilhosa!
      - Pelo jeito, pretende voltar logo.
      - Claro. Voc no?
      Jarbas olhou o amigo, pensou um pouco, depois disse:
      - No. Sinto-me bem, vendo-o to animado. Fez-lhe bem. Marianinha  uma moa muito atraente e culta. Mas eu preciso confessar-lhe uma coisa.
      - O que ?
      - Voc  meu melhor amigo, meu companheiro no trabalho, no posso esconder a verdade.
      - Fala logo, o que ?
      - Estou apaixonado por Maria Lcia. Desde nosso baile de formatura que eu gosto dela.
      - Voc! Por que nunca me disse nada?
      - Porque eu pensava que ela gostava do Ulisses. Mas agora, ela est gostando de mim, e eu estou mais apaixonado a cada dia.
      - Tem certeza disso?
      - Tenho. Gosto do seu olhar, do seu sorriso, do seu jeito doce. Se ela me aceitar, eu pretendo casar-me.
      Joo Henrique abraou o amigo emocionado.
      -  mesmo srio!
      - . Vou esperar um pouco mais. Ela est despertando para a vida. No pretendo aproveitar-me da sua ingenuidade. Se ela me amar de verdade, serei o mais feliz 
dos homens. Por isso, pretendo estar ao lado dela o mais que puder. Pretendo conversar com seus pais e pedir permisso para isso.
      - A minha voc j tem. Se vocs se casarem, ser a felicidade total. Meus pais adoram voc.
      - Obrigado, amigo.
      - Vamos acabar parentes.
      - Deus o oua!
      Jos Luiz chegou em casa e encontrou Maria Helena na sala de estar. Sentia-se magoado e triste. Como ela se deixara enganar desse jeito? Por que no lhe contara 
nada e ainda lhe mentira?
      A injustia com Luciana doa-lhe. Ela havia se dedicado em ajud-los e no merecia essa desconfiana. Graas a ela, Maria Lcia sara da depresso, Joo Henrique 
superara sua crise e at os dois, ele e ela, haviam aprendido a se amar e a viver melhor.
      Ele sentia-se ferido. Apesar de seus erros passados, sempre respeitara a famlia. Julg-lo capaz de tanta desfaatez machucava-o.
      Maria Helena, vendo-o, notou que ele no estava bem. Porm, no disse nada. Foi ele quem falou com ar srio:
      -        Venha, Maria Helena. Precisamos conversar.
      Dirigiu-se ao quarto, ela o acompanhou com o corao aos saltos. O que teria acontecido? Teria ele descoberto que ela sabia de tudo?
      Uma vez no quarto, ele fechou a porta a chave, puxou-a para a cama, fazendo-a sentar-se a seu lado. Ela no disse nada. O ar srio do marido fazia-a sentir 
que precisava acautelar-se. Ele comeou:
      -        A nossa conversa ser franca e sincera. J  tempo de esclarecermos o que vai em nosso corao e sinto que no d mais para vivermos juntos como at 
agora, escondendo nossos sentimentos, numa situao falsa que nos distancia e separa.
      Maria Helena, plida, pensou angustiada: - "Ele vai dizer que ama outra mulher. Que no me ama mais e que vai embora! "Sentiu as pernas trmulas e corao 
batendo descompassado.
      No desejava perd-lo! Mesmo sabendo que ele tinha outra, pelo menos queria t-lo ao lado, cuidar dele, ter a iluso de ser amada.
      -        No faa isso. - balbuciou com voz apagada. - Deixe tudo como est.
      -        No posso. No  esse o tipo de vida que eu desejo para mim. Descobri que estou vivo. Que posso amar e ser feliz. Pensei haver encontrado tudo isso. 
Agora, porm, sei que estava enganado. Voc disse que me ama, mas me julga um canalha. No posso aceitar isso. Sempre a admirei pela sua dignidade, sua postura, 
sua honestidade e agora, descobri que isso no era verdade. Voc me enganou e no confiou em mim.
      -        Por que me censura? Voc a quem dei tudo de mim e que me humilhou to cruelmente?
-        Nunca a humilhei. Confesso que nosso casamento foi um erro. Que eu amava outra mulher a quem preferi deixar, interessado em posio social, poder, dinheiro. 
Nessa hora, Maria Helena, estou cansado de mentiras e quero que me veja como sou. Fui falso, cruel, usei voc para alcanar meus fins. Claro que voc me atraia, 
seno no teria sido possvel a unio. Mas amar, eu amava outra. Era jovem e cheio de iluses. Pretendia casar e continuar meu amor com Suzane.
      Maria Helena, braos cados ao longo do corpo, ouvia calada e as lgrimas desciam-lhe pelas faces plidas. Ele prosseguiu, no se poupou, contou tudo. Como 
procurara Suzane, seu tormento, seu remorso, seu amor infeliz, sua busca incessante.
      - Eu no vivi. Fiquei parado no tempo, cheio de remorsos e me culpando a cada dia. At que eu soube que ela havia morrido. Consegui o endereo do tmulo e, 
numa tarde de domingo, fui at l. Levei flores, ajoelhei-me e chorei sobre sua sepultura. Foi a que encontrei Luciana. Estava intrigada porque eu chorava no tmulo 
de sua me. Conversamos. Pelas datas, cheguei a concluso de que ela era minha filha.
      Maria Helena deu um pulo sobressaltada:
      - Filha?
      - Sim. Minha filha. Acompanhei-a  casa e tive a certeza.
D. Egle no pde esconder a verdade. Pedi-lhe perdo. Falei do meu arrependimento. Mostrei-me disposto a reconhec-la publicamente como minha filha. Ela delicadamente 
no aceitou. No desejava molestar minha famlia.
      - Meu Deus! Quem podia supor isso?
          - Concordei. Mas no podia deixar de fazer alguma coisa. Comprei uma casa, dei-lhe uma mesada. Cedo descobri que tinha uma filha de alma nobre e bondosa, 
inteligente e linda. Se quer saber, foi ela quem mudou minha vida. Transformou-me. Com ela voltei a viver. Eu estava parado no tempo. Preso ao passado, a um amor 
impossvel. Foi ela quem me fez perceber o quanto estava cego. Foi ela quem me mostrou a felicidade que eu no via e que tinha nas mos; o amor dos nossos filhos, 
o seu amor, a alegria de viver, o prazer de me sentir digno. Sabe, Maria Helena, depois que me casei com voc por interesse, sentia-me desprezvel. No conseguia 
me ver como um homem de bem. Luciana mostrou-me que eu podia reaver a dignidade perdida, amando-a verdadeiramente e sendo um pai extremoso para nossos filhos. Dedicou-se 
a Maria Lcia com afeto e ajudou-a a despertar para a vida. At Joo Henrique, ela ajudou. Trata-se de uma moa nobre o bondosa, digna. D. Egle  uma lady". Di-me 
saber que aceitou a calnia sem titubear, depois de haver recebido tanto delas. E eu? Est certo que estava cego. Parado no tempo. Mas, quando descobri que a amava, 
fui sincero. Di-me pensar que voc foi capaz de aceitar que eu houvesse sido to leviano. Ns confessamos nosso amor. Por que me ocultou essa calnia? Por que preferiu 
acreditar naquele patife do que esclarecer tudo comigo?
      Maria Helena deixou o pranto correr livremente. Cansara-se de reprimir seus sentimentos. A confisso do marido, sincera e comovida, tocava fundo seu corao. 
Por que fora to cega? Por que se deixara envolver?
      Comeou a falar sentindo cada palavra:
      - Eu acreditei porque vi vocs dois abraados. Apesar de me dizer que me amava, eu me sentia insegura do seu amor. Quando nos casamos, eu estava loucamente 
apaixonada por voc. Delirava de felicidade. Contudo, aos poucos fui percebendo e sentindo seu desinteresse. Agora compreendo o que acontecia ento. Eu sentia que 
apesar de casados, voc nunca foi meu. Havia uma barreira entre ns, separando-nos. Todas as noites, aguardava ansiosamente sua visita em minha cama e muitas vezes 
chorei a minha solido at a madrugada.
      Surpreendido, ele perguntou:
      - Por que nunca me disse? Pensei que no se importasse.
      - Um pouco por orgulho, outro pouco pelo receio de perd-lo.
      - Mas isso nos distanciou ainda mais.
      - Fui educada severamente. Era o homem quem deveria tomar as iniciativas. A mulher nunca. Muitas vezes temi sucumbir e mostrar o quanto o amava. Eu me sentia 
feliz em v-lo todos os dias, cuidar de suas coisas, de sua alimentao, sair com voc, tlo ao meu lado.
      - Voc mostrava-se to fria, to distante!
          - Era minha defesa. Estremecia quando me tocava. Temia revelar o que sentia. Foi isso que me fez acreditar. A barreira que havia entre ns e que eu no 
sabia derrubar, a insegurana de me sentir desprezada, o fato de eu haver ousado dizer-lhe que o amava, tudo me perturbava e quando Ulisses me escreveu a carta annima, 
pareceu-me verdade. Sempre me perguntara como voc se tinha arranjado. Fazia anos que no me procurava. Um homem no pode ficar sem mulher. Eu suspeitava que haveria 
alguma outra. Eu poderia perdoar isso, como coisa do passado. O que me chocou foi pensar que fosse Luciana. Fiquei louca de cimes. Ela era jovem, linda, como competir? 
Fiquei desesperada.
      - Por que no me disse nada?
      - Tive medo. Pensei que estivesse loucamente apaixonado por ela. Se eu falasse, poderia deixar-me e isso eu no suportaria.
      - Preferiu sofrer em silncio.
      - Sim. No queria prejudicar nossa famlia. Agora vejo que agi mal. Deveria ter conversado com voc francamente.
      - Maria Helena, h muito que deveramos ter sido sinceros um com o outro. Agora sei que uma vida em comum precisa ser solidificada na confiana mtua. H que 
haver sinceridade. Durante anos, convivendo, ramos como dois estranhos.
      - Lamento o que aconteceu. Voc se diz magoado, mas eu tambm estou. Ambos nos enganamos, agimos de forma inadequada, nos machucamos e sofremos. Mas agora, 
s uma coisa me preocupa. O que vamos fazer daqui para frente? Apesar de tudo, meu amor por voc continua mais forte e vivo do que nunca. Tenho medo de perd-lo. 
Eu o amo, sincera e apaixonadamente. Voc  digno, bom e inteligente. Eu o admiro.  o que eu sinto de corao. Gostaria que fizesse o mesmo. Que me dissesse o que 
sente de verdade. Preciso saber. No me poupe. Seja honesto.
      Jos Luiz olhou-a nos olhos e colocou as mos nos braos dela dizendo:
      - Eu tambm a amo. O passado est morto. Suzane tem seu lugar em meu corao como uma coisa bonita em minha juventude. Mas  voc que eu quero agora, que me 
emociona e faz meu corao bater mais forte. A quem respeito, admiro, desejo beijar, abraar, viver junto. Eu quero voc. Acho que sempre quis, sem saber.
      Maria Helena olhava-o com paixo, e ele a apertou em seus braos beijando-a repetidas vezes apaixonadamente.
      - Esqueamos o passado - disse ela. - Comecemos uma vida nova daqui para frente. Podemos ser felizes. Agora, nenhuma sombra h entre ns.
      - Penso em Luciana.
      Maria Helena ficou pensativa durante alguns instantes, depois disse:
      - Estou envergonhada. Devo pedir-lhe que me perdoe. Pobre Maria Lcia. Sofreu muito a separao. Houve momentos em que temi que voltasse ao que era antes. 
Faltou pouco.  preciso contar-lhe a verdade.
      - Ela j sabe. Jarbas levou-a ontem ver Luciana. Foi ela quem lhe contou tudo. Luciana no sabia de nada.
      - Maria Lcia tambm sofreu. Mostrou-se solidria comigo. Tivemos uma conversa. Queria que ela se afastasse de Luciana. Temia que se recusasse. Surpreendentemente, 
foi mais fcil do que pensava. Ela atendeu-me prontamente. Mas, sei que ela sofreu.
      - No foi s a voc que Ulisses iludiu. Envolveu Maria Lcia tambm. Ela estava enamorada, e ele fingiu que a amava.
      Maria Helena indignou-se:
      - Que canalha!
      - Queria evitar que ela procurasse Luciana e esclarecesse tudo. Fez-lhe promessas de casamento, alm de dizer-lhe o mesmo que a voc, disse que Luciana o amava 
e desejava a todo custo impedi-lo de namor-la. Estava comigo por dinheiro e o queria para o amor.
      - Que ousadia! E pensar que freqentava nossa casa h anos! Que mau-carter. Pobre Maria Lcia, como deve ter sofrido. Por isso foi to dcil quando lhe pedi 
para no ver Luciana.
      - Felizmente ela deu-se conta do seu engano. O noivado de Luciana e o caso de Marianinha ajudaram-na a perceber a verdade. Quando Jarbas a convidou para ir 
ver Luciana, ela aceitou. Estava cheia de dvidas!
      - Ento eles foram l!
      - Foram. Jarbas sabia que ela era tambm minha filha. Luciana pediu-lhe ajuda. Sentia que algo de muito grave havia acontecido e desejava saber o que. Chamou-o, 
contou-lhe sobre o nosso passado.
      - Eu pensei que eles estivessem namorando.
      - E esto. Jarbas  apaixonado por nossa filha h tempo. Ela andava iludida com Ulisses.
      - Que horror!
      - Agora, est tudo bem. Eles esto se entendendo.
          Maria Helena ficou pensativa por alguns instantes, depois disse:
      -        Como fui tola!
      Jos Luiz aduziu:
      -        Todos nos enganamos. Agora, no adianta lamentar o passado. Chega de desencontros. Luciana est certa. Ela diz que a felicidade est no presente. 
 preciso aprender a senti-la, valoriz-la. Ns nos amamos, temos uma familia adorvel, conforto, no nos falta nada. Estou cansado de viver no passado, lamentando 
por atitudes e decises que agora j no posso mudar. O passado j acabou e no volta nunca mais.  tempo de vivermos nossa vida com a alegria de estarmos juntos, 
de podermos conviver e tornar nosso tempo mais agradvel.  o que pretendo fazer de agora em diante. Apreciaria que voc fizesse o mesmo. Deixasse de lado os enganos 
do passado. Passasse uma borracha no que ficou para trs e sentisse como  bom nos amarmos, confiarmos um no outro, colocando nossos sentimentos reais e verdadeiros 
em nossas atitudes.
      Maria Helena olhou-o com olhos brilhantes.
      -        Sei que tem razo. Tambm desejo viver a alegria que sinto em perceber que ainda temos tempo para usufruir do nosso convvio. A imagem que criei de 
voc, quando nos casamos, no era verdadeira, mas a que imaginei todos esses anos tambm no. Hoje conheo voc como  e confesso que me agrada muito. Nada pode 
ser melhor para mim do que estar aqui, com voc, agora. Voc falou em viver o presente, a felicidade,  isso o que estou sentindo agora. De fato, sou muito feliz.
      Jos Luiz abraou-a com efuso e sentiu a voz embargada. Seu corao tambm cantava de alegria e ele prazerosamente deixou-se ficar.

CAPTULO 21

      Sentado na pequena sala da delegacia, Ulisses esperava. Aqueles dias na priso haviam sido um pesadelo. Embora houvesse recebido um tratamento especial pelo 
nome de sua famlia, e o delegado simpatizasse com o seu drama de apaixonado (ele continuava no papel), no o libertara.
      O        coronel Albuquerque era muito influente e estava realmente empenhado em punir o rapaz exemplarmente. A priso suja, a cama dura, a comida horrvel, 
a humilhao e a raiva, eram insuportveis.
      Mandava comprar comida fora, e a tia conseguira-lhe um advogado a quem encarregara de tir-lo dali. Esperava-o com impacincia.
      O        dr. Antero chegou sobraando sua pasta de couro, e Ulisses levantou-se ansioso. Quando o guarda fechou a porta, e ele sentou-se do outro lado da pequena 
mesa que estava em sua frente, Ulisses o cumprimentou e antes mesmo de tornar a sentar-se indagou:
      -        E ento?
      O        advogado colocou a pasta sobre a mesa, tirou o chapu e colocou-o sobre ela.
      -        Bem, - comeou ele, escolhendo as palavras - preciso ter calma.
      -        Calma? Ficar aqui nesta priso infecta e voc pede calma? Quero saber quando vai me tirar daqui. Sou de classe. No posso ser tratado como uma pessoa 
qualquer.
      -        Ficar nervoso no vai facilitar as coisas. Voc est encrencado. O coronel  influente e est empenhado em mant-lo aqui.
      -        Ele no pode fazer isso. Afinal, ningum saiu ferido.
      -        Ele no esquece o vexame da filha e o susto que passaram.
      -        Preciso sair daqui. No agento mais isto.
      -        Estou fazendo o que posso.
      -        Tambm tenho amizades influentes. Minha tia no lhe deu as cartas para procur-los?
      -        Deu. E eu fui.
      -        E ento?
      O        advogado coou a cabea indeciso.
      -        Fale. O que eles disseram?
      -        Bem... se recusaram a intervir, O doutor Menezes disse que no mover uma palha para libert-lo, e o dr. Campos disse que voc teve o que mereceu.
      -        E o Ernesto Gomes?
      -        Que foi bem feito.
      -        Bandidos! Em resumo...
      -        Ningum quis ajudar. Ao contrrio, preferem v-lo preso. Disseram que o riscaram da lista de amigos. E se quer saber, no o recebero mais em casa.
      -        Que scia de traidores!
      -        A coisa anda feia. Na sociedade, nos clubes, nas casas de famlia, esto todos contra voc.
      Ulisses levantou-se e comeou a andar de um lado para outro preocupado.
      -        Nesse caso, precisamos usar outros meios. O dinheiro compra tudo. Vamos dar um jeitinho, talvez o delegado ou o prprio carcereiro, facilitem minha 
sada.
      -        Pensa em fugir?
      -        Pelo menos por algum tempo. Esconder-me at que esqueam.
      -        Seria pior. A lei  dura para o infrator reincidente. Se o apanham, a pena dobra. Depois, para onde iria? Sua casa, impossvel, e todos esto contra 
voc. No teria como esconder-se e logo seria descoberto. O coronel moveria cus e terra.
      -        O problema  meu. O seu papel  facilitar minha sada.
      -        Como arranjar o dinheiro? Sei que est quebrado. Sua tia est passando dificuldades.
      -        Ela ter que dar um jeito, arranjar seja como for. V la, fale com ela. Diga que no suporto mais ficar aqui. Faa-me um favor. Pea-lhe para dar 
um pulo at aqui.
      -        Est bem, irei.
      Depois que ele saiu, o carcereiro convidou-o a recolher-se no pequeno quarto que lhe servia de cela. Estirado na cama dura, Ulisses arrependeu-se do passo 
impensado que dera. Fora estpido e imprudente. Aqueles idiotas, que se diziam seus amigos, puseram tudo a perder e ainda se saram bem, como heris. Eles ficaram 
com o papel de gal, e ele como vilo. Eles no perdiam por esperar. Agora, precisava sair dali, defender a pele. Seu instinto advertia-o de que o coronel no sossegaria 
enquanto no acabasse com ele.
      Precisava pr-se ao largo. Talvez fosse melhor sair da cidade. Estava riscado na sociedade. Endividado, e sua mentira sobre a herana, descoberta. Ningum 
lhe emprestaria um nquel sequer. Restava-lhe a casa de famlia. Nunca quisera vend-la porque representava seu trunfo para conseguir um casamento rico. Enquanto 
pudesse manter as aparncias, pensava, teria chance. Agora, descobertas suas mentiras, estava perdido.
      Seria melhor vender a casa e com o dinheiro tentar a sorte em outro lugar. Faria isso. Para onde iria? O coronel o perseguiria, tinha a certeza. Foi ento 
que decidiu. Iria para Portugal. Prepararia tudo e tomaria o prximo vapor para l. Tomada essa deciso, esperou a tia com impacincia.
      S no fim da tarde foi que ela chegou. Estava abatida e triste. Sentia vergonha. Parecia-lhe que todos a apontavam, e ela trancara-se em casa, de onde sara 
diante da insistncia do advogado e do desespero do sobrinho.
      Vendo-o, abraou-o comovida. Ulisses, percebendo que o carcereiro se afastara e fechara a porta, disse em voz baixa:
      - Tia, preciso da sua ajuda. Fiquei sabendo que o coronel Albuquerque pretende vingar-se. Deseja matar-me!
      Ela torceu as mos aflita:
      - Valha-me Deus! Que maldade.
      - Pois . No contente em destruir-me com infmias e mentiras, ainda deseja acabar comigo. Preciso da sua ajuda para fugir daqui.
      - Eu? O que posso fazer?
      - O que eu disser. Estive pensando. Oua-me com ateno.
      Segurou as mos dela, olhando-a nos olhos com determinao.
-        O que quer que eu faa?
      -        Depois do que aconteceu, no posso mais ficar no Rio de Janeiro. Estou desmoralizado, perdido. Alm do mais, h o coronel que quer me matar. Ns no 
temos dinheiro. Precisamos vender a casa.
      -        Nossa casa? - disse ela com voz dorida.
      -        Sim.  a nica forma de me salvar. Voc vai ao seu Manoel Carvalho, que sempre quis compr-la e vende.
      -        A casa  s o que temos. O que ser de ns sem ela?
      -        J pensei em tudo. Iremos embora para Portugal. L, comearemos vida nova, longe de tudo isto. As ms lnguas falam. Como voc vai ficar aqui depois 
do que aconteceu? Com o dinheiro, montaremos um negcio qualquer e viveremos bem.
      Ela meneou a cabea indecisa:
      -        No sei no...
      -        Prefere ver-me morto? O que far se eles me matarem?
      Ela estremeceu horrorizada.
      -        No diga isso. Voc  como meu filho! S tenho voc neste mundo.
      -        Ento, faa o que estou falando. O tempo passa e eu tenho medo.
      -        Est bem. Farei o que me pede. Seja tudo pelo amor de Deus.
      -        Assim  melhor, tia. Vai fazer tudo como eu disse. Vai na agncia de viagens e me traz as partidas mais prximas para Europa. AI, planejaremos tudo. 
Venderemos a casa, compraremos as passagens e quando tudo estiver pronto, partiremos.
      -        Como sair daqui?
      -        No se preocupe. Com dinheiro na mo, ser fcil. Agora v e faa tudo o mais depressa que puder.
      Quando a tia saiu, Ulisses sentiu-se mais calmo. Se eles pensavam em acabar com ele, enganavam-se. No lhes daria esse gosto. Em Portugal, tinha alguns amigos 
com quem pretendia recomear a vida. Formara-se na universidade com dificuldade. No se interessava pelos estudos, nem pela profisso. No pretendia trabalhar para 
ganhar a vida. No se contentava com migalhas. Queria mais. Em todo caso, o diploma servia-lhe para dar-lhe posio e conseguir impressionar. Uma vez l, onde ningum
sabia de nada, poderia continuar a representar seu papel de rico herdeiro e conseguir o casamento que precisava.
      Haveria de mostrar aos dois falsos amigos o quanto valia, quando rico e bem-posto, regressasse ao Rio de Janeiro. Eles haviam de ver. Ento, sena ele quem 
lhes daria as costas e no os queria para relacionar-se.
      No dia seguinte, Eufrsia voltou  delegacia para ver o sobrinho, levando na bolsa as informaes que ele pedira.
      Ulisses esperava-a ansiosamente. Apanhou os folhetos das viagens e leu-os com ateno.
      -        Veja, tia, h um vapor que sair na prxima semana, dia cinco, vejamos, tera-feira. Iremos nele. Falou com o seu Manoel?
      -        Falei. Disse-lhe que queria ir-me para So Paulo, por causa do escndalo, conforme mandou.
      -        E ele?
      -        Mostrou-se interessado. Quer ficar com a casa.
      -        Por quanto?
      -        Oito contos de ris.
      -         pouco. Est se aproveitando da situao. A casa vale pra mais de quinze. Trata-se de um palacete.
      -        Isso disse-lhe eu.
      -        Diga-lhe que h outro interessado em pagar dezoito contos e vamos vender a ele.
      -        Mas no h ningum.
      -        Faz de conta que h. Diga-lhe isso e ver que ele pagar mais.  preciso saber negociar.
      -        Ah! se eu pudesse sair daqui! - reclamou Ulisses.
      -        Talvez piorasse as coisas. Ele no sabe que pretendemos ir juntos.
      -        Nem dever saber. Se descobrem nosso plano, estarei perdido. Voc vai fazer o seguinte...
      Ulisses cuidadosamente ensinou o que a tia deveria fazer, desde reservar as passagens at a venda da casa e os preparativos para a viagem onde usaria documentos 
falsos de identidade.
      Quando ela saiu, sentiu-se aliviado. Sempre fora inteligente e soubera defender-se muito bem. No seria agora que iriam derrub-lo.
      Quando o carcereiro apareceu, encontrou-o triste e encolhido em um canto.
      -        Se quiser que eu v comprar comida, tem de ser agora, enquanto o delegado foi almoar.
      Afonso oferecia-se todos os dias, esperando embolsar a gorjeta.
      -        Estou sem fome - disse Ulisses fingindo-se arrasado - e o pior,  que no posso viver sem essa mulher! O que ser de mim de hoje em diante?
      O        outro coou a cabea e sugeriu:
      -        Deixe disso. O coronel no  sopa no.
      -        Estou desesperado. Eu adoro a Marianinha!
      -        Voc est se desgraando por causa dela. No vale a pena. Um moo como o senhor, rico, bem-posto. Deixe disso!
      Ulisses levantou-se e aproximando-se de Afonso disse-lhe com voz splice:
      -        Se ao menos eu pudesse v-la pela ltima vez!
      -        Melhor no fazer mais besteira.
      - Vou contar um segredo. Voc tem sido meu amigo. Posso confiar em voc?
      - Pode. Se eu puder ajudar...
      - Minha tia deu-me uma triste notcia. Mas,  segredo.
      O        outro aproximou-se mais, baixando o tom de voz:
      -        Fale! Confie em mim!
      -        Sei de fonte limpa que o coronel me jurou de morte.
      Afonso empalideceu:
      -        Cruz-credo! Como soube?
      -        No posso dizer. Minha tia descobriu. Planejaram tudo na tera-feira. O matador vir aqui.
      -         impossvel! Vou falar com o delegado. Dobrar a guarda.
      -        No vai adiantar. Isso s vai adiar minha morte.
      -        Que situao!
      -        Estou desesperado. Preciso sair daqui antes que seja tarde. Voc  meu amigo. Se me ajudar, no se arrepender. Minha tia est vendendo a casa. Estou 
disposto a dar-Iher bom dinheiro pelo favor.
      Os olhos de Afonso brilharam.
      -        No posso permitir que cometam esse crime.
         -        Sem falar que o matador pode at mat-lo para entrar aqui.
      -        Deus me livre! Vire essa boca pra l!
      -        Ento, vai me ajudar?
      -        No posso recusar.
      -        Vamos planejar tudo.
      Ulisses explicou a ele o que fazer, combinando que o deixaria amarrado para inocent-lo da fuga. Tudo acertado, ele aguardou as providncias da tia e preparou-se 
para a fuga.
      O        vapor partiria no comeo da noite. Ele fugiria assim que escurecesse e iria ao encontro da tia em uma penso no cais, onde trocaria de roupa e colocaria 
uma barba como disfarce. Embarcariam no navio, onde as bagagens j teriam sido levadas pela manh.
      Eufrsia no conseguiu vender a casa por quinze contos de ris, mas Manoel, pressionado, chegou aos doze, e Ulisses aceitou prontamente. Isto feito, tudo acertado, 
no dia combinado quando o delegado saiu para jantar, Afonso, tendo recebido o dinheiro adiantado e colocado em lugar seguro, deixou-se amarrar por Ulisses e quando 
escureceu, ele saiu pelos fundos dirigindo-se  penso do cais conforme o combinado.
      Quando o navio apitou dando o primeiro sinal, Eufrsia, tendo colocado um grande chapu cujo vu lhe cobria o rosto, dando o brao ao sobrinho, envelhecido 
por uma barba que lhe cobria metade do rosto, subiu as escadas que conduziam ao convs. Ningum desconfiou, e eles, satisfeitos e aliviados, fecharam-se no camarote, 
fazendo planos para o futuro.
      Era j noite quando o navio levantou ncora e zarpou.

CAPTULO 22

      Sentado em seu gabinete, tendo um projeto estendido sobre a mesa, o coronel Albuquerque debruava-se interessado, ouvindo com a ateno as explicaes de Joo 
Henrique.
      Marianinha, sentada ao lado, estava muito interessada.
      -        Precisamos ter conscincia de que a nossa cidade, uma das mais belas do mundo, precisa ser cuidada, valorizada, amada - dizia Joo Henrique com entusiasmo.
      -        Por certo - admitiu o coronel com satisfao. -Precisamos convocar os homens pblicos e o prprio governo a que se decidam a trabalhar. Estou convencido 
de que s o esforo conjunto vai poder mudar este estado de calamidade em que vive nossa cidade.
      Prola entreabriu a porta e entrou dizendo com um sorriso:
      -        Permitam-me interromper. Esto a h horas. J chega. Vou servir o jantar.
      -        Desculpe, D. Prola. No notei o tempo passar. Espero no haver causado muitos problemas. J estou de sada. Continuaremos um outro dia.
      -        De forma alguma. No permitirei que saia agora. Voc janta conosco. J coloquei seu prato  mesa.
      -        No se preocupe, D. Prola. Vou para casa.
      Desta vez o coronel interveio:
      -        No nos far uma desfeita dessas...
      -        Desfeita?
      - Claro. Roubando-nos o prazer de continuarmos conversando - insistiu ele.
      -        Nesse caso, terei tambm muito prazer em ficar.
      Marianinha aproximou-se e segurando o brao de Joo Henrique, disse:
      - Vamos agora dar uma trgua. Fazer uma pausa para outros assuntos. H uma revista que recebi de Viena que gostaria de mostrar-lhe.
      Joo Henrique sorriu encantado. O jantar decorreu agradvel e depois do licor, Mariana e Joo Henrique sentaram-se lado a lado no sof para verem a belssima 
revista, repleta de gravuras de arte
e das novidades da Europa. O coronel fumava seu charuto conversando com Prola, e Ester entretinha-se lendo.
      O        ambiente calmo e agradvel foi interrompido quando um criado apareceu assustado.
      - Coronel, tenho uma notcia para o senhor.
      - O que foi, Antnio?
      - O moo fugiu da cadeia.
      O        coronel deu um salto.
      - Fugiu? Como? Quem disse?
      - O Brs! Passou na delegacia e havia um corre-corre. O Afonso foi encontrado amarrado, e o moo escapou.
      Prola olhou assustada para Mariana:
      - Meu Deus! E agora? - disse. - E se ele voltar aqui?
      - No se atreveria! - esbravejou o coronel.
      - V chamar meus homens para guardar a casa. Dois ficam aqui, e dois vo comigo, pegar aquele safado.
      Joo Henrique levantou-se rpido.
      - O que posso fazer?
      - Fique aqui at que eu volte. Ficarei mais tranqilo com voc aqui. Nunca se sabe o que aquele maluco pode tentar.
      Joo Henrique abanou a cabea:
      - No creio que venha aqui. Com certeza vai tentar escapar.
      - No deixarei que isso acontea. Vasculharei a cidade se preciso for, hei de traz-lo de volta. Posso contar com a sua cooperao?
      - Claro, coronel. Estarei atento e esperarei pelo seu regresso.
      - Vou deixar dois homens na guarda da casa.
      Vendo os homens chegarem armados e dispostos a perseguir Ulisses, Joo Henrique entristeceu-se. Por que ele escolhera aquele caminho? Fugir representava o 
terror de ver-se castigado. Lembrou-se dos tempos de estudante e dos bons tempos de universidade. Embora Ulisses sempre transgredisse as regras, nunca imaginou que 
chegasse a tanto. E se o prendessem? Temia que o ferissem. 
      Calado, Joo Henrique sentou-se novamente no sof, depois que o coronel saiu, recomendando cuidado e ateno. Mariana no disse nada. Sentou-se calada. Depois 
de alguns minutos, Joo Henrique caiu em si:
      - Desculpe. No esperava que acontecesse uma dessa.
      - Apesar de tudo, voc lamenta, no ?
      Sentindo-se compreendido, Joo Henrique deu livre curso s suas preocupaes.
      - Sim, lamento. Afinal foi meu amigo, companheiro de universidade, graduou-se, tinha um nome de famlia,  jovem, poderia ter um melhor destino, construir 
alguma coisa, ser feliz.
      - Posso entender. Quando vejo um moo elegante, eu diria bonito, boa aparncia, fazer o que ele fez, tambm lamento. Mas, ao mesmo tempo, sei que cada um d 
o que tem, e Ulisses, por mais que sua aparncia iludisse, no sabia ser melhor. Achou que podia usar as pessoas, seus sentimentos e isso nunca deu certo. Havia 
qualquer coisa nele que no me agradava. No poderia precisar, mas foi isso que me impediu de me apaixonar.
      - Ele disse que voc se interessou a principio.
      - Eu tentei. Afinal, ele era to amvel, cumulava-me de gentilezas e atenes que eu muitas vezes me sentia injusta, ingrata por no conseguir aceit-lo. Naquele 
tempo, cheguei a julgar-me tola por isso. Agora sei que eu estava certa. Era como uma intuio, uma certeza de que no seria feliz a seu lado.
      - Posso entender. As vezes a gente sente coisas que no se pode explicar com palavras.
      Joo Henrique recordava-se de Antonieta. No fundo, sempre soubera que ela no ficaria com ele.
      Os dois continuaram conversando agradavelmente, e Joo Henrique sentiu-se bem ali, com ela a seu lado. Pde perceber o quanto ela era sensvel e equilibrada. 
Alm disso, seus olhos negros o fitavam brilhantes e seus lbios vermelhos e carnudos o faziam desejar beij-la, ali mesmo. Lanou um olhar furtivo para Prola que 
folheava uma revista e para Ester que continuava lendo calmamente seu livro.
      O        tempo foi passando, e Prola apressou-se a oferecer um ch, e Joo Henrique s se deu conta do avanado das horas quando o pesado relgio do hall 
bateu meia-noite.
      - O que estar acontecendo? - disse Prola, pensativa.
      - Saberemos quando o coronel chegar. Se esto com sono, no faam cerimnias. Podem recolher-se e eu ficarei aqui, esperando por ele.
      - De forma alguma - respondeu Prola. - Ningum conseguir dormir com essa preocupao.
      - Ficaremos aqui juntos - decidiu Mariana. - Sinto-me mais segura. Depois,  to bom t-lo conosco que desejo aproveitar todos os minutos.
      Lisonjeado, Joo Henrique sorriu e diante do que viu nos olhos dela, aproveitou-se de uma sada rpida de Prola para pegar a mo de Mariana e lev-la aos 
lbios.
      A moa estremeceu e ele teve vontade de tom-la nos braos, porm conteve-se. Prola voltava, sentando-se em frente a eles.
      Contudo, os olhos dela falavam mais do que as palavras, e Joo Henrique sentiu uma emoo doce envolver-lhe o corao. Mariana estaria interessada nele? Esse 
pensamento que algum tempo atrs t-lo-ia feito fugir do - seu convvio, agora dava-lhe uma sensao de alegria, bem-estar, excitao, desejo, carinho. Como poderia 
descrever seus sentimentos? Nem ele mesmo sabia.
      Eram mais de duas da manh quando o coronel regressou. Ester adormecera sobre o livro, Prola recostara-se na poltrona, s Joo Henrique e Mariana no viam 
o tempo passar, sentindo o prazer da proximidade, do roar de braos, dos olhares intencionais e eloqentes, dos beijos furtivos que Joo Henrique dava nas mos 
dela.
      O        coronel entrou agitado. Joo Henrique levantou-se:
      - Nem sinal dele. O patife sumiu como por milagre. O Afonso conta uma histria que no me convenceu, O Manoel do bar disse-me que era ele quem comprava comida 
para o preso. O malandro tratava-se bem. Para isso, certamente Afonso seria gratificado. Cesteiro que faz um cesto, faz um cento!
      - O senhor suspeita dele?
      - Deve t-lo ajudado na fuga. Amanh vou ter uma conversa com ele. H de contar tudo. Vocs vero.
      Foi a vez de Prola intervir:
      - Chega por hoje. No adianta enervar-se. No  bom para a sade.
      - Pelo menos por aqui ele no passou. Os dois que ficaram vigiando so meus melhores homens.
      -        Ulisses pode estar desequilibrado, porm no creio que tivesse a coragem de aparecer por aqui. O que ele quer  safar-se. Pr-se ao largo. Est com 
medo. - comentou Joo Henrique.
      -        Voc pode ter razo. Contudo, nunca se sabe. Depois do que ele fez!
      -        Sei como ele faz. Na escola quando se enfurecia, no via quem tinha pela frente. Precisvamos segur-lo. Mas depois que passava, ficava apavorado 
com tudo e com todos.
      -        Quero crer que esse moo seja descontrolado. Ficou rfo muito cedo de maneira trgica - ajuntou Prola.
      -        L vem voc com sua piedade. O que ele fez no tem justificativas.
      -        No justifico, mas posso entender e lamentar. Um jovem jogar a vida fora desse jeito! - rematou ela.
      -        Sua generosidade  conhecida, minha querida - disse o coronel, passando carinhosamente o brao pelos ombros da esposa.
      -        Joo Henrique, hoje aumentei minha dvida com voc. Obrigado por haver me esperado at to tarde.
      -        Eu  que agradeo a confiana, coronel. Fui privilegiado por haver ficado tanto tempo em to boa companhia. Nem senti o tempo passar.
      Quando Joo Henrique se despediu, o coronel disse-lhe:
      -        No demore a voltar aqui. Estou muito interessado em suas idias. Juntos ainda poderemos ajudar a nossa cidade.
      -        Sem dvida, coronel. Voltarei certamente.
      -        Papai fala srio, Joo Henrique. No so palavras convencionais. Ele no  disso.
      -        O prazer de estar aqui foi tanto que os desejos do coronel so ordens.
      Joo Henrique despediu-se e saiu. Olhou o cu estrelado e suspirou. O rosto de Mariana, a maciez de sua pele, o brilho de seus olhos, fizeram-no desejar voltar 
l no dia seguinte.
      Foi para casa pensando em arranjar uma desculpa para v-la. A fuga de Ulisses seria sua justificativa. Iria l no dia seguinte. O coronel poderia precisar 
dele, deixando-o com a famlia enquanto ausentava-se.
      No dia seguinte, Joo Henrique dormiu at tarde e s desceu para o almoo. Sentia-se leve e alegre. Nunca sua casa lhe pareceu to bonita, perfumada e florida. 
Notou que a mesa estava festiva e que todos estavam diferentes. Que fada benfazeja transformara sua famlia em pessoas bonitas, brilhantes e mais alegres? Estaria 
vendo bem ou seria um sonho?
      Maria Helena remoada, alegre, ele notou at que ela se enfeitara mais do que o usual. O pai tambm pareceu-lhe muito bem-disposto e at Maria Lcia resplandecia.
      Vendo-o, Maria Helena considerou:
      -        O jantar dos Albuquerques foi longo, sequer percebi quando chegou.
      -        Tarde, mame. Quase s trs.
      -        No estar abusando?
      Joo Henrique contou as novidades.
      -        Pobre Prola. Ficar preocupada com a filha. Depois de tudo!
      -        No creio que Ulisses seja corajoso o bastante para tentar de novo. Conheo sua covardia. O que acho  que se ps ao largo com medo do coronel.
      -        Espero que ele nunca mais volte - disse Maria Lcia.
      Joo Henrique admirou-se com a firmeza do seu tom. Sorriu um pouco indeciso, depois disse:
      -        O que aconteceu aqui? Ontem isso era um tmulo. Todo mundo triste, agoniado, hoje tudo est diferente.
      -        Inclusive voc - disse Maria Lcia.
      -         verdade. Eu estava trabalhando muito.
      -        No foi l para falar do projeto?
      -        Fui. Mas eles so maravilhosos. D. Prola, grande dama, o coronel, um homem inteligente, eu diria brilhante e h Mariana.
      Maria Helena olhou o marido agradavelmente surpreendida. Jos Luiz limitou-se a dizer:
      -        Uma bela e inteligente mulher.
      -         verdade - concordou Joo Henrique. - Deu-me boas sugestes. Ela estuda muito as questes sociais, adorou minhas idias.
      -        O difcil ser voc conversar com ela sobre coisas to srias - comentou Jos Luiz.
      Joo Henrique riu sonoramente.
      - No foi fcil concentrar-me no assunto. Para ser franco, no consigo recordar suas palavras.
      - Em compensao, talvez recorde seu perfume, a cor de seus olhos.
      Todos riram maliciosos. O almoo decorreu alegre e depois Maria Helena pediu ao marido:
      - Vamos todos para a sala e conversar. De hoje em diante, no desejo que paire nenhum segredo entre ns. Joo Henrique precisa saber de tudo.
      Sentados no aconchego agradvel da sala de estar, tendo entre as suas a mo da esposa, Jos Luiz contou tudo. Foi objetivo e sincero.
      Joo Henrique, emocionado, ouviu em comovido silncio. Ao final comentou como para si mesmo:
      - Eu, egosta, pensei s em minha desiluso, como se fosse a mais negra tragdia. Hoje percebo como fui ingnuo, e a felicidade que eu possuo por ter pais 
como vocs. Atravessando tantos problemas, jamais deixaram de nos apoiar e ajudar. Pai, agora compreendo muita coisa. Pobre Luciana. Foi a mais injustiada em tudo 
isso. Foi quem nos deu mais e nunca pediu nada em troca. Respeitou nossa escolha, sentindo-se rejeitada por quem s fez bem, esperou com a dignidade dos iluminados 
e inocentes que tudo se esclarecesse. O que faremos para remediar tanta injustia?
      - Propus reconhec-la como filha legtima, ela no quer. Vai se casar. Acha que o nome do marido ser suficiente -confidenciou Jos Luiz.
      - E voc, mame, como ainda no correu l abra-la e desfazer toda essa situao?
      - Esperei para contar-lhe. Gostaria que participasse conosco dessa alegria.
      - E se fssemos todos l esta tarde? - sugeriu Maria Lcia.
      - Acha que seria o mais adequado? - perguntou Maria Helena.
      Joo Henrique olhava a irm boquiaberto. Ela parecia outra pessoa, olhos brilhantes, postura firme, ousando tomar a iniciativa e o mais surpreendente  que 
sua me aceitava naturalmente.
      - Claro, mame. - respondeu ela. - Luciana ficou to feliz com minha visita! Foi to bom ter ido l! Foi a melhor coisa que eu fiz.
      -        Foi ela quem descobriu a verdade. Ela e Jarbas -esclareceu Maria Helena.
      -        Jarbas? Pelo jeito ele andou depressa - comentou Joo Henrique bem-humorado.
      Maria Lcia corou, porm, no se atemorizou. Sentia-se forte e alegre. Descobrira que podia confiar em seus sentimentos. Desde o princpio, desejara rever 
Luciana. Seu corao queria isso, mas o orgulho impedia. Aprendera que se algumas pessoas mentem e enganam, outras so confiveis e srias. Nunca mais aceitaria 
uma situao sem tentar esclarec-la diretamente com as pessoas. Arrependia-se de no ter cobrado de Ulisses o que lhe prometera. No para que ele cumprisse, mas 
para esclarecer a verdade e desmascar-lo perante a famlia. Se houvesse feito isso, por certo teria evitado muito sofrimento. Compreendia que sua postura ingnua 
favorecera a crueldade de Ulisses. Estava disposta a no mais se deixar usar por ningum.
      Vendo o olhar de Joo Henrique cheio de malcia e curiosidade, no se perturbou. Disse simplesmente:
      -        Ele sempre teve pressa, eu  que demorei para compreender.
      -        Pelo jeito ele j se declarou.
      -        Isso  segredo - retrucou Maria Lcia com um sorriso. -Ento, mame, vamos l agora?
      -        No ser melhor telefonar? - indagou Maria Helena.
      -        Eu telefono. S para saber se est em casa. Direi que vou sozinha.
      Jos Luiz, emocionado, no conseguia dizer nada.
      -        Enquanto isto, vou me preparar.
      Maria Helena subiu para apanhar o chapu e a bolsa, Joo Henrique foi tirar o carro enquanto Maria Lcia telefonava. Pouco depois, os quatro no carro dirigiam-se 
para a casa de Luciana.
      Com o corao aos saltos e o rosto vibrando de alegria, Maria Lcia tocou a sineta. O porto estava encostado, e eles entraram at a varanda. Joo Henrique 
ao lado dela e atrs Maria Helena e Jos Luiz.
      Quando Luciana abriu a porta e os viu juntos na varanda, emocionada, no conseguiu articular palavra. Maria Lcia abraou-a com fora beijando-a na face com 
entusiasmo.
      -        Luciana, viemos todos! Que alegria!
      Logo Joo Henrique abraou-a por sua vez dizendo emocionado:
      -        Voc no  s nossa irm pelo sangue,  tambm pelo corao. Estou feliz em saber disso!
      Luciana deixava as lgrimas correrem livres pelo rosto corado sem conseguir falar. Depois de Joo Henrique, Maria Helena e Luciana viram-se frente a frente. 
Luciana esperou que ela falasse:
      -        Peo-lhe que me perdoe, - disse Maria Helena.
      Luciana balanou a cabea negativamente:
      -        No tenho nada a perdoar. Fomos todos vitimas de uma mentira.
      -        Sinto-me culpada. Conhecendo voc como conheo, depois de tantas demonstraes de carter e de dignidade, eu jamais deveria ter acreditado. Voc nunca 
seria capaz de uma indignidade.
      -        Obrigada, D. Maria Helena, sinto-me recompensada nesta hora, tendo-os todos aqui. Entrem por favor.
      Egle aproximou-se e abraou-os carinhosamente. Uma vez na sala, foi Maria Helena quem falou primeiro:
      -        Depois de tudo que eu passei, decidi que nunca mais deixarei nada sem esclarecer. Percebi que se tivesse perguntado a verdade a Jos Luiz ou mesmo 
a voc, Luciana, eu no teria sofrido tanto nem feito o jogo de Ulisses. Eu ca como um patinho na armadilha. Mas, eu estava insegura e o cime  mau conselheiro. 
Ele cega e impede de perceber a verdade. Agora que Jos Luiz nos contou tudo e no h mais nenhuma sombra entre ns, sinto-me segura e em paz. Reconheo, Luciana, 
que foi voc quem nos ajudou a perceber muitas coisas. De voc s recebemos dedicao e amor. Eu terei muita honra se voc fosse minha filha! Sei que Suzane no 
se importaria em dividir esse papel comigo, uma vez que, de onde ela est, no poder fazer certas coisas. Acredito que ela nos tenha auxiliado no s quando nos 
levou a Joo Henrique como em muitas outras ocasies em que necessitamos.
      A voz de Maria Helena traa sua emoo e sinceridade. Luciana aproximou-se dela, abraando-a e beijando-a na face demoradamente.
      -        Luciana - interveio Jos Luiz - vou reconhec-la como filha legalmente.  vontade de Maria Helena tambm.
      -        Sinto-me feliz. Vocs me emocionam e enternecem. Contudo, eu no desejo que faa isso. Para que levantar essa histria perante a sociedade? No desejo 
nada a no ser o afeto de vocs. No agentava mais de saudades. Jos Antnio ajudou-me a suportar essa tristeza. Mas agora, no existe no mundo ningum mais feliz 
do que eu! Dentro de alguns dias estarei casada e realizarei meu sonho de mulher. No h necessidade de nenhum documento para justificar os laos de amor que nos 
une no corao. V-los comparecer ao meu casamento, era o que eu mais queria!
      Maria Helena ouviu-a enternecida, O desinteresse de Luciana e o desejo de salvaguardar o nome da famlia emocionavam-na ainda mais.
- Voc  muito nobre, Luciana. Renunciar a um direito seu,  muito desprendimento.
Comentou Maria Helena.
      -        No estou renunciando a nada. Ao contrrio, eu desejo estar mais com vocs a cada dia.
      A conversa fluiu animada. Falaram sobre o casamento e quando Jos Antnio chegou no fim da tarde, ainda os encontrou conversando em harmoniosa e contagiante 
alegria.

CAPTULO 23

      Os sales do clube Nutico estavam lindamente decorados para a cerimnia de casamento. Margarida preparara tudo carinhosamente e convidara a nata da sociedade 
para o acontecimento. Tanto os tapetes de veludo vermelho impecavelmente escovados como o brilho dos candelabros de prata e da baixela no salo do banquete, os arranjos 
de flores, as toalhas de linho branco, os criados, tudo reluzia.
      A um canto, a mesa para o juiz de paz que efetuaria o ato, solenemente preparada. Margarida, elegantemente vestida, circulava verificando todos os detalhes.
      Os convidados e o juiz chegaram; Maria Helena juntou-se a Margarida. De onde estava podia ver Jarbas de brao com Maria Lcia. Ele pedira-lhes permisso para 
o namoro, e Maria Lcia a cada dia revelava-se mais alegre e feliz. A emoo de Maria Helena aumentou ao ver Joo Henrique entrar em companhia dos Albuquerques, 
tendo no seu o brao de Mariana. Seus olhares apaixonados no deixavam dvidas que o namoro comeara sob a aprovao de toda a famlia.
      Ver o filho feliz, amando e sendo amado por uma mulher leal e inteligente, era seu maior sonho. Agora, tudo indicava que ia tornar-se realidade.
      A msica comeou e as pessoas aconchegaram-se perto dos cordes de isolamento para ver a noiva passar. Jos Antnio, elegante e olhos brilhantes de emoo, 
esperava diante do juiz e quando a porta principal abriu-se ao som da marcha nupcial, e Luciana entrou de brao com o pai, houve um burburinho geral.
      Ela estava linda em seu vestido de renda branca, com o corpete justo rebordado por delicadas prolas e vidrilhos, uma saia cheia de pequenos babados, salpicada 
aqui e ali de pequenos brilhos; nos cabelos, penteados em gracioso coque no alto da cabea, havia um enfeite de prolas de onde saa o vu que caia at a barra da 
saia. Nas mos, um buqu de flores naturais.
      Jos Luiz, emocionado, pensou em Suzane. Estaria ali?
      Sentia-se feliz com o casamento da filha e mais ainda pel rumo que sua vida tomara. Agradecia a Deus e sentia que Luciana fora instrumento da vida para faz-lo 
compreender que ela age, independente da nossa vontade, sempre de forma acertada e para o melhor, ainda que no tenhamos conscincia de onde est a nossa felicidade. 
Ela dera-lhe tudo. Ele  que no conseguia ver. Sem a ajuda de Luciana, talvez ainda estivesse cego, preso ao passado. Agora, que podia apreciar todo o bem que possua, 
queria estar presente e usufruir dessa felicidade em todos os minutos. Nunca mais olharia para trs. Era muito bom estar vivo, poder amar e ser amado.
      Entregou Luciana ao noivo, e colocou-se ao lado de Maria Helena; eram padrinhos da noiva.
      O juiz, amigo de Margarida, depois de efetuar o casamento, fez comovida orao sobre a famlia e o amor, terminando por evocar Deus na bno ao casal e a 
desejar-lhes felicidades.
      Luciana, feliz, recebeu o beijo do marido e juntos dirigiram-se ao outro salo para as fotos e cumprimentos. Tudo era alegria e felicidade.
      Suzane, emocionada, contemplava-os reunidos alegremente na mesa de banquete quando Anita aproximou-se:
      - Finalmente, Suzane. Voc libertou-se. Agora, continuaro sem voc.
      - Sim. Agora eu j posso seguir adiante. Nada mais tenho a fazer aqui. Vou despedir-me.
      Aproximou-se de Luciana abraando-a comovida, dizendo-lhe ao ouvido:
      - Seja feliz, querida!
      Luciana sentiu a presena e emocionou-se. Egle ao lado percebeu e sorriu. Ela sentia que Suzane estava ali.
      Suzane abraou a me, Jos Luiz e a famlia e juntou-se a Anita pronta para partir.
      Notando o brilho de uma lgrima nos olhos de Suzane, Anita tornou:
      - Apesar de tudo, voc no quer deix-los.
      Suzane olhou-a com brilho harmonioso nos olhos:
      - Quem ama, nunca se separa. Para onde eu for, estaremos sempre juntos. Quando eu quiser v-los, no ser difcil voltar.
- Nesse caso, vamos.  hora.
Abraadas, as duas saram. A noite cara de todo realando o brilho das estrelas que faiscando no cu tentavam contar aos homens os segredos do universo e as maravilhas 
de Deus.

Fim



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